sábado, 29 de junho de 2013

Dia de corridas

Hoje é dia de espreitar as corridas. Alguém gosta? Não percebo muito de carros, mas gosto de ver a azáfama dos pilotos, a adrenalina da troca dos condutores... Só mudava este calor insuportável!

sexta-feira, 28 de junho de 2013

De certeza que ela é boa na cama

Podemos negá-lo. Podemos jurar a pés juntos que não somos. Podemos mandar imprimir cartazes e panfletos e organizar uma campanha a nível nacional, com direito a declarações para o País em directo no Telejornal das 20h. Podemos mandar uma avioneta dar umas voltas junto da Casa dos Segredos, com um flyer com dizeres cor-de-rosa: "NÃO SOU PRECONCEITUOSO". Podemos fazer o que for preciso. Na hora "H" poucos conseguem realmente demonstrar que NÃO são preconceituosos. 94,87% das pessoas é preconceituosa, a dada altura da sua vida, de acordo com um estudo elaborado agora mesmo por mim.

Pois então estava eu a almoçar com um colega dito não preconceituoso, quando passa um casal de namorados completamente desproporcional: ele lindo de morrer e ela bastante abaixo da média da beleza nacional feminina, digamos assim. Comento eu, a brincar com ele:
- O que achas que ele terá visto nela?
- Oh é fácil. É boa na cama! De certeza.
- Tão redutor assim? É boa na cama e pronto?
- Sim. Isso chega.
- Não acredito. Se fosse só isso, não namorava. Encontrava-se só com ela num quarto escuro, fechava as cortinas e nunca saía com ela à luz do dia. Muito menos lhe dava a mão em público. Se fosse só isso...
- Mas é só isso de certeza. É o que interessa aos homens.
- Então e não pode simplesmente ser boa pessoa? Amiga do amigo? Simpática? Inteligente? Divertida? Culta? Viajada? Amorosa com ele?
- Pode ser isso tudo. Mas tem que ser boa na cama para compensar não ser gira. Além disso, as feias costumam ser. Esforçam-se mais, para compensar o resto.
- Mas para isso era só amiga colorida. Se namora, tem que ter mais qualidades.
- Não, se ele namora com ela é porque ela é mesmo boa.
E vejam bem: isto é um diálogo com uma pessoa não preconceituosa, repito. ;)

Será afinal assim tão redutor? Uma mulher tem que ser atraente fisicamente e/ou boa na cama? Andamos enganadas estes anos todas preocupadas com o sentido de humor, cultura, simpatia, inteligência?

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Um cantinho feliz, longe de tudo

Como contei aqui, armei-me, há semanas, em organizadora de viagens e planeei dois dias numa casa de turismo rural, longe de tudo... mas com tudo: piscina exterior, interior, ginásio, banho turco, court de ténis, grande varanda no quarto e onde até aceitavam cães sem ser preciso pagar mais por isso. Não achei caro e era numa zona que nenhum de nós conhecia bem: Amares, perto de Braga. Conheço bem o Gerês, é uma zona que adoro e regresso sempre que posso, mas os arredores estavam por conhecer, por isso decidimos viajar à descoberta dessa zona. Devo apenas acrescentar que não fui com ideias de fazer grande reportagem fotográfica, mas sim descansar, por isso as fotografias que vou mostrar de seguida estão fraquinhas: foram tiradas com telemóvel e sem grande critério. De qualquer maneira, pediram-me para falar mais do tal sítio e prometi que o fazia, aqui vai.

Antes de mais, chama-se Quinta Vale do Homem. Descobri no booking, liguei para lá a marcar, avisei que íamos chegar por volta das 21h e a menina que me atendeu perguntou-me de forma simpática se queríamos jantar na varanda, porque trabalhavam com um restaurante que lhes faziam as refeições. "Siiiim!", deve ter sido a minha resposta eufórica. Acrescentou-me que a piscina interior ficava aberta até às 21h30, por isso ainda podíamos dar um mergulho antes do jantar. Foi tudo perfeito. Despedimo-nos da cidade, rumámos para a calma e a tranquilidade. Pousámos as malas. Mergulhámos naquelas águas quentes. Nadámos. Deixámos todo o stress da semana para trás. Depois, fomos para a varanda, onde nos esperava o jantar posto à luz das velas e o som dos grilos ao longe. No dia seguinte, ao pequeno-almoço tínhamos tudo preparado e o pormenor dos jornais do dia à nossa espera. Não podia pedir mais. Apanhámos sol, nadámos, jogámos ténis, matei saudades de andar de baloiço (há uma criança dentro de mim), passeámos nos arredores, apanhámos framboesas e rejuvenescemos dez anos. No fim, ainda tivemos direito a um presente: doce da casa. E não ficou nem um bocadinho para contar a história, devo acrescentar. Já foi todo! Se estiverem a precisar de descanso e quiserem viajar até essa zona (quem sabe depois dar até um salto ao Gerês), aconselho.

Deixo aqui o (pobre) relato fotográfico:
Ainda na cidade, percebi que algo de errado se passava: eu ainda estava a usar collants opacos.
A verdade é que, se na véspera tinha chovido, nesse dia estava finalmente SOL.
E eu não queria vê-lo só de dentro do meu carro. Queria aproveitar o Verão que tinha finalmente chegado!
Pesquisei na net por hotéis giros e baratinhos e dei de caras com esta imagem associada à tal casa de turismo rural.
E ainda com esta. Dizia que era junto ao Rio Homem, lá para os lados de Amares.
Parecia amorosa e não ultrapassava o meu orçamento. Não procurei mais.
Fizemo-nos à estrada. Quando chegámos, tínhamos isto à nossa espera. Água bem quentinha e só para nós.
O único senão foi que "alguém" teve que ficar de fora...
( Bem, pelo menos, esta é a nossa versão oficial. Acham que resistíamos àquele ar triste...? ;) )
No final, o tal jantar na varanda à luz das velas. E ao luar. Maior cliché é impossível.
Mas sabem que mais? Adorei.
No dia seguinte, o tempo estava fenomenal e não corria uma ponta de vento.
"Água que se faz tarde".
E não estávamos sozinhos! Havia um peixe-cão no pedaço.
(e aqui, sim, a versão oficial também é essa, porque deixavam entrar cães na água)
Dei depois uma de Michelle a derrotar a Sharapova. (ou tentei)
Armei-me em criança.
Apanhei framboesas.
Encontrei recantos que pareciam saídos dos contos de fadas.
(A foto não faz justiça - eu avisei)
E pusemos as leituras em dia. Até cairmos para o lado, de cansaço por um dia tão preenchido.

O mocho que queria ser cotovia

Dizem (ao que parece, começou tudo com um estudo da Universidade da Pensilvânia) que a humanidade se divide, dependendo das horas em que nos sentimos com mais energia e motivação, entre Cotovias e Mochos. Os primeiros acordam e saltam da cama mal os raios de sol surgem no horizonte. Gritam os "bons dias" com um sorriso de orelha a orelha, despacham-se logo cheios de energia e são os primeiros a chegar ao trabalho; são os primeiros a acordar os amigos nas férias; e são aqueles que se cruzam com os vizinhos, ao fim-de-semana, já de roupa desportiva, depois de uma hora de corrida, quando aqueles estão ainda a passear o cão contrariados, apenas com um olho aberto. Têm tanta energia que às vezes podem tornar-se irritantes para os Mochos. E quem são os Mochos? Os Mochos são aqueles que, depois duma manhã em que mal falam, em que só os vemos correr para a máquina de café de hora a hora, agarrados à chávena como se de uma tábua de salvação se tratasse, começam a dar um arzinho de si no final da manhã. Subitamente, percebem uma piada. Mais: a dada altura já mandam uma piada também! Vão almoçar, regressam para o trabalho e, a partir das 16h, é vê-los renascer, qual Fénix. De repente, a velocidade com que se atiram às teclas do computador torna-se um espectáculo digno de se ver, começam a correr escritório fora, fazem telefonemas, escrevem emails, marcam reuniões, colocam dúvidas, começam a suspirar com o stress.... e assim se mantêm até tarde. Os Mochos são sempre os últimos a abandonar o escritório. Nas férias, são aqueles que nunca querem ir para casa no fim da noite, têm sempre energia. E são conhecidos, na vizinhança, por, aos fins-de-semana ligaram a música tardíssimo e fazerem festas depois da hora permitida pelo condomínio.

Ora, e onde me encaixo eu? Eu sou um Mocho que quer ser Cotovia. Comecei, depois da faculdade, a tentar acordar cedo. E até acho que tenho bom acordar. Sorrio logo, gosto de ter música, digo "bom dia" sem problemas e tenho alguma energia. O problema é que, apesar de tudo, sempre senti que tinha um pico de energia à tarde/ noite e não de manhã. À tarde é quando começo a stressar no trabalho. É quando quero fazer os telefonemas todos. Quando mando os emails importantes. Quando tiro as dúvidas. Em casa, é à noite que gosto de arrumar tudo. É à noite que tenho mais energia se vou correr. Nas férias, sou a tal que nunca quer ir para casa. Por isso, percebi hoje, a falar com uma colega, que sou, definitivamente um Mocho. Não adianta tentar disfarçar e mascarar-me de Cotovia. A minha colega gosta de acordar às 7h. E começar a trabalhar às 8h! Eu nunca fui assim. Ela gosta de se deitar às 22h. Eu? Jamais. Assim sendo, eu Mocho me apresento. Há muitos irmãos por aí? ;)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Eu era tão mais interessante se fosse Sueca

Uma amiga minha emigrou há uns anos. Perdeu-se de amores por um Sueco, ainda tentaram adiar a paixão, ainda perderam horas em viagens para cima e para baixo - ele cá, ela lá, eles os dois cá, eles os dois lá - mas a dada altura tiveram que decidir onde viver. Tinham que decidir qual seria o palco para o seu futuro a dois. Portugal, com o seu calor, praias maravilhosas, boa comida, mas pouco emprego? Ou a Suécia, com o seu frio, estâncias de ski, paisagem plana óptima para andar de bicicleta, emprego para todos e óptimas condições sociais? Ganhou a Suécia. Desde então, foi engraçado assistir à "suecialização" da minha amiga. Primeiro, a língua. Passado uns meses, quando nos veio visitar, já falava bastante com o namorado em Sueco. Para mim, era como se se tivesse entalado com uma espinha na garganta e estivesse a cuspir um "socorro" entredentes, mas pela forma como ele acenava em concordância e respondia de volta, pelos vistos, era afinal ela a dominar a língua trazida pelos Vikings, por isso optei por não chamar o INEM e simplesmente acenar também. Depois, começaram os próprios hábitos. Era vê-la a falar da bicicleta com que ia para todo o lado. Era vê-la a comer coisas esquisitas. Era vê-la a falar dos vizinhos e dos lanches que faziam, qual comunidade. Até que até o apelido mudou. Teve filhos loiros e Suecos. Ficou um ano em casa, a receber 80% ou 90% do salário que tinha, depois de cada parto. E, hoje em dia, a minha amiga converteu-se totalmente e já não há ponta de portugalidade naquele ADN.

Há uns dias, constatei que há muito não tinha notícias dela. E, antes de lhe escrever, como somos amigas do Facebook, fui espreitar o perfil dela, na esperança de me actualizar quanto à sua vida. Apareceram-me várias mensagens escritas pelo marido em Sueco. Uns "kjcdkh regcejhrbg drjhbg kdjs" cheios de pontinhos em cima. Ainda tentei ler de trás para frente, para ver se era português escrito ao contrário, mas não - eram mesmo várias palavras imperceptíveis, enigmáticas, cheias de dramatismo. E ele não parava - "jdgjsweejrrtwjjzz", "kejxelmkjcngkjewaejl!". Aquilo não me estava a soar bem. Algo muito estranho estava a acontecer. Fiz copy paste. Fui ao Google Tradutor. Tinha que decifrar aquilo. Preparei-me para tudo. Resultado? "Melhor que o assado estava a sobremesa! Nem imaginávamos o que íamos ter a seguir. Que bela surpresa." Fiquei frustrada. Aquilo era a falar de comida? Ia jurar que era algo sábio, enigmático, qual ensinamento de vida. Noutra vida quero nascer Sueca. Vou ser tão mais interessante! (Além de loira e de fartas mamas).*


*Não adianta dizerem "mas nesse caso os teus amigos vão ser suecos, logo isso não faz sentido". Ou "não existe reencarnação". Ou até "esquece, nunca hás-de ser interessante, nem a falar urdu". Não adianta. O blog é meu e posso sonhar à vontade, aqui. :p

terça-feira, 25 de junho de 2013

Pernas para que te quero

Tenho que confessar uma coisa: sou uma pessoa de pernas. Adoro pernas. Sou fã de pernas. Por muito estranho que soe, é a mais pura verdade: aprecio umas pernas bonitas, tanto em homens como mulheres, apesar de raramente considerar que determinadas pernas estão "au point". Ou são demasiado trabalhadas. Ou demasiado magras. Ou são demasiado "ossudas". Ou demasiado "rechonchudinhas" (aqui, entram as minhas). Mas quando são bonitas, adoro observar. Talvez por ter tido um acidente de mota há anos, em que fracturei a perna, passei a reparar mais. Irónico, não? E tenho reparado no ginásio que a maioria das pessoas se preocupa mais com braços. É ver homens excitados porque levantam mais pesos que o amigo do lado. É ver homens aos gritos, quais neandartais, aos saltos, a fazer flexões na barra. É ver homens a babarem-se perante o próprio reflexo no espelho, a analisarem com orgulho cada músculo do braço em contracção. Sendo que depois, olhamos para baixo, para os mesmos homens, e têm umas perninhas de alfinete. Menos, homens. Menos.

Não sei se concordam comigo, mas prefiro um homem mais proporcionado, com braços menos inchados e pernas mais delineadas, qual David, do Miguel Ângelo. Tal como gosto de ver mulheres com os gémeos ligeiramente definidos. E vocês, são pessoas de quê? O que reparam mais nos outros? Vá, esqueçam a personalidade ou o sorriso. Quero apenas as partes do corpo que, por norma, mais vos chamam a atenção. ;)

Adoro quando isto acontece

Passei o dia de ontem a pedir aos céus para que uma reunião que tinha hoje bem cedo e bem loooonge não se realizasse. Como não tinha qualquer sinal de volta, passei depois também o início da noite a pensar em desculpas para não ir. De facto, o tema que íamos discutir está atrasado e não estava com paciência para o assunto, sinceramente. Às 8h da manhã, com o despertador a tocar, toca também o sinal de email no telemóvel. Fui ler: "desculpe, mas blá blá blá, a reunião vai ter que ser adiada". Claro que desculpei. Logo na hora.

Adoro quando alguém se antecipa com uma desculpa. Sabe tão bem dizer "Não há problema, compreendo perfeitaaaaamente. Não se preoooocupe", qual boa samaritana super compreensiva. O que, nas entrelinhas, é dizer "ouve lá, não te apeteceu ir à reunião, tal como a mim não apetecia. Mas obrigada por te teres chegado à frente". Adoro ser o lado compreensivo da questão.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Que desilusão

Acabei finalmente o terceiro volume do 1Q84, do Haruki Murakami. Depois de tanta intriga à volta da Vanguarda e porque é que se teria tornado uma espécie de seita religiosa (a história do Líder ouvir vozes apareceu como, afinal?), depois de tanto mistério à volta da mãe do Tengo e da personalidade do pai (porque é que ele era tão frio? o que era feito da mãe?), depois de começar a desenvolver a figura da crisálida de ar, da nina e da má (afinal a Fuka-Eri era o quê? e que história foi aquela da Aomame criança dentro duma?), depois de termos começado a simpatizar com o Ushikawa e com a cultura do Tamaru, por exemplo ... achei o fim muito muito desolador e todas as respostas demasiado simplistas e superficiais. É que eu entrei realmente naquele estranho mundo. Acreditei nas duas luas. Acreditei que parte da História se tinha alterado (no primeiro volume, a Aomame entra até na biblioteca para se actualizar com a leitura de jornais antigos, mas depois nunca se desenvolvem mais factos históricos estranhos desta realidade paralela). Acreditei nos pequenos seres a construírem a crisálida de ar. Acreditei nas vozes e no Povo Pequeno. No final, parece que a intenção era, afinal, tornar tudo uma história de amor, mas muito sinceramente o amor entre os dois era o que menos me interessava em todo o livro. Até me considero romântica, mas não queria saber daquilo para nada. Estava mais fascinada com os restantes detalhes daquele mundo e em conhecer a fundo as restantes personagens e as suas histórias. No final, foi quase como se alguém tivesse dito ao Murakami - "ouve lá, não estragues tudo com um final estranho. Pensa em como são as telenovelas da Tvi, em Portugal. Acaba tudo direitinho e de forma simples, certo? Não inventes, faz como eles, que eles é que sabem." E pronto, ele rasgou o fim dramático, confuso que tinha já escrito e seguiu a fórmula mais correcta - um happy ending. Não gostei. Mesmo nada.

Já alguém leu? Gostava de saber as vossas opiniões e se sentiram tão frustrados com o final quanto eu.
Nós até já víamos duas luas, como no mundo descrito no livro. ;)

O que é que sentes?

Ontem, enquanto passeávamos, demos por nós a discutir o significado da palavra "inveja". Para ele, existe inveja simplesmente se desejamos algo que outra pessoa tem, mesmo que de forma subtil e sem outro qualquer sentimento associado. Assim, se vemos uma fotografia de alguém na praia e gostávamos de estar lá, sentimos, pura e simplesmente, inveja. Eu dizia-lhe que, para mim, inveja era algo mais elaborado e profundo que isso: era o sentimento menos nobre que podíamos ter, mais perto da animalidade, porque significaria não gostarmos do que tínhamos e desejar, de uma forma algo doentia, ter o que outra pessoa tem, desejar viver a vida dela, estar no lugar dela. Acrescentei "ter inveja é não gostarmos do que somos, é não acreditarmos em nós e desejar simplesmente ter tudo o que outra pessoa tem, é desistir" e garanti-lhe que nunca tinha sentido inveja de ninguém e que era feliz por isso.

Responde-me ele, a rir-se: "duvido que a definição do dicionário seja tão extensa. Percebo o que é para ti, mas acho que podemos sentir inveja de uma forma mais superficial, apenas porque gostávamos de ter aquele carro ou aquela roupa, por exemplo". Hoje lembrei-me desta conversa e, como sou teimosa como uma mula, fui espreitar ao dicionário. Aqui está a definição:
s. f.
1. Desgosto pelo bem alheio.
2. Desejo de possuir o que outro tem (acompanhado de ódio pelo possuidor).

Afinal, nenhum de nós estava 100% certo. Para o dicionário, além de significar um desejo de ter o que outra pessoa tem, a inveja implica também odiarmos a pessoa em causa - e esta parte da definição desconhecia. Além disso, associa-se o sentimento a um desgosto por não se ter o objecto de desejo. Uma tristeza por não sermos nós no lugar daquela pessoa, portanto. Apesar de não ter acertado totalmente na definição do sentimento, algo continuo a acreditar: é realmente dos sentimentos menos nobres que alguém pode ter. E espero nunca vir a sentir.
A sentir, que sejam borboletas.

domingo, 23 de junho de 2013

Diz-me o teu sexo, dir-te-ei como funciona o teu ego

Há que reconhecê-lo, sem rodeios: nós, mulheres, precisamos de elogios. Precisamos dum constante esporádico "estás bonita", "gosto de ti" ou dum "tens tanta piada!!". Precisamos de uma massagem ao ego constante de vez em quando, até porque o nosso ego padece de Alzheimer em fase avançada e tem a memória de um peixinho de aquário em fase terminal. Sim, porque esquecemos os elogios minutos depois de serem proferidos. E, passado algum tempo, voltamos à estaca zero - "porque é que ele não me diz há dias que estou bonita? Será que já não gosta de mim??!". Por outro lado, essa criatura chamada ego é caprichosa e selectiva. Se se esquece de todos os elogios, já não se esquece, no entanto, de todas as críticas. As críticas ficam registadas todas numa espécie de Acta guardada a sete chaves e vão sendo relembradas ao longo da vida. É assim que funciona o "bicho-mulher".

Já ao contrário, é normal comentarmos com eles "estás gordinho", "andas desleixado", "devias cortar o cabelo", etc. E a verdade é que acho que os homens acabam por funcionar ao contrário de nós. O ego masculino alimenta-se de alguns elogios, qual camelo em plena travessia do deserto. Dissemos um dia que era um leão na cama? É a isso que se vai agarrar sempre. Comentámos certo dia que nos deixava malucas? Nunca se há-de esquecer. E é também selectivo, mas de forma contrária: ignora a maioria das críticas e consegue relativizá-las, não permitindo que nada abale a confiança. O ego masculino dispensa massagens semanais.

Há dias, lia este post do Eduardo e ri-me sozinha. Revi-me completamente no comentário da Raquel, a mulher dele, porque era algo que eu poderia facilmente dizer, na brincadeira, se passasse pelo mesmo. E, no entanto, se a situação fosse ao contrário talvez não adorasse ouvir. Numa situação ao contrário, acredito que a maioria das mulheres ficava melindrada. "Velha?", perguntaria. Porque é que somos assim? Caprichoso ego feminino.

sábado, 22 de junho de 2013

Longe do paraíso

Depois duma semana afastados por milhares de quilómetros (ok, eram só 2.500, mas a sonoridade do "milhares" é mais dramática) e em que estive com mais trabalho que nunca, sabe bem o regresso, o matar saudades e a calma do fim-de-semana. Planos para hoje? Almoçar um belo dum peixe grelhado com amigos, comer um gelado junto ao mar, passear, mais jantarada logo e namorar muito. Se der, ainda um salto à praia. A verdade é que não gosto de sentir saudades, tenho uma certa alergia ao sentimento, mas o reencontro compensa sempre tudo.

E vocês, que planos têm? Bom fim-de-semana!

(uma das partes boas do regresso: uns docinhos à minha espera quando acordei. E por uma questão de educação vou ter que comer, lá terá que ser)

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O homem que era demasiado perfeito.

Ele é alto. Moreno. Olhos rasgados. Farta cabeleira. Sorriso contagiante. Dentes de anúncio a pasta dentífrica. Tem boa postura. Veste-se bem. É educado. De boas famílias. Até tem meia dúzia de apelidos sonantes, com hífens e consoantes repetidas. Estudou nos melhores colégios. Investiu na formação. Por onde passou, sempre deixou um rasto de olhares e sorrisos no feminino. Sim, as meninas sempre olharam muito. E as mães também. É aquele que todos definiram sempre como "um bom partido". Voto unânime. Só que ele é solteiro aos 34 anos. E eu nunca percebi porquê.

Até que um belo dia, a ouvir umas amigas de infância dele, se fez luz. Comentavam elas entre si: "ele é demasiado perfeito. Demasiado educado. Demasiado cavalheiro. Demasiado cortês. Demasiado preocupado." Alguém quis saber mais. Afinal isso podia ser demais como? Pediram-lhes para concretizarem. "Ele é tão demasiado tudo que é daqueles que pede um beijo em vez de o dar. Pede com licença antes de tocar na mulher. Pede desculpa se a aperta com demasiada força. Agradece no fim. Cansa! Não há pachorra para tanta educação. É mesmo demais!"

A verdade é que um homem tem que ser educado. Cavalheiro. Cortês. Preocupado com a mulher que tem consigo. Tudo na dose certa. Demasiado "posso?", "desculpa", "obrigado", "com licença", "se fazes o favor" acabam por funcionar ao contrário. E preferimos às vezes um mais 'bruto' (mas não como o marido da Nigella ou o ex da Rihanna, calma...) e a atirar uns palavrões de vez em quando, a um demasiado educado e com demasiados floreados. Aprendam, homens. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Nem selvagens nem florzinhas de cheiro, ok?

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O Cupido que habita em nós

É inegável - todos temos um Cupido endiabrado dentro de nós, a baloiçar a sua setinha, agitado e ansioso por poder atirá-la e acertar certeiramente num belo coração desprotegido (ia dizer "rabiosque", mas depois pensei melhor - os Cupidos acertam é no coração, certo?). O problema é que o coração tem razões, como diz o povo e muito bem, que a própria razão desconhece. O coração não liga a regras da matemática, não liga à lógica, não liga a nada. O Cupido endiabrado que habita dentro de nós pode racionalmente considerar que aquele par tem tudo para dar certo, pode tentar juntá-los e.... nada! Muitas vezes o melhor casal é aquele mais improvável, nada a fazer.

Quando era mais nova, lembro-me que já tinha um "marido determinado" - era o filho duns amigos dos meus pais. Até era bastante giro, com uns certos ares de Príncipe William, boa postura, simpático. E, no entanto, talvez pelo desejo mal disfarçado dos nossos pais de nos verem juntos, a olharem para mim e já a porem-me um véu e uma grinalda imaginária, nunca em algum momento pensei sequer "e se...?". Nada. E muitas férias passámos juntos até aos 20 anos. A única coisa que conseguiram foi que ele me causasse sempre alguma irritação. Tivemos inclusivamente que vir a ser separados algumas vezes, porque estivemos praticamente a andar à luta por motivos estúpidos. Mais uma vez, nada a fazer. Não adiantava tentar fazer de nós um casal apaixonado, a viver numa casa branca, com dois cães e três filhos.

A setinha dos meus pais nunca me acertou, nem a mim nem a ele. A verdade é que conheço poucos casos em que os Cupidos mais óbvios tenham conseguido levar avante os seus intentos. Não há nada pior que encontros arranjados, amores forçados, ou tentar à viva força atirar alguém para cima de outro. Roça o desespero e tira toda a vontade de conhecer a pessoa imposta. Não concordam? No exemplo que contei, eu era uma criança, mas já assisti a encontros com adultos em que os diálogos eram algo como "não gostas de jogar squash, Sara? O Luís também adora! Podiam jogar juntos!" ou "Pedro, não querias ver a estreia daquele filme? Podias convidar a Teresa, que também não viu ainda o filme". Não. Pior estratégia de sempre. Muitas setas hão-de enferrujar assim, é o que tenho a dizer.

Mãe, isto é para me massajar o pescoço

Ele há namorados ousados, espontâneos e modernos. Há namorados maduros, sem demasiados pudores e sempre prontos a inovar. Deixam os preconceitos em casa e não se importam de aproveitar as longas viagens e esperas em aeroportos, por exemplo, para comprar uns brinquedos novos para a namorada se divertir na sua futura ausência (e não só). A minha amiga (como disse aqui uma vez, já se sabe que estas coisas acontecem sempre à amiga, nunca a nós, felizmente!) tinha um namorado assim. Muitas vezes, intercalava uns perfumes, gomas ou chocolates comprados no Duty Free com uns brinquedos mais ousados. E ela gostava da surpresa. Às vezes era um sucesso. Contudo, outras vezes, o prometido na embalagem revelava-se uma fraude e a surpresa ia descansar para um recanto escondido num dos armários, numa espécie de pena perpétua que tinha que suportar, sem direito a visitas.

O namorado não compreendia muito bem porque é que alguns eram rejeitados por ela, mas já nem insistia. "Não gostaste porquê?", perguntou uma vez. "Porque é assustador, é gigante, até tinha medo". Ele não percebia. Nos filmes aquilo era um sucesso. Mas ela é que tinha que gostar, por isso ele lá fazia um esforço para esquecer os filmes. E assim continuavam a divertir-se. Foi uma fase engraçada. Não viviam juntos e cada vez que se reencontravam havia mil jogos diferentes. Nunca se cansavam. Até que um dia, já essa fase tinha passado, ela estava em casa com os pais e lembrou-se de ir espreitar o recanto dos condenados. Procurou, procurou. Mas não havia maneira de os encontrar.
- Mãe! Tinha uns sacos ali no armário. Por acaso não sabes onde estão?
- Sei. Foi a empregada que os arrumou.
- Arrumou? Porquê? Aquilo estava arrumado.
- Disse que tinhas umas caixas perdidas no armário. E decidiu arrumar.
- Oh!...
- Eram uns aparelhos, não era? Acho que pôs ao pé da elíptica e da bicicleta.
- A sério?
- Sim... Aquilo é o quê? São aqueles aparelhos para a celulite? Até me podias emprestar...
- Não! São para o pescoço e costas. É para massajar.
- Sério?
- Mas não funcionam. Vou deitar fora!
- Que pena...

A minha amiga teve que repensar a pena atribuída. E alterou a prisão perpétua para pena de morte, tendo condenado o pobre brinquedo a um destino num triste caixote do lixo. Mas isto fica entre nós, ok? Porque toda a gente sabe que em Portugal não há pena de morte. ;)
Lembrei-me da história da minha amiga e do massajador ao ver isto ontem:
um novo método para adormecer bebés.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Ser solteiro

Ser solteiro até aos 13 anos é gostar do mais bonito da turma, olhar para ele supostamente à socapa (supostamente - porque é um olhar que afinal se torna tão descarado que é impossível não reparar), é tentar formar par com ele em Educação Física, conversar sobre tudo e sobre nada, é dar uns beijinhos de vez em quando a jogar ao bate-pé ou outras variantes, é dizer aos pais "tenho namorado!" perante o sorriso benevolente destes, é gostar de outro no dia a seguir porque afinal o "namorado" agora gosta de outra (sem problema!), é escrever cartas (ou mensagens de telemóveis, quando já se tem), é dedicar músicas, é fazer desenhos com os dois, é afinal não gostar de ninguém e andar com os amigos a passear, sem sofrer de males de amor. Ser solteiro até aos 13 anos é ter o coração ainda em processo de formação, a tentar definir o que é o amor, alheio a grandes arrebatamentos ou dores. Ser solteiro até aos 13 anos é descobrir o mundo com os pais, amigos e família, sentindo apenas de vez em quando umas muito leves picadas no coração.

Ser solteiro dos 13 aos 18 anos é ser arrebatador. Pela primeira vez sente-se tudo intensamente, todo o corpo está cheio de sensações, dos pés à cabeça. É sentir o primeiro amor, mesmo que à distância. É definir realmente quem são os nossos amigos, a que grupo pertencemos, quem somos, o que queremos ser. É construir uma identidade, é tentar publicitar o nosso novo ser, é alterar o vestuário, o corte de cabelo, as expressões utilizadas, as músicas ouvidas, os sítios onde vamos, é publicitar o novo "eu", é um reconstruir diário. É o primeiro beijo a sério, o primeiro amor que consome todas as energias, é a descoberta, é o amar como nunca ninguém amou, é a altura das promessas - "é para sempre, não é?" -, das primeiras vezes. É a primeira desilusão de amor, a primeira dor. Ser solteiro nesta idade é ter o mundo dentro de nós.

Ser solteiro dos 18 aos 25 é querer viver tudo antes que a vida se esgote. O que não se sabe é que a vida não termina aos 26, há tempo. Nesta idade, o tempo é cada dia, é cada hora, é cada minuto. Os primeiros amores são vistos como uma realidade longínqua, a fase arrebatadora é vista como um laivo de romantismo exagerado, esta é a idade de experimentar, conhecer gente nova, sítios novos, gostar de loiros, morenos ou ruivos. A maior parte dos solteiros desta idade já não pensa no "para sempre", porque é suficiente se durar até amanhã de amanhã. Ser solteiro desde a maioridade até aos 25 anos é estar cheio de filmes na cabeça, é achar que o mundo é um local de engate, que podemos dar uns beijos de manhã e ir de tarde para a praia com os amigos, sem pensar em mais nada. Não há tanto sofrimento, porque não se pensa no amanhã. O hoje é bastante.

E ser solteiro dos 25 aos 35? O hoje acabou. Chegou o amanhã. E nesse amanhã, a cama tornou-se demasiado grande para uma pessoa. Afinal, o solteiro até quer alguém. E alguém a sério. Uma relação. Subitamente, o dia é diferente: trabalha das 9h às... Vive em espaços fechados: casa - carro - trabalho - carro - casa. Vê as mesmas pessoas todos os dias. Os amigos começam a assentar. Falam em casamento. Em ter filhos. E o solteiro? Primeiro convence-se que está bem. Tem uns amigos especiais, chamam-se "coloridos", porque há uns beijos e uns amassos que dão cor à amizade pelos vistos cinzenta. Porque a verdade é que a partir daqui se vê as amizades como cinzentas - preenchem, estão sempre connosco, são parte de nós, mas não nos dão a cor e o calor dum namorado. Ser solteiro dos 25 aos 35 anos pode ser divertido, se a pessoa lida bem com o estar sozinha e com os amigos, mas pode ser também asfixiante, porque de repente o sexo oposto parece ter desaparecido. As luzes dos bares, onde antes estavam sempre, acenderam-se e... a sala está vazia. Onde andam os solteiros nesta idade? Concentrados nos seus empregos das 9h às... e por isso é mais difícil encontrá-los. Começa o jogo das cadeiras. E muitas vezes nem ganha o melhor, mas apenas o mais rápido. Ser solteiro na fase adulta é acreditar finalmente no amor. No "para sempre". Resta apenas encontrar a cara-metade. Muitas vezes, descobre-se até que a cara-metade já se conhecia do tempo em que o hoje era bastante. "Como é que não vi isso??". Simplesmente não era "a" altura. Muitas vezes está mesmo aí ao lado. A fazer o mesmo percurso casa - carro - trabalho - carro - casa, todos dias, qual linha paralela. Basta olhar para o lado.

Ser solteiro não é nenhum drama. Há solteiros em cada esquina. Não é uma doença, mas para aqueles que julgam precisar da cura, sorriam. Caminhem mais. Saiam à rua. Conversem. Liguem aos amigos. Saiam da linha que seguem todos os dias, vão correr, fazer algum desporto, vão jantar fora, dançar, vão até à praia. O amanhã chegou e pode ser mais divertido que nunca. Há finalmente dinheiro, há trabalho, há independência, há uma identidade construída, viagens feitas, histórias para contar. Um solteiro com 30 anos tem mil vezes mais interesse e cultura que um solteiro com 20 anos. Por isso, recuso-me a acreditar que seja difícil encontrar alguém igualmente interessante e solteiro nesta idade. Eles estão aí.

terça-feira, 18 de junho de 2013

A síndrome da balança

A minha relação com a comida sempre foi uma relação de amor-ódio: amor pela comida, ódio pela balança. De qualquer maneira, o amor sempre falou mais forte e fui ignorando a balança. Dizem-me sempre "não estás gorda, estás... beeem"* ou "tens curvas, mas estás... beeem"*. Nunca "que corpão! como consegues?", portanto. Fui aguentando o "...beeem"*, mas alterei alguns hábitos depois de conhecer a Dra. Mariana Abecasis, o ano passado, e tenho feito mais desporto. Segundo a balança, aumentei a massa magra, diminuí a massa gorda, o que já não é mau. O difícil é realmente (sempre foi) aliar tudo isto à eliminação total dos doces. Os doces têm sido o meu eterno pecado.

No entanto, ao olhar para o calendário, verifiquei hoje que faltam três semanas para ter novamente consulta com a nutricionista do ginásio. Consequência? Vi-me subitamente sem fome. Já me aconteceu o mesmo quando andava a ter consultas com a Dra. Mariana - em dia de consulta, não tinha fome e até era capaz de andar quilómetros a pé. Baptizei estes sintomas de "síndrome da balança", porque acontece-me sempre que sei que vou ser "oficialmente" pesada. Fico sem fome, com vontade de fazer o dobro do exercício e de beber águas e tisanas, como mandam as regras. Por isso, a minha conclusão é que devia passar a marcar consultas todas as semanas!

Alguém pode enriquecer muito comigo, é o que tenho a dizer.


*Ler com uma pausa demasiado grande, como quem hesita antes de concluir o raciocínio.

Lost in translation - já gastaste o teu Latim hoje?

A história dos exames nacionais de ontem fez-me recuar uns bons anos no tempo, mais precisamente para a altura em que eu era uma feliz e descontraída aluna do secundário. Como escolhi o agrupamento de Humanidades (julgo que agora já não se chamará assim, certo?), podia escolher algumas disciplinas dentro da oferta da escola e dentro daquilo que considerava mais fascinante e/ou adequado ao meu futuro profissional. Assim, quando dei por ela, estava a ter Português A, Inglês, Alemão e Latim tudo ao mesmo tempo e contente da vida, porque ia poder finalmente perceber aqueles dizeres estranhos que encontrava em monumentos históricos e ainda as citações que lia em textos mais formais. Por outro lado, ia poder finalmente trocar umas impressões com o meu avô, que tinha andado no seminário, e apregoava a sete ventos que só se conhecia verdadeiramente a nossa Língua se estudássemos primeiro a sua origem - o Latim - e os autores clássicos.

Parte disto verificou-se: ganhei um maior gosto pela nossa Língua e consegui ler parte dos tais autores clássicos em Latim. Quanto à troca de impressões com o meu avô, este dava-me sempre 10 a 0, por isso, era mais um adquirir de conhecimentos que propriamente uma "troca" - eu não tinha nada para lhe dar de volta, com os meus parcos conhecimentos. No entanto, aquilo que me recordo com mais carinho das aulas de Latim, para além dos óptimos professores, apaixonados pela disciplina, e apaixonantes, é dos meus colegas de turma e dos textos hilariantes que resultavam das nossas tentativas de tradução do Latim.

A minha querida amiga e colega de carteira, a A., era das mais esforçadas da turma, mas o seu esforço colidia com o ódio que dizia sentir pelo Latim. "Odeio isto", dizia-me ela, aula sim, aula sim. "Já ninguém fala em Latim, o que me interessa o Cícero ou estas histórias?". No entanto, não desistia, até porque íamos ter exame nacional à disciplina e convinha estarmos preparadas. Um dia, depois de termos feito teste, o professor estava a entregar o respectivo teste corrigido a cada aluno e parou a meio.
- Bem, a entrega do próximo teste exige alguma solenidade. É o teste de uma aluna que, das duas, uma: ou entendeu todo o teor do texto em Latim e decidiu enveredar por uma tradução livre e magoada, tomando o partido da família real o assassinato da aldeia; ou simplesmente não entendeu de todo o texto, mas teve sorte porque eu achei a tradução bastante original e empolgada. A., com que ideia ficou do texto que leu?
- Bem, Professor, eu entendi que havia uma aldeia em que um porco fugiu e que, por isso, a população tentou apanhá-lo e acabou por matá-lo. No fim, comeram-no numa grande festa.
- Pois. De qualquer das formas dei-lhe positiva pelo esforço.
- Professor, se me permite a pergunta... Então a história não era essa?
- Não, A. Não sei onde foi buscar o porco. O texto era sobre um rei tirano que tentou conquistar uma população e que foi assassinado. No final, fez-se uma festa para comemorar. Foi apenas isso. Mas dei-lhe um valor extra pela indignação que sentiu e por ter chegado a insultar o rei.
Riso geral.

No fim, lá vimos juntas o texto original. Terá sido um "sui" qualquer que foi traduzido por ela para "suinus"(?)/ porco, já não estou certa. De qualquer das formas, sempre que se fala em reis ou reis tiranos ainda hoje, lembro-me da revoltada "matança do porco" que a minha amiga descreveu, partindo duma palavra mal traduzida, mas que tanta piada teve. E lembro-me da cara natural com que no fim do exame me disse "qual era o problema em matá-lo? Não vi mal nenhum nisso". Afinal era do porco que se tratava! Uff... A minha amiga continuava a ser um coração de ouro, não tinha desenvolvido subitamente um espírito homicida. Tinha-se apenas perdido algures na tradução.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A greve e o exame

Hoje de manhã, acordei a pensar nos alunos do secundário e falava aqui do caso do dia - a greve dos professores e os exames nacionais. Afinal, as últimas estatísticas oficiais, apresentadas pelo Secretário do Estado do Ensino Básico e Secundário, indicam que 76% dos alunos conseguiu fazer o exame nacional hoje. Pena não terem sido todos, situação que só se verificou em Latim. Dizia uma aluna entrevistada pela SIC "senti-me injusta". A parte boa é que tem mais alguns dias para estudar português (e a palavra "injustiçada", por exemplo - terão sido os nervos da câmara?).

Quanto à possibilidade de se restringir o direito à greve com base no interesse público ou no direito dos alunos a fazerem os exames, tendo a tomar o partido dos alunos, talvez por ter sido apenas aluna e sentir esse universo mais próximo de mim. Compreendo que seja uma profissão a sentir-se "injustiçada", tal como se sentem os funcionários públicos, os farmacêuticos, os notários, os dentistas, os advogados, os engenheiros civis, os arquitectos, os médicos, entre tantos outros. Todos eles foram afectados pelo número excessivo de profissionais, por opções legislativas, pela crise que o país atravessa, pelo aumento nos impostos ou pelos cortes nos privilégios anteriormente atribuídos. A verdade é que há cada vez menos profissões "sagradas" ou ditas intocáveis. O que era uma profissão de sonho no tempo dos nossos pais - "filho, devias ser médico ou advogado!" - hoje já não garante estabilidade financeira, rápida progressão ou estatuto social.

Ser professor era, há uns anos, o acto de dar aulas, inspirar alunos, servir de exemplo. Hoje, de acordo com os relatos que me chegam, é isso tudo, mas é também preencher Relatórios sobre tudo e sobre nada, dar apoio educativo a alunos se há horas em que não estão atribuídas aulas para dar, é preencher mais Relatórios e mais Relatórios. E agora ainda falam em mobilidade especial para docentes, aumento do horário de trabalho. Percebo a insatisfação. Mas a verdade é que qualquer dia me parecia certo para a greve à excepção dos dias dos exames nacionais. Então o que é feito do inspirar alunos, do incentivá-los a estudar e a serem os melhores, a entrar na faculdade com óptimas notas, o que é feito do servir de exemplo aos adultos de amanhã...? Infelizmente, um dos efeitos laterais do dia de hoje foi ter-se feito greve também a isto.

O casamento e o papel

Há dias, perguntava aqui, o que mudava, afinal com o papel. E por "papel", entenda-se o casamento. Facto é que muitos de referem ao casamento como o "papel", utilizando frases como "gostamos um do outro e vivemos juntos, um papel não iria mudar nada". No entanto, se fosse tão redutor assim, porque é que assistimos, muito recentemente, à luta (que chegou ao Tribunal Constitucional), pelo direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo? Se fosse só um papel, poderíamos tão simplesmente responder aos casais interessados "vá, desistam dessa luta inglória... É um papel!". Se fosse só um papel, poderíamos passar pelas igrejas e informar os padres da sua função irrelevante. Poderíamos passar pelas Conservatórias e actualizar também os Conservadores do seu papel irrisório. Poderíamos aproveitar e telefonar a algumas quintas onde se realizam casamentos a avisar que era melhor dedicarem-se a aniversários. Deveríamos também escrever alguns emails a lojas de vestidos de noiva e aconselhá-las a especializarem-se em vestidos de noite. Por fim, teríamos a obrigação de contactar os escritores de contos infantis para esquecerem de vez o célebre "casaram e viveram felizes para sempre" e alterarem este final para "foram viver juntos e viveram felizes para sempre".

Para mim, no entanto, mais que um simples "papel", o casamento sempre foi uma certeza: sabia que, um dia, encontrando a pessoa certa, queria casar-me. Não pelos meus pais ou família conservadora (porque nem são), mas por mim. Porque, para mim, o casamento sempre foi visto como um compromisso solene, um ritual em que duas pessoas olham uma para a outra e prometem, perante o Padre, a família e Deus, amar-se e respeitar-se para sempre. "Ah, mas existe divórcio". "Ah, mas há relações sem casamento que funcionam na mesma ou até melhor". É verdade. No entanto, mesmo com o conhecimento desses exemplos, sempre vi o casamento como o natural culminar de uma verdadeira história de amor. Mais que isso: sempre vi o casamento como o início dum belo conto ao estilo do "era uma vez", em que duas pessoas se amam, desejam viver juntas, ter filhos, construir um projecto e envelhecer juntos.

Por isso, apesar dos custos associados a uma cerimónia destas (sim, os casamentos tradicionais são caríssimos!), e apesar de saber que o casamento não significa, por isso só, um acréscimo automático do amor entre o casal, para mim sempre foi - repito - uma certeza. Sempre me quis casar se encontrasse a pessoa certa. E ainda bem que o fiz, o ano passado. Foi o melhor dia da minha vida. E passei a sentir-me mais completa. Porquê? Afinal não é só uma aliança? Afinal não. Algo mudou. O quê? Não sei bem explicar. Mas tornei-me outra pessoa desde esse dia. E, sinceramente, acho que essa pessoa é uma pessoa mais tranquila e feliz. E é uma pessoa que acredita genuinamente que pode ter o seu "felizes para sempre".

domingo, 16 de junho de 2013

O peixe-caracol, o bacalhau e o que fica ali no meio

A notícia que está a ser divulgada hoje sobre o alegado bacalhau com natas congelado vendido numa grande superfície, e que veio a revelar, afinal, tratar-se de peixe caracol, deixou-me novamente apreensiva. Depois da história das fezes, depois da carne de cavalo, depois das vacas loucas, e da gripe das aves, estamos a caminhar para onde? Ao mesmo tempo que estas histórias vêm sendo divulgadas, noto, em simultâneo, ironicamente, um maior interesse pela agricultura, pelos alimentos ditos saudáveis, por uma dieta mais equilibrada, uma maior divulgação da prática do desporto e uma maior preocupação com o corpo. Tudo junto, estaremos a caminhar para onde? Teremos que abandonar definitivamente os alimentos congelados, e voltar aos alimentos frescos? Teremos que evitar o produtos químicos e confiar apenas nos alimentos biológicos? Teremos que nos virar para os legumes e fruta vendida na esquina pela D. Maria, em que confiamos? Não sei. Mas a verdade é que cada vez mais desconfio deste tipo de produtos congelados ou refeições pré-preparadas, vendidas em larga escala.

sábado, 15 de junho de 2013

Virei organizadora de viagens

Estou muito orgulhosa de mim. Ontem, depois de ter chegado à triste conclusão que há demasiado tempo que não organizávamos nada giro a dois, armei-me de armas e bagagens (ou seja, liguei o computador) e procurei sítios engraçados para passar o fim-de-semana. Confesso que sou uma eterna insatisfeita e canso-me rapidamente de programas iguais, tenho que estar sempre a fazer actividades e a conhecer sítios novos. Herdei isso do meu pai, sem sombra de dúvidas. Então lá descobri uma casa de turismo rural bem engraçada com todos os ingredientes: preço convidativo, piscina exterior enorme, piscina interior, banho turco, ginásio, court de ténis, longos jardins, biblioteca e aceitavam cães... Marquei logo. Fui a correr dizer-lhe, qual criança com um brinquedo novo. Lá viemos. E está-se tão bem! Atendimento cinco estrelas e até direito a jantar na varanda à luz das velas tivemos, sob um céu estrelado. (Soa muito piroso, não soa?)

Portanto, não é para me gabar (mas já estando a fazê-lo...), mas acho que passei com distinção a tarefa de organizadora de viagens. E já deu para desenferrujar do ténis, que não jogava há uns meses. Bom fim-de-semana solarengo!!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O que muda com o papel?

A pergunta foi feita por muitos. E vai sendo repetidamente feita outra vez. O que muda, afinal? Quero saber as vossas opiniões.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

(eu é que) Fiz cinquenta anos.

Como fui partilhando na página do Facebook (faltam 6 para os 1000 likes, sabiam? está quase), ontem foi dia de festa. Não Santo António, como poderão à partida imaginar, mas festa dupla: festa de cinquenta anos e aniversário de casamento de um familiar muito querido meu. E como se decidiu festejar? Com festa de arromba, tal e qual casamento. A festa era no masculino, mas foram permitidas algumas intrusas. Eu fiz-me de convidada e fui uma delas. E descobri, ao conversar com malta jovem, que estou totalmente ultrapassada. Fui. Acabei. Ora então:
i) A minha afilhada (ainda há pouco uma bebé) tornou-se subitamente uma mulher e está muito mais in que eu, com óculos da moda, unhas com gelinho, anéis cheios de estilo e até às californianas já aderiu. Está linda, e adorei vê-la com o namorado.
ii) Os putos de 10 anos já conhecem os hits todos, sabem as coreografias de todas as músicas, trabalham com aparelhagens complicadíssimas, dominam os sites e programas todos para Djs.
iii) Uma amiga da minha afilhada perguntou incrédula se eu era mesmo prima directa ou se não era antes tia. "Mas que idade é que ela tem?" ouvia-a sussurrar à minha afilhada. Não é bom sinal. Tia??
iv) Perguntaram-me várias vezes quando é que pensava ter bebés. "É a melhor coisa da vida! Ainda não pensas nisso? Está na hora!". Que é como quem diz "vai já fazer o amor, esquece esta festa, que os teus óvulos já estão num tic-tac permanente a caminhar para a extinção". Mas apesar de "ser hora", pelos vistos, eu estava com fome, por isso fui mas é jantar.
v) Todos os miúdos tinham iPhone, iPad e outros gadgets como gente grande.

E tinha muito mais para contar, mas hoje fico por aqui, porque parece que estou atrasada. Pelos vistos"está na hora" desde ontem às 8h da noite. ;)
Aproveite o feriado, quem tiver. Bom trabalho/estudo/o-que-quiserem-fazer para os restantes.
O aniversariante era outro, mas quem se sentiu com 50 anos fui eu.
"Olá, madrinha, tenho menos 14 anos que tu, mas dou-te 10 a 0 em moda e estilo. Terei saído a quem??"
O Dj responsável pela música era desta altura. E não, não padece de nanismo. É mesmo uma criança.
Eu a pensar se me suicidava ou vivia com esta realidade: estou velha. Depois vi que a piscina não era muito funda e optei por viver.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Despedidas de solteira

Se há coisa que nunca entendi foi a necessidade de, nalgumas despedidas de solteira, haver uma obsessão com figuras fálicas, objectos sexuais e alusões várias à forca e à morte da pobre noiva. E nunca  percebi, porque:
i) Que eu saiba, despedida de solteira/o significa exactamente isso - o adeus ao estado de solteiro e um olá ao estado de casado, comprometido com outra pessoa.
ii) Sendo que estar solteiro ou sem namorado implica que não se está numa relação certa, estável ou duradoura, certo?
iii) Por outras palavras, estar solteiro significa que a "interacção" (chamemos-lhe assim) com o sexo oposto não se encontra assegurada, correcto?
iv) Por oposição, o estar casado equivale a uma partilha de habitação e relacionamento sexual ("comunhão de cama, mesa e tecto").
v) Assim, analisado de forma crua o casamento, em oposição ao estado de solteiro, a principal diferença é que este comporta, na sua própria definição, uma relação física - quem casa, tem assegurado o carinho e uma relação carnal com o seu companheiro.
vi) O solteiro, por definição também (não estou a falar das uniões de facto, calma), terá, pelo contrário, a indefinição e a incerteza do amor e das vias de facto.
vii) ... Estão ainda a seguir-me?
viii) Assim sendo, as bandoletes com pilinhas, os vibradores de mil e uma cores, as t-shirts com estampados de mulheres a enforcarem-se... deviam ser para as solteiras, não?

Pronto, sei que a exposição foi longa, mas era aqui que queria chegar: mulherio solteiro, guardem os vibradores para  vocês, não os dêem às noivas. Ou então dêem, se já tiverem uma colecção razoável. Mas não se esqueçam que estão a levar areia para o deserto. Ou uma sandes para o restaurante. Ok, já perceberam a ideia. Pode haver sempre lugar para mais areia no deserto. Ou o restaurante não levar a mal. Só que não é "necessário". ;)

Este rapaz é louco

Ele é louco. Não conheço há muito tempo nem convivi o suficiente para tecer um elaborado relatório de considerações sobre ele. Mas partilhámos o carro nalgumas viagens e, ao fim duns escassos momentos, deixou-me a rir às gargalhadas como pouca gente consegue. Porque considero-me amiga duma boa piada, tento levar a vida com humor, mas ataques de riso descontrolado são raros.

Ele tornou-se uma dessas pessoas ao fim de dois minutos. Inédito. Dei por mim a ouvi-lo e achar que estava ao nível dum Ricardo Araújo Pereira ou dum Nuno Markl. Apesar de ter uma profissão muito absorvente e bastante técnica, apesar de ser academicamente brilhante (pelo que me disseram) e um profissional muito dedicado, senti que o mundo dele era, isso sim, a comédia. Comédia inteligente, pelo que me apercebi. Ontem, mais uma vez, tive a prova do sentido de humor invulgar dele.
- Olá. Afinal qual é o teu número de telefone?
- É aquele que te dei no outro dia.
- Mas esse estava desligado.
- Pois, fiquei sem bateria.
- Então o número XXX é de quem?
- Era o meu antigo número de trabalho. Devolvi o telemóvel quando saí de lá.
- Hmm... E mantiveram o número activo?
- Julgo que sim.
- E foi um antigo colega teu que ficou com ele?
- Sim. Acho que sim.
- Um colega sem sentido de humor? Muito mal-disposto?
- Hmmm... Mas como sabes isso?
- É que mandei mensagem a perguntar se dava para marcarmos todos um jantar. Responderam-me "quem és?". Ora, eu pensei que eras tu a gozar comigo. E respondi algo a gozar também. Só que entretanto ligou-me uma voz masculina um pouco zangada. Ainda brinquei, ainda a acreditar que eras tu a gozar comigo, mas depois percebi que não eras mesmo tu.
- Mas disseste algo de mal?
- Define "mal".
- Aii... O que disseste?
- O teu ex colega que tal é? Sisudo?
- Até não... Só que é mais velho e às tantas apanhaste-o a dormir, já, até porque tem filhos pequenos. Mas conta lá.
- Ok. Vou enviar-te a mensagem que enviei em resposta ao "quem és?" e tu vais imaginar a cara do teu colega.

Desligámos. Passado um minuto, recebo a tal mensagem que ele enviou ao tal colega mais velho. "Olá. O meu nome é Y, fiz 35 anos há pouco e passo o meu tempo livre a mandar mensagens assustadoras a senhoras indefesas com números desconhecidos. Tenho uma gabardina de abertura fácil que costumo usar em estacões de metro pouco povoadas a partir de certa hora". É possível não rir ao ler isto? Eu tive que soltar uma gargalhada, só de imaginar a cara do meu colega... Este rapaz é louco.

terça-feira, 11 de junho de 2013

É possível descer mais que isto?

Alguém comenta que fulano X trocou uns beijinhos com uma "menina da má vida" e, em uníssono, a resposta de todos é:
- Coitadaaaaa!

E pergunto-vos: é possível descer mais que isto?
...
Temo que não.

A minha vida é perfeita. E a tua?

Já não aguento abrir o Facebook e ver tanta gente a amar-se da forma mais intensa que alguma vez se amou. A viajar para sítios paradisíacos onde o mar e o céu são muito mais azuis e vibrantes que alguma vez os meus olhos viram, e quase me cegam com tanta luz. A comer pratos com comidas lindas, coloridas e espectaculares, daquelas com menos de três calorias e que só as pessoas saudáveis e magras conseguem comer sem sentir fome no fim. Não aguento abrir o Linkedin e ver toda a gente com mil "skills" actualizados todos os dias, sempre descritos em inglês, porque o português é a língua dos pobres e temos que falar e pensar internacional, mesmo que desejemos trabalhar sempre em solo lusitano. Não aguento ver blogs de moda em que só os sapatos custam duas ou três rendas de casa, a carteira custa quatro, os cabelos brilham mais que o sol, as pernas têm sempre metro e meio, pelo menos, e os sorrisos às 8h da manhã são sempre mais rasgados que o meu sorriso às 2h da manhã, depois de dois gin.

É que eu amo uns dias mais, outros menos. Não sou intensa a amar 24h/dia, é cansativo e tenho que comer e dormir. Às vezes não estou para aí virada. Ou não está ele. Às vezes irrito-me e apago-lhe a luz enquanto toma banho. Outras vezes ele diz-me simplesmente "estás sempre perfeita" ou "és a mulher com o sentido de humor mais inteligente que já conheci", e eu fico a nadar em baba e dou-lhe beijos, e beijos e agarro-me a ele qual lapa. É que eu viajo para sítios paradisíacos, mas já entrei em hotéis em que tive nojo dos lençóis e tirámos fotos apenas para dar má classificação no Booking. E no dia seguinte ri-me da história e ficou algo para contar. É que eu como comida espectacular, mas às vezes dá-me a gula às 2h da manhã e como apenas bolachas no sofá, de pijama e cabelo desalinhado, e fico com migalhas no pijama que depois tenho que cuidadosamente deitar para a banca da cozinha. É que eu tirei um curso e trabalho, mas descrevo a minha actividade em português e de forma pouco glamourosa. É que eu visto roupa que às vezes custou meia renda, mas depois tenho vergonha de mim mesma e não digo o preço em voz alta. Fico de castigo auto-imposto, a ir menos vezes a restaurantes, e entro em dieta forçada de compras. Ah e nessa altura não consigo sorrir por pensar na conta bancária.

Tenho uma vida normal, com momentos dignos de filme, com cor, riso, dança, muito amor e amigos. Tenho momentos em que imagino que sou a protagonista duma comédia romântica, tal é a intensidade do momento. E momentos estúpidos, em que sou uma Bridget Jones a comer desalmadamente e cheia de auto-comiseração. Mas sinto-me uma raridade, neste momento. A vida é com certeza perfeita lá fora, tal é a forma como é descrita nas redes sociais. A perfeição só não chegou ainda a minha casa, deve ter-se enganado na morada.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Os homens e as máquinas fotográficas - uma relação escaldante*

Todas nós, mulheres, já vivemos isto na pele: temos uma festa especial, vamos ao cabeleireiro passar um par de horas à seca enquanto nos massajam o couro cabeludo, nos penteiam, esticam o cabelo, colocam produto para o brilho, produto para as pontas, produto para a hidratação, produto para mais-não-sei-o-quê, enquanto nos secam o cabelo, pintam as unhas, e arranjam os pés, depois maquilhamo-nos a rigor, pomos uns brincos especiais, uma lingerie mais sexy e provocante, um vestido mais bonito, umas sandálias mais altas, e até as pernas parecem mais morenas e brilhantes, depois de espalhado o pó ou de colocado algum creme. Perdemos horas a arranjar-nos, mas no final sentimo-nos mais bonitas. Sentimo-nos bem! No meu caso, como evito o cabeleireiro como o Diabo evita a cruz, e como odeio pintar as unhas (não me importo que me pintem, atenção - eu não sei é pintar bem a mim mesma), dia de festa pode ter este final feliz, mas é sempre um dia antecedido de horas de aborrecimento total. No exemplo oposto, apraz-me ver que os homens têm um dia normal até à festa, em que só difere a obrigatoriedade do fato, na hora de vestir.

Eis que chega então "a" cerimónia. Se é casamento, baptizado, comunhão ou outra cerimónia na igreja, é ver toda a massa feminina a subir cuidadosamente as escadas, atentando nos degraus em modo equilibrista (graças às sandálias mais altas que o normal), uma massa humana elegante, dócil, com classe, que apenas tenta evitar o vento para não arruinar os seus sedosos e arranjados cabelos. Enquanto isso, a massa humana masculina conversa, ri, troca galhardetes e endireita a gravata, enquanto sobe as escadas em passo ligeiro. Na missa, elas mantêm-se em silêncio, ouvem o padre, emocionam-se com o beijo (se é casamento), observam a beleza do vestido da noiva, mantêm a sua postura dócil e angelical. Eles riem-se quando o noivo se engasga a proferir os votos, comentam as indumentárias mais ousadas, antecipam entre si a distribuição das mesas como se dum jogo de estratégia se tratasse e apenas se calam perante o "shhhiu" delas. O desfile de diferenças entre sexos prossegue.

Chega "a" festa. Os comes e bebes. A parte social. Conversa-se. Ri-se. Comenta-se isto e aquilo. As diferenças atenuam-se. Todos interagem, homens e mulheres. Até que... o momento crucial se aproxima. E nós lhes pedimos, gentilmente e com a nossa voz mais meiga "tiras-me uma fotografia? Disse à minha mãe/ à minha irmã/ à cabeleireira/ à amiga X/ a mim mesma/ _______ [preencher com qualquer motivo válido e inadiável] que lhe mostrava como fiquei, e fazia a reportagem fotográfica." Mas verdade seja dita que o motivo é apresentado, mas a nossa imagem deveria falar por si, qual premissa num silogismo perfeito: arranjámo-nos, quem se arranja quer fotografia, logo, queremos uma fotografia. Há dúvidas? Para eles, sim. Os homens têm uma relação muito estranha com a máquina fotográfica. Podem fotografar qualquer porcaria, que tudo lhes parece muito interessante, mas fotografar a mulher em dia de festa? "Eiii... tem mesmo que ser??!". Pois a resposta está dada nos nossos vestidos novos, sandálias mais altas e cabelo arranjado: tudo grita um "sim" estridente. Tem que ser. Tirem-nos uma fotografia, é pedir muito? Só uma.

Nunca hei-de perceber qual é o problema de nos tirarem uma fotografia e registarem o momento. Sei que há excepções (e fotógrafos profissionais, que não contam), mas pelo que conheço é sempre tããããão difícil e cansativo pôr um homem a tirar-nos uma foto. No meu caso, comprei a máquina fotográfica há uns anos, uma reflex Canon xpto, ele até me deu uma objectiva espectacular a incentivar o "hobby" e.... adivinhem de quem são 99% das fotografias que tenho? Dele. Eu não existo, para a minha máquina. Qual é afinal o problema entre os homens e as máquinas fotográficas? Qual é o problema de nos fotografarem?... Acho que nunca vou perceber.
Os poucos registos da festa. Parecem muitas, mas são duas fotos. Uma desfocada, tirada por ele, dividida em três, para render. E outra tirada por..... mim. Já tinha mostrado no Facebook do blog, mas agora mostro aqui.
*Título muito muito irónico.

domingo, 9 de junho de 2013

Fui alvo de uma aposta

... Pela minha própria família. Pelos meus entes mais queridos. E agora estou na dúvida se fico indignada, ou se me limito a sentir-me lisonjeada por se concentrarem em conjecturar planos maquiavélicos contra mim na minha ausência e durante as suas férias.

Pois então estava eu a socializar e a pôr a conversa em dia, ontem, durante o casamento, quando recebo uma MMS da minha querida mãe, esse ser puro e inocente, incapaz da mais pequena maldade. A MMS dizia algo como "o teu pai envolveu-se num desacato. Está a ser levado à esquadra mais próxima para prestar declarações." O tom era sério e sombrio (pelo menos li o texto assim). E a mensagem trazia uma fotografia do meu pai de costas, a caminhar junto a um agente da GNR. Claro que nem duvidei da veracidade da história. Era um assunto sério e a minha mãe não brinca com assuntos sérios. Liguei logo. Insisti. Fiquei preocupada.

Conclusão: a minha mãe atende finalmente o telemóvel a rir "acreditaste? Apostei com a tua irmã vinte euros em como cairias. A tua irmã, pelo contrário, jurava a pés juntos que nunca irias cair numa mentira destas. Está a dever-me vinte euros." Não reconheço a minha própria mãe. Tornou-se um ser maquiavélico e capaz de enganar a própria filha a troco duma aposta. Mas pelo menos já percebi a quem saí com a mania das apostas. É nestas coisas que temos a certeza que não fomos adoptados. ;)

sábado, 8 de junho de 2013

Vou ali embonecar-me e já volto

Em época de casamentos de amigos, mesmo que odeie perder tempo em cabeleireiros e manicuras (eu sei que nisso sou um bocado atípica, mas irrita-me essencialmente o tempo de espera, as conversas vazias, a parte de ter alguém a puxar-me o cabelo ou a tentar acertar na temperatura de água com que gosto de lavar a cabeça - é morna, decorem), lá vou eu embonecar-me. Tem que ser e o que tem que ser... Tem que ser!

Se estiver bem-disposta e a sentir-me poderosa no fim pode ser que mostre o cabelo e parte do vestido, ok? ;)

Um bom Sábado para todos!

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Michael J. Fox

Ontem à noite, enquanto víamos um documentário sobre o Michael J. Fox no Biography Channel, o percurso profissional dele (quem não viu e reviu mil vezes os Regressos ao Futuro, por exemplo?), a vida amorosa, a doença que o afectou e a forma como tem ultrapassado tudo, íamos comentando o que víamos. Dizia-lhe eu:
- Eu adorava o Michael J. Fox. No Regresso ao Futuro lembro-me de o achar o máximo, de achar espectacular vê-lo andar de skate e de adorar a maneira de ser despachada dele. Não achavas?
- É, ele era castiço.
- E tinha ar de ser mexido, não era? De ter imensa energia.
- Sim, e agora ainda é mais mexido. Olha lá.
Eu sei que é humor negro, mas saiu-lhe tão natural que não consegui deixar de me rir. De qualquer maneira, respeito imenso o actor, principalmente porque continua a entrar em séries (têm-no visto no The Good Wife? Ainda não vi, mas ouvi dizer que está muito bem) e não baixa os braços nunca. É realmente um exemplo.

(E - vá lá, sem moralismos - teve piada, não teve?)

Depois do "viveram felizes para sempre"

Primeiro, "antes do amanhecer", assistimos ao enamoramento em Viena. Depois, "antes do anoitecer", somos espectadores do reencontro em Paris. Por fim, "antes da meia-noite", testemunhamos o momento pós-consagração e pós-concretização do amor. E assim temos, espaçadas entre si por nove anos cada, as várias fases de uma relação retratadas no cinema. A intenção não era essa, a crer nas palavras do realizador e dos dois actores. Mas quis o acaso que assim fosse e que, dezoito anos depois da primeira troca de palavras, possamos recuperar uma das duplas românticas mais reais, inspiradoras, com mais sentido de humor e apaixonantes que já vi no cinema.

Desta vez, não se discutem diferenças sócio-culturais entre um americano e uma francesa. Brinca-se com o "rabo francês" e com o "menino americano", mas nove anos de convivência atenuaram - e bem - as trocas de galhardetes que envolviam clichés sobre o ser americano ou europeu. Não se discute também de forma tão intensa a realização pessoal e profissional, como aconteceu no segundo filme. Os nossos heróis estão adultos. Mais que um americano e uma francesa a quererem lutar pelos seus sonhos, querem saber amar-se. Querem saber viver um com o outro. Querem encaixar o amor que sentem nas suas vidas tão preenchidas com empregos, lides domésticas e duas filhas a tempo inteiro (mais um filho do outro lado do Oceano a deixar saudades). Querem voltar a ser aquele casal que saiu do comboio em Viena, conversou a noite toda e se apaixonou irreversivelmente. Querem voltar a ser aquele casal que se reencontrou em Paris, fechou as janelas do quarto e fez amor durante dois dias seguidos, até atenuar um pouco as saudades que sentiam.

Nove anos depois de ficarem juntos, o difícil não é responder a perguntas como "será ele o tal?". Ele é o tal. Ponto final. Respondido. O difícil agora é conciliar o conto de fadas sonhado com a vida real. O difícil é desligar o botão "rotina" e ligar o botão "paixão". A dado momento, ele desliga-lhe o telemóvel e quer arrancar-lhe o vestido. Ela liga o telemóvel. Ele beija-a. Ela encontra problemas existenciais, mesmo com o vestido semi-despido. Ele quer continuar. Ela sai de casa. Ele atira-se ao sofá, desesperado. Ela volta. Ele diz-lhe que é louca, mas que a ama. Ela faz um chá. E diz que já não o ama. Sai. Volta. Ele abre uma garrafa de vinho. Ela sai. Ele vai atrás. São loucos? Não. Estão desesperados. O amor entre um homem e uma mulher pode ser assim: louco. Desesperado. Ela pode querer um chá e ele preferir vinho. Ele pode querer o telemóvel desligado e ela preferir ligá-lo. Ele pode querer fazer amor todas as noites da mesma maneira e ela estar farta. Pode ser isto tudo e muito mais. O amor não é linear, nem é um "e viveram felizes para sempre". O amor é o que se vive depois dessa deixa. Depois de a tela se fechar e todos os espectadores saírem da sala de cinema. O amor é o ter que encontrar (sem nunca desistir) a felicidade no loooooongo "para sempre". Este filme é sobre o que acontece no momento em que todos os espectadores abandonam a sala, depois do final feliz. É sobre a realidade. O saber viver a dois. E, por mim, tinha trazido o Jesse e a Céline para casa, adoptava-os e ficava a conversar com eles ininterruptamente até ficar sem voz. São, sem dúvida, o meu casal preferido do cinema de sempre. E, por mim, podem voltar a cada nove anos.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A minha peça fetiche

Até agora, eram os vestidos. Não resistia a um vestido bonito. Entretanto, há uns quatro anos, comprei o primeiro jumpsuit (ou macacão). Depois outro. Depois outro. Todos escuros, clássicos e bem sóbrios. Com um até vou trabalhar, porque é muito formal. E agora dou por mim a achar uma peça de roupa quase tão feminina e elegante como alguns vestidos. Estarei a exagerar? Ontem arrastei-o para uma loja, para ver um comigo. "Anda ver se me fica bem, sim?", pedi-lhe, com a promessa de que, a seguir, ele podia decidir o programa do mundo que quisesse, que eu aceitava qualquer coisa. "Eu vejo, mas sinceramente acho que não gosto muito"... Saí do provador a medo, a mostrar-lhe. "O que achas? Pareço um mecânico?". "Vira-te", pediu-me ele. "Gosto muito. Muito!" E pronto, não sei o que as costas tinham, até porque o pormenor mais giro era à frente, mas parece que teve o voto dele. Agora vai custar-me é parar. Vejam alguns exemplos e digam lá se estou maluca.

Vou bloquear-te no Facebook

O fim duma relação amorosa implicava, no tempo dos nossos pais e avós, "apenas" um período de luto e separação. Podiam eventualmente cruzar-se depois, se viviam perto um do outro. Podiam até ter que continuar a conviver, se tinham amigos em comum. Tudo igual a hoje, portanto!, dirão vocês? Não, algo mudou. O modus operandi tornou-se, com o passar dos anos, complexo e interminável. Se não, vejamos: nesse tempo, ao adeus final seguia-se um período de tristeza, de afastamento, e a dúvida era se se devia devolver as cartas trocadas, os presentes oferecidos, e pouco mais. A nível de formalidades e burocracias, ficava-se por aqui. Cada um ia para sua cada carpir a dor, ligava um gira-discos e ficava entregue aos seus pensamentos.

Hoje? Com o desenvolvimento das tecnologias e das redes sociais, acabar com alguém é todo um processo complexo e interminável. Não basta carpir a dor e ligar o ipod. É preciso levar com as memórias estampadas nas redes sociais. É preciso apagar o estado no Facebook. Apagar as fotografias em comum nas redes sociais. Por vezes, vai-se ao ponto de excluir a própria pessoa do grupo de amigos. Tirá-la dos chats. No pior dos casos, apagar até amigos em comum. O Élvio Santiago fez, há uns anos, uma música em tom de ameaça em que garante que vai apagar a (ex) namorada do (defunto?) MSN, bloqueá-la do moribundo Hi5, excluir as fotografias e mensagens dos dois, mudar o número de telemóvel para nunca mais ouvir a voz dela, mudar o endereço de email, tudo para nunca mais a ver. A música é antiga, por isso imaginem o tamanho que a ameaça teria hoje em dia. Apagá-la do Instagram? Facebook? Twitter? Google+? Linkedin? Vine? Viber? Whatsapp? Blackberry messenger? Pinterest?As possibilidades são infindáveis.

Sinceramente, acho que o fim duma relação não tem que implicar, obrigatoriamente, o bloquear ou apagar de todas estas redes. Imagino que seja duro ver o nome ou a fotografia radiante da pessoa de que gostámos tanto tempo a aparecer-nos nas redes sociais, mas não é algo com que se terá que aprender a lidar? Vivemos numa era em que todos somos omnipresentes. O nosso nome e imagem estão em tantos sítios em simultâneo que me parece utópico querer voltar ao tempo dos nossos pais e avós. Ok, aí tudo o que bastava era mudar de rua para não ver a pessoa. Mas mudam-se os tempos. Mudam-se as vontades. E mudam-se as verdades. O que era verdade há dez, quinze anos, não é hoje. E parece-me que será cansativo adoptar o processo do Élio, sinceramente. Não é mais fácil acabar, mas esquecer a árdua tarefa de apagar contactos? Não será preferível pensar primeiro em apagar toda a dor que se sente e fazer o luto?...

Freud, preciso de ti

Ultimamente os meus sonhos tornaram-se histórias verdadeiramente alucinantes, com argumentos hollywoodescos e capazes de fazer inveja a um Spielberg. Ok, talvez não tanto. No entanto, talvez por andar em maratona da trilogia do 1Q84, noto que os meus sonhos ligaram um complicómetro qualquer e aumentaram o enredo e a intensidade. Pois então deixemo-nos de introduções aborrecidas e passemos à descrição da minha mais recente narrativa vivida em braços de Morfeu.

Lembro-me que estava de mãos dadas com um ser masculino indefinido. A sensação com que fiquei é que era um apoio que tinha ali e que era pouco relevante para a história: existia apenas para não me sentir sozinha, e nem tinha rosto ou forma. Estávamos perdidos no meio da vegetação, a andar sem rumo certo. Confusos e preocupados. De repente, encontrámos alguém que nos diz, a despropósito: "isto é 1996". E percebemos que nos enganámos e que devíamos ter ido por outro caminho. Virámos e começámos a andar por outro lado. Até que encontrámos um grupo de gente sentada numa roda, a cantar e a tocar guitarra. Havia uma fogueira e pareciam estar todos felizes.
- Desculpem, mas sabem dizer-me onde estamos? Perdemo-nos.
- Isto é 1996.
- Por onde é que se vai para 2013?
- Têm que esperar muitos anos até ele chegar aqui. Nenhum caminho vai lá dar.
- Mas nós ainda agora estávamos lá. O mal foi meu, perdi-me. Tenho péssimo sentido de orientação e devo ter virado para a esquerda em vez de virar para a direita.
- Se são de 2013, prova-o e canta uma música do vosso ano. Toma.
E deram-me uma guitarra. Comecei a pensar em músicas, mas só me lembrava de êxitos dos anos 80 e 90. Comecei a tocar Baba O'Riley, dos The Who, para gáudio do grupo. Entretanto, estava sozinha. Queria pedir ajuda à minha companhia masculina, mas ele tinha desaparecido. Estava presa no passado e não me lembrava de nenhuma música do presente que me salvasse. Ia ficar em 1996 sozinha e para sempre.

Acordei a transpirar e a precisar de respirar com força. Freud, que me dizes? A parte dos anos percebo que tenha a ver com o livro que ando a ler, é realmente uma cópia descarada... Mas e o resto? Freud, preciso de ti. Wo bist du? (Vou falar alemão a ver se me ouve melhor). Estou oficialmente ensandecida.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Almas gémeas

Como saberão, a Fox Life anda a repor os episódios da série Sexo e a Cidade, por isso ando a rever aquele que foi, com certeza, o manual de relacionamentos de muitos (e eu, como cliché que sou, não fujo à norma). Ontem assistia pela enésima vez a este episódio do qual retive o seguinte diálogo entre a Charlotte e a Samantha:
- I believe that there’s that one perfect person out there to complete you.
- And if you don’t find him, what?... You’re incomplete?, it’s so dangerous! (...) the bad thing about the one perfect soulmate is that is so unattainable you’re being set out to fail.
O que, traduzindo, dará algo como uma discussão à volta das almas gémeas: há alguém, algures, que te completa, mas... e se não a encontras? Ficas incompleto? Tudo anda à volta disto.

A discussão é tudo menos nova ou original. Tão-pouco é conclusiva. O que é trazido de novo para a baila é a questão do ter que ser inalcançável. Mas... terá que ser? O que é certo é que tudo o que é inalcançável parece mais perfeito. Ou, como ele aqui em casa chama, é o "truque dos vinte metros" - qualquer mulher parece perfeita a vinte metros, sem falhas, imperfeições. Só quando se aproxima vemos as rugas, as gordurinhas, o acne, a pele flácida ou uma depilação por fazer (too much?). O mesmo truque aplica-se a quase tudo, que, ao longe, parece perfeito. Com as almas gémeas, muitas vezes acontece o mesmo: ao longe, são ideais. São uma teoria. Uma equação que tem tudo para resultar. Um mito. Mas... e na prática? No dia-a-dia?

Para mim, as almas gémeas são mais que um livro preferido em comum. Mais que uma música especial que se partilha. Um destino de viagem com que ambos sonham. Gostos iguais. Histórias de vida parecidas. Ou um sorriso encantador. Uma alma gémea é alguém que nos completa. Num todo. Compreende e aceita as nossas imperfeições. Partilha as suas. Adapta-se. Quer agradar. A alma gémea não é, afinal, algo inatingível. Está aqui. Se é inatingível, como é que nos pode completar, afinal? Pois... Esse é, em resumo, o meu ponto de vista.

Então, como é que vai o ginásio??

O ginásio...? vai andando. Eu? Vou correndo. Sempre que consigo, toca a ir para lá. Quando ia correr para a rua, usava a desculpa do vento. Da chuva. Do frio. Ou da falta de companhia. No ginásio, não há cá ventos, chuvas, frios ou solidões. Aquilo está sempre cheio, das 7h à meia-noite, a temperatura é sempre a mesma e há ainda o "pormenor" da mensalidade. Pois convenhamos que, na luta entre a preguiça e o dinheiro que lá deixei, ganha sempre o dinheiro. Por isso, lá tenho ido três vezes por semana.

O ritual é sempre o mesmo: chego, vou para a passadeira e só saio quando tiver corrido pelo menos 5 quilómetros. Depois, máquinas (às vezes), abdominais e alongamentos. Ora, os 5 quilómetros dão uns valentes minutos, até porque não sou a pessoa mais rápida que o asfalto (ou, neste caso, a passadeira) já viu correr. E, nestes valentes minutos, as passadeiras ao meu lado vão sendo ocupadas por pessoas diferentes. No entanto, nas últimas semanas algo tem acontecido. Como tenho ido à noite em vez de ir à hora de almoço, a fauna desportista que se vê é maioritariamente masculina (não sei bem porquê... estarão a fazer o jantar?). E um rapaz que conheço de vista há mil anos, não sei bem de onde, tem ido sempre para a passadeira ao pé da minha. Já 5 ou 6 vezes o que aconteceu foi o mesmo: cheguei e fui para a passadeira. Passado uns dois minutos, ele apareceu, qual fantasminha escondido atrás duma máquina qualquer. Chega a ser assustador. Hoje, por exemplo, estava eu a ver as minhas séries numa das televisões, toda contente, quando, de repente, pisco os olhos e, ao abrir, lá está ele por baixo da televisão. Voltei a piscar os olhos duas vezes. Seria uma miragem? Não, ele apareceu do nada. Literalmente.

Depois disto, tem começado a competição. De todas as vezes que corri e o "fantasma" apareceu, tive que levar com ele a espreitar o meu visor de velocidade e de distância de dois em dois segundos. É cansativo! Além disso, começou a arfar desalmadamente e a aumentar a velocidade, enquanto olhava para mim, qual "vês? é assim que se corre, ó tartaruga". Aconteceu sempre. O que vale é que aqui a tartaruga corre devagar, devagarinho, mas aguenta mais tempo. Sim, porque ando é a treinar a resistência. Por fim, acaba sempre da mesma maneira: ele abranda, começa a andar. Eu continuo a correr. Então, continua a olhar para o meu visor, depois olha outra vez para mim, como quem diz "vês? no mesmo tempo corri muito mais". Continua a andar enquanto eu corro e só sai quando saio também.

Sinto que tem havido ali um longo diálogo sem palavras. Uma corrida silenciosa. E tenho noção que, a haver uma competição, tenho perdido em velocidade-média. Mas ganho em tempo percorrido. Isso dará um empate, certo? Tenho que chamar o meu anjo da motivação para lhe mostrar de que fibra nós, mulheres, somos feitas. Girl power! Raio de mania que os homens têm de ter que ser melhores que nós em todos os desportos...

terça-feira, 4 de junho de 2013

Privado vs Público

A falar com uma amiga sobre a futura escola para onde irá estudar a filha dela, comecei a pensar mais no assunto. A verdade é que, tendo andado num colégio e depois numa escola pública, penso que posso, pela minha experiência, concluir que prefiro os colégios. São mais caros? São, claro. Mas, pelo que vivi, posso assegurar que me sentia mais protegida, mais parte duma grande família, e que sentia que éramos mais bem acompanhados. Todos os professores e empregados sabiam o nosso nome, a nossa data de aniversário, conhecíamos as famílias uns dos outros, tínhamos imensas actividades para além das aulas... Claro que haverá escolas públicas fantásticas (tal como os rankings anuais comprovam), mas, no meu caso, passei daquilo que me parecia um castelo protegido para uma selva, no início. Acabei por me habituar, mas lembro-me que me identificava apenas com um número reduzido de pessoas, inicialmente, e achava estranho ver tantas raparigas a pintarem-se na casa-de-banho e a falarem de jogadores de futebol. Achava estranho ver os gangs vestidos de preto e cabelo comprido - os chamados "metaleiros" - na parte de trás da escola, os de Artes sempre encostados ao pavilhão, os miúdos com as motas à frente, etc. Estava tudo muito segmentado, não havia um "todo", uma unidade. E no início custou-me. Tive que decidir quem era. Como era. A que grupo pertencia. Eu, que antes pertencia apenas a uma escola e era igual a todos os outros. Afinal ali era betinha, desportista, alternativa...? Para mim, era apenas "normal". No entanto, naquela escola, tudo tinha um nome e "normal" não constava das categorias.

A minha amiga diz que, se tiver mais que um filho vai ser difícil mantê-los a todos no ensino privado, porque é, obviamente, caro. Ela, que é das pessoas da minha idade com um emprego mais estável. Por isso, concluo que terei que dizer o mesmo um dia também. Apesar de sonhar com os meus filhos um dia num "castelo" - como eu tive a sorte de poder experimentar -, com aulas de línguas, com desporto e aulas de música, sei que esse tipo de ensino é tão mais caro que nem todos conseguem suportar. Por isso, ando a tentar ver as coisas de outro prisma e pensar que as escolas públicas preparam melhor para a vida adulta. Tento pensar assim, apesar de, no meu caso, apenas me ter feito sentir um pouco confusa e sozinha, no início.

E desse lado, melhores experiências? Onde pensam pôr os vossos filhos um dia e porquê?