Nota prévia: hesitei antes de escrever este post, porque sei que é um assunto delicado e que, tal como a religião, o futebol e as opções partidárias, também este tema mexe connosco e com as nossas convicções de forma profunda e visceral. Mas, tal como tenho amigos de outros clubes, de outras religiões e partidos, também tenho amigos que foram à manifestação e a amizade mantém-se intocável. Acho que dialogar e conhecer outros pontos de vista nunca fez mal a ninguém, e podemos aprender todos ao ouvir novas opiniões. Assim sendo, aqui vai o post.
Há um episódio que marcou o início da minha vida como adulta e que teve lugar no ano em que fui para a escola secundária. Foi nesse caso que, apesar de ser apenas uma criança de 12 anos, pré-adolescente e com curvas ainda mal definidas, me passei a sentir uma plena cidadã, com direitos e deveres. Sentia-me realmente adulta em actos como subir aquelas longas escadarias, em pormenores como assistir aos mais velhos a entrarem de mota, como cruzar-me com casais aos beijos à entrada, ou ainda em detalhes como ver grupos a fumarem os seus primeiros cigarros. Como em qualquer outra escola, também ali havia desde os grupos vestidos de preto, aos grupos vestidos de pólo, calças de ganga e All Star, os grupos de artistas, os grupos de motoqueiros ou ainda os grupos dos marrões. Eu andava ali perdida, com as minhas amigas, pré-adolescentes e caloirinhas como eu, observando os diferentes grupos nos seus diferentes habitats - entrada, pátio central ou traseiras. Não sabíamos ainda a que grupo havíamos de pertencer, mas sentíamo-nos gente grande. Eu sentia-me tremendamente madura e essa sensação preenchia-me de satisfação.
"O liceu". Eu fazia parte "do liceu". Aquilo enchia-me de orgulho e adorava repetir aquilo. Esse sentimento de pertença acompanhava-me. A campainha da sala tocava e eu saía lentamente, misturando-me com aquele mar de gente que caminhava pelos corredores na mesma direcção. Adorava aquela sensação de ser apenas mais uma, de pertencer a algo maior que eu.
Nessa sequência, quando, certo dia, determinado finalista me disse que, no dia seguinte, não ia haver aulas, porque
íamos fazer greve, senti-me ainda maior. Ele tinha vindo falar comigo.
"Alinhas, não alinhas? Não é para ir às aulas, é para vir à manifestação à porta do liceu. Somos nós, os do 12.º, que estamos a organizar".
"Os mais velhos. Os grandes! Alguns já com barba. Elas com generosos decotes e curvas definidas. Os do 12.º? Claro que eu ia alinhar!", pensei.
Sinceramente já não me lembro bem qual era o motivo que levava todos a insurgirem-se, mas eu concordei com ele antes de mo apresentarem, confesso. Fazia parte daquela instituição e o que todos quisessem era o que eu queria. Nem pensar em questionar.
No dia da greve, lembro-me de ter combinado, ansiosa, com as minhas amigas e de termos ido até mais cedo que o habitual para a porta da escola assistir aos confrontos. "Eles" tinham fechado a escola a cadeado e impunham cartazes de revolta. Seria a cantina o problema? Seria o pavilhão? Seriam os exames nacionais? O que é certo é que, passados tantos anos, essa parte apagou-se da minha memória. Se fechar os olhos e tentar lembrar-me, vejo apenas uma imagem de uma multidão em fúria com cartazes desfocados.
A dada altura, lembro-me que"eles" vieram ter connosco a agradecer-nos o estarmos ali.
A nossa presença era essencial, diziam-nos eles. Era preciso mais gente a apoiar a causa. Eu tinha mil borboletas, loucas no estômago, a agitarem-se com tanta atenção. Tremia de alegria. Eu era
importante. Eu era
essencial! Esse dia marcou-me, não tenho dúvidas. Mas o que me deixa triste é o facto de o dia ter marcado pelo evento, pela festa em si, pela adrenalina, pela atenção que nos deram, e não por aquilo que estava a ser debatido ou pelo que depois mudou.
Serve esta história para explicar que, no passado Sábado, tal como no último dia 15 de Setembro, é neste episódio que penso. Porquê? Porque sinto que pouco se debateu. Porque sinto que houve tristeza, revolta e desilusão, mas não houve um debate público ou apresentação de sugestões. E baseio-me no que vi escrito do movimento, nos cartazes apresentados ou nas pessoas entrevistadas.
"Que se lixe a Troika! O povo é quem mais ordena" foi o mote. Mas, para mim, foi pouco esclarecedor.
Sei que as taxas de desemprego atingiram números nunca vistos em Portugal. Os impostos aumentaram. Os salários diminuíram. A dívida pública aumentou. A "crise" passou a ser das palavras mais repetidas por todos. Por todos o lado, multiplicaram-se os pensamentos negativos. Todos prevêem que o cenário negro se mantenha. Os sorrisos escasseiam. Concordo com tudo isto.
Mas o que não compreendi ainda é o que defendem, especificamente, estes milhares de pessoas que saíram à rua. O que sugerem. As alternativas que apresentam. E era isso que gostava de ouvir: que alternativa? Sim, o país está mal e é impossível negar. Mas vamos fazer o quê? Vamos criar empresas, vamos criar emprego? Vamos reduzir o consumo? Vamos esquecer o plano da Troika? E fazer o quê, em alternativa? Não pagamos as PPP? Avançamos com o TGV? Mais auto-estradas ou não? Era isto que gostava realmente de ver ser discutido hoje: ideias. Ideias. Ideias. E sugestões.
Faz-me confusão ver tanta gente mobilizada e perder-se uma oportunidade única de dinamizar um debate a essa escala. Sinto que a criatividade foi desperdiçada em cartazes, cânticos, insultos variados e formas de protesto. Estão no seu
pleno direito, claro, mas sinto que a manifestação se dispersou. Todos estão contra o estado do país. Certo. Todos querem apresentar uma moção de censura ao Governo. Muito bem. Mas agora o Governo faz o quê? Percebe que estamos todos descontentes, mas altera o rumo em que sentido?
Ora, foi por não saber responder a todas estas questões que ainda não me apanharam a cantar a "Grândola, Vila Morena", a participar em manifestações ou a gritar contra a Troika. Porque, até agora, se o fizesse, estaria apenas a repetir aquela façanha dos meus 12 anos: estaria a juntar-me a uma manifestação sem perceber exactamente aquilo que estava a defender. Sei que me sinto descontente com o que recebo ao fim do mês. Sei que cortei nos gastos como nunca. Sei que ando um pouco pessimista. Mas... e agora? O que vou fazer para mudar?
O que vamos todos fazer para mudar? Ideias precisam-se. E optimismo, muito optimismo.