quarta-feira, 31 de julho de 2013

Ainda te lembras?

Somos o que pensamos. Somos aquilo de que nos lembramos. Somos, em grande parte, as nossas memórias. Por isso, se nos tirarem as nossas recordações, ficamos com o quê? Se, de repente, os nossos pensamentos se tornarem um nevoeiro, se o passado e o presente ficarem misturados, ficamos onde? Se, de repente, não soubermos onde acabámos de colocar os óculos, mas nos lembrarmos perfeitamente do primeiro dia de aulas, isso significa que voltámos a ser crianças? Se, de repente, não nos lembrarmos do casamento da neta há meses, mas soubermos descrever o seu baptizado na perfeição, quer dizer que os anos não passaram dentro de nós?

A minha avó tornou-se, nos últimos meses, um diário a quem arrancaram as últimas páginas. E ficou sem folhas para ir reescrevendo o presente e actualizando as suas memórias. Às vezes é assustador. Pensamos que não é a mesma pessoa. Às vezes diz o que não esperamos ouvir dela. Troca nomes. Confunde datas. Eu tento vê-la como uma avó mais jovem e falar sobre acontecimentos antigos. Ver os olhos a brilharem quando recorda, em voz alta, histórias que a marcaram. Ouvi-la cantar as músicas preferidas desde os tempos de criança. Balançar o corpo ao som das músicas que gosta. Descrever o percurso que fazia para a escola. Ou até o primeiro amor. Mas, para mim, é fácil vê-la assim. É minha avó, consigo ter o distanciamento necessário para fazer este exercício, porque no fundo sempre fomos mais amigas e confidentes que propriamente avó e neta. Sempre partilhámos um mundo nosso, com ela a falar-me da sua pintura e dos seus poemas perante a minha admiração total. A minha avó sempre me maravilhou com o seu lado de artista. Já os filhos... Bem, esses não aceitam o passado e a repetição de tantas histórias. Querem presente. Querem vê-la ser mãe. Querem vê-la tomar decisões. Querem vê-la pensar e lembrar-se no aqui e agora, não no antes, há vinte anos.
- Onde deixou os óculos?
- Que óculos?
- Os óculos que tinha aqui.
- Não sei.
E não consigo imaginar a confusão que irá na sua cabeça. Óculos? O que interessam os óculos? Tantas perguntas e eu estou tão feliz a ouvir esta música. Porque não me deixam estar? Sou criança, não quero ter responsabilidades. Estou feliz. Deixem-me estar.

Eu deixo. Mas sou neta. Sou amiga. Confidente. Sou fã incondicional. Não consigo imaginar o que será ver a mãe, a nossa âncora assim...

terça-feira, 30 de julho de 2013

A espanholização dos hábitos

Portugal está mais espanholizado ou é impressão minha? A gente nova já não vai para discotecas beber - a gente nova bebe antes. Já não pedem bebidas com nomes complicados nem se passeiam de copos na mão - enchem uma garrafa de sumo e álcool (vodka, gin, whisky, rum, algum vinho?) e vão partilhando com os amigos. Já não correm o risco de beber o desconhecido - bebem o que escolhem, compram e misturam, quais barmen e barmaids das suas próprias bebidas. Já não pagam o impensável no final da noite, pois procuraram o mais barato em cada supermercado até se darem por satisfeitos com o preço. Já não bebem de olhos fechados no meio da pista, ao som da música, enquanto levam encontrões de quem passa - bebem sentados nas escadas ou em muros, enquanto conversam com os amigos. A gente nova não fala castelhano, mas adoptou o "botellón" como se vivesse do outro lado da fronteira.

Hoje de manhã discutíamos ao pequeno-almoço os prós e contras deste novo hábito. Para mim, os prós venciam. Até que alguém me chamou a atenção para dois pontos: e os bares e discotecas? Vão passar a viver do quê? E os jovens não acabam por beber mais, assim? Sendo mais barato não levará a que se embebedem mais? Vou tentar observar nos próximos dias...

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A arte de ser rei

Ontem, como escrevi na página do facebook, descobrimos a seguir ao jantar um antigo exame da 4a classe e pusemo-nos (um bando de adultos) à volta do computador a tentar responder com afinco às mesmas perguntas a que já muitos dos nossos pais ou avós responderam. E que difíceis que eram! Desde exercícios de Matemática complexos e com números como "100,45 escudos" ou "8,67 litros" até perguntas de Geografia, Português, História,... E ficávamos aliviados de cada vez que conseguíamos responder a mais uma pergunta, por mais tempo que demorássemos. "Ok, consegui responder ao mesmo que uma criança de 10 anos...", lá diria orgulhoso cada um de nós a si mesmo. Até que chegaram as perguntas de História:
"4- O Rei d. Duarte foi, também, escritor. Qual o principal livro que escreveu?"

Ficámos todos em silêncio. Mas quem é que sabia isto? Até que um de nós diz, a medo - "não foi o Livro sobre a arte de bem cavalgar toda a sela?". Risos. "Que raio de nome, claro que não!! Ahah." Fomos ao Google, esse amigo sempre tão sábio e presente. E não é que foi mesmo? Uma coisa sei: estes reis tinham realmente muito muito tempo livre. Devia ser uma maçada ser rei...

domingo, 28 de julho de 2013

Os homens são uns bebés

- Bora correr?
- Aii doem-me tanto as pernas da corrida de  ontem...
Lá o convenci a vir comigo, mas antes tive que me tornar um muro de lamentações humano e ouvir todas as suas queixas e descrições das maiores dores alguma vez sentidas num ser humano. É um mártir, este rapaz.

Na praia:
- Deixa-me por-te protector.
- Aiii! Que friooo!!

Em casa:
- Ficaste vermelho. Ora deixa-me pôr-te o after sun.
- Aiii!! Dói tanto!!

Tudo dói. Os homens são uns bebés. Queria vê-los a depilar as virilhas. Todas.

sábado, 27 de julho de 2013

Fujam da frente...

...Que atrás vem gente!
Ontem foi assim: trabalho terminado, casa arrumada, malas feitas e siga para a estrada. Só que o meu querido condutor estava com uma cara de tanto sono que insisti "não queres que leve eu?". Aceitou. O que revelou que a minha percepção estava correcta: estava mesmo a morrer de sono! E o que adoro conduzir à noite. Gosto taaanto! A estrada é minha, sou Dj na minha própria festa, cantora no meu espectáculo e o Schumacher desta corrida. Acho que ia ser feliz como camionista. Entretanto, lá chegámos. O tempo não estava grande coisa (e continua mau), apanhei chuva no caminho, mas... são férias! E a férias dadas não se olha o... termómetro! ;)

sexta-feira, 26 de julho de 2013

As minhas avós

A minha avó paterna adora a Júlia. Só assim, com o nome próprio - "Júlia". Ou "Julinha", quando está mais bem-disposta. "O que estás a fazer, 'vó?". "Estou aqui a ver a Júlia". A minha avó paterna gosta tanto da Júlia que é como se a Júlia fosse mais um membro da família. "Ai a Júlia bem dizia, no outro dia." "Que Júlia, 'vó?". "A Júlia...". "Hãn...". E nós ficamos na mesma. A minha avó paterna também adora a Cristina. Que Cristina?, perguntam vocês. A Cristina "do Goucha". A Cristina também não tem apelido, mas tem complemento determinativo, por isso sempre anda menos sozinha. "Hoje a Cristina tinha um vestido parecido com o teu, também lhe ficava muito bem!". "Cristina? Que Cristina, 'vó?". "A Cristina do Goucha..." A minha avó paterna gosta tanto da Cristina "do Goucha", que é quase como se a Cristina também fosse cá dos nossos. Há uns anos, estava de férias na praia e fiquei a dormir na casa de praia da minha avó. Cheguei da praia para almoçar e vejo-a meia emocionada, com uma lagrimita no canto do olho, de frente para as suas familiares televisivas. A minha avó emocionada? Estranhei. A minha avó não é de grandes acessos emotivos, ao contrário aqui da neta.
- Que tens, 'vó?
- Nada... nada... Estava aqui a ver a Cristina e a Júlia a falarem.
- E é assim tão mau para estares com essa carinha? Muda de canal, então...
- Não. Elas estão a mandar um beijinho para as avós delas.
Olho para a televisão e vejo um gigante e cor-de-rosa "Dia dos Avós" escrito no rodapé.
- Ahh... Hoje é Dia dos Avós? Parabéns!!
Eu nem sabia que isso existia. Deve ter sido inventado nesse ano. Ou então ninguém me avisou. Fiquei sem saber o que fazer. Comprava um ramo de flores? Fazia o almoço? Comprava-lhe um perfume? Não sabia quais eram as regras de conduta a adoptar em Dia de Avós. Na televisão, no entanto, a Júlia e a Cristina "do Goucha" estavam a vencer-me com tremenda distância e já tinham conquistado completamente o coração da minha avó. Júlia e Cristina - 1. Neta falhada - 30 negativos. Escusado será dizer, no entanto, que nunca mais me esqueci do dia. E hoje ainda não liguei, mas assim que estes dedos saírem deste computador, hão-de ir directos para o telemóvel carregar no número da minha avó. FELIZ DIA, 'VÓ!!

A minha avó materna não sabe bem quem é a Júlia. Nem conhecerá a Cristina. No outro dia, liguei a Tvi por acaso, só tive tempo de a ouvir comentar "ai tanto barulho", e mudei. Falavam ambas muito alto, segundo a minha avó. A minha avó materna não sabe que existe o Dia dos Avós. Sei disto, porque no tal ano liguei-lhe logo de seguida a gritar também "FELIZ DIA, AVÓOO!" e fui brindada com um "é em Fevereiro, querida".  Tive que explicar: "eu sei quando são os teus anos! Mas hoje é o Dia dos Avós". "Oh estão sempre a inventar coisas. Os nossos dias são sempre, não são só uma vez por ano. Eu penso em ti todos os dias e tu em mim, não é?". E calou-me. Mas não por muito tempo. Hoje posso não ligar-lhe - até porque sim, penso nela todos os dias, como penso na minha avó paterna -, mas fica aqui também registado para a posteridade: pensei em ti, avó.

Gosto de vocês, minhas octogenárias queridas, minha avó paterna e materna, minha avó T. e A., e gosto de vocês com ou sem Dia dos Avós. E, sim, penso em vocês todos os dias. Por mil e um motivos, mas essencialmente porque são uma inspiração para mim.

O meu Triângulo das Bermudas

Andavam a desaparecer-me coisas, misteriosamente. Primeiro, foram uns brincos que adorava. Eu não costumo usar brincos, por isso, quando gosto duns guardo-os religiosamente. Estes eram uns brincos pequeninos, em formato de estrela, com uns brilhantezinhos, e que supostamente iriam ser a minha estrela da sorte. E deram sorte. Pelo menos até ao dia em que desapareceram - dois ou três dias depois de os ter usado pela primeira vez. Depois, eram os Halls, os rebuçados, as pastilhas elásticas. Pegava num, "zaaau", caía-me das mãos e não via mais. Ficava apenas a salivar, estarrecida. Depois, eram as moedas. Cada vez que pegava numa moeda para pôr no parquímetro, ou para dar ao arrumador, ou para tomar um café... "adeus, moeda!". Depois, começaram a ser os ganchos do cabelo. Se me lembrava de me arranjar um bocadinho mais e colocar uns ganchos no cabelo, era certo e sabido que ia acabar o dia com menos um ou dois. Depois.... depois foi ontem.

Como andava a ficar farta de perder isto tudo, decidi meter mãos à obra. Prendi o cabelo, peguei numa esferográfica, liguei mentalmente a música do MacGyver e fui tentar tirar tudo o que tinha caído ali no carro, entre o banco do condutor e o separador dos bancos. Liguei a luz do carro, pus-me enfiada entre os bancos munida da minha esferográfica e preparava-me para recuperar o meu tesouro perdido.... quando a esferográfica caiu e nunca mais a vi. Ia jurar que senti uma força estranha a sugá-la. Ia jurar que não foi azelhice minha. Que há ali algo mais forte que eu, que nós, e que nem a mente humana pode perceber. Fiquei sem nada. E agora resta-me aguardar o dia em que comecem todos a sair deste estranho Triângulo das Bermudas. Tenho a forte convicção que estarão ali perdidas pessoas que nunca mais vi na vida, como a minha empregada, a D. Adélia, a Amy Winehouse, o Doido, o Elvis, o Matulão com cara de Nenuco, a Princesa Diana, e ainda alguns ex meus.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Onde é que vocês estavam?

Hoje quero contar-vos uma história. Uma história (não daquelas dos livros, mas bem real) que me foi contada a mim na primeira pessoa e que me inspirou. Uma história que me fez pensar em como o tempo é tantas vezes desperdiçado, e em como os sonhos são desaproveitados. Estou aqui hoje, mas onde é que poderia já estar? O que poderia já ser? Como tudo teria sido se nunca tivesse tido medo de sonhar...?

Hoje quero contar-vos uma história. Mas primeiro, quero que pensem para vocês mesmos: onde é que estavam quando tinham 20 ou 23 anos? Quais eram as vossas prioridades? Qual era a actividade que vos preenchia os dias: as saídas com os amigos?, o desporto?, os estudos?, as namoradas?... Pensem só uns breves segundos... Onde estavam? Pois na história que hoje quero contar, temos dois protagonistas, o Francisco e o Tomás, com 20 e 23 anos, cujos dias têm sido, desde há muito, maioritariamente passados não a sonhar com o futuro, mas a projectá-lo, a trabalhar na sua marca, a projectar a criação de uma empresa sua e a desenvolver um conceito. Nasceram em Oeiras e Caldas da Rainha, respectivamente, e desde cedo se iniciaram no mercado de trabalho. O seu percurso cruzou-se precisamente aí, porque trabalharam juntos – o Francisco era chefe tecnológico e o Tomás era sushiman numa rede de sushi -, quando uma oportunidade de trabalho os levou a mudarem-se para o Porto. Essa cidade (dizem) encantou-os, uniu os seus laços de amizade e intensificou a sua vontade de se lançarem no mercado. 

Passaram meses a conceber o seu projecto a que chamaram “Be Sushi”, e o perfeccionismo com que o fizeram revelou desde logo uma maturidade inesperada. O objectivo? Um serviço de catering, onde primariam pela qualidade do sushi. Não queriam, no entanto, tornar-se escravos de menus e combinações estanques, mas sim experimentar a liberdade da criação, traduzindo o apreço comum pela cozinha japonesa, que nunca descura a apresentação. Assim, começaram um longo percurso, trocando os serões descontraídos entre amigos por reuniões com investidores, fotógrafos, fornecedores, designers, contabilistas e muitas horas na internet, nomeadamente no Facebook a criar uma página. No fim de tudo isto, criaram receitas onde o peixe é a estrela principal. Contaram-me esta história, mas confesso que pensei "ok, é uma história bonita, mas são tão miúdos... o sushi será bom?". Até que experimentei. E não falei mais. A história teve para mim um final feliz: o momento que o sushi terminou todo este percurso e foi por mim provado. Estes miúdos vão longe. E não estou a escrever para arranjar comida de graça, nada disso. Nem são minha família, antes que perguntem. Estou a escrever simplesmente porque acredito nestes miúdos. E gosto de histórias como esta. Agora no Verão, podem provar um pouco desta história no Jim Beam Bar, em Vilamoura, onde têm um "Be Sushi Spot”. E digam-me depois de vossa justiça.

Caros adolescentes de hoje em dia...

Escrevo-vos para vos dizer que o mundo é vosso. Tão simples quanto isso. O mundo é vosso. Se antes nós tínhamos que viver com o relógio na mão, a marcar encontros com antecedência de dias e dias, a guiar-nos apenas pela nossa memória, vocês agora têm os amigos à distância de uma mensagem de telemóvel. Só nós tínhamos que tentar conquistar o nosso amor com olhares, sorrisos e conversa de meeeeseeeees (sabem o que é isso, sabem? sabem o que é um amor platónico? pois não sabem...), vocês agora só têm que enviar um "pedido de amizade" e está feito. Se antes nós tínhamos que nos meter tardes inteiras em bibliotecas a fazer trabalhos de grupo, enquanto tirávamos o pó a enciclopédias com dez toneladas, vocês têm agora toda a informação na palma da vossa mão. E, por fim, se nós tínhamos que ir para a praia muito timidamente, com bikinis feitos de materiais muito fininhos, a amaldiçoar o tamanho das maminhas, e cheias de medo a sair da água, não fosse o tecido molhado atraiçoar-nos e mostrar mais do que era suposto... vocês têm agora a Blanco!

Mas o que é aquilo, minha gente? Não, não estou a ser patrocinada (mas aceito patrocínios, Blanco!), mas entrei hoje numa loja da marca, à hora de almoço, e fiquei chocada. A minha irmã já me tinha avisado, mas eu não estava preparada. E fiquei positivamente chocada, diga-se. Bikinis lindos, baratos, bons materiais e .... txaaraan!... cheios de almofadas mágicas, todos push up, todos espectaculares. As adolescentes de hoje em dia vão ser tão mais felizes na praia que as da minha geração foram. E os adolescentes também, por arrasto. Sortudos, vocês todos. Caros adolescentes de hoje em dia... O mundo é mesmo vosso. Não vai ser meu, porque eu já não fui a tempo e não tinham tamanho "S". Sacanas...

A nova colega

Tenho uma nova colega. De minha parte, não houve logo empatia. Não me olhava nos olhos (e irritam-me um bocado pessoas que não olham logo nos olhos), não sorria muito e agia como se eu não existisse, mesmo quando passava por mim (um sorriso custava muito?). Fez-me apenas duas ou três perguntas muito formais, tratou-me por "você", mesmo sendo da minha idade e atirou-se para o trabalho sem mais. Pareceu-me um pouco fria e demasiado prática, apenas voltada para o trabalho e não para as pessoas, mas na altura pensei "menos mal. Esta vai ser daquela que não arranja chatices nenhumas, nem gosta de cusquices, porque vive no mundo dela." Até porque, pela minha experiência, as pessoas demasiado simpáticas e prestáveis ao primeiro contacto costumam revelar-se depois umas chatas do pior.

Passou uma semana. Duas semanas. Conversámos um dia enquanto tirávamos um café na máquina. Disse-me, já não sei a que propósito, que não tinha televisão em casa. E que ia casar-se, mas não percebia nada de moda e decoração, por isso ia ser um casamento muito simples e sem grandes floreados. No dia seguinte, aconteceu outra vez: enquanto tirava um café, lá apareceu. Contou-me como tinha conhecido o noivo, falou sobre os pais e sobre as férias. Quanto à televisão, disse-me ainda "prefiro ver um bom filme ou uma boa série. Ler o meu jornal. E ficar na varanda com o meu namorado a conversar e a beber um bom vinho". Começámos a conversar sobre música. Começámos a conversar sobre viagens. Conversámos até sobre vinhos, uma das paixões dela. E isto foi continuando.

Aos poucos, todos os dias, no final da manhã, acabámos por dar por nós sempre a conversar uns minutos. E no final do dia também. E acabei por gostar da maneira prática de estar dela. Da maneira descomplicada com que lida com tudo. Da forma apaixonada com que trabalha. No próximo Sábado vai casar-se. E eu não conheço o noivo, mas acredito que, se pensar como eu, vai ter para sempre uma lufada de fresco na vida dele e diferente de quase todas as mulheres que já conheci. Vai poder discutir carros. Vinhos. História. Política. Destinos a conhecer. E nunca vai ter que levar com séries de mulheres ou discussões sobre roupa. É daquelas mulheres que vive no seu mundo, não vive obcecada em fazer amigos, mas que se vê que, depois de os fazer, os mantém para a vida. Gosto da minha nova colega. E desejo-lhe um casamento realmente feliz.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Velha do Insta-Restelo-gram

A frase de abertura desse grande Livro resume tudo: "no princípio, era o Verbo". Pois de facto, parece que um certo dia, como culminar de toda uma evolução da espécie, os nossos antepassados começaram a caminhar apenas sobre os dois pés, e decidiram que era tempo de deixar de grunhir e começar a comunicar entre si com palavras. Parece também (e digo "parece", porque a verdade é que eu não estava lá...) que, um certo dia, alguns (muitos) pares de anos depois, os Chineses lá se lembraram de inventar algo a que chamaram "papel" exactamente para escrever essas palavras. "Temos papel, temos papel, já podemos esclevel!", lá terão comentado entre si. No entanto, reza a História que foi só no Egipto e na Mesopotâmia que acabou por se desenvolver a escrita propriamente dita. E ainda bem, porque, se assim não fosse, a esta hora podíamos estar aqui a falar entre nós em Chinês. Adiante...

Tudo isto para dizer que as tais palavras foram ganhando cada vez mais força. Escrever, escrever para manter as memórias registadas. Escrever a História, descrever as histórias. Mesmo com o desenvolvimento das tecnologias e das redes sociais, a tónica parecia estar sempre nas palavras: chats, Twitter, blogs, livros online, jornais, fóruns de discussão... E sempre a mesma preocupação: palavras, palavras, palavras. Quem dominasse as palavras, seria Rei e Senhor. Até ao dia. O dia em que se inventou o Instagram. Para quem não conhece o Instagram, eu explico em poucas palavras o que é e como funciona: o Instagram é o meio de comunicação por excelência das modelos da Victoria's Secret e das Rihannas deste mundo, onde, sem terem que escrever nada, partilham com o mundo fotografias perfeitas dos seus corpos perfeitos e vidas de sonho perfeitas em momentos igualmente perfeitos, espontâneos e belos.

E eu não estou com ciúmes. Nada disso. Ciúmes, eu? Ahaha. Nada. Elas nem são nada de especial. A sério que não... Só um bocadinho perfeitas demais, pronto. Mas não tenho ciúmes nenhuns, repito. Simplesmente parece-me que, em nome dos nossos antepassados que se esforçaram por deixar de grunhir e passar a falar; em nome dos Chineses que perderam horas a inventar o papel; em nome dos Egípcios que inventaram o papiro; em nome dos monges copistas; e em nome dos monges budistas e dos outros monges todos que não conheço, mas se dedicavam à escrita; em nome de todos os escritores; em nome dos Professores de Português e de todas as línguas faladas no mundo; em nome de __________ (completar com outras pessoas importantes que se lembrem, porque agora está-me a dar a preguiça)... em nome destes todos, penso que devíamos obrigar os tais utilizadores perfeitos do Instagram a escrever um textinho com pelo menos 1000 caracteres e sem erros. Vão ser perfeitos, cheios de fotografias perfeitas e vidas perfeitas, mas com trabalho de escrita antes, ok? Vamos ver se mantêm essas caras e corpos photoshopados depois de estarem uma hora em frente ao computador e ao dicionário... Muahahah.

Algodão doce sem calorias? Eu conto tudo.

Nunca tive o (saudável) hábito de ouvir maioritariamente música em português. À excepção de uma ou outra banda, sempre fiz parte do grupo de pessoas que preferia ouvir cantar em inglês, por causa da sonoridade, porque era mais melódico, ou simplesmente porque sim, porque gostava mais. Assim, apesar de ter crescido com o Sérgio Godinho e Os Amigos do Gaspar (aqueles bemóis e sustenidos são inconfundíveis, não são?), apesar de ter dançado alguns slows ao som da Lua do Pedro Abrunhosa, apesar de ter saltado para os ombros de amigos em concertos dos Delfins, ter até olhado a Serra do Pilar ao som do Porto Sentido, apesar de me ter emocionado ao som d'Aquele Inverno ou de ter até tocado mil vezes o Barco Negro no bandolim (fica para outra história), a verdade é que a música em português foi ficando para trás, juntamente com todas estas recordações. Há muitos anos que a minha playlist só tinha músicas em inglês.

Até que, recentemente, comecei a redescobrir o que é cantado na nossa língua. E sei que as rádios contribuíram fortemente para isso. Comecei a ouvir bandas novas e músicos novos com qualidade, vozes cheias de garra, letras que me faziam querer ouvir a música outra vez, e outra vez, e deparei-me com uma musicalidade nova, a reinterpretar o conceito de portugalidade. Assim, fui descobrindo, nos últimos anos, bandas que cantam em português e que me fizeram querer ouvir outra vez, e outra, sem me cansar. Bandas como os Paus, os Salto, os Trêsporcento, os Ciclo Preparatório, e músicos como o B Fachada e a Márcia (adoro a voz dela e a forma como pronuncia as palavras, cheia de "t"s), entre tantos, tantos outros... E descobri também uma voz de algodão doce, daquelas vozes que preenchem todos os espaços da música mesmo quando já não estão a cantar, tal como o sabor do algodão nos fica na boca horas depois de o acabarmos. Descobri que se chamava António Zambujo e acho que ando um bocado viciada na voz dele... Nada como matar as saudades do sabor do algodão doce, mas sem as calorias, certo? E vocês, o que têm ouvido em português?

terça-feira, 23 de julho de 2013

Quatro dias

Quatro dias. Menos dias que os dedos de uma mão. São os dias que faltam para meter as malas ao carro e rumar de férias. Desta vez, duas novidades: no carro terá que ir também a minha cadela, que não tinha com quem ficar, e ainda roupa de desporto. O professor do ginásio arranjou-me um plano para as férias e prometi cumpri-lo. Depois de ter feito nova avaliação física, há dias, e de ter melhorado pouca alguma coisa face à anterior, chegámos à conclusão que era necessário delinear um plano mais puxado desta vez. A verdade é que andava a facilitar muito, ia para o tapete correr sempre à mesma velocidade, sem alterações (corria a 8,8kms, nunca mais rápido), e os meses iam passando sem melhorias. Desta vez, o professor disse que não ia ter pena de mim e que, se queria correr a sério, ia fazer um plano para correr os 10kms num tempo "aceitável". "O tempo que fazes é aceitável, mas apenas para alguém iniciante", disse de forma simpática. Por isso, a ideia é correr duas ou três vezes por semana, nas férias, e fazer também uns exercícios localizados. "E é para fazer mesmo, não é como aqui, que às vezes estás a olhar para a televisão e não estás a levar isto a sério". Fui apanhada a espreitar a Fox Life enquanto estava no tapete a fingir que fazia abdominais...

No meio disto tudo, o difícil vai ser ter companhia para além da cadela. Para já, o meu plano está mais ou menos traçado. A parte um do plano consiste em comentar com ele que está um pouco mais gordinho, mesmo que esteja igual a sempre (e por acaso está...). A parte dois consiste em comentar os calções curtinhos de corrida que comprei: "São mesmo curtos. Achas que tem mal ir correr com uns calções tão curtos?" A parte três passará por colocar à socapa equipamento desportivo, na mala do carro, para os dois. A parte quatro do plano passará por encher o computador de música para depois passarmos para os telemóveis. A parte cinco será a parte final do plano, em que me equipo lá nas férias e digo "sinto-me tão sozinha e desprotegida... A correr sozinha, com estes calções tão curtinhos... Se ao menos pudesses vir correr comigo". Ele vai dizer "eu ia já contigo para te proteger e acompanhar, mas não trouxe nada para correr!!". Nesse momento, eu remato: "que não seja por isso, trouxe eu coisas para correres", voilà!! Espero com isto arranjar companhia para uma corridinha pelo menos duas vezes por semana. Depois, é deitar de papo para o ar e descansar muito, conhecer sítios novos, comer bastante... E fazer tudo aquilo a que se tem direito em férias. Quatro dias. Nem quero acreditar...

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Até amanhã. Mudaste a minha vida.

Já não falávamos há anos. Até que há dias, não sei bem como, voltámos a conversar. Pusemos a conversa em dia, tão em dia como é possível uma conversa ficar em apenas quinze minutos. Casaste? Não casaste? Tens filhos? Não tens filhos? Trabalhas? O que fazes? Gostas? Não gostas? Amigos? Voltaste a ver o X? E a Y? E a Z? És feliz? O que mudavas? Em quinze minutos, fizemos ali um apanhado geral de tudo, como se todos os anos da nossa vida afinal fossem grãos de areia que se seguram entre duas palmas das mãos. No final dos quinze minutos, olhei para o relógio e disse-lhe que tinha que ir. Íamos ver um filme para acabar o fim-de-semana em beleza.
- Gostei muito de falar contigo. E de saber que estás bem.
- Também eu. Até amanhã. É verdade: mudaste a minha vida, sabias?
- Mudei a tua vida?
- Sim, aquilo que sou hoje devo-te a ti.
- Explica-me melhor isso...
- Numa próxima conversa. Um bom contador de histórias prende a atenção do seu público. E não revela tudo duma vez. Além disso, tens um filme para ver.
- Pois tenho. Mas conseguiste prender a minha atenção.
- Para a próxima. A vida não se conta toda em quinze minutos. Muito menos as reviravoltas que ela dá.

Fiquei curiosa. Passei o dia a magicar nisto. Como é que poderei ter mudado a vida de alguém? Alguém que, ainda por cima, nunca foi muito próximo. Alguém de quem, ainda por cima, perdi o contacto há muito, muito tempo. Será que a teoria do efeito borboleta afinal é real? Será que podemos, com um simples "olá", mudar a vida de alguém?... Fiquei mesmo curiosa, que nervos...

Não sou a única habitante da Distraílandia.

Chego ontem ao ginásio. Passo o cartão. Cumprimento a funcionária que lá está atrás do balcão.
- Boa tarde!
- Olá! Tudo bem? Olhe, não leve a mal o que vou dizer, mas hoje não se esqueça de sair a horas, ok?
- Desculpe?
- ... De sair a horas. Tem saído sempre um bocado depois da hora, não é?
- Não... Deve estar a confundir-me.
- Não estou. Não é a menina que fica sempre depois de o ginásio fechar?
- Não... Não costumo ficar até tão tarde.
- Não foi a si que ainda ontem foram chamar ao balneário, porque já passavam dez minutos da meia-noite e queriam fechar?
- Não... Não sou assim tão dedicada ao ginásio.
A meio deste questionário policial, prendo o cabelo num rabo-de-cavalo e pouso as chaves do carro em cima do balcão. Ora, as minha chaves do carro têm um porta-chaves com um cão pendurado e não são - digamos assim - muito discretas. Reparo que a funcionária se cala uns segundos e fica a observar o porta-chaves.

- Oh. A menina é a 'menina do cãozinho', afinal!
- 'Menina do cãozinho'?
- Sim. Pousa sempre o cãozinho enquanto passa o cartão, não é?
- É... ando sempre com o porta-chaves.
- Ah desculpe. Tem toda a razão: a 'menina dos atrasos' é outra. Estava a confundir. Têm o cabelo parecido, mas quando o prendeu percebi que me enganei.
- Então não me diga que arranjou alcunhas para todas?
- Quase todas. Há a 'menina do baton vermelho'. A 'menina da base' - porque vem sempre muito castanha, está a imaginar?. A 'menina das toalhas' - pede sempre duas e transpira muito. A 'menina dos saltinhos' - anda aos saltos, muito engraçada, sabe? A 'menina'... Sei lá, são tantas. Eu tenho tempo livre e então arranjo estes nomes para decorar toda a gente.
- Então e eu sou a do cãozinho. Muito bem. De qualquer maneira, prefiro ser essa a ser a 'dos atrasos'.
- Pois. Desculpe. Não a troco mais. Sou um bocado distraída.

É distraída, sim. Mas suspirei de alívio. Não sou a única. Afinal, a Distraílandia tem mais habitantes. Uns querem lavar o carro com a máquina ao contrário. Outros abordam as pessoas erradas. Quantos haverá ainda mais por aí?

O pacto

Foi ele que teve a ideia, numa noite sem sono, mas cheia de sonhos. Daquelas noites cheias de conversas. E muitas promessas. Estavam sentados no muro junto à praia, depois duma festa que acabara há muito, a olhar o mar e os desenhos que o reflexo da lua fazia nas ondas. Depois de uns segundos de introspecção, olhou para ela com cara de quem teve um golpe de génio e disse:
- Se estivermos sozinhos aos trinta anos juntamos os trapinhos, ok?
Ela riu-se. Aos trinta anos? Faltava mais duma década ainda. Seria noutra vida! Mas davam-se bem, por isso até fazia sentido.
- Combinado! Tenho é duas regras para ti: não podes engordar. E tens que ter uma boa profissão, porque eu não vou casar-me para sustentar um falhado.
- É justo. E então eu exijo o mesmo, não vá tornares-te uma obesa irreconhecível.
E falaram então sobre como seria a vida deles daí a tantos anos. Imaginaram casas grandes, com música clássica a dar de fundo. Empregadas a limpar todos os cantos. Grandes carros na garagem. Empregos de sonho. Imaginaram-se adultos e responsáveis.
- Mas não tenho pressa nenhuma de ter trinta. Estamos tão bem assim, não estamos?, dizia ele.

Estavam. Estavam realmente óptimos assim como estavam. Mas o tempo não pára. Doze anos vieram, passaram por eles e levaram-nos até aos trinta num piscar de olhos. E eu lembrei-me disto ontem, ao ver um pacto semelhante num filme. Porque o pacto descrito foi o "meu pacto", feito em Agosto de outra vida, numas férias passadas na mesma praia de sempre. Nunca mais me tinha lembrado disto até ontem. Mas a outra década afinal passou, e bem rápido. Sou adulta. Mesmo que ainda continue tantas vezes sem sono. Só sonhos. E a pedir conversas, e promessas, na esperança de impedir que, enquanto pisco novamente os olhos, doze anos me levem. Sou adulta. Aquela vida com que brincávamos afinal chegou. Sem necessidade de recorrer a pactos, porque não estou sozinha, estou bem acompanhada e feliz, - e assim está também ele. De qualquer maneira, ao lembrar-me disso, não pude deixar de reparar num pormenor engraçado: a brincar, a brincar, a verdade é que até cumprimos parte do pacto, pois nenhum engordou e temos profissões aceitáveis. Será que ele ainda se lembra...?

domingo, 21 de julho de 2013

Continua. Não pares nunca de falar.

Crescemos a pensar em beleza. A sonhar com o príncipe mais bonito. Com os filhos mais perfeitos. Com a casa branca dos filmes. Idealizamos o carro perfeito. Esticamos as rugas. Aspiramos as gorduras. Espetamos silicone para obter o decote perfeito. Hidratamos a pele. Perfumamos o pescoço. Esticamos o cabelo. Pintamos as unhas. Compramos os sapatos que toda a mulher tem que ter. Namoramos a carteira obrigatória. Transpiramos até os glúteos ficarem no ponto. Ficamos em prancha até os braços e barriga se tornarem tonificados. Gastamos o ordenado na roupa da estacão. Pomos um gloss nos lábios para os tornar sedutores. Lutamos pelo belo. Queremos ser bonitos. Queremos ter o mais bonito. Numa vida que será recordada em mil e um retratos. Partilhada. Gostada. Comentada. E partilhada outra vez. Uma vida feita para ser vivida, mas acima de tudo para ser vista. Observada de fora da sua moldura. Crescemos a pensar na beleza.

Até que temos 80 anos. E um. E dois. E três. E tudo nos parece, de repente, leviano. Hoje, perguntava à minha avó - viúva há mais anos do que o meu coração quer admitir - "o que tem que ter um homem para ser perfeito?". Disse-me apenas "conversar. Tem que saber conversar. E rir-se muito comigo". E nada mais acrescentou. Beleza? Afinal, parece que procuramos beleza em tanto lado que nos esquecemos de procurar no mais simples - nas palavras. Não paremos de falar.

sábado, 20 de julho de 2013

O calor. Deve ser o calor.

O calor tem que ser a resposta. Ou o desejo de praia. O desejo de Sol. Mar. De ter apenas um bikini no corpo. O desejo de férias. Tudo isto tem que ser a resposta. De outro modo, como justificar que um email de trabalho recebido termine com "despimo-nos atenciosamente"?...

É o calor. Tem que ser o calor. Mas obrigada pelo toque exótico dado ao formalismo de todo o email. Vou lembrar-me desta desp(ed)ida atenciosa durante muito tempo.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Novas regras de engate

Ontem, depois de pôr gasóleo - e ainda mal refeita da minha última aventura envolvendo quatro rodas, já contada aqui - fui pagar dentro da "loja". Não sei se é do tempo incerto, ora quente ora frio, não sei se é da aproximação das férias, mas o que é certo é que ando um bocado distraída, nos últimos dias, um bocado cabeça no ar. Pois então estava eu com o cartão multibanco no ar, à espera de ser atendida, entretida com os meus pensamentos, quando o rapaz me chama:
- Boa tarde! O que era?
- 20 euros de gasóleo na bomba três, por favor.
- Já pôs?
- Sim.
- Quer factura?
- Quero, se faz favor.
- Número de contribuinte?
- xxx
- Nome?
- xxx
- Morada?
- xxx
- Número de telemóvel?
- Desculpe? Agora é preciso?
- É.
- Para a Autoridade Tributária?
- Não. Para mim. Se não, como é que lhe ligo?
- Oh...
- Desculpe, menina. O meu horóscopo desta semana dizia para arriscar. Olhe... tentei.

Saí de lá a rir-me sozinha. Não aprendi novas regras fiscais, mas aprendi novas regras de engate: arriscar, arriscar. E, já agora, seguir o horóscopo. Ora deixem-me lá ver o meu... ;)

Hoje não é o dia.

Tenho um amigo que é o meu oposto. Consegue ser constantemente feliz, sem problemas ou dúvidas existenciais. Consegue ver beleza em todo o lado. Consegue apaixonar-se todas as semanas. Consegue achar toda a gente espectacular. Para ele, toda as pessoas são demais. Todos são divertidos e interessantes. O meu amigo consegue encontrar a perfeição para onde quer que se vire. Consegue entregar-se de corpo e alma. Consegue entrar num sítio e fazer amigos para a vida. Consegue ser consensual ao ponto de ser também adorado por todos, sejam gregos ou troianos. Este meu amigo consegue rir-se com vontade e fazer rir os outros a todo o momento. Consegue iluminar uma sala com a boa-disposição. Consegue prometer amor eterno como quem diz que amanhã vai estar sol. Consegue desenhar uma vida a dois enquanto outros ainda ganham coragem para o primeiro "olá". Este meu amigo tem muitas, mas muitas características que eu gostava de ter de vez em quando. Gostava de conseguir ver beleza em todo o lado. Continuar a fazer amigos para a vida mesmo aos trinta. Agradar a gregos e troianos. Rir-me às gargalhadas com vontade perante qualquer piada. Iluminar qualquer lugar com a minha alegria. Mas entre mim e os outros há uma timidez que levantou muros. E estes muros não são fáceis de derrubar em dois minutos. E há o trabalho que nos vai sugando a espontaneidade. Há a responsabilidade que vai pesando nos ombros. Horários a cumprir. Por isso, às vezes, gostava de ser o meu amigo por um dia. E viver esse dia sem muros. Sem medos. A fazer amigos em todo o lado, de sorriso de orelha a orelha, a ser capaz de abraçar alguém ao fim de cinco minutos, enquanto se jura amizade eterna. Por um dia, gostava de esquecer o relógio, as responsabilidades, a agenda, guardar o computador e os livros em casa, e pegar apenas na minha prancha de surf. Por um dia, gostava de me esquecer de tudo e rumar à praia, para passar horas apenas entre o mar, o sol, muitos risos, música e uns copos de vinho para finalizar. Hoje não vai ser o dia.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Foi já há três anos...

Começou logo em pequenina. "Não podemos ter um cãozinho?". Não, senhor, não podíamos, explicavam-me os meus pais. Porque um cão precisava de um jardim muito grande. Porque um cão precisava que houvesse sempre alguém para brincar com ele. Porque um cão dava muito trabalho. Porque um cão ficava muito caro. Porque um cão fazia sofrer depois os donos que se afeiçoavam a ele.
- Sabes o cão da X? Detectaram-lhe um tumor, teve que ser operado e a operação foi um balúrdio.
- Sabes o cão do Y? De cada vez que vai ao veterinário são não sei quantos euros só de consulta de rotina.
- Sabes a Z? Sofreu tanto quando o cão morreu que nunca mais quis outro.
- Sabes....?
Não sabia, mas faziam questão que soubesse. Só que o que eles não sabiam também é que todas aquelas histórias dramáticas me faziam querer ainda mais ter um cão. Todas aquelas histórias me aguçavam ainda mais o apetite. E faziam-me sonhar com o fruto proibido. Afinal de contas, como é que algo tão fofo podia ser tão mau? E, além do mais, se era tão mau, porque é que toda a gente tinha cães? Na ausência de autorização para a aquisição canina, cheguei a comprar hamsters, mas não era a mesma coisa. Cheguei a levar para casa um gatinho persa cor de mel lindo... mas não era igual. Eu queria mesmo era um cão. Desde sempre.

Assim, quando finalmente tinha reunido todas as condições - horário mais ou menos certo, salário fixo, independência e ainda por cima a trabalhar perto de casa -, tomei a tão aguardada decisão. A raça já sabia (fox terrier de pelo de arame), mas decidi ler primeiro na internet se se adequava a um apartamento e ao meu estilo de vida. Depois, fui procurar criadores no país. E procurar referências sobre eles. Quando finalmente encontrei um que me pareceu apropriado, liguei-lhe. Liguei-lhe e estivemos logo quase uma hora a conversar, o que me fez logo perceber que estava perante um apaixonado pela raça. Por sorte, a cadela dele tinha acabado de ter uma ninhada (faz agora três anos) e podia visitá-los quando quisesse. Assim fiz. Viajei uma hora para os conhecer. E começou o enamoramento. Desde esse dia até ao dia em que a trouxe depois para casa passaram ainda dois longos e difíceis meses. Finalmente, no fim do Verão, em meados de Setembro, lá a fui buscar.
- Já sabe qual é a escolhida?
- Já! É aquela que lhe tinha dito.
- Ok. A mais maluca, não é?
- Sim...
- Por acaso pensei que fosse escolher a outra mais calminha. Esta vomitou quando aqui veio, não foi?
- Foi. Veio ter comigo muito fofinha, deu-me umas lambidelas, mas depois virou costas, toda independente, e pôs-se a comer as flores do canteiro. Até que teve vomitar tudo. Mas achei-lhe piada assim: cheia de personalidade e meia maluca.
- Lá isso é verdade. Destaca-se dos outros. É a que tem mais energia.
E assim foi. A maluca continuou cheia de personalidade, muito independente, muito destemida, muito maria-rapaz. Mas com um lado muito fofinho e carente, principalmente quando estou mais tempo fora de casa. Anda sempre sempre atrás de mim e tornou-se, quase três anos depois, parte da família. E os meus pais? Já perceberam que não é preciso grande jardim, mas apenas muito amor. Já perceberam que não temos que estar sempre com ela, pois o mais importante é o tempo de qualidade, é o tempo das brincadeiras e actividade física. Já perceberam que afinal não dá tanto trabalho assim. E já perceberam que os tais balúrdios gastos no veterinário eram exagerados. Arriscaria até a dizer que, neste momento, rezam já pelo dia em que vou de férias só para poderem ficar com ela. Sim, com o tal fruto proibido de outros tempos...
Caros "avós": não se preocupem, porque já falta pouco para eu ir de férias e
ficarem em modo "petsitting". Admitam lá que me adoram...

Não sou loira

... Mas também tenho os meus momentos de distraída. Lembram-se de uma vez ter falado sobre o carro ser o espelho de quem o conduz? Pois ultimamente, a ser verdade que o nosso carro nos reflecte, eu andava nas ruas da amargura, porque o meu carro tinha-se tornado o carro mais sujo das ruas do país. Não sei que raio de árvores são aquelas que existem ao pé de minha casa, mas sempre que chega a Primavera, começam a deitar uma espécie de resina, uma cola que sai das folhas directamente para os nossos carros. E eu, que nem sempre deixo o carro na garagem, fui a maior vítima dessas folhas peganhentas, pois a dada altura já praticamente não conseguia conduzir, tal era a opacidade do espelho da frente. O meu carro andava nojento e - a toda a gente que lá entrou nestas condições - "desculpem! vocês mereciam melhor!".

Esta semana decidi ir lavá-lo. Não podia continuar a adiar. Fui a uma bomba de gasolina onde nunca tinha ido, mas que era perto de casa, apresentei o cartão com uma lavagem grátis e preparava-me para dar as chaves. A verdade é que toda a vida fui ao mesmo sítio lavar o carro e dava-lhes a chave mal chegava, nunca tive que levar eu o carro para a "máquina". Desta vez, porém, o senhor disse-me apenas "nós aqui não temos ninguém para lavar os carros ou passar um pano no fim, desculpe. Estamos com falta de pessoal. Têm que ser vocês a pôr o carro, e é só lavagem de máquina, não temos ninguém a tratar disso. Prefere ir a outro sítio?" Disse que não, que podia ser mesmo assim. Já que ali estava, queria despachar tudo.

Meti-me no carro e entrei na máquina. Andei, andei, andei. Estranhei a luz nunca mais ficar vermelha. Até que vi, pelo retrovisor, algo vermelho. "Que estranho - pensei. - A luz aparecer atrás não dá jeito nenhum... Muita gente nem deve ver". Parei o carro. Saí. Fui procurar o sítio onde teria que encaixar o cartão para iniciar a lavagem. Não encontrava. Decidi pedir ajuda ao senhor que me tinha atendido.
- Desculpe, pode dizer-me onde ponho o cartão para iniciar a lavagem?
- Com certeza. Venha comigo.
...
- É aqui, vê?
- Ahh.... obrigada! Eu estava a procurar do outro lado.
- Do outro lado é a saída. O cartão coloca-se aqui na entrada.
- A saída....?
Nisto, ele olha para o meu carro. Arregala os olhos. Desata-se a rir.
- Oh menina. Oh menina... Isto nunca vi.
- Nunca viu o quê?
- Um carro ao contrário. É a primeira vez.
- Ao contrário?
- Sim... Tinha que entrar por este lado. Entrou pela saída. Como é que conseguiu? É a primeira vez que vejo isto.
E ria-se. Ria-se com vontade. Enquanto isso, eu só queria um buraquinho para me esconder.
- Desculpe, não reparei. Devia estar distraída.
E ele sem parar de rir.

Fui distraída, sim. E estava para morrer de vergonha. Mas querem saber a consequência disto? Quando dei por ela, o dito senhor estava a oferecer-me outros extra que não estavam incluídos na minha lavagem. Estava a passar-me uma cera qualquer no carro. Estava a pôr o carro num mimo sem eu ter pedido nada. Vim para casa a pensar "será que o conceito de loira distraída é isto? É ter, de repente, todos os homens a fazerem-nos as vontades? É ter, de repente, todos os homens com o instinto protector accionado a tentar proteger-nos de todos os males e ajudarem-nos em tudo?". Espertinhas, as loiras distraídas. É que, se for sempre assim, o mundo é delas...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Os meus vizinhos têm mais imaginação que os teus.

Ontem à noite, enquanto passeava a minha cadela, deparei-me com esta pequena bandeira hasteada no jardim. Aproximei-me e quis logo ler, cheia de curiosidade... O que tinha escrito? Estes dizeres que agora vos mostro. Em baixo? Escusado será dizer o que tinha junto à bandeira: um presente deixado por algum cão cujo dono mais distraído se esqueceu de apanhar.

E adorei. Haja originalidade. Pode haver indignação, mas pelo menos que seja demonstrada com originalidade e sensatez. A minha cadela - pelo que me foi dado a entender até ao momento -, não sabe ler. Nem tão-pouco saberão os outros cães. Mas pelo menos nós, os seus donos, estaremos aqui para ler esta mensagem deixada por algum vizinho atento. Estaremos aqui para zelar pelo jardim de todos. E estaremos aqui para fazer com a que a mensagem chegue ao seu destino - os nossos cães, claro - impedindo-os de poluir o jardim.

A propósito do "normal" de ontem.

A propósito deste post - e apesar do tom mais descontraído do mesmo -, a verdade é que ontem fui para casa, no final do dia, ainda a pensar nisto. Algo dentro de mim ficou a remoer algum tempo e não havia maneira de me livrar daquilo. Uma irritaçãozinha permanente. Uma revoltazinha que ia dando uns sinais de si. Primeiro, não percebi por que estava assim. Depois, parei para pensar um pouco e finalmente fez-se luz. Crescemos a ouvir falar em mil e uma doenças, e em mil e duas formas de as prevenir e detectar atempadamente. Crescemos a ouvir falar em hábitos de vida saudáveis, e na necessidade de combater a vida sedentária com desporto e actividade. Crescemos a ouvir falar em cuidados a ter com a alimentação. Crescemos alertas para o nosso corpo e para o protegermos. E julgo que, por isso, é natural que, ao mínimo sinal, sintamos o apelo de consultar um médico. Fi-lo quando senti, certo dia, algo mais duro numa mama. Fi-lo quando senti, certo dia, que estava a ver pior. Fi-lo quando senti, certo dia, que me custava respirar ao fim de dez metros a correr. Fi-lo quando reparei, certo dia, que o joelho esquerdo estava instável. Fi-lo quando senti, certo dia, que andava com menos energia que o normal. E fi-lo todos os anos, em mil e outros contextos. E foi assim que soube, na maior parte das vezes - e para minha alegria -, que afinal estava "tudo bem" e não tinha com que me preocupar. Mas foi também assim que descobri que tinha asma. E foi também assim que descobri há uns anos que estava com uma anemia em ferro. Por isso, ainda bem que fui a todas essas consultas.

Não me considero hipocondríaca, ao contrário da brincadeira do título de ontem. Apenas gosto de estar alerta a todos os sinais. E, sinceramente, se marco uma consulta, se saio do trabalho a meio do dia para ir lá (porque é a disponibilidade que têm), se a pago, e se me exponho ao médico a contar aquilo que sinto, espero no mínimo que me oiça até ao fim. São só dois minutos. Não espero uma medalha de mérito - "parabéns! é um exemplo. vai levar esta medalha por confiar nos médicos e preocupar-se com a saúde!". Não espero uma palmadinha nas costas. Não espero uma banda filarmónica à saída da consulta e a TVI a entrevistar-me para uma reportagem sobre mulheres conscientes da sua saúde. Não... Só peço mesmo é que o médico me oiça até ao fim. Finja pelo menos que me está a ouvir. Respeite o meu relato. Não sou médica e por isso estou a pedir-lhe uma opinião a ele. Estou a confiar nele enquanto profissional especializado. Ontem, isso não aconteceu. Perante uma dúvida séria que tinha, o médico interrompeu-me bruscamente, a sorrir de forma benevolente - "isso é normal!". Pedi-lhe para terminar a minha frase. "Não, acredite, isso é normal", acrescentou-me em tom de fim de conversa.

Acredito que seja normal. Mas podia pelo menos ter-me ouvido até ao fim. As consultas são caras. Não sou uma boa samaritana que decidiu ir ali deixar algum dinheiro, porque não tinha outro destino para lhe dar. E acreditem que havia muitos destinos. O dinheiro que ali deixei já dava para os saldos ali ao lado da Clínica. O que eu tinha podia ser normal. E ainda bem que era. A revolta foi pelo modo condescendente e apressado com que fui tratada. E que julgo que pode afastar muitos pacientes dos médicos. A mim não me afasta, porque felizmente já tive médicos óptimos. Mas acredito que, para muitos, uma consulta destas tê-los-ia afastado das clínicas e hospitais uns bons anos... talvez até ser tarde demais.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Sabemos que estamos a ficar hipocondríacos quando...

... A frase mais repetida pelo médico, durante a consulta, é: "isso é normal". Sim, ouvi "isso é normal" mais de dez vezes. Para a próxima ligo só à minha mãe e pronto. Sempre fica mais barato que os 45€ que paguei. Já não ouvia tantas vezes "normal" como quando fui à oftalmologista, a achar que tinha que usar óculos. Ou ao dermatologista confirmar se não tinha sinais altamente perigosos. "Normal". Sou "normal". Tudo "normal". Assim continue.

Bicho mau

- Ela é gira, não é?
- Gira? Maquilha-se demais. O telemóvel até fica manchado, depois de ela falar. Hás-de reparar.
- Que exagero. Admite pelo menos que tem um cabelo mesmo bonito.
- É pintado! Pudera...
- Oh... mas tem um corpo espectacular!
- Estás maluco? É gorda. Olha para aquele rabo.
- Implicaste mesmo com ela.
- Não posso com ela. Tem a mania que é tia.

Do lado oposto:
- Ele tem pinta, não tem?
- Pinta? Só se for de metrossexual.
- Metrossexual? Arranja-se tão bem. Sempre impecável.
- Não acho. Arranja-se demais. Passou a fronteira entre o bom gosto e o exagero.
- Pelo menos admite lá que ele é de rir e tem imensa piada.
- Nem por isso... É puto. É infantil. Só manda piadas de puto.

Odiavam-se, para todos os efeitos. Queriam atribuir-se mutuamente defeitos à força toda. Mas o que ninguém sabia é que ele queria arranjar-lhe defeitos, porque ela mexia demasiado com ele. E porque sabia que não era caso único: quando ela passava, todos os homens se calavam, instintivamente, como que numa homenagem solene àquele menear lento de anca. E então ele falava para não sucumbir àquele efeito hipnotizante que ela parecia ter sobre os homens. E mandava piadas até o coração acalmar o ritmo. No caso oposto, também ela queria encontrar falhas no menino querido do sítio. E queria encontrar defeitos, porque era unânime que, quando ele falava, todo o mulherio desatava a enrolar o cabelo devagarinho e a sorrir em jeito tímido, enquanto o ouvia. Aquilo irritava-a. Não queria ser mais uma, por isso decidiu-se que havia de proclamar os seus defeitos ao mulherio que a abordasse. Um dia, saíram os dois ao mesmo tempo e encontraram-se apenas os dois no elevador. A descer um, e outro, e outro andar.
- Olá!
- Olá!
- Deviam pagar-nos as horas extra. Às horas a que saímos...
- É verdade... E ainda tenho que ir às compras. Quero ver se ainda apanho o supermercado aberto.
- Também eu.
- Tenho o frigorífico vazio.
- Somos dois.
- ...
- E se fôssemos então aqui ao lado jantar? Assim ninguém vai para casa cozinhar hoje. Eu sei que não nos pagam horas extra, mas...
- Hmm... Realmente já passei ali mil vezes e nunca entrei. Estou sempre a adiar.
- Vai ser hoje o dia. Vamos? Acho que merecemos não cozinhar hoje.
- Tens razão. Vamos lá.

No dia seguinte, ninguém estranhou o colarinho dele estar ligeiramente mais escuro que o normal. E ninguém estranhou o facto de ela ter passado a manhã a sorrir. Ela podia maquilhar-se demasiado. Não ser loira verdadeira. E ter pronúncia de tia. Mas era a mulher mais bonita que ele já tinha visto. E os defeitos que tentava encontrar eram defesas que encontrava para não admitir a si mesmo o que sentia. Já ele podia usar botões de punho sempre novos, a estrear, impecavelmente a condizer com a gravata. Podia ter um lado mais descontraído que os outros. Mas era o homem mais bem-vestido e divertido que ela já tinha visto. E o difícil ia ser explicar a toda a gente que andavam juntos, às escondidas, há meses. E que os ciúmes eram um bicho mau. Um bicho bem difícil de domar.

As noivas e as grávidas são sempre bonitas

É uma frase que muitas vezes repetimos: "que noiva bonita!!", "que grávida tão bonita!!". E repetimos tantas vezes que se tornou praticamente uma regra inviolável as noivas e as grávidas serem sempre assim - radiantes, bonitas, com uma aura especial. Mas será que o que as faz bonitas não é, afinal, a importância e solenidade que atribuímos ao dia do casamento e ao estado de graça? Será que o que as faz bonitas não é a felicidade que nós associamos a ambas? Será que não somos nós que nos cobrimos com um manto de felicidade e beleza que impede os nossos olhos de filtrarem a realidade, tal como ela é? E será que não é esse manto que nos faz ver uma Heidi Klum mesmo que seja afinal uma Fanny, só porque está vestida de branco, com véu e grinalda, ou só porque está à espera de um bebé?

Há tempos, tive um casamento de uma pessoa que não conhecia bem. Deixei o tal manto em casa, porque só o costumo usar junto dos mais próximos e queridos. E, pela primeira vez, não me emocionei com a cerimónia da igreja. Não me emocionei ao ver a noiva. Analisei tudo friamente. A maquilhagem. O cabelo. O vestido. Os sorrisos. Até o beijo. Analisei o penteado. E critiquei mentalmente. Até que me auto-censurei. "Estás numa igreja, por amor de Deus! Deixa que o Amor e a Bondade se apoderem de ti. Vá, olha para tudo com bondade. Com carinho. Sem julgamentos. Sem críticas". Olhei para as figuras de anjos desenhadas ao meu lado. Tentei sorrir do mesmo modo sereno e bondoso deles. Um sorriso angelical e sem julgamentos. Mas algo dentro de mim não obedecia àquelas ordens e continuava em modo crítico. Estava a tornar-me num monstro incontrolável. Entretanto, a missa acabou. Saímos. Eu estava decidida a adorar tudo e a controlar os meus pensamentos.
- Viste a X?
- Quem?
- A X... a mulher do Y.
- Vi! Está uma grávida tão gira, não está?
- Gira? Parece que engoliu a família inteira. Está gigante. Irreconhecível.
- Está nada. As grávidas são sempre giras. Têm um brilho especial.
- Pois... pois... Também dizias que as noivas também...

Definitivamente tínhamos os dois deixado o manto da felicidade e beleza em casa. E, de repente, sentia-me nua. Sem as minhas emoções. Sem a pele de galinha que sinto sempre ao ver o primeiro beijo dos noivos. Sem o nó na garganta que sinto sempre que vejo uma noiva entrar na igreja. Sem as lágrimas teimosas que aparecem sempre que vejo noivos cortarem o bolo. Desta vez não tinha nada disso. E, sinceramente, não gostei de não sentir esse turbilhão de sentimentos. Emociono-me sempre nos casamentos. Ou quando vejo uma amiga grávida. Emociono-me por pensar no conceito de vida a dois, no passo que se dá, na celebração do amor que está a ser feita. E emociono-me a pensar numa futura vida, quando vejo uma amiga grávida. Sim, definitivamente, as noivas e as grávidas são sempre bonitas por tudo o que associamos. Por tudo de bom que lhes desejamos. Pela felicidade que lhes atribuímos. Pelo amor que sentimos. Sem isso, são mulheres normais. E foi o que nos aconteceu nesse casamento: sem esse carinho todo que sentimos pelos amigos ou família, a noiva era uma mulher normal. "Apenas" isso.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O dia depois

Pés num oito.
Voz rouca.
O cérebro parece que emigrou e deixou, no seu lugar, um vazio.
A minha cabeça, debaixo do novo cabelo e de quilos de maquilhagem a disfarçar o cansaço, está desabitada.
Os dedos tocam no computador automaticamente, sem nada que os ordene.
Os ouvidos ainda ressoam músicas de ontem.

É este o meu estado pós-casamento e pós-festival. Sou uma sombra do que era Sábado e uma sombra do que era ontem. Sou duas olheiras humanas a deslocarem-se de lado para lado e a alimentarem-se de cafeína. Se sobreviver, logo prometo um relato mais animado e detalhado do fim-de-semana. Por enquanto, há trabalho a fazer e os prazos não são esperam por mim. Até já.
Alguns detalhes de Sábado: a orquestra à porta da igreja, o vestido que levei ao casamento,
cabelo novo e os centros de mesa, que adorei pela simplicidade e romantismo
(no sentido dos ponteiros do relógio).
Ontem, Phoenix a brilhar num concerto que superou todas as expectativas que tinha,
antes do meu adorado Caleb e família subirem ao palco.

domingo, 14 de julho de 2013

É hoje

Não sou festivaleira. Nunca fiz o circuito de festivais, nem nunca fui aquilo que se pode chamar de "papa-concertos". No entanto... (há sempre um "no entanto" dentro de nós, não é?)... há bandas que mexem tanto comigo que me obrigo a ver ao vivo. E repito as vezes que for necessário. Hoje, os Kings of Leon vão ser um desses casos. Estou desejosa por vê-los subir ao palco. E estar frente com o Caleb Followill e os restantes Followill. Estou desejosa de o ver cantar para mim. Sei que vou ter mais milhares de pessoas a sentir o mesmo. Mas, para mim, o momento vai ser só meu. Porque me acompanham há anos. Porque actuam para mim enquanto trabalho. Porque me fazem cantar mesmo quando estou a ter um dia de cão. Porque me despertam quando tenho que fazer viagens de carro maiores, atrás do volante. Porque me fazem sentir sensual mesmo quando estou a cantar e a dançar por casa de pijama e cabelo desalinhado. Porque não me censuram quando os canto, aos gritos (e destruo as músicas que fizeram) debaixo do chuveiro. Porque também cantam como quem chora, em solidariedade comigo, quando estou triste. Porque festejam comigo quando estou mais feliz. Porque me fazem sentir apaixonada.

Tudo isto para dizer... de uma forma muito alongada.... que se virem uma maluquinha a subir ao palco, digam "adeus". Essa maluquinha posso ser eu.


sábado, 13 de julho de 2013

Gostava de ser homem

... E se há dia em que penso nisso seriamente é em dia de cabeleireiro, depilação ou de manicuras e pedicuras (essencialmente em dias de festas, portanto). Odeio, odeio, odeio perder tempo com isto.

Gostava de ser homem. Mas só para não ter que passar por este puxar de cabelos, secadores, raios laser, pessoas a agarrarem-nos as mãos, a rasparem os pés. E enquanto isso, os homens esperam pelas suas mulheres alegremente numa esplanada, enquanto lêem o jornal. Vida injusta.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Um almoço ao sol

O almoço entre os dois era de trabalho. Porque, quando o horário é apertado, todos os minutos contam. Nem que, para isso, o garfo e a faca tenham que ser acompanhados por uma caneta, e o guardanapo por um caderno. Assim, enquanto almoçavam, delineavam estratégias. Quem passava àquela hora por aquela mesa, reparava certamente no ar profissional de ambos. Na camisa impecavelmente passada a ferro dele, sem vincos, sem imperfeições. No nó da gravata de seda irrepreensível. E reparava também certamente no cabelo dela elegantemente penteado, e na maquilhagem com ar tão natural que com certeza teriam sido pensados ao pormenor. E quem passava àquela hora por aquela mesa, com certeza reparava também no ar formal com que se tratavam. Eram com certeza colegas a discutir o futuro de alguma empresa importante.

O almoço entre os dois era de trabalho. Porque a verdade é que só viviam para isso - para o trabalho. Na mão esquerda dele, a aliança escondia um casamento já no fim, depois de quase dez anos de vida em comum e três filhos. O divórcio estava nas mãos do advogado dele, e as discussões que andava a ter com a mulher por causa da casa de férias já lhe tinham tirado dias de sono e kgs de sossego. Já ela, nunca se tinha casado. Desde nova que sempre soube que era ambiciosa e concentrada na carreira a ponto de abdicar de paixões fugazes ou arrebatamentos passageiros. O coração não era assunto que lhe preocupasse - concentrava-se, isso sim, em que a sua cabeça fosse aproveitada ao máximo.

O almoço entre os dois era de trabalho. Como seria igualmente de trabalho o almoço na semana a seguir. E na outra. E na outra. E o jantar que veio depois também. Na mão esquerda dele, a aliança finalmente saiu. E ela viu-se certa vez a chorar numa das cenas do "Diário da nossa paixão", que passava um dia à noite num canal qualquer. Algo neles tinha mudado. Seria o ar de miúdo que ele fazia quando falava de alguma coisa que o apaixonava? Seria a pele perfeita dela, que parecia que reflectia o sol? Seria a gargalhada genuína dele que, de vez em quando, lhe saía? Seria aquela moleza que o cocktail de Sol e vinho por vezes lhes provocava? Ou seria tudo isso?... Algo tinha mudado.

Nesse dia, o almoço entre os dois era de trabalho. Porque o trabalho era a paixão que ambos partilhavam. Só que, nesse dia, ele já só seguia os raios de Sol que brincavam naquele pescoço e pareciam descer desafiadores para o decote dela. Ela já só via os lábios dele sussurrarem palavras sem sentido. O que diziam? Não sabia. Só via lábios carnudos, brilhantes. E, nesse dia, ele já não sabia o que dizia, porque as palavras saíam-lhe, desapareciam e transformavam-se em raios de Sol.
- Queres mais um copo de vinho?
- Não, obrigada. Estou bem assim.
- Também estou muito bem.
- Desculpa?
- Estou muito bem. Assim. Aqui. Não queria estar de outra forma.
- Somos mesmo obcecados pelo trabalho, não somos?
- Somos.... Somos...
E, nesse momento, ambos pensaram "até porque o meu trabalho, neste momento, és tu".
Pegaram na folha e na caneta. E continuaram a sarrabiscar qualquer coisa, com ar comprometido. Ele a pensar nos raios de Sol. E ela na boca dele.

Mais casamentos*

(*É quase fim-de-semana, perdoem a necessidade de alguma futilidade feminina)

A época dos casamentos este ano ainda vai a meio. Sendo que este ano, aos casamentos, será ainda acrescentado pelo menos um baptizado duma das mais novas "sobrinhas". Mais umas festas. A parte boa é que posso abrir o armário, olhar para os vestidos que fui acumulando ao longo do tempo, olhar para as sandálias guardadas ainda dentro das caixas, olhar para os colares e brincos que nunca uso... e pensar "não foi em vão, afinal era mesmo tudo preciso, eu sabia".

Amanhã será a vez de mais um casamento. O escolhido já está preparado: um azulão que ainda não viu a luz do dia e anda no armário à espera de ser levado a passear. Amanhã será o dia, se se portar bem.
O vestido é este, sendo que, sinceramente, gosto bastante mais de o ver em morenas
e mais justo que na modelo em baixo. Como feliz ou infelizmente tenho bastante alguma anca,
em mim nunca fica assim... 
Quanto ao calçado, talvez aposte nestes mais clássicos e femininos da Uterque. Falta experimentar tudo junto, para ver que tal:


Já sei que a minha amiga R., se vier hoje aqui, me vai dizer que prefere que escreva textos, que gosta mais de ler apenas textos que ver vestidos e roupa, que estes posts não têm tanto a ver comigo... Para a R.: tens razão e prefiro escrever, mas hoje ou era isto ou falava sobre a Simone de Beauvoir.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Gosto de fazer as regras

Primeiro era cabeleireiro. Depois passou a ser hairstylist.
Se primeiro já tínhamos sorte se as cadeiras eram adaptáveis a nós, depois já tínhamos direito a cadeira de massagem.
Primeiro, tinha um salão com paredes em pedra, ar rústico e acolhedor. Depois, contratou uma dupla de arquitectos de renome que lhe criou um lugar frio e cinzento, cheio de linhas modernas e ainda espaço para spa.
Primeiro, podíamos ler a Caras, a Vogue e, com sorte, uma Hola e uma revista de penteados internacional. Depois, não conseguíamos evitar deparar-nos com um dos trezentos e quarenta e sete exemplares da revista onde saiu a entrevista ao dono do espaço.
Primeiro, víamos, penduradas nas paredes, fotografias de clientes satisfeitas com os resultados, sorridentes, a transmitirem-nos confiança. Depois, as fotografias foram substituídas por sessões fotográficas artísticas a preto e branco do referido hairstylist.

Ele estava feito um artista.
Se antes, era humilde, simpático, atencioso, depois começou a ganhar tiques de vedeta. Se antes perguntava sempre se tínhamos gostado do resultado, dava uns miminhos no fim, preocupava-se connosco, depois foi-se tornando uma pessoa diferente...
Da última vez, quando fui lá cortar o cabelo, reparei que até segurava a tesoura com outro orgulho. Com outra conviccão. Outra desenvoltura. Mas no fim, ao mostrar-me o resultado, reparei numa assimetria gigante entre o lado direito e esquerdo. Disse-lhe:
- Aqui deste lado está maior que deste, não está?
- Querida... onde vê essa diferença?
- Aqui. Ora veja. Não repara que este lado está mais comprido?
- Oh querida... Oh querida...
- Estou a ver mal?
- Querida...
- Siim...?
- Quem disse que os lados têm que ser iguais? Onde está isso escrito? As minhas regras escrevo eu, querida... E acho que estamos a criar tendências.
No fim, também se tinha criado a tendência de aumentar 20% da conta. E, por isso, inspirei-me e decidi criar a minha tendência também. Criei a tendência de não voltar a ir lá.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Post para o meu eu do futuro

Adoro os meus pais. É uma verdade incontornável. Mas às vezes continuam a ser tão, mas tão, mas tãaaao pais-galinhas que me arrependo de ser um livro aberto com eles. Ontem estava chateada com um pequeno contratempo que tive e resolvi desabafar com a minha mãe, no final do dia. Liguei-lhe e lá demos duas de letra.
- (...) e pronto, foi isto. Fiquei mesmo irritada. Até vim dar uma corridinha, para ver se espaireço.
- Olha, não queres contar também ao teu pai? Ele está aqui do lado a perguntar o que se passou. Quer saber porque é que estás irritada. Conta-lhe, que eu vou passar-lhe o telefone.
Passa o telefone ao meu pai.
- Papá, o que aconteceu foi: (...).
- O quê?! A sério?? Isso não pode ser!!
- Eu sei. Mas já está resolvido, é o que interessa.
- Não... Aconteceu, tem que haver consequências!!! Isso não se faz.
- Papá, já passou...
- Não passou nada! Não pode ficar assim!!!
- Já está resolvido.
- Ninguém te pode enganar!!
- Não enganaram. Já está tudo ok.
- Ninguém engana a minha filha!!!
- Papá.... ouviste o que eu disse? Está r-e-s-o-l-v-i-d-o.
- Não interessa!!...
Desliguei o cérebro, nesse momento, e - enquanto aquelas palavras de quem vivia as minhas dores ecoavam e se perdiam em si - concentrei-me na paz que estava à minha volta. No silêncio. Naquela calma. E prometi ao meu eu do futuro que nunca hei-de fazer isto aos meus filhos. Nunca hei-de atirar achas para a fogueira quando os vir irritados. Vou ouvi-los sempre com paciência e calma.

- Há gente mesmo vigarista!, ouvia-se ainda ao fundo, cada palavra carregada de dor, como se tivesse sido o meu pai a viver tudo. Dei por mim a segurar um sorriso que se lembrou de aparecer. Será que vou conseguir manter esta promessa? A verdade é que dizem que ser pai é viver tanto a felicidade como a dor dos filhos a dobrar.

- Idiotas..., continuava a ouvir-se. Pois são. Pois são. E eu sou idiota por acreditar que vou conseguir fugir a isto, não é? Já se sabe que um dia vou acabar igual a ti. A fazer estes discursos exagerados. A viver a dor dos outros. E um dia hei-de ler um texto dos meus filhos muito parecido com este, já se está bem a ver...

terça-feira, 9 de julho de 2013

Enganem-me que eu gosto

Cenário 1 - ginásio.
- Boa noite.
- Boa noite. Toalha?
- Sim, por favor.
- Nome? N.º de sócia?
Este era sempre o diálogo à entrada do ginásio, quando entrava. Até que passava o cartão na máquina e eles sorriam a olhar para a minha fotografia no ecrã, como se, subitamente, se lembrassem perfeitamente de mim e fôssemos todos grandes amigos. Nunca foi o ginásio com os recepcionistas mais simpáticos do mundo, portanto. E a verdade é que andava a planear cancelar a inscrição em Agosto, mas nem me pesava na consciência, porque sentia que nunca tinham feito nada para me "segurar". Ontem, o caso mudou de figura.
- Olá, Pippa!!! Boa noite!!
- Boa noite...
- Quer deixar as chaves aqui na recepção, para não ter que andar depois com elas atrás de si?
- Bem... ok! Obrigada. Realmente prefiro.
- De nada! Até jáaaaa! Tenha um bom treino!!
Hmm... Sabem que mais? Em Agosto continuo, afinal. Sei que estou a ser manipulada. Mas não me importo.

Cenário 2 - loja de roupa.
- Afinal não vou levar.
- Oh tem a certeza? Ficava-lhe tão bem. Realçava o seu tom de pele.
- Gostei do tecido e do corte, mas não "adorei" em mim.
- A sério? Até comentei com a minha colega o bem que lhe ficava. Não foi, X?
- (Foi!)
-Hmm... Realmente não é feio. Só que já tenho um vestido branco e do mesmo estilo.
-Pois, é um estilo clássico. Não tem mal termos vários clássicos no armário. Principalmente se nos favorece tanto!
- Não está a facilitar-me a decisão.
- Leve! A sério... Se em casa mudar de ideias, tem 30 dias para trocar. O que acha?
- Ai... Ok, pronto, eu levo.
Sou tão manipulável. Dois segundos depois, já estava a dar o meu cartão para as mãos, a pensar "realmente o que perco?".

Manipuladores - 1. Carteira - 0.

Gosto dos verbos

- Tinha saudades tuas.
- Tinhas nada.
- Tinha, claro. Gosto da tua companhia.
- Conversa do bandido.
- Não é nada... E se me desses mas é um beijo?
Ele era pessoa de substantivos. Ela preferia fazer mais uso dos adjectivos.
- Estás tão giro hoje.
- Já conhecias este fato.
- Mas fica-te maravilhosamente bem!
- Oh fica como ficam os outros.
- A sério... Estás óptimo.
Ela era pessoa de adjectivar aqueles de quem gostava. Elogiava-o com frequência. Mas também queria arrancar-lhe um elogio da boca. Era mulher e toda a gente sabe que as mulheres alimentam-se de elogios. Só que estava difícil.
- Fica-me bem o cabelo assim?
- Sim.
- Gostas de ver estas calças em mim?
- Muito. Leva-as.
- Fazem-me boa?
- Fazem.
Ele conseguia, com os substantivos, dizer mais que ela em mil adjectivos. Mas ela não estava satisfeita.
- Porque é que nunca me elogias?
- Sabes que sou das Ciências. Gosto do exacto. Do palpável. Do certo. Dos nomes. Dos verbos. Das acções. Os adjectivos e as palavras todas bonitas ficam para os românticos, para os poetas.
- Mas eu gostava de ouvir uns elogios de vez em quando... Uns adjectivos depois do meu nome.
- Não preferes simplesmente saber que te adoro? Sempre te adorei e vou adorar-te para sempre.
- Oh. Estragaste tudo com essa tirada. Ganhaste. Também te adoro e adorarei.
Ele era pessoa de substantivos. Ela, de adjectivos. Mas, juntos, sabiam conjugar verbos como ninguém. E isso pelo menos unia-os. Une-os. E unirá.

Sou perita em enterranços

A praia para onde íamos de férias sempre foi a mesma desde que nasci. Foi, aliás, cenário de namoro dos meus pais, muito muito antes de eu existir. A casa da família ali situada permitia que fôssemos todos os Verões para lá pelo menos quinze dias. Só que, se até aos 13, 14, a família era mais que suficiente para fazer companhia, a dada altura comecei a sentir necessidade de levar também amigas. E então a mesma casa, a mesma praia, e as mesmas ruas tornaram-se sítios novos, como que percorridos pela primeira vez. Com as minhas amigas fizemos quilómetros de bicicleta. Jogámos horas de basquete. Andámos tardes de patins. Caímos juntas. E levantámo-nos. Perdemo-nos. Rimos. Trocámos confidências. E fizemos amigos para a vida. A dada altura, já não éramos duas ou três, mas sim uma massa de miúdos a percorrer as ruas de bicicleta. A encher o campo para jogar basquete. A encher a praia. As esplanadas. Uma massa de miúdos a conversar como adultos até as estrelas subirem ao céu e serem horas de ir embora. Conversávamos muito sobre música (havia uns músicos lá no meio), sobre o futuro, sobre a religião, sobre o amor... E, mesmo que tenha havido ali uns fraquinhos, nunca ninguém andou com ninguém. Éramos apenas amigos, rapazes e raparigas. Amigos de Verão. Amigos de férias. E alguns dias durante o resto do ano.

Guardo esses amigos no mesmo canto do coração onde guardo as minhas recordações mais felizes. Porque foi uma altura de meninice bonita, bem antes dos arrebatamentos da vida adulta. No outro dia, soube que um desses meus amigos ia actuar num hotel pertinho de minha casa. Fiquei curiosa e decidi ir espreitar. Afinal de contas, era pertinho e não tinha planos para essa noite. Quando cheguei, já ele estava com a guitarra em posição e preparava-se para começar a cantar. Acenei eufórica (já não o via há tanto tempo...) e sorri-lhe. Ele olhou de volta e - talvez encadeado pela luz? - fez um sorriso amarelo, de quem não via nada. Sentei-me. A primeira música, a segunda,... A dada altura, tocaram uma música mais calma e a luz baixou. Foi aí que ele me terá finalmente detectado no meio da multidão e sorriu de volta, com o mesmo sorriso de puto que lhe conhecia há quase vinte anos atrás. No fim, radiante por revê-lo, saltei para o palco improvisado para lhe dar um beijinho e um abraço.
- Oláaaa, músico!! Posso conhecê-lo?
- Que boa surpresa!
- Gostaste? Estavas a actuar aqui pertinho de mim, não tinha desculpa para não vir ver-te.
- Fizeste bem! Nem acreditei quando te vi. 
- Eu reparei na tua cara de surpresa!
- Foi da luz! Sabes, estás igualzinha!
- Tu também estás! Ar de puto!
- Mas tenho mais dez quilos.
- Oh cala-te. Tens nada.
E mandei-o calar, como só se mandam calar os amigos. De repente senti uns olhares nas costas. Virei-me. Era uma rapariga que presumi que fosse a namorada. Muito gira e com ar simpático, mas parecia estar à espera que eu saísse para lhe dar um beijinho. Senti-me a mais. E saí. Vejo grande beijo repenicado. Outro. E outro. Um "hmmm" saído a meio dum abraço apertado. Mais um beijo. Senti-me subitamente constrangida. Fomos amigos mil anos e percebi que era a primeira vez que estava a vê-lo como homem, porque a verdade é que nunca o tinha visto com namoradas. Para mim, era o meu amigo das férias e pronto, independentemente de ser do sexo oposto. De repente, ela virou-se para trás, tirou-me discretamente as medidas e sorriu. E foi aí percebi que ela não me conhecia e não estava a ver dois amigos de doze anos, calções e bicicletas, mas sim dois adultos com demasiada confiança, talvez. E fiz então o que se faz sempre que estamos atrapalhados e queremos mostrar que não é o que parece: meti os pés pelas mãos e disse o que não devia dizer.
- Olá, nem me apresentei. Sou a Pippa. Sou amiga do J....
- Olá! Eu sei. Já ouvi falar de ti e das vossas férias.
- Sério? De mim e dos nossos amigos todos, certo? Éramos muitos. Não era só eu. Éramos muitos amigos. Éramos um grupo muito grande.
- Pois... E já o tinhas visto a actuar com esta banda?
- Não, só com a anterior. Íamos a muitos concertos dele. Íamos, quer dizer: eu e os outros todos. Íamos sempre muitos.
- E que tal? Qual gostas mais?
- Desta. Acho que gostei mais desta banda. Adorei. Acho que vou ser fã número um.
- Acho que seres a número um já vai ser difícil.
- Pois claro. Desculpa. Claro que sim. Vou ser fã número dois. Ou três. Ou o número que der. Vou ser uma fã normal, aliás. O que queria dizer é que gostei da banda. É gira. E pronto, já é um bocadinho tarde...

Ficou um silêncio estúpido e pensei "pronto, chega de me enterrar". É que, não sei por que carga de água, fiquei obcecada em mostrar que éramos amigos, sem filmes nenhuns. Mas esforcei-me tanto por mostrar isso, que a única coisa que mostrei foi que era uma amiga sem noção do ridículo.

Cheguei a casa a sentir-me estúpida. Mensagem dele. "Gostei de te ver. E a minha namorada disse que eras de rir". Pudera... "Vou ser fã número dois! Ou três. Ou o número que der!" Se fosse um desenho animado, esta era a parte em que dava com a cabeça repetidamente na parede. Estúpida.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Quero deixá-lo louco

Dizem que as mulheres contam tudo umas às outras. Pela minha experiência, não é inteiramente verdade. Sabemos guardar segredos umas das outras e manter o que é íntimo e pessoal connosco. No entanto, há obviamente assuntos que as melhores amigas abordam. Podemos falar de pratos de comida, dar dicas sobre bons cremes para o corpo, podemos aconselhar um corte de cabelo, uma loja que está em saldos... e podemos acabar também a trocar impressões sobre truques para os deixar loucos na cama. Afinal de contas, é isto que caracteriza os amigos - conseguir conversar sobre qualquer assunto -, certo?

Quanto a mim, tive duas amigas mais velhas que serviram de conselheiras, quanto a este último tópico, em fases diferentes da vida. Ambas relatavam histórias como se do último episódio da nossa série preferida se tratasse - com todos os detalhes, descontracção e paixão no relato. E eu fazia perguntas, qual aluna atenta. Aprendi muita coisa, tirei aquelas dúvidas que não se tiram nos livros, nos filmes ou com os pais. Há dias, depois de algum tempo sem abordar estes assuntos, tive uma amiga que me disse a mim "és mais velha, quero que me digas sem tabus como é que se deixa um homem louco". E sorri. Pelos vistos tinha passado de aprendiz a mestre. E apenas por ser mais velha. Porque se espera que a idade seja um posto. Porque se espera que a idade nos traga experiência, sabedoria e mil truques na manga.

No entanto, depois de brincar um bocado com a pergunta e termos conversado um pouco sobre o que era bom para nós, cheguei a uma conclusão: não há truques. Não é por tocarmos naquele ponto específico que ele vai ficar doido e querer ficar connosco para sempre. Não é por estarmos a usar lingerie mais sexy que os próprios anjos da Victoria's Secret. Não é por aparecermos com um manancial de truques, e jogos, e posições de contorcionista. O truque é gostar-se um do outro. Estar à vontade, sem tabus. Falar sobre tudo. Gostar do que se está a fazer. Mostrar que se gosta. Sentir e dar prazer. O truque é a entrega apaixonada. E esse foi, portanto, o único conselho que, do alto da minha idade, me pareceu fazer sentido dar.

Eu ladra me confesso

Virei ladra. Mas foi sem querer. Juro. Com certeza qualquer ladrãozeco iniciante dirá o mesmo, mas no meu caso é mesmo verdade. Peço encarecidamente que acreditem na história que se segue. E que mantenham a polícia longe disto. Combinado?

Pois que ontem estava um dia para lá de quente. Se este é o Verão mais frio dos últimos 300 anos, não quero imaginar o que é realmente calor, então. Estava tão quente que as incursões ao frigorífico para repor os níveis de água no corpo tinham lugar de cinco em cinco minutos. Após algumas horas, a água em casa terminou, pelo que, com as línguas de fora a morrer de sede, rumámos ao Pingo Doce com a intenção de acabar com o stock nacional de garrafões de cinco litros de água. Pegámos em todos os que as nossas forças e dois braços permitiram. Uma fruta também. E alguns snacks, que o calor puxa uns petiscos. Fomos para a caixa pagar. Cada um pegou no seu saco, levámos para o carro e aufwiedersehen, goodbye, Pingo Doce.

Ao chegar a casa, abri os sacos e achei estranho encontrar um frango inteiro. E panados. E mais uns sacos com carne não identificada. Nem espreitei mais o saco.
- Compraste um frango e panados? Nem me apercebi...
- Um frango? Então viste-me ir às carnes?
- Não, mas... Está aqui...
- Se está, foste tu que trouxeste.
- Eu não! Nunca comprei sequer destes frangos. Ora vê... É daqueles que já vêm temperados. E alguma vez me viste comprar panados?
- Isso não é nosso!
- Tem que ser... Está aqui.
- Não é nada. Trouxeste o saco dos outros senhores?
- Oh...
Deu-me um ataque de riso. Roubei um frango e panados. E outras carnes não identificadas. Tornei-me uma ladra! Uma ladra de carnes.
- Ainda bem que viemos directos para casa. Com o calor que estava, se deixássemos esse teu saco no carro, íamos chegar lá e íamos ter um frango assado!!
- Ahahah.

Ainda fomos ao Pingo Doce, mas ninguém perguntou por um saco perdido/ furtado. O dono do saco, acuse-se, por favor. Tem ali do lado o meu email. Ainda sobram duas asinhas de frango (que eu sou mais de peito e coxa), mas é melhor despachar-se.

domingo, 7 de julho de 2013

Ele era viciado em romance

Trocavam mensagens de telemóvel há semanas. O primeiro beijo tinha acontecido logo dias depois de se conhecerem. O resto veio logo a seguir, apesar de, dia sim, dia não, terem a típica conversa do "temos que ir com calma!!". Mas ela já estava completamente apaixonada.Estava apaixonada por tudo o que ele era. Estava apaixonada pelos sonhos que ele tinha. Pela quinta que iam construir juntos. Pelos filhos que iriam correr entre os cavalos até ser noite. Estava apaixonada pelas mil e uma viagens que iriam fazer juntos. Estava apaixonada até pelo facto de gostarem os dois de música clássica. E de musicais. Ele era a pessoa mais interessante que ela já tinha conhecido e sentia-se uma privilegiada por saber tudo aquilo sobre ele.

Uma noite, ele saiu de casa dela depois dum jantar cuja sobremesa se prolongou, e, talvez ainda com o arrebatamento do encontro, esqueceu-se do telemóvel. Ela queria avisá-lo, mas não tinha como. Tinha que esperar que ele reparasse e voltasse para trás. Os minutos foram passando e nada. Uma hora, duas. Decidiu ir dormir. Os encontros arrebatadores exigem um sono reparador à altura. Pegou no telemóvel dele e colocou-o na mesinha de cabeceira. Deitou-se. Apagou a luz. Um "bip" despertou-a. "Bip!", pareceu insistir o pequeno aparelho. Olhou para o telemóvel. Era uma mensagem. O remetente tinha um nome feminino que não reconheceu. "Quem será?... Bem, não é da minha conta, vou dormir". Mas não conseguia. A sua cabeça pensava em mil hipóteses. "Uma colega? Uma amiga? Prima? Que quererá a estas horas? Será que tem outra? Pior - será importante? Espera. Não é nada disso... Já sei. Como é que não vi antes? É um telemóvel de alguém que arranjou, e foi a única maneira de me dar notícias. Tenho que ler, é ele a comunicar comigo, já que não tem telemóvel!" E assim se convenceu a pegar no telemóvel dele e esquecer as regras da privacidade. Tinha que ser: a mensagem era para ela! Abriu a mensagem.

- Estou a ouvir um Nocturno do Chopin e lembrei-me de ti. Tenho saudades tuas. Tens que vir cá ver como ficou a quinta, depois das obras de restauração. Até os cavalos parecem mais felizes.

"Desculpa?", pensou ela, furiosa. A música clássica, a quinta, os cavalos. A conversa era a mesma. Só que, pelos vistos, esta estava um passo à frente e já tinha até tudo isso. Ficou furiosa. A cabeça parecia que ia explodir. Sentia-se traída. Enganada. Ele tinha-a enganado. Usava aqueles trunfos com todas. Ela não era especial, era só mais uma a quem ele lançava o charme e queria ser idolatrado por isso. Ele precisava de romance. E usava quem pudesse para obter algum. Nessa noite, ela nem conseguiu dormir. Foi dominada pelos piores pensamentos possíveis. Ele era uma fraude e ela sentia-se num pesadelo. No dia seguinte, ele tocou à campainha logo às 8h. Ela deixou-o subir, enquanto espreitava ao espelho o próprio reflexo cansado e cheio de olheiras. Deixou-o entrar.
- Tens aqui o teu telemóvel. Foi isso que vieste buscar?
- Sim! Desculpa. Esqueci-me completamente.
- Aqui está. Podes levá-lo. Até logo, tenho que ir arranjar-me.
- Espera. Trouxe o pequeno-almoço. Não queres que prepare? Toma um banho enquanto eu preparo isto.
- Não, obrigada. Podes levar.
- Que tens?
- Que tenho? Nada. Não tenho nada. Aliás, nós não temos nada, não é? Por isso, o que é que eu havia de ter?
- Não estou a perceber. Fiz alguma coisa?
- Nada. Não fizeste nada. Está tudo bem. Leva o teu telemóvel.
- Calma... Que tens? Diz-me...
- Não me apetece falar.
- Tem a ver com o meu telemóvel?
- Ouve: esquece! Se andas com outras, não tenho nada a ver com isso, vai à tua vida.
- Não me digas que foi a X que escreveu alguma coisa.
- ...
- Foi? Diz-me, estás a deixar-me preocupado!
- Ok. Foi. E eu li, desculpa, mas li. Pensei que fosses tu a escrever-me, já que não tinhas telemóvel. Mas ainda bem que li. Percebi que a tua conversa é sempre a mesma!!
- Desculpa?
- Sim... Os cavalos. A quinta. A música clássica... Eu pensei que me estavas a contar isso tudo, porque eu era especial. Afinal, contas a todas que aparecem à frente. Atiras o isco a ver se cola. Atiras os trunfos todos, lanças o charme e tal. Precisas de romance e queres obtê-lo à força toda em qualquer lugar.
- Estás a interpretar tudo mal. A X é minha ex namorada. E conhecia-me como ninguém. É normal que soubesse ao fim de três anos o que eu gostava, tal como tu sabes... e ao fim de apenas dois meses. Já pensaste nisso?
- Não é nada. Afinal não sou especial.
- Claro que és. Contei-te tudo sobre mim. E tu própria só tiveste a confirmação que... sou coerente!! O que te disse que gosto é o que sou. Só tens que pensar nisso. Não criei uma personagem, não inventei nada. Abri-me totalmente contigo. Partilhei tudo contigo. Porque gosto mesmo de ti. Porque me estou a apaixonar por ti!

Ela sorriu, por fim. Ele não era viciado em romance. Era viciado naqueles sonhos que tinha. Era viciado em partilhá-los com quem fosse especial. E ela era especial. E estava, afinal de contas, também completamente viciada. Estava viciada nele.

sábado, 6 de julho de 2013

Não me apetece pensar no nome deste post.

A minha tia L. foi operada. Encontraram um nódulo numa das mamas. "Vamos operá-la por precaução". Pois... Já se sabe o que se descobriu depois. Merda de cancro que não há maneira de se descobrir de uma vez por todas como se dizimar.

Força, tia. És uma mulher com M, U, L, H, E e R maiúsculos. E agora vamos lá matar esse filho da mãe.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Fala-me sobre o teu trabalho. Quero saber tudo.

- Já não o consigo ouvir falar de trabalho! Ele tornou-se o trabalho. É o trabalho. Já não existe para além do trabalho. Já não tem interesse nenhum para além do trabalho.
- O que vale é que vocês fazem o mesmo... Sempre podes falar com ele sobre tudo, porque afinal de contas estás dentro dos assuntos!
- O problema é esse, sabes? Precisava de chegar a casa e falar do mundo lá fora, estou farta de sair do consultório e ter o consultório em casa! Só falamos disso... Estamos a tornar-nos pessoas limitadas, sem interesse para o resto da humanidade.
- Mas não é tranquilizante saber que podes chegar a casa e desabafar sobre o que aconteceu durante o dia no trabalho, porque a outra pessoa te percebe? Não é tranquilizante saber que partilham tudo um com o outro? Têm os mesmos gostos, fazem o mesmo, são quase almas-gémeas...
- Já foi mais. Sinceramente agora que ando com mais stress só me apetecia chegar a casa e ouvi-lo falar de coisas novas, para me animar o dia e fazer-me esquecer tudo. É cansativo fazermos os dois o mesmo, parece que não temos outros assuntos, não nos puxamos um ao outro. Não ensinamos nada um ao outro. Não nos inspiramos mutuamente. Não abrimos horizontes. Percebes a ideia?

Percebi a ideia. Completamente.

E, percebo-a muito bem, porque eu própria sempre me senti mais fascinada por homens de outras áreas, que me pudessem mostrar outro mundo diferente daquele que vejo, um mundo diferente daquele que é o meu. Sempre achei mais interessante falar com alguém que, vivendo no mesmo lugar que eu, rodeado pelas mesmas coisas,  trabalha com diferentes peças desta máquina - chamada "vida" - que é só uma, mas com múltiplas possibilidades. Gosto de aprender. Ensinar. Gosto de crescer. Abrir os horizontes. Ver fora da caixa. Ouvir conceitos novos. Percursos diferentes. Acompanhar relatos de dias tão diferentes dos meus. Dizem que amar é sermos um só. É encaixarmos. Completar-nos. Concordo. Simplesmente, sempre achei que me completava melhor com alguém diferente de mim. Para ser eu, já basto eu. Não preciso de ninguém igual a mim. Dizem que amar é partilhar. É contar tudo. É saber ouvir. Eu gosto de partilhar dias diferentes dos meus. Relativizar. Aprender. Quem disse que amar tem que ser encontrar alguém igual a nós? A alma-gémea pode ser, afinal, cansativa, monótona. E talvez por isso, sempre procurei, isso sim, a cara-metade - alguém que, mesmo sendo diferente, com gostos opostos, hábitos distintos, percursos díspares e outra profissão - se vai encaixar, como uma peça dum puzzle, bem direitinho na minha vida. E ensinar-me. Fazer-me crescer. Amar não é crescer, também?