A minha mãe dizia muitas vezes, quando eu era mais nova, a seguinte expressão:
"à mulher de César não basta ser". E eu não percebia nada.
"Não basta ser mulher dele? A relação está mal e precisa de trabalhar pelo casamento, é? Ou será que não é reconhecida pela sociedade por aquilo que ela é enquanto ser individual e apenas por ser mulher de quem é?", pensava.
Até que um dia lhe perguntei o que queria dizer, afinal, aquela expressão.
Explicou-me algo como:
"quer dizer que muitas vezes não basta sermos aquilo que somos ou que sabemos que realmente nos define. Se toda a gente tem uma ideia diferente de nós é porque andamos certamente a fazer um mau marketing."
E surgiu-me isto hoje pela polémica que se instalou à volta dos
Vídeos da campanha da Samsung retirados e
comentários nos blogs e porque muitas críticas me parecem um pouco injustas.
Toda a vida me disseram que eu transmitia a imagem duma pessoa simpática e sem manias. Habituei-me a ouvir essas características e associá-las a mim, até acreditar que era realmente assim. Isto apesar de saber que tenho as minhas pancas, assuntos em que tenho a mania que sou a maior e dias em que não me apetece rir para ninguém. No entanto, parece que acabei por passar essa imagem a algumas pessoas, para o bem e para o mal
(sim, porque profissionalmente a humildade não é, de todo, uma boa característica, no meio em que me encontro... NADA!!!).
Ora, nos antípodas deste meu exemplo, tive casos de colegas que eu própria rotulava como
"fúteis" ou
"tias" e que, quando conheci bem, retirei mentalmente todas estas características. Pessoas que, por andarem com as costas mais direitas e ar confiante ou altivo, por terem pronúncias mais vincadas, ou até por utilizarem determinadas expressões eram vistas como pertencentes a uma elite, eram vistas como inacessíveis e convencidas sem o ser, de todo.
Aconteceu-me começar a falar com uma colega, que via como de uma classe social elevadíssima, e rapidamente perceber que eu estava, afinal,
totalmente errada. Vivia numa casa integralmente mobilada no Ikea, adorava comprar nas lojas dos chineses e a única marca de que era cliente assídua era a H&M. Provou ser uma pessoa com inseguranças como qualquer outra, poupada, ambiciosa e que apenas queria o que todos queremos: encontrar alguém para ser feliz ao seu lado, e ser profissionalmente bem sucedida. Era estudiosa, aplicada, dedicada, foi tendo sucesso profissional e sempre merecido. No entanto, algumas pessoas viam-nos juntas e vinham perguntar-me:
"ela só veste roupa caríssima, não?" ou
"é uma tia, não é?" e eu achava piada, porque aquela já não era, de todo, a pessoa que eu conhecia.
Quero com isto dizer que não devemos julgar ninguém pela pronúncia afectada. Pelo semblante carregado. Postura confiante. Ou pelo uso de determinadas expressões que, por norma, se atribuem a classes sociais altas. Porque, pela minha experiência, não quer dizer absolutamente NADA: nem que a pessoa em causa de facto pertença a qualquer elite, nem que, pertencendo, a pessoa seja pior só por isso.
Eu tenho as minhas manias e não são poucas. Gosto de coisas boas como qualquer pessoa. Mas sei que passo um ar de pessoa simples e descontraída. Sei que há aí muitas tias escondidas e cheia de manias de grandeza debaixo dum ar, à primeira vista, humilde. Tal como pessoas normalíssimas e descontraídas, simpáticas e acessíveis escondidas debaixo de uns
"tipo",
"tá a ver?" ou duma mala Louis Vuitton.
Temos é que as conhecer para perceber que são mais do que aquilo que parecem.