quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

As desavenças conjugais emagrecem

...Ou é impressão minha?
Sempre que alguma mulher emagrece repentinamente penso logo "ou está apaixonada ou está chateada com o namorado/marido". Pode ser um preconceito, pode ser uma teoria disparatada, podem atirar-me ovos e tomates podres e dizer "não tem nada a ver". Ok. Mas vou continuar a achar.
Mas a minha experiência e o que vejo nas pessoas que me rodeiam diz-me isto: a felicidade conjugal engorda. Ninguém consegue manter apertado o botão daquelas calças mais justas depois de mil e um jantares românticos, a partilhar o spaghetti, qual Dama e Vagabundo; depois de idas ao cinema com quilos de pipocas e litros de Coca-cola à mistura; fugas ao fim-de-semana de puro descanso e amor. Até o ginásio fica muitas vezes para segundo plano, porque a manta e o sofá começam a chamar para um programa de mimo, no quentinho, em frente à televisão.
No lado oposto desta descrição, as desavenças ou os problemas que surjam no casal são um verdadeiro queima-gorduras. Quem é que pensa em chocolates, quando anda a estranhar aquelas reuniões tardias dele? Quem é que pensa em devorar uma pizza, à frente da televisão, quando anda preocupado com as contas por pagar e o salário em atraso?
Há uns tempos, li que a Marisa Cruz tinha emagrecido não sei quantos quilos em dois ou três dias, e cortado radicalmente o cabelo. Pensei para mim "hmmm... não me parece coisa boa, mas espero estar enganada". Não estava. Hoje, a acreditar nas revistas, o casamento com o João Pinto chegou ao fim. Não conheço nem um nem outro, mas fico sempre triste quando um casamento termina, porque, como romântica que sou, gosto de acreditar que os casamentos são para todo o sempre.
Contudo, o que me deixa mais intrigada nisto tudo é pensar que existam ainda tantas mulheres que só começam a pensar no corpo e no aspecto físico quando as coisas dão para o torto. É vê-las a correr para o ginásio, para as massagens, para a manicura, para o cabeleireiro, para o cirurgião plástico, para o shopping. É vê-las passar duma copa A para uma copa D, com orgulho. É vê-las reduzir o tamanho da saia. É vê-las exibir as novas madeixas loiras.
Porquê? Porquê? Sempre achei que uma mulher devia ter cuidado sempre. Devemos gostar do que vemos no espelho quer tenhamos ou não alguém ao nosso lado. Não é até uma prova de amor? Um "gosto de ti, por isso quero que me vejas no meu melhor e não em modo desleixada".
Lembro-me de ter 20 anos, estar em casa à espera dum namorado, e a minha mãe afirmar "já não gostas dele." Perguntei porquê. "Nem te arranjaste. Até do perfume te esqueceste, não sei se já reparaste". Ri-me. Era verdade. Não tinha posto o perfume, como sempre fazia. E sim, já não estava apaixonada. Porque para mim gostar de alguém é, para além de tudo o resto, querer mostrar-lhe o melhor de nós sempre, e não apenas mais tarde, quando for para dizer "olha o que perdeste! estou óptima!" ;)

A minha amiga imaginária é mais popular que eu

Há uns valentes anos, quando o Mark Zuckerberg ainda tinha acne e não sonhava ainda em criar redes sociais, era o Hi5 que estava a dar e toda a juventude vibrava com a novidade.
Esse era um tempo, em que as minhas férias eram intermináveis e o tempo dava para tudo. Os namoros eram marcados pela descoberta, paixão e alguma insegurança. As amigas eram omnipresentes e acompanhavam-nos para todo o lado, incluindo para casa, onde ficavam a dormir.
Um belo dia, o tempo em demasia, a insegurança dum namoro recente e a omnipresença das amigas coincidiram entre si no tempo e no espaço e deram origem à única consequência possível: asneira!
Do que é que nos lembrámos? - "Vamos criar um perfil falso no Hi5 duma gaja podre de boa, simpática, amiga do amigo e que só diga lugares comuns!!", dissemos praticamente em uníssono.
E assim fizemos, com a adrenalina a correr a um ritmo alucinante nos nossos corpos. Quisemos que fosse tudo o que um homem pudesse sonhar:
- Boa (grandes mamas, decote gigante e roupa insinuante);
- Com amigas igualmente boas;
- Solteira;
- Ar meiguinho;
- Perfil cheio de lugares comuns e igual ao de 80% das mulheres.
O perfil era aquilo que nós identificávamos como sendo o pertencente à 'mulher comum'. Exemplos:
- Música preferida? Gosto de um pouco de tudo, depende do estado de espírito.
- Séries? CSI e House.
- O que mais odeias? Mentira, inveja e injustiça.
- O que mais gostas? Dos meus amigos.
- Maior qualidade? Amiga do meu amigo.
- Defeito? Teimosa. Quando acredito em algo, luto até ao fim.
- Emprego? Professora de Educação Física à espera de colocação.
Terminámos o perfil e sentimo-nos orgulhosas de nós mesmas. A ideia era atrair os nossos namorados para aquele perfil irresistível e apanhá-los em flagrante. Nunca aconteceu.
Choveram logo convites de amizade. Mensagens sem fim. Chegou a Segunda-feira, escrevemos "oh não, é 2a outra vez. lol". Foi motivo de mil comentários. Sexta - "é fim-de-semana! happy!!". Mil comentários. Fez anos, as mensagens não paravam - "és linda; és tão querida; obrigada por me aceitares; aparece na discoteca X".
Começámos a ficar nervosas. Apagámos aquele perfil como quem esconde um cadáver na mala do carro - à socapa e com medo que alguém nos apanhasse.
Era oficial: aquela pessoa imaginária era mais popular que nós todas juntas.
Não podíamos conviver com essa realidade, tínhamos que refazer a nossa vida longe daquilo.
De vez em quando lembramo-nos ainda dela com alguma tristeza, confesso. Hoje foi um desses dias:
- Lembras-te quando aquele perfil inventado teve mais amigos que nós?
- Sabes porquê? Ela não era inteligente, só dizia balelas, limitava-se a sorrir e a dizer 'lol'. Queres melhor? Era a mulher de sonho de qualquer homem.
- Pois. É triste não gostar dos lugares-comuns.
- ...
- Beijinho.
- Até amanhã.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Se eu tivesse um comando destes...

Alterava o sinal de baixar-o-tampo-da-sanita pelo sinal "levar-o-lixo-cozinhar-e-arrumar-a-roupa".
Ia carregar muitas e muitas vezes no botão "talk about - feelings". Não há nenhum mal em falar de sentimentos, certo? Porque é que eles evitam tanto?
Ia carregar de quinze em quinzes dias - mais coisa, menos coisa - no botão "shopping". Mas teriam que ser compras a sério, ao ponto de entrar comigo nas lojas, ajudar a escolher, dar sugestões e dizer se assenta bem.
O botão dos "shoes" tirava-o e substituía-o por "viagens-e-desporto", temas que passariam a ser obrigatórios mais vezes e com entusiasmo!
De resto, mantinha tudo à excepção do "flowers", que trocava por "livros-cds-e-bilhetes" para qualquer espectáculo bom.
Se tivesse um comando destes, ia abusar do botão "+" até ficar gasto (cof coff) e do botão "say yes".
Se tivesse um comando destes a funcionar, eu ia ser a pessoa mais completa e feliz do mundo.
Senhores fabricantes, não querem seguir as minhas sugestões?
É só trocar umas pequenas teclas e pô-lo realmente a funcionar. Coisa pouca. ;)

A D. Adélia

Durante anos, era eu que limpava a minha casa e tratava de todas as lides domésticas. Custava? Claro, mas estava na faculdade e, como não recebia nenhum salário - fazia só aqueles trabalhos ocasionais de hospedeira, para amealhar dinheiro para as férias -, achava que não era justo serem os meus pais a pagar por algo que eu podia perfeitamente fazer.
Entretanto, acabei o curso e os queridos dos meus pais arranjaram uma senhora, conhecida duns amigos deles, que passou a ir limpar a minha casa uma vez por semana. Chamemos-lhe D. Adélia (nome fictício). A D. Adélia foi presença semanal em minha casa durante algum tempo. E, sinceramente, foi um alívio deixar de contar com ela.
Porquê? Passo a explicar: a D. Adélia conseguiu inverter, de tal forma, os papéis entre nós que, passado uns tempos, sentia que era eu a empregada e ela a 'patroa'. Eu tinha imenso cuidado a deixar tudo arrumado, no dia em que ela vinha, para facilitar a limpeza, mas à medida que foi ganhando confiança, passou a falar mais e a limpar menos. Quando eu chegava a casa, à hora de almoço:
- D. Adélia, desculpe o reparo,  mas ali a banca da cozinha está com pó. Já limpou?
- Limpei, mas esta casa ganha muito pó. A Dra. deixou a janela aberta, não pode deixar, porque suja logo tudo.
- Deixei aberta para arejar. Podia ter fechado...
- Podia, mas aquela janela fecha mal e eu ando aqui com uma dor no ombro e até acho que é por isso. Ela está toda empenada.
- Não estava.
- Ah não estava... Olhe, e aproveitei e estive a tratar das plantas. Plantei-lhe ali umas flores novas, acho que vai adorar. E tirei as ervas daninhas, adubei a terra. Ah e deixei-lhe ali na entrada o catálogo da Oriflame. Não quer ver e escolher alguma coisa?
- Obrigada, mas agora preferia que limpasse só a banca, que está realmente suja. E o chão também não está passado a pano, pois não?
- Está. Mas a bicha anda para um lado e para o outro e não me deixa limpar bem. Há bocado acho que ela queria mijar e até a levei lá abaixo. Tirei umas fotografias e mandei ao meu filho. Veja que bonita que ficou. Tenho que pôr no facebook, mas não queria gastar tráfego. Qual é a pass da internet aqui em casa?
- Depois digo-lhe. Pode tratar primeiro do que lhe disse?
- Claro, mas olhe que a culpa é da janela empenada e da bichinha, que está sempre ali a chafurdar o focinho no chão.
- A bichinha tem nome.
- Desculpe, eu sei. Mas 'bichinha'e é o nome carinhoso que eu dou. Sabe que adoro cães. E esta é muito esperta, estou sempre a brincar com ela. Deixo-lhe então aí o catálogo, para ver se gosta. Tem coisas muito bonitas, ainda há pouco estava a ver...
- Pois, por isso não limpou a cozinha. (disse eu, entredentes)
- Como? Ah, tenho que tirar os phones, que estou aqui a ouvir rádio, enquanto limpo.
Esta mulher era uma personagem. Teve que ir embora, mas talvez um dia a contrate como jardineira, entertainer ou petsitter da minha cadela. Para limpar, realmente, é que não. Desculpe, D. Adélia.
Entretanto, tenho que aceitar o seu pedido de amizade no facebook. Até tenho medo...

O dia em que vi o meu colega possuído.

Quando me inscrevi no mestrado, há quase um ano, tive a sorte de ter três colegas de trabalho (1, 2 e 3) como colegas de curso, pelo que ir às aulas todos os dias à noite, apesar de a idade ser agora outra, passou a ser quase como no liceu. Era mais fácil estar atenta e tinha mais vontade de participar do que durante a faculdade. E dessa forma, não me custou quase nada conciliar a vida profissional, no escritório, com o estudo e com os trabalhos nas 9 (!!) cadeiras que tive num semestre.
Tudo corria bem, sem sobressaltos.
Até que um dia, o meu colega 1 - que era quem eu conhecia há mais tempo e com quem conversava mais - comentou comigo que achava que o colega 2 (senhor nos seus 50 anos, que trabalhava noutra área e noutro andar do nosso edifício) seria gay. E deduzia que sim, porque o tinha apanhado a falar com muita emoção duma noite com um amigo numa determinada discoteca com fama de ser 'gay friendly' e por mais dois ou três indícios que já não me recordo.
- É gay, tenho a certeza.
- Não é nada. Até acho que é bastante mulherengo, se queres saber.
- Isso é para disfarçar!
- Não acredito. Ele passa a vida a comentar outras mulheres comigo. E já me elogiou várias vezes, para tua informação. Disse que eu me vestia bem e tinha pinta.
- É porque é gay! Está a elogiar como amigo.
- Oh. Cala-te.
No dia seguinte, fomos trabalhar. Até que, não satisfeito com a minha reacção, pôs-se a pé, a meio da manhã (nós trabalhávamos num open space), impulsionado por uma sede de verdade que o atingiu. Colocou-se de costas para o corredor e começou então a comentar com a colega 3, que trabalhava connosco, num tom mais alto e nervoso que era comum nele:
- Ouve lá, não achas que o 2 é gay?
- O 2?! Não, não acho.
- É gay! Ele até comentou que foi àquela discoteca, a ...
- Isso não quer dizer nada. Também já fui a sítios desses e não sou.
- Mas ele é. Eu sei. Até o amigo de que ele fala tem tiques. Aposto que é o namorado.
Eu intervim:
- Olha que o homem é divorciado e tem filhos. Não digas isso. Nem parece nada teu.
- É divorciado? Precisamente! Divorciou-se, porque não gosta de mulheres. Ele é gay! O 2 é gay. Nunca mais lhe dou boleia para o mestrado. Ainda se atira a mim! (já exaltado)
- Tem calma, parece que estás possuído pelo Demónio.
- Porque vocês não facilitam. Ele é tão, mas tão gay!!
Nesse momento, começámos a ver o colega 2 a chegar. O colega 1 estava de costas e continuava possuído pelo Demónio, sem se calar.
- Mais gay não podia ser!!
Nisto, o colega 2:
- Olá! Vim aqui perguntar-te se me podias dar boleia logo. Temos exame hoje, não é?
Silêncio. Quase que juro que cheguei a ouvir dois grilos ao longe, tão longo foi este silêncio. O colega 1 estava sem pinga de sangue, a tremer.
- Olááa.... Claaaro que siiiim. Eeeeu leeeevo-o.
- Obrigado! Até logo!, respondeu o 2, enquanto lhe passava a mão no braço, a sorrir.
Até hoje, ninguém sabe se o colega 2 ouviu aquilo ou não.
Mas o que é certo é que o 1 contou-nos, mais tarde, que aquela foi a pior viagem de carro da vida dele - não sabia se o 2 ia querer retaliar.

Conclusões:

  • O colega 1 nunca mais falou alto, sem se certificar que não tinha ninguém atrás. (salvo seja)
  • E, hoje em dia, é mais tolerante com todas as orientações sexuais. (pelo menos em público, que em privado, pode dizer o que quiser)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Ao chegar a casa, depois duma corridinha...

- Chegueiiii!!
- Espera.
- Espero porquê?
- Não entres!
- Desculpa? Vais dizer-me que estás em modo 'Miss-Pernambuco-2001' (falada aqui) e que também tenho que dar duas voltas à casa antes de entrar? Já estou a sorrir, olha.
- Oh.
- Pronto, estou a sorrir maaaaais.
- Não é isso. Olha para baixo.
(...)
- Ah... Pois...
(Em baixo, estava uma beldade destas em cada pé.)
Nota mental: correr em ruas enlameadas com calçado branco não é boa ideia.

Não se ama alguém que não come o mesmo prato

Aquela cara começava a ser familiar. Semana após semana, cruzavam-se ao entrar no comboio. Ela tinha ficado hipnotizada por aqueles olhos que tinham em si toda a luz do dia, da cor do céu. Já se arrastavam para entrar na carruagem, de cada vez que se viam, para prolongar aqueles curtos momentos. Por duas vezes tiveram que ser praticamente arrastados pelo segurança para entrar.
Um dia, sentaram-se lado a lado. Ela ia nervosa, sentia o coração a bater a 200 na garganta, parecia que ia explodir. A propósito de um nada qualquer que naquele momento pareceu inadiável, ele meteu conversa e começaram a falar. Ou melhor, ela falava e ele ouvia. Ouvia tudo, com olhar atento, acenava com a cabeça, sorria com as histórias e fazia perguntas no fim.
Semana após semana, lá se iam sentando lado a lado. Ele lembrava-se das conversas todas passadas, perguntava-lhe pelo trabalho, pela família e ela sentia-se especial. Aquele banco da carruagem X, parecia-lhe o lugar mais acolhedor do mundo.
Semana após semana, depois de sair daquele comboio, já só pensava no dia em que se sentariam novamente lado a lado. Até que recebeu uma mensagem - "queres almoçar?". Queria, claro que queria.
Chegaram, sentaram-se lado a lado. Já não sabiam sentar-se de outra forma. Ela tinha insistido para irem àquele japonês óptimo e barato. Ele comentou "não sei usar os pauzinhos, tens que me ensinar, ok? É que nunca comi sushi". "Hmm... quer ser ensinado. Adoro ensinar", pensou ela, com alguma malícia.
Sentados lado a lado, ela ensinou-lhe tudo. Ensinou como se colocavam os dedos, como se deviam mover os pauzinhos - 'hashi' -, o que era o sushi e o sashimi, o nome de cada peça, o que era o gengibre e o wasabi, o que era aquele molho. Ensinou tudo o que sabia. Ele sempre a ouvi-la, atentamente, com aqueles olhos cor do mar. Ela adorou aquele almoço. Tinham que repetir.
No segundo almoço, ela, entusiasmada, quis conhecer novo japonês - "ainda é melhor e mais barato!", prometeu. Lá foram. Sentados, lado a lado, ela queria que ele praticasse novamente. Zero. Ele estava a zero. Mas ela repetiu tudo. Como se colocavam os dedos, como se deviam mover os hashi,... Já não adorou tanto aquele almoço, apesar de ele continuar tão querido e atento, e a olhar com aqueles olhos claros. Mas queria repetir.
O terceiro almoço foi igual. Passou mais rápido, porque ela tinha "um trabalho importante para terminar".
No quarto almoço, foi a vez dele falar num japonês "bem jeitoso". Lá foram. Sentados, lado a lado, ela assistiu outra vez, já sem forças, ao esforço dele para pegar nos hashi, novamente sem sucesso. "Vou pedir talheres, ok? Mas conta lá, estavas a falar daquela vez que..." Ela já nem queria falar. Talheres?! Desistia assim?? "Confesso que não sou grande fã de sushi", segredou-lhe ele. Ela só conseguia ouvir o Rui Veloso na cabeça, em modo repeat - "não se ama alguém que não ouve a mesma canção".
Nesse momento soube que nunca o ia amar.
Não se ama alguém que não come o mesmo prato, decidiu.
E lá o esqueceu. De que cor eram os olhos dele, já agora? Bem, agora já não interessa nada.

A crise existencial aos 6 anos

Já toda a gente passou por algum tipo de crise existencial, maior ou menor, durante a sua vida, certo?
A minha, no entanto, aconteceu de forma mais acentuada aos 6 anos.
Lembro-me de, a dada altura, olhar para a minha mãe e perguntar:
- Gostas de mim?
- Claro que sim, filha.
- Porquê?
- Porque és minha filha! Então isso é pergunta que se faça?
- Pois... Já sabia que ias dar essa resposta.
- Mas não é a resposta certa?
- Não, claro que não. Tu não gostas de mim por aquilo que eu sou. Se não fosse tua filha e passasse por ti na rua, não ias gostar de mim. Se falasses comigo um bocado, não ias gostar de mim. Só gostas porque nasci de ti. Posso ser um monstro e burra, mas como nasci de ti, gostas de mim.
- Oh...
- Preciso que gostes de mim por aquilo que sou. Está bem?
- ...
- Se não, não gostes. É que eu só gosto de ti por aquilo que és.
A minha mãe lembra-me muitas vezes deste diálogo e é provável que, com os anos, o tenhamos tornado mais elaborado e complexo. Mas a verdade é que me lembro desta angústia que senti como se fosse hoje. Lembro-me de pensar que não era ninguém, que era só uma "filha".
E sei, por isso, que estes pensamentos sobre quem somos realmente podem ser transversais a qualquer idade.
Ou isso, ou então isto é a prova que crianças de 6 anos não devem beber vodka ao jantar. (estou a brincar, era só para vos acordar depois deste momento melodramático).

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Roupa vintage

É poder andar com roupa por lavar, a cheirar a mofo, e estar 'in'.
É poder usar o mesmo, ano após ano, cheio de borboto, e ser motivo de orgulho.
"Esse casaco está um pouco velho, não está? Está descosido nas mangas e a cor está desbotada."
"Não, querida. Este casaco é vintage."
Estou a ouvir no telejornal que o vintage é mais que uma tendência - é uma forma de vida.
Não é um bocado exagero?
Eu sei que há verdadeiras relíquias que se encontram nessas lojas e sei que há gente muito bem vestida, e que consegue incorporar roupa mais antiga no visual, de forma irrepreensível.
Mas infelizmente já vi também tanta gente mal vestida e a cheirar a duzentos anos...
A questão é: a roupa vintage também se pode lavar, não?
Se não, dou já uma de vintage, que sempre é mais prático e escuso de ligar a máquina de lavar. A vida anda cara... ;)


O "doido" ensina a conquistar um homem

A propósito do Dia de São Valentim, que se aproxima a uma velocidade vertiginosa, lembrei-me de partilhar aqui alguns ensinamentos que me foram transmitidos por alguém que conheci há uns anos e com que tive, por motivos profissionais, de conviver durante uns meses. Esse alguém é referido aqui em casa como "o doido", por isso podem antecipar o tipo de conselhos que aí vêm.
Ora, o "doido" reclamava para si o título de perito em mulheres e relacionamentos, por isso era vê-lo partilhar gratuitamente, a propósito de tudo e de nada, dicas e verdades absolutas sobre como conquistar um homem ou sobre como manter uma relação apaixonada e feliz.

Conselho 1: "Oiçam bem. As mulheres têm que reivindicar tempo de qualidade aos seus namorados ou maridos. Mesmo que este trabalhe muitas horas, a mulher tem que ligar-lhe e dizer que está à espera dele em casa. Quando o homem chegar, ela já deve ter o jantar preparado e a casa num brinco. No entanto, a mulher só pode deixar o homem entrar em casa se este estiver a sorrir e feliz. A casa deve ser um sítio de amor, paz e alegria. A minha ex namorada [brasileira] fazia sempre isto - eu chegava a casa, ela abria a porta e olhava para mim. Se eu não estivesse a sorrir, ela dizia para ir dar uma volta e regressar só quando estivesse a sorrir. Às vezes obrigava-me a dar três voltas ao prédio. Quando entrava finalmente em casa, tratava de mim como se eu fosse um rei. Passei a entrar em casa sempre bem-disposto."
Lembro-me que, mais tarde, me confidenciou que essa mesma namorada o tinha depois traído e regressado para o Brasil com outro. E sei que isto é muito mau, mas quando ouvi isto só pensava: "pois, por isso é que te obrigava a dar voltas ao prédio antes de entrares em casa... ahah além disso, bem me parecia que ser miss pernambuco 2001 não é profissão."

Conselho 2: "As mulheres deviam pentear sempre o cabelo ao pé dos homens. É dos gestos mais sexy."
Quanto a este conselho, a título de curiosidade, posso dizer que "o doido" era careca. Talvez daí viesse este amor às escovas e aos pentes.

Bem, espero que, apesar do elevado grau de loucura deste perito em relacionamentos, estes conselhos tenham alguma ponta de verdade e vos possam ser úteis. Quanto mais não seja, podem sempre rir-se a ler isto e então este post já terá servido para alguma coisa. ;)

domingo, 3 de fevereiro de 2013

A Erica Fontes...

... tem sido muito falada, ultimamente, por ter ganho o equivalente aos Óscares da indústria dos filmes para adultos, e por ter também dado um workshop de sexo oral. Facto 1.

Hoje perguntei à minha avó se tinha dado uns beijos a um amigo com que andava a sair e a minha mãe ficou escandalizada. Facto 2.

Facto 1 + Facto 2 = Uma desconhecida a falar connosco de sexo oral é normal. Perguntar coisas íntimas à família é falta de respeito.

A minha conclusão: gostava que toda a gente tivesse mais à vontade a falar de certos temas. Crescemos todos com a convicção de que determinados assuntos são tabu. Terão que ser? Não podemos falar de beijos, amor e do acto de o fazer? Pois, pelos vistos não. Mas é pena, porque depois tem que vir uma Erica Fontes ensinar uns truques. E acho sinceramente que determinados problemas podiam ser minorados se se falasse mais com os amigos ou até com profissionais especializados - sexólogos, não actores porno.
Vejamos deste ponto de vista: a Erica é actriz, certo? Tem relações, finge para as câmaras que está a ser a maior loucura de sempre, finge estar doida pelo seu par 'romântico' e finge gemidos de prazer. Correcto? Não estudou o corpo humano na escola, não teve Anatomia (que eu saiba), nem se especializou no assunto de forma profissional.
Assim sendo, pedir-lhe conselhos não é a mesma coisa que eu ir ao actor do Dr. House quando tiver uma dor de costas? Não é a mesma coisa que eu ligar à actriz do Ally Mcbeal a pedir para me defender em Tribunal, porque fui multada?

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A vida na cidade

 
Sempre me considerei uma pessoa citadina. Gosto de ter tudo a uma curta distância: cafés, quiosques, supermercados, ginásios, lojas, hospitais, etc.
No entanto, à medida que os anos passam e vou ficando mais velha, começo a sentir um apelo que é novo para mim: o apelo à calma, ao sossego e à qualidade de vida que só são possíveis nas zonas mais afastadas da cidade. Detesto trânsito e não consigo imaginar-me a passar duas horas por dia parada na estrada, a respirar monóxido/ dióxido de carbono dos carros que me rodeiam, por isso sei que viver fora do centro urbano é um problema. Por outro lado, pensar em chegar a casa e sentir o contacto com a natureza e não apenas as paredes dum pequeno apartamento, pensar em ter espaço para poder ter animais e para um dia os meus filhos poderem correr e brincar é algo que me faz vacilar.
Hoje foi dia de visitar um espaço que para mim é muito especial. Não vinha aqui há anos, apesar de ser da família. Havia sempre desculpas.O tempo nunca chegava.
Hoje, contudo, o tempo chegou. E, ao entrar aqui, cada segundo durou minutos. O tempo congelou. Multiplicou-se. Porque o tempo pára quando se está longe do rebuliço da cidade. E o perfume que pairava no ar era único. Um silêncio que não há em lado nenhum. Apenas a presença dos animais: galinhas, gansos, cavalos e alguns cães. E o rio, ali em baixo.
Senti que era bem capaz de viver por aqui.
Talvez um dia... Quem sabe?

Há alguma relação entre ginasticar e vacas?

Sim.
Ontem deu-me a nostalgia.
Andava há umas semanas a cantar a música do "ginasticar", sempre que alguém falava em correr ou fazer desporto, mas como não me lembrava da letra toda já me irritava a mim mesma. Sabem quando querem cantar e vibrar com uma música, mas só sabem o refrão e, por isso, depois têm que vibrar em pensamentos, porque não conseguem exteriorizar o resto da música?
Pronto, eu andava assim. A música, para quem não está recordado, é da Rua Sésamo e já não ouvia desde o século passado (adoro viver na viragem do século, permite-me estas hipérboles que são, no entanto, verdade).
Para acabar com o martírio (próprio e alheio - sobretudo alheio), fui procurar no youtube. Ora carreguem no 'play':
Lembram-se agora? Foi quase como uma massagem ao coração ouvir isto. Que saudades!
Acontece que o youtube é como as cerejas: quando ouvimos uma música nunca ficamos por aí e queremos sempre muitas mais. Ninguém consegue ficar satisfeito só com uma. Então andei eu a saltitar de música em música, a reviver a infância e a maravilhar-me com estas pérolas da Rua Sésamo, primeiro, e depois com outras canções para crianças do meu tempo.
Agora pergunto: já pararam para ouvir as letras destas músicas? Vou dar-vos alguns exemplos do que
ouvi. Não sei se sou eu que cresci e desenvolvi uma mente pecaminosa, doentia e tenho que ser internada, mas deixo que as letras falem por si e que sejam vocês a decidir do teor inocente ou não das mesmas:
Exemplo 1: "Às vezes, quando estou para aí virada, penso nos animais que eu podia ter sido. (...) Tenho orgulho em ser a criatura que eu sou. Tenho orgulho, orgulho em ser uma vaca, vacaa, vacaa. (...) Tenho cornos na cabeça. O prado é a minha cama. Todas as vacas deveriam ser adoradas.  (...) Tenho orgulho em ter um badalo como o meu pai. Não, como a minha mãe."
Exemplo 2: "Bananas sempre juntas, a crescer. Não verás uma banana só. (...) Nunca uma banana sozinha cresceu."
Exemplo 3: "O Lobo Mau corre para a avó e chega lá primeiro. Come-a duma vez, ai que lobo matreiro."
Até posso ser eu que estou louca, mas sinceramente parece-me que há letras que devem gerar muita risota por parte de quem está a escrever. Além disso, se assim não fosse, as canções infantis não tinham sido utilizadas pelo Quim Barreiros, certo? Não vou colocar aqui o link, mas adianto que esse senhor fez uma música, com um videoclip todo catita para crianças, cujo nome é "Pito mau" e que, com pena minha, tenho que admitir que também poderia ser música para crianças, não fosse sabermos quem escreveu essa pérola.
Deixo-vos a ouvir estas músicas, a reviver a vossa infância e a decidir, portanto, se sou eu que sou doida varrida ou se são os criadores das músicas para crianças. (votem na segunda, votem na segunda!!!)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Aposto contigo o que quiseres

O sentido de humor é, para mim, a característica mais importante que alguém pode ter.
Já sei que vão dizer - "pois, para ti e para toda a gente" - mas claro que depois depende do tipo de humor. E eu aprecio acima de tudo o humor sarcástico, pertinente e pessoas capazes de se rirem delas mesmas.
Li há uns dias que a actriz Julie Bowen, da série Modern Family, fez uma aposta com o apresentador Jimmy Kimmel: tinham que fazer uma corrida à volta dos estúdios e o vencedor tinha o direito de aceder durante um dia ao Twitter do perdedor. Estava a ler a notícia e, nas primeiras linhas, pensei logo: "pronto, Julie, já foste". Porque os homens são sempre melhores nas provas de velocidade, certo? E apesar de a Julie correr assiduamente, percebi logo que seria uma aposta condenada.
Assim foi: a Julie perdeu e o Jimmy Kimmel andou a escrever na conta dela durante um dia. Nesse dia saíram pérolas como:
Esperanza – the tiles behind the toilet aren’t going to clean themselves. Gracias.
Where is Africa?
Hello @RobLowe – I’m nice enough to follow you, so you need to follow me. That’s how it works, dickhead.
Feel bad for poor people. They never get massages.
Tryin 2 get @SofiaVergara deported. :)
- Hey @Oprah aren’t you sick of Gayle already? Call me!
Digam lá se não têm que ter ambos óptimo sentido de humor para permitir isto?
Dei por mim a pensar que é esta a beleza das apostas. É que além de serem uma óptima maneira de fazer teimosos vacilarem - "ai sim, tens a certeza disso? O que apostas?" - são sempre uma maneira de passar um bom bocado e premiar o detentor da razão.
Eu tento apostar sempre que posso, mas pouca gente alinha - é nessa altura que vacilam "hmm, talvez não tenha tanta certeza assim". E é pena vacilarem, porque dessa forma já ganhei refeições 'caseirinhas', já pude escrever no facebook alheio e já pude até enviar mensagens em nome de terceiros e outras coisas que já nem me lembro.
E vocês, gostam tanto de apostas quanto eu? :)

O meu órgão e o Cebolo

Esqueci-me dum pormenor essencial ao referir a história do meu órgão.
Para quem, como eu, teve aulas de órgão no final dos anos 80, inícios dos anos 90, o que vou contar não será nenhuma novidade.
Mas se nunca passaram por isso, então preparem-se para uma grande revelação.
Com 8, 9, 10 anos nenhuma criança percebia o trocadilho por trás de nomes como 'órgão' ou 'flauta', por exemplo. Eram instrumentos musicais, ponto. E, por isso, nunca parei um segundo que fosse a analisar os nomes dos meus livros de música.
Apenas muito mais tarde, já estava eu pela primeira vez na faculdade a ser praxada, descobri a verdade que ali esteve sempre escondida ao pé de mim. A praxe pode não ter servido para mais nada, mas serviu para isto.
- Caloiroos!! Quem é que daqui sabe tocar algum instrumento?
(uma dúzia de dedos no ar)
- Quem aprendeu música pelos livros do Eurico Cebolo?
(um dedo no ar)
- Caloiraaaa!! Anda aqui.
(eu, muito solícita, lá fui. Como é que mais ninguém conhecia?)
- Que livros tiveste dele?
- A Flauta Mágica e o Órgão Mágico. (disse, num ápice, como quem sabe a resposta da pergunta para os 100.000 euros)
- Muito bem. Tens a certeza dos nomes?
- Sim, tenho a certeza que eram esses.
- E chamava-se Eurico Cebolo, o autor?
- Sim!
- Então vais conhecer o resto da bibliografia do teu mestre da música.
Deram-me dois livros dele para ler excertos em voz alta. E foi aí que percebi. Não é que o raio do homem tinha um vasto número de contos eróticos lançado, todos com trocadilhos manhosos e capas também bastante apelativas?
Juro que, nesse momento, a minha infância ficou para sempre perdida. Naquele dia perdi a minha inocência de menina e tornei-me mulher. Arrancaram-me um pedaço do coração. O 'meu' Eurico? O Eurico que me ensinou desde o 'Papagaio Loiro' até às 'Quatro Estações'?
Para quem não o conhecia, ficam aqui mais dados sobre este artista portuense: Eurico A. Cebolo. Podem deliciar-se com obras como "Incesto sem Pecado" ou o título, de muitíssimo bom gosto, "O Falo Perdido".
Se tiverem menos de 18 anos, não leiam, porque correm o risco de ficar traumatizados como eu fiquei. Não se nota? Passou mais duma década e nunca mais me esqueci daquele dia... Nunca mais... (voz grave)