Uma jovem de 15 anos trincava violentamente o lápis, sem reparar, enquanto acenava com um olhar perdido, fingindo ouvir o professor.
- Estás nervosa?
- Hãan?
- Estás nervosa?, perguntava a amiga, colega de mesa, entredentes, acenando também ao professor.
- Muito. E se eu não souber? Tenho medo de não saber.
- Claro que sabes. Toda a gente sabe.
- Mas eu nunca experimentei.
- Tens a certeza que gostas dele, não tens?
- Acho que sim...
- Olha, ele gosta mesmo de ti. Fala de ti a toda a gente, está sempre a elogiar-te.
- Eu também gosto dele.
- Mas ele gosta MESMO. E é espectacular. Tens sorte. Aproveita.
- Olha, e se correr mal?
- Se correr mal, treinam mais. Hão-de aprender juntos. Agora pára de trincar o lápis, já vai quase em metade. E o lápis não tem culpa.
- Tens razão. Já pousei. Que horas são?
- 15h00.
- Ainda? O tempo hoje não passa. Ai, dá cá o lápis.
Às 15h20 a campainha tocou. Ela desceu as escadas, a tremer. Cabelo ligeiramente esticado. As Levi's 534. Bem justinhas. Será que lhe faziam o 'rabo bom'? Nunca conseguia ver bem ao espelho. Olhou lá para fora. Tinha começado a chover. E ela com aquela camisola rosa tão fina. A mãe bem lhe tinha dito que já não era Verão.
- Ah estás aqui.
- Olá!
- Então sempre queres falar?
- Sim...
- Vamos dar uma volta?
- Está a começar a chover.
- Já viste a gente que aqui está? Gostava de ter mais privacidade.
Começaram a andar. Os amigos ao longe, a sorrir e a torcer por eles, à medida que os viam afastar até desaparecerem de vista e descerem as escadas.
- Já pensaste numa resposta para a pergunta que te fiz?
- Desculpa?
- A pergunta que te fiz na 3a. Disse-te que gostava de ti e que gostava de te conhecer melhor, mas não como amigo.
- blá blá blá.
- blá blá blá.
A partir daquele momento, nenhum dos dois já ouvia nada do que o outro dizia. Eram só palavras que se evaporavam à medida que saíam.
Chovia cada vez mais. O cabelo dela estava a ficar molhado, com umas ondas engraçadas. Ele tinha a camisa colada ao corpo. E as mãos quentes. Que começaram a seguir-lhe as ondas do cabelo. A tocar-lhe no pescoço. Na cara. De repente, sentia os lábios dele a tocar os dela. Estava paralisada. Os lábios não tinham pressa. Continuavam ali e queriam uma resposta. Ela deu-lhe a resposta, a tremer. 'O' beijo. Era isto? De olhos fechados, beijaram-se ali, à chuva. Naquela Sexta-feira de 1997.
Se foi bom? A verdade é que foi péssimo. A ansiedade, o medo do desconhecido, a pressão dos amigos, à espera. O ser subitamente adulta e ter que agir como tal, quando ainda se sentia uma criança.
O primeiro de tudo é sempre assustador. A adolescência é um desafio.
Aquele não foi o primeiro amor dela. Passado pouco mais dum mês já só queria estar com as amigas e partilhar histórias. Mas no final dessa Sexta-feira, chegou a casa e contou, orgulhosa, à mãe:
- Hoje dei o meu primeiro beijo.
- Hmm... mas então vê se tens juízo e se portas bem. Tens que continuar a ser boa aluna!
- Eu sei isso tudo. Só que prometia que te contava quando fosse e contei.
- Dá cá um abraço. Ai és tão pequenina.
- Já não sou, agora.
A mãe sorriu, emocionada. Uma lágrima marota parecia espreitar.
- Estás a chorar?
- Achas? Muda mas é a camisola que eu disse-te que já não estamos no Verão.
- Eu sei. Nunca mais nos podemos esquecer deste dia.
- Sim. 10 de Outubro.
De 1997. Sexta-feira. 15h30. Ela nunca mais se havia de esquecer.
Feliz Dia a todos! Aos comprometidos, aos solteiros, aos apaixonados, aos desiludidos, aos esperançosos, aos descrentes. O amor assume várias formas e feitios. Apenas não desistam. Poucos acertam à primeira ou à segunda tentativa. Apenas não deixem de tentar. Quem já encontrou, continuem sempre apaixonados como no primeiro dia.







