quinta-feira, 7 de março de 2013

A compatibilidade de sermos incompatíveis

Somos muito diferentes um do outro na maior parte das coisas.
Ele é temerário.
Eu sou mais medricas sensata.
Ele diz tudo o que pensa, sem papas na língua, às vezes parece procurar confrontos.
Eu digo o que penso, mas evito discussões ao máximo.
Ele passa por pessoa mal-educada com uma personalidade muito forte.
Eu passo por calma.
Ele é o insensível racional.
Eu sou a sonhadora.
Ele é o prático.
Eu sou a perfeccionista.
Ele detesta o conceito de festivais e concertos, apesar de adorar música.
Eu acho que a música se vive nos festivais e concertos.
À primeira vista, podíamos chocar de forma irreversível. Mas o que tem acontecido, ao longo dos anos, é que vamos encaixando e vamo-nos completando.
Há uns dias, em plena mudança de casa, ele começou a resmungar com qualquer coisa, talvez porque queria despachar tudo e eu estava a tentar que tudo ficasse perfeito, com mais calma. Ele estava tão tão chato e resmungão que fui para a cama a pensar - confesso - "raio de homem, como é que o aturo". Acho que todos os casais passam por isto, às vezes. No dia seguinte, já me tinha esquecido daquele episódio de falta de paciência dele, até porque as brigas entre nós costumam durar o tempo da briga, apenas. No final das frases, é normal rirmo-nos e fazemos automaticamente as pazes. Um ou outro dá sempre o braço a torcer e a coisa morre logo ali. No entanto, neste caso, ele apareceu no dia a seguir directo das compras.
- Passei no Pingo Doce.
- Ok.
- Trouxe umas coisas para ti.
- Obrigada! O que trouxeste? Acho que não precisava de nada.
- Trouxe-te um chocolate que sei que adoras. E esta revista, que também sei que lês.
- Oh... Que bom!!
Comi o chocolate, sem pensar. Só passado uns minutos me lembrei da briga do dia anterior:
- Espera aí. Já percebi. Estás a compensar-me por teres sido parvo ontem?
- Não...
- Estás, estás!! Confessa!! Estás!
- Oh... Caí em mim... Foi só isso..., disse, meio envergonhado e a custar-lhe a admitir. Depois riu-se. Fogo, já me conheces.
Claro que conheço. E também não terá sido coincidência insistir comigo para irmos a um concerto de que eu tinha falado. E também não terá sido coincidência dizer-me, baixinho, ao ouvido, depois à noitinha:
- Amanhã tinha outro um jantar com os alemães. Já disse que não ia.
- Porquê? Vai!
- Não, quero jantar contigo.
E isto é, para mim, sermos compatíveis no meio de toda a nossa incompatibilidade.

Felicidade é...

Sendo eu um mix confuso de optimismo e saudosismo incurável, ingredientes aos que se juntam umas pitadas de insatisfação permanente, é nas pequenas coisas que vou sentindo que aproveito a vida e encontro a felicidade. Como já disse aqui, vivo permanentemente com saudades de tudo e, segundo me dizem, repito demasiadas vezes frases que começam por "tenho saudades". São quase sempre pequenas coisas. Mas a verdade é que é nessas pequenas coisas que encontro o meu equilíbrio e me permito ser feliz.
Foi talvez por isso que, quando descobri o Felicidário, fiquei logo fã. E agora vou praticamente todos os dias lá espreitar. O Felicidário acaba por ir de encontro ao que defendo: procurar ser feliz em cada pequeno gesto que praticamos.
O ano passado, no aniversário dos meus trinta anos, uma vez que era prática comum no sítio em que trabalhava darem o dia livre, fiz uma lista de trinta coisas que me faziam feliz e prometi a mim mesma realizá-las a todas. O dia foi, assim, passado a concretizar trinta pequenos gestos de felicidade. Exemplos? Ir à praia (tive sorte, estava um dia óptimo), molhar os pés no mar, correr, almoçar numa esplanada junto à praia, estar com os amigos, namorar, ver um bom filme, comer pipocas... tudo num dia. Este ano vou ter mais um ponto na minha lista, mas já começo a planear o que quero fazer. São gestos, apenas isso. Mas não é, afinal, a felicidade feita disto?

quarta-feira, 6 de março de 2013

Ainda sobre a Manifestação, a Grândola e os anti-Troikas

Quando escrevi este post, sabia que ia gerar anti-corpos. Sabia que nem toda a gente ia concordar comigo. E esperava o pior. Hesitei antes de o publicar, porque sou pessoa de evitar confrontos, admito. No final, acabei por pensar "afinal este espaço é sobre o que penso ou não?". E decidi publicá-lo na mesma.
Resultado? Não podia estar mais satisfeita. Ao contrário do que julgava, tive comentadores (em número, até agora, maioritário) que vieram mostrar a concordância com o que escrevi. E, quanto aos leitores que não concordaram de todo com o que aqui encontraram, expressaram, de forma educada, os pontos de vista e - devo confessar - deixaram-me absolutamente surpreendida pela positiva. Eu falava em ideias. Pois apresentaram-me ideias, mais ideias e sugestões.
Não estou a ser irónica de forma alguma: quero agradecer a todos terem-se exprimido de forma tão serena, clara e construtiva.
Só pelas vossas respostas, já valeu a pena ter escrito.
Obrigada.

Cor. Música. E uma guitarra.

Ela adorava o mês de Março. Lembrava-lhe cor. Morangos. E laranjas. Cheirava-lhe a relva molhada e a eucaliptos. Sabia a bolo de aniversário, cheio de luz, fruta e muito chantilly. Expectativa. Esperança.
E aproveitava sempre a despedida do Inverno e o regresso da sua estação preferida, a Primavera, para fazer um breve balanço da sua vida e abraçar novos sonhos e projectos. Março... Onde estava em Março há um ano atrás? E há dois? Ia recuando, neste exercício de memória, e procurando recordações. Onde estava... há treze, catorze, quinze anos??
Fecha os olhos. Tem 17 anos e está nos bastidores dum palco, com o coração descontrolado. As mãos geladas. A adrenalina descontrolada no corpo, como uma montanha russa de emoções. A cortina abre. A escuridão desaparece, e é substituída por uma luz imensa dirigida para o palco. Não vê ninguém. Assiste apenas ao próprio corpo que anda, sozinho. O cérebro, desligado. Observa as suas mãos, que pegam no microfone, a tremer. Já não tem controlo sobre nada. Será apenas um sonho? O silêncio. Absoluto. Treme. Treme tanto! E aquela luz? Não é forte demais? Desliguem a luz, por favor. A batida da bateria. Os acordes da guitarra. Ouve-se uma voz feminina. Ela gosta. "Sou eu?" Era. Como num sonho. Não sente nada. A voz canta, sozinha. Segura, até. "Um pouco mais de sol - eu era brasa. Um pouco mais de azul - eu era além.", diz a letra. "Conheço isto, não é um poema?". Os aplausos. Os aplausos. Os aplausos, que ecoam e ultrapassam o tempo e o espaço e são agora, mais de dez anos depois, tão reais.
Ela queria ser cantora. Pintora. E bailarina. O tempo ia, com certeza, dar para tudo, explicava à mãe. Aquele foi, no entanto, o auge da sua carreira como cantora - sim, aos 17 anos. Hoje em dia, veste-se de cores neutras e trabalha das 9h às 20h num escritório. Música, só aquela que ouve na rádio ou nos cds que continua a coleccionar.
Ele queria ser realizador e músico. Olhava à volta e tudo o inspirava. A luz, o anoitecer. Os carros que passavam. A música que ouvia, pela noite adentro, na solidão do seu quarto. As conversas que tinha. Imaginava argumentos, e realizava filmes em sonhos, ao som de Air, Radiohead ou de outras bandas que ia descobrindo.
Na Primavera daquele ano de 2001, quis o destino que aqueles dois jovens cheios de sonhos se cruzassem. Começaram a falar de música. "Gostas de Air? Adoro! Vêm cá dar um concerto, sabias?" ou "Radiohead? Qual é a tua música preferida?". Ele tinha uma guitarra. "Vamos lá experimentar: eu toco e acompanhas-me". Ele tinha uma voz que preenchia o espaço de forma simples e despretensiosa. Ela preferia ouvi-lo, apenas. "Black Star, sabes tocar?" Ele sabia. E ainda sabe, porque ela consegue continuar a ouvi-lo, tantos anos depois.
Na Primavera daquele ano de 2001, quis o destino que aqueles dois jovens cheios de sonhos se cruzassem. Se juntassem. E ganhassem até o 1.º lugar num concurso de karaoke dum bar qualquer. A música? Ela até contaria, mas ele tem vergonha de admitir, tantos anos depois.
Na Primavera daquele ano de 2001, eles cantaram, sonharam e, depois, cada um continuou com a sua vida. Hoje em dia, ela veste-se de cores neutras e trabalha das 9h às 20h fechada dentro de quatro paredes. Música, só aquela que ouve na rádio ou nos cds que continua a coleccionar.
Ele? Ele realizou todos os seus sonhos. É realizador. E músico. Olha à volta e tudo continua a inspirá-lo. A luz, o anoitecer. Os carros que passam. A música que ouve, pela noite adentro, em espaços que serão cada vez menos solitários. "Better not stop, better not stop moving", canta-nos ele. Na rádio. Nas ruas. Nos palcos. Na televisão. Enquanto escreve argumentos e realiza filmes. O tempo não existe. O tempo é irreal. Não será tudo isto um sonho, afinal? Porque parece que ele tem tempo para tudo. E consegue transportar-nos para o passado e o futuro, tirar-nos o presente, tirar-nos o real. Transporta-nos para bem longe daqui, faz-nos perder a noção de tempo ou de espaço.
Ele, o André, vai estar com o seu novo projecto, os There must be a place, em Lisboa no próximo dia 9, e no Porto, no próximo dia 13, entre outras cidades, depois do sucesso do primeiro álbum dos We trust. E merece ser ouvido. Porque é a prova de que os sonhos podem ser concretizados, desde que exista muito talento, força e persistência.
Ela adorava o mês de Março. Lembrava-lhe cor. E música. Uma guitarra. E uma voz que preenchia o espaço de forma simples e despretensiosa. Ela continua a ouvi-lo, nas suas memórias. Mas agora pode ouvi-lo também na rádio ou nos cds que continua a coleccionar. E vocês também. Espero (em nome dela) que gostem. ;)

A minha cadela cheira a p...

Depois do episódio da minha cadela mordida (aqui), tive que levá-la à veterinária para ser observada. Não precisou de pontos, foi apenas necessário desinfectar as feridas, drenar e prescrever-lhe uns antibióticos. Tomou ainda um analgésico, para não sentir dores, a coitadinha, mas continuou a andar de lado, meia trôpega, durante dois dias.
Ontem, no final do dia, levei-a novamente à veterinária para confirmar que estava já tudo óptimo e que já estava pronta para outra - salvo seja! Estava, sim. Boa e recomenda-se! A minha cadela é uma força da natureza e tem um poder de cicatrização digno de gente grande, pelos vistos. Não saiu a mim, para sorte dela.
Ora, aproveitei que já estava lá e pedi para darem um jeito à pequena canídea. E, por "dar um jeito", entenda-se escovar e marcar a tosquia. A veterinária, que é uma querida, escovou-a e perfumou-a também, com um perfume próprio para cães. Aproveitei e comprei também uma coleira nova.
Cheguei a casa, orgulhosa, com ela escovada, perfumada e de coleira nova. Passado um pouco, chega ele.
- Oláaaa!
Cumprimentámo-nos, conversámos... Uns minutos depois, ele olha-me com ar intrigado:
- Mudaste de perfume?
- Não... Uso sempre o mesmo.
- Mas há aqui um perfume diferente. Tenho a certeza.
- Mas bom ou mau?
- Diferente...
- Mau... diferente, para mim, é igual a mau.
- Pronto, um perfume mau. Barato.
- Barato?
- Sim... Um perfume rasca. Parece de p...
- O quê? Estás maluco?
- Olha, já vi de onde vem.
Agarra na cadela, com ar triunfante.
- É ela que cheira a p...
- Cala-te! Isso diz-se?
- É verdade... Ainda por cima está com o cio. Queres mesmo pôr os cães da zona malucos, não queres?
- Claro, é mesmo isso. Até a penteei e tudo. Só falta um vestido curto e saltos. Vai ser a loucura.
Coitada. Para piorar, desde que comecei a escrever este post, a pobre cadela trouxe-me, com a caudinha a abanar, já por duas ou três vezes uma bola de ténis, para irmos jogar. Mal sabe do que para aqui se fala. Ainda bem que não sabe ler!
Ainda hoje, sem falta, dou-lhe um banho para lhe tirar o perfume. Não consigo cheirá-la sem ter vontade de rir.

terça-feira, 5 de março de 2013

A Manifestação, a Grândola e os anti-Troikas

Nota prévia: hesitei antes de escrever este post, porque sei que é um assunto delicado e que, tal como a religião, o futebol e as opções partidárias, também este tema mexe connosco e com as nossas convicções de forma profunda e visceral. Mas, tal como tenho amigos de outros clubes, de outras religiões e partidos, também tenho amigos que foram à manifestação e a amizade mantém-se intocável. Acho que dialogar e conhecer outros pontos de vista nunca fez mal a ninguém, e podemos aprender todos ao ouvir novas opiniões. Assim sendo, aqui vai o post.

Há um episódio que marcou o início da minha vida como adulta e que teve lugar no ano em que fui para a escola secundária. Foi nesse caso que, apesar de ser apenas uma criança de 12 anos, pré-adolescente e com curvas ainda mal definidas, me passei a sentir uma plena cidadã, com direitos e deveres. Sentia-me realmente adulta em actos como subir aquelas longas escadarias, em pormenores como assistir aos mais velhos a entrarem de mota, como cruzar-me com casais aos beijos à entrada, ou ainda em detalhes como ver grupos a fumarem os seus primeiros cigarros. Como em qualquer outra escola, também ali havia desde os grupos vestidos de preto, aos grupos vestidos de pólo, calças de ganga e All Star, os grupos de artistas, os grupos de motoqueiros ou ainda os grupos dos marrões. Eu andava ali perdida, com as minhas amigas, pré-adolescentes e caloirinhas como eu, observando os diferentes grupos nos seus diferentes habitats - entrada, pátio central ou traseiras. Não sabíamos ainda a que grupo havíamos de pertencer, mas sentíamo-nos gente grande. Eu sentia-me tremendamente madura e essa sensação preenchia-me de satisfação.
"O liceu". Eu fazia parte "do liceu". Aquilo enchia-me de orgulho e adorava repetir aquilo. Esse sentimento de pertença acompanhava-me. A campainha da sala tocava e eu saía lentamente, misturando-me com aquele mar de gente que caminhava pelos corredores na mesma direcção. Adorava aquela sensação de ser apenas mais uma, de pertencer a algo maior que eu.
Nessa sequência, quando, certo dia, determinado finalista me disse que, no dia seguinte, não ia haver aulas, porque íamos fazer greve, senti-me ainda maior. Ele tinha vindo falar comigo. "Alinhas, não alinhas? Não é para ir às aulas, é para vir à manifestação à porta do liceu. Somos nós, os do 12.º, que estamos a organizar".
"Os mais velhos. Os grandes! Alguns já com barba. Elas com generosos decotes e curvas definidas. Os do 12.º? Claro que eu ia alinhar!", pensei.
Sinceramente já não me lembro bem qual era o motivo que levava todos a insurgirem-se, mas eu concordei com ele antes de mo apresentarem, confesso. Fazia parte daquela instituição e o que todos quisessem era o que eu queria. Nem pensar em questionar.
No dia da greve, lembro-me de ter combinado, ansiosa, com as minhas amigas e de termos ido até mais cedo que o habitual para a porta da escola assistir aos confrontos. "Eles" tinham fechado a escola a cadeado e impunham cartazes de revolta. Seria a cantina o problema? Seria o pavilhão? Seriam os exames nacionais? O que é certo é que, passados tantos anos, essa parte apagou-se da minha memória. Se fechar os olhos e tentar lembrar-me, vejo apenas uma imagem de uma multidão em fúria com cartazes desfocados.
A dada altura, lembro-me que"eles" vieram ter connosco a agradecer-nos o estarmos ali. A nossa presença era essencial, diziam-nos eles. Era preciso mais gente a apoiar a causa. Eu tinha mil borboletas, loucas no estômago, a agitarem-se com tanta atenção. Tremia de alegria. Eu era importante. Eu era essencial! Esse dia marcou-me, não tenho dúvidas. Mas o que me deixa triste é o facto de o dia ter marcado pelo evento, pela festa em si, pela adrenalina, pela atenção que nos deram, e não por aquilo que estava a ser debatido ou pelo que depois mudou.
Serve esta história para explicar que, no passado Sábado, tal como no último dia 15 de Setembro, é neste episódio que penso. Porquê? Porque sinto que pouco se debateu. Porque sinto que houve tristeza, revolta e desilusão, mas não houve um debate público ou apresentação de sugestões. E baseio-me no que vi escrito do movimento, nos cartazes apresentados ou nas pessoas entrevistadas. "Que se lixe a Troika! O povo é quem mais ordena" foi o mote. Mas, para mim, foi pouco esclarecedor.
Sei que as taxas de desemprego atingiram números nunca vistos em Portugal. Os impostos aumentaram. Os salários diminuíram. A dívida pública aumentou. A "crise" passou a ser das palavras mais repetidas por todos. Por todos o lado, multiplicaram-se os pensamentos negativos. Todos prevêem que o cenário negro se mantenha. Os sorrisos escasseiam. Concordo com tudo isto.
Mas o que não compreendi ainda é o que defendem, especificamente, estes milhares de pessoas que saíram à rua. O que sugerem. As alternativas que apresentam. E era isso que gostava de ouvir: que alternativa? Sim, o país está mal e é impossível negar. Mas vamos fazer o quê? Vamos criar empresas, vamos criar emprego? Vamos reduzir o consumo? Vamos esquecer o plano da Troika? E fazer o quê, em alternativa? Não pagamos as PPP? Avançamos com o TGV? Mais auto-estradas ou não? Era isto que gostava realmente de ver ser discutido hoje: ideias. Ideias. Ideias. E sugestões.
Faz-me confusão ver tanta gente mobilizada e perder-se uma oportunidade única de dinamizar um debate a essa escala. Sinto que a criatividade foi desperdiçada em cartazes, cânticos, insultos variados e formas de protesto. Estão no seu pleno direito, claro, mas sinto que a manifestação se dispersou. Todos estão contra o estado do país. Certo. Todos querem apresentar uma moção de censura ao Governo. Muito bem. Mas agora o Governo faz o quê? Percebe que estamos todos descontentes, mas altera o rumo em que sentido?
Ora, foi por não saber responder a todas estas questões que ainda não me apanharam a cantar a "Grândola, Vila Morena", a participar em manifestações ou a gritar contra a Troika. Porque, até agora, se o fizesse, estaria apenas a repetir aquela façanha dos meus 12 anos: estaria a juntar-me a uma manifestação sem perceber exactamente aquilo que estava a defender. Sei que me sinto descontente com o que recebo ao fim do mês. Sei que cortei nos gastos como nunca. Sei que ando um pouco pessimista. Mas... e agora? O que vou fazer para mudar? O que vamos todos fazer para mudar? Ideias precisam-se. E optimismo, muito optimismo.

Uma grande revelação

Esta história não aconteceu comigo, mas podia ter acontecido. A mim ou a qualquer um de vocês.
Esta minha amiga (não, não sou mesmo eu!) ficou a dormir em casa do novo namorado. A relação era recente, estavam a habituar-se ao nome "namorados" e queriam saborear cada momento sem pressas. Queriam viver cada momento de cada vez, sem famílias ainda envolvidas, sem dar a mão em público, sem o acto oficial de anunciar. Não iam poder namorar escondidos para sempre, mas estes momentos iniciais de secretismo tinham até o seu quê de emocionantes.
Ou melhor - tinham, até que a mãe dela decidiu telefonar-lhe.
Trrrim!
- Filha, como estás?
- Estou óptima. Estou aqui em casa da X a fazer um trabalho de grupo.
- Muito bem! E a avó dela está melhor? Não estava doente?
- Doente?... Ah, pois estava. Mas já está melhor!
- Manda-lhe um beijinho meu, sim?
- Mando, sim.
A chamada cai. Ela tinha ficado sem bateria. Virou-se para o namorado:
- Emprestas-me aí o telemóvel? Preciso de ligar à minha mãe, se não, ela liga para a X.
- Claro, toma!!
O problema lá ficou resolvido. Falou com a mãe e esta nunca descobriu onde a filha estava realmente a dormir.
Passado uns tempos, sem saldo no seu telemóvel, pediu à mãe para lhe deixar enviar umas mensagens escritas do seu telemóvel. A mãe lá acedeu, sem questionar. Mais um problema resolvido.
Até que... um certo dia, sem que nada o fizesse prever, a mãe espreitou o seu quarto, de mansinho, e pediu para falarem.
- Podemos falar, filha?
- Claro. Que se passa, mãe? Está tudo bem?
- Sim. Vou sentar-me aqui na tua cama, ok? Senta-te aqui comigo, para falarmos um bocadinho.
- Mãe... Estou preocupada!
- Filha, sabes que gosto muito de ti, não sabes?
- Sim... Estou a ficar assustada...
- Não fiques. Só queria dizer que, gostes de quem gostares, vou sempre ser tua mãe e apoiar-te em tudo. Sabes disso, não sabes?
- Claro! Mas em que é que preciso de apoio? Não estou a perceber.
- Filha, não fiques triste comigo, mas li as tuas mensagens sem querer. As que enviaste do meu telemóvel...
- Oh... leste porquê?
- Porque andas muito desaparecida, misteriosa... E deixaste as mensagens no meu telemóvel, não resisti...
- Pois. E então?
- Então namoras, não é?
- Sim, estamos a ver no que dá. Estamos a conhecer-nos.
- E gostas mesmo dela?
- Dela?
- Sim, eu sei que namoras com a X. Vi que foi com ela que trocaste mensagens.
- O quê?
- Filha, eu gravei o número dela quando me ligaste do telemóvel dela, no último fim-de-semana.
- Ahahah. Achas que sou lésbica?
- Filha, não tem mal. Vou sempre aceitar-te.
- Ahahah.
Agora, tem piada. Para a mãe dela, foi uma semana sem dormir, convencida que a filha era homossexual e tentar a assimilar aquela ideia aos poucos. Afinal não era. Era tão heterossexual quanto fosse possível. Acontece que ainda agora brincam com isso, sempre que a X vai lá a casa.
- Vem cá a minha namorada, ok, mãe?
- Brinca, brinca... queria ver se fosse contigo!
Ao contrário teria sido igual, claro. Por muito liberais e open minded que sejamos, estas notícias custam sempre um bocadinho a assimilar, não é?

segunda-feira, 4 de março de 2013

Adoro pessoas que falam a dormir

Principalmente porque dá para "sacar" algumas informações.
Nos últimos dias, deu para perceber, pelo que balbucia, que ele anda preocupado com o trabalho, sonha com isso e fala com o chefão enquanto dorme. Menos mal.
Há tempos, aproveitei uma noite em que estava com um sono agitado e perguntei-lhe pelas colegas de trabalho (sim, porque ele responde a dormir, o que é simplesmente óptimo).
- Não há nenhuma miúda gira? Alguma que te atraia mais?
- Quero lá saber disso.
- Oh... Nao gostavas de dar uns beijinhos a nenhuma?
- Quero é acabar os projectos. Quero lá saber de mulheres.
Eu ria-me. Cheguei a gravar estes diálogos maravilhosos com o telemóvel, para no dia seguinte ele se rir comigo, já que não acreditava que respondia a dormir.
O melhor deste jogo? É que funciona como autêntica máquina da verdade. Lembro-me de ele me contar, há uns anos, que uma ex namorada se chateou com ele, porque, meio sonolento, começou a falar doutra miúda. E, desde então, vou testando. Até agora, tem passado no teste. Acho bem. ;)

Bestas do Sul Selvagem

A semana passada vi um dos filmes que me faltava ver dentro do leque de nomeados para os Óscares: o Beasts of the southern wild, no original. Tinha visto o trailer, mas não tinha percebido se se tratava de um filme cheio de fantasia ou mais realista. A resposta estará algures no meio das duas.
O filme centra-se na pequena Hushpuppy, uma criança de cabelo desalinhado, pele suja, ar meigo e triste, que veste grande parte do filme pequenos calções de verão e galochas. O tal ar meigo e triste contrasta, no entanto, com a força que o seu pai quer fazê-la acreditar que tem. "Mostra-me os teus músculos", pede-lhe. "Não chores", insiste, quando a vê triste. E sem mãe ou restante família, apenas com um pai duro, frio e ausente, Hushpuppy teria até muito para chorar. Acontece que a vida na Banheira, aquele pequeno lugar perdido do mundo, rodeado de mar, música, e animais parece trazer uma alegria e força à primeira vista inesperados, e Hushpuppy há muito que aprendeu a crescer entregue a si mesma.
Na primeira parte do filme, sentimos uma aversão relativamente ao pai. Mas que monstro é ele? Deixa a filha sozinha, responde-lhe torto, desaparece sem dar satisfação... A pequena Hushpuppy revolta-se, depois acomoda-se, depois revolta-se novamente. E nós temos vontade de entrar dentro do filme, pegá-la nos braços e salvá-la daquela solidão que nenhuma criança merece. Temos vontade de a vestir, dar-lhe banho, alimentá-la e dar-lhe carinho. Só que quem cresceu na Banheira cresceu forte e aquela criança tem uma uma coragem de adulto. Deixa-se ainda levar pelas lições que aprendeu na escola e decide aproveitar os momentos de solidão para deixar a sua história desenhada para os futuros cientistas que por ali passarem a poderem estudar.
Em simultâneo, dá-se o degelo e assistimos aos "aurochs", figuras pré-históricas, que começam a aproximar-se. A realidade cruza-se com a fantasia. O que é real? O que é imaginação? Entretanto, percebemos que o pai está muito doente e é isso que o leva a passar prolongados períodos ausente. A morte aproxima-se. As águas sobem. Os "aurochs" cada vez mais próximos.
Quanto a Hushpuppy, perante um cenário de caos, decide procurar a sua mãe. Onde estará? O pai cada vez pior. Os "aurochs" chegam. Mais uma vez perguntamos: afinal o que é real? O que é fantasia?
O amor parece ser a única certeza que temos - até os mais fortes precisam de amor. Precisam de um pai, de uma mãe. De um lar. E quanto à nossa Hushpuppy, conseguirá encontrar aquilo de que precisa? As suas frases fortes e sábias, que nos vão, de forma decidida, narrando a história, parecem esconder uma solidão e uma tristeza imensas...
Posso dizer que gostei da personagem principal, da sua força, do seu ar destemido, mas que, de todos os filmes nomeados que vi, este foi o que menos gostei. Pareceu-me que o filme se perdeu um pouco entre o real e o imaginário, deixando a pobre criança praticamente entregue a si e aos seus sonhos. Aquilo que mais senti foi vontade de ligar à Segurança Social. Tive que me beliscar e lembrar-me que era apenas um filme. Mas um filme triste, devo avisar.
Hushpuppy e o pai na cena que foi transmitida no dia dos Óscares e que a fez mostrar os músculos para as câmaras. (lembram-se?)
"Estou, é da Segurança Social?"

domingo, 3 de março de 2013

Dúvida existencial #6

Porque é que se diz "doido da cabeça"?
Ia ser doido do quê? Dos pés?

Uma grande vaca

Hoje queria falar sobre a manifestação de ontem, mas como, ironicamente, ninguém se manifestou sobre o tema, na página do facebook, quando perguntei se tinham ido, amuei um bocado e vou falar sobre outro assunto. Queria essencialmente perceber se, entre as pessoas que passam por aqui, há mais pessoas a favor destes movimentos ou não. Eu tenho uma opinião muito forte sobre a manifestação de ontem, mas antes de a dar gostava de perceber se estou sozinha. Basicamente era isso que pretendia com a pergunta. ;)
Adiante...
O que hoje vou contar foi uma história que se passou comigo há cerca de dois anos. Trabalhava num open space com um grupo muito jovem e tínhamo-nos tornado todos próximos. Tanto que, hoje em dia, chamo "amigos" a quase todos. Sobre um deles já falei até aqui. Ora, havia um certo colega, um pouco diferente dos restantes, que se costumava colocar um pouco à parte das brincadeiras ou das trocas de bocas. Costumava colocar os phones e entregava-se ao seu mundo, não nos dava tanta conversa. Por isso, naturalmente, acabou por passar ao lado de algumas piadas que tínhamos. Esta foi uma delas.
Por volta das 18h, 18h30, era comum o nosso open space ser irrompido por um grupo de mulheres que ia limpar o nosso espaço e o resto do edifício. Por coincidência, as mulheres que nos calhavam eram quase todas iguais: cabelo muito preto, liso e comprido, morenas, mal encaradas e todas com grandes unhas de gel. Dizia-lhes "boa tarde", nunca respondiam ou respondiam de sorriso fechado. Percebi depois que quase todas tinham dentes em falta, pelo que não sei se a má-disposição se devia a isso, mas o que é certo é todas ficavam a dever à simpatia.
A empresa para que todas trabalhavam chamava-se Vadeca. Como não sabíamos o nome delas, nem eram propriamente as nossas melhores amigas, começámos, entre nós, a tratá-las por "Vadecas".
- Sabes se as Vadecas já passaram aqui? Tenho o computador com pó.
- As Vadecas ainda não vieram? O meu caixote do lixo está cheio.
Comentários deste estilo.
O tal colega mantinha-se com os seus phones. Um dia, no entanto, estávamos (eu e ele) em plena discussão de trabalho, a trocar impressões, e a discussão acendeu. Eu não concordava com o que ele tinha feito, estava a dizer-lhe que devia alterar, ele mantinha o que tinha feito, e o tom de voz ia subindo. Até que ele comenta:
- Insulta-me, se quiseres. Já vi que é isso que gostas de fazer!
- Desculpa? Eu?
- Sim. Achas que eu não oiço?
- Não ouves o quê? Eu não costumo insultar ninguém.
- Ai não? Eu posso estar de phones, mas oiço muito bem. E, se queres saber, não te fica nada bem, num sítio destes, estar a chamar vacas às funcionárias de limpeza. Passa aqui muita gente e já devem ter ouvido, também.
- Vacas? Nunca chamei isso.
- Chamas. Chamas. Grandes vacas. Ou vadecas. Fica-te mal, sabias? A ti e a quem alinha em chamar isso. Que mal é que elas vos fizeram?
Foi aí que todos percebemos. Riso geral. Ninguém conseguia parar de rir. O meu colega olhava para nós, incrédulo. Mais vontade tínhamos de rir.
- X, vai à net e escreve "Vadeca". ahahah
- O que tem?
- Faz isso! ahahahah
(...)
- Ah... já percebi. Desculpa.
- Estás desculpado. ahahah
- Bem me parecia que não eras assim. Fico mais descansado.
- Então vais mudar isso?
- Olha, mudo. Só para não te ouvir mais, mudo.
Ele tinha-me dado razão, mas não queria admitir. Era mais fácil chamar-me "chata" - o que realmente sou, quando quero. Lá voltámos ao trabalho. Até as nossas queridas "Vadecas" nos visitarem. Ele ria-se, a olhar para mim. "Vadecas". Realmente, quem diabo se lembrou de tal nome?

sábado, 2 de março de 2013

Conquistador-em-série

Ele era um conquistador. Não havia mulher que se cruzasse com ele e que não ficasse presa na sua teia de charme e sedução. A receita era infalível: muito mel, muito doce e uma dose de picante. A isto juntavam-se dois pequenos truques: apresentar logo aos amigos e fantasiar com um cenário de família feliz, com eles já casados e com filhos.
Era tão conquistador que os números oficiais daquela conquista-em-série cresciam a um ritmo quase diário.
- Como consegues decorar todos os nomes?
- Simples. Não decoro.
- Não lhes chamas nada?
- Chamo, pois. Princesa. Boneca. Querida. Meu amor. Meu doce. Minha deusa. Vou variando.
- E elas caem nisso?
- Caem, pois.
Aquela amiga mais céptica parecia não querer acreditar.
Até que um dia, estando todos a jantar fora, o conquistador resolve levar consigo mais uma "presa", uma mulher lindíssima que, também ela, tinha ficada presa naquela rede de conquista. Era linda, simpática e até a amiga céptica estava rendida. "Como é que ele consegue?" Até que começou a ver a tal receita do sucesso a ser posta em prática, quando assistiu ao diálogo entre aqueles dois:
- A comida está óptima. Não conhecia este restaurante, comentava a nova "vítima".
- Meu amor, sabes que só te trago aos melhores sítios.
- Neste acertaste, é verdade.
- Achas que ias trazer a futura mãe dos meus filhos, a minha futura mulher a um sítio que não estivesse à altura dela?
- Ohhh... (piscar de olhos, piscar de olhos. pausa para muitos beijos. muito mel.)
- Tu, X, vais ser o nosso padrinho de casamento, não vais?
- Claro, dizia o amigo.
- Não é linda, a minha mulher? Não é uma deusa?
- Claro que sim.
- Vês? Trouxe logo a minha princesa a conhecer os meus amigos, estás mesmo a gostar?
- Muito!! (piscar de olhos, piscar de olhos. pausa para muitos beijos. muito mel)
Resultava. Estão a ver o Barney Stinson, do How i met your mother? Pois bem, foi com certeza inspirado neste Casanova português.
A verdade é que não há nada mais infalível que um homem que faça uma mulher sentir-se bem, que a oiça, que a faça sonhar, e que a faça sentir-se parte do seu mundo, dos seus amigos e até parte do seu futuro. Claro que não defendo os Barneys deste mundo, mas apenas acho que os homens deviam retirar algo destes truques e aplicá-los nas relações mais sérias. A receita é sempre a mesma: muito mel, muito doce e uma dose de picante.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Gravidez psicológica

Hoje de manhãzinha, quando fiz o exame referido no post anterior, dei por mim, por momentos, a fantasiar com a médica virada para mim, a sorrir e a comunicar-me: "está grávida de cinco meses! É daqueles casos raros em que a mulher continua na mesma a ser menstruada e só se apercebe quando está num estado avançado. Por isso é que andava mais gulosa, emotiva e um pouquinho mais cheiinha".
Claro que a médica não me disse isto. E eu sabia que era impossível, mas deixei-me levar pela fantasia dum eu grávido e com um bebezinho a caminho.
Porquê? Algumas minhas amigas estão grávidas, poderá ser uma espécie rebuscada de solidariedade feminina. Por outro lado, tenho um desejo maternal gigante a ser contido, desde sempre, dentro de mim. Ando a planear o momento e, quando se for a concretizar, há-de ser muito muito desejado, mas talvez por toda esta conjugação de factores, dei por mim com estas fantasias, hoje de manhã. Talvez por isso, dei por mim a olhar para a minha barriga e a pensar "realmente acho que há aí qualquer coisa", com a mão espetada na anca, como uma verdadeira grávida.
No fim da consulta, vinha embora no carro a pensar naquele surto de estupidez pura que me deu e a lembrar-me duma cadela dum amigo meu que, há anos atrás, teve uma gravidez psicológica. A cadela arrastava pela casa um coelho peluche e, um dia, caí no erro de lhe tirar o peluche para brincar com ela. A cadela rosnou-me, fula, pegou no peluche e levou-o para a caminha dela. Deitou o coelho, lambeu-o muito carinhosamente e, com ar maternal, deitou-se seu ao lado. Na altura, perguntei ao meu amigo o que era aquilo, porque desconhecia totalmente o fenómeno. Ele explicou-me então que a cadela tinha tido a tal gravidez psicológica, que via o boneco como verdadeiro filho e que ninguém se podia aproximar dele, porque, na cabeça da pobre canídea, ela tinha que o proteger.
Ora, a mim hoje só me faltava um Nenuco ao colo e sussurrar "my precious". Definitivamente, o relógio biológico é mesmo realidade. Ou isso, ou sou a amiga mais solidária de sempre! ;)

papa nicolaou

Enquanto todos falam do Papa com "P" grande e se despedem do Grande Bento XVI, que agora é nosso Papa Emérito, eu tinha o dia de hoje marcado para o outro papa com "p" pequeno.
Peço desculpa por ter juntado os dois na mesma frase, mas dizem que o outro Papa com "P" grande tem sentido de humor e julgo que não se iria importar. Afinal de contas, estamos a falar dum exame que deve ser realizado todos os anos e que se destina a promover e zelar pela saúde da mulher e do que mais precioso tem: a capacidade de gerar uma vida.
Ora, tinham-me marcado um médico ginecologista (uma curiosidade - não é que "ginecologia" significa "ciência da mulher"? não interessa para nada, mas achei bonito). Repito: um médico. Um homem. A analisar a minha... "beleza interior", digamos assim. Disse que não tinha mal. Até que vim para casa a pensar nisso.
"Um homem. Hmm..."
Comecei a enumerar as vantagens e desvantagens.
Vantagens: dizem que são mais meiguinhos e cuidadosos.
Desvantagens: é um homem. É um homem. Um homem.
As desvantagens ganharam e pedi para me marcarem numa médica. Fui preconceituosa? Fui. Porquê tanto desconforto? Não sei bem. Supostamente não é coincidente com a minha maneira de ser, porque confio 100% nos médicos e no seu profissionalismo.
Mas não sei... saber que ia estar naquela cadeira, já de si desconfortável, naquela posição que todas as mulheres conhecem, a ser vista e revista por um total desconhecido...
Se me perguntassem antes, diria que era absolutamente indiferente. O que é certo é que na hora "H" vacilei. Sou uma fraca. Uma fraca.
Em compensação, sou uma fraca com um útero e uns ovários muito bonitos e perfeitinhos. Ah bom.
Alguém tem ginecologista homem? É muito "desconfortável" ou é igual? Gostava de saber se foi estupidez minha. (o mais certo é ser, mas pronto.)

100.000


Os números são relativos. Quando comecei o blog, em finais de Novembro, fiquei radiante com o primeiro comentário. Com a primeira visita. A seguir, fiquei radiante quando atingi as 100 visitas. Depois as 1.000. E, quando atingi as 10.000, nem queria acreditar.
Para quem gosta de escrever, o melhor de partilhar as palavras num blog é poder receber os comentários e o feedback de quem está desse lado. Sinceramente, é isso que me faz realmente feliz. E a melhor mensagem que já recebi foi da minha irmã, que disse que ficou emocionada com algo que escrevi sobre ela. Porque esta é a verdade - mais que números, gostava de conseguir tocar alguém desse lado, gostava de fazer sorrir, fazer rir, fazer pensar, ou ainda emocionar. Queria conseguir despertar algo com a única coisa que aqui deixo: palavras.
Por isso, aproveito o momento para vos pedir que vão deixando um maior feedback, mais sugestões, mais críticas, positivas ou negativas. É que, apesar de 100.000 ser, para mim, um número grandioso, não se tem traduzido em comentários. E gostava tanto de saber o que têm achado das parvoíces que aqui vêm sendo escritas... Não é pedir muito, pois não? Vá lá...
Depois disto, quero agradecer-vos, do fundo do coração, por terem passado aqui, nem que tenha sido uma única vez.
E queria ainda agradecer (isto já parecem os Óscares!) a uma das primeiras pessoas que me fez chegar algum feedback: o Ricardo, do blog O Arrumadinho, que me escolheu como "Blogue da Semana", e que, sem me conhecer de lado nenhum, terá reparado naquela comentadora que, por vezes, ia lá deixar uns palpites nos seus posts.
A verdade é que tinha acabado de criar este blog e a forma de me dar a conhecer partiu de ir comentando nos blogs com que mais me identificava. Estava, no entanto, convencida que, mesmo assim, um blog recém-nascido nunca ia receber qualquer atenção antes do primeiro ano de existência. Sentia-me (e sinto!) uma anã no meio de gigantes, mas esta referência naquele blog fez-me, por momentos, sentir-me maior. Aumentaram as visitas, aumentaram os seguidores, e aumentou também o número de pessoas que me seguem no Facebook.
Sei, portanto, que grande parte do número de visitantes que hoje atingi se deve a este verdadeiro Toque de Midas que O Arrumadinho tem, não me iludo. Mas gostava muito de acreditar que, desde esse dia, as pessoas que regressaram, fizeram-no porque gostaram de me ler ou, pelo menos, quiseram dar-me uma oportunidade de melhorar e continuar a atirar uns disparates para o ar. :)

Obrigada 100.000 vezes!