sábado, 6 de abril de 2013

Pão com queijo

Os almoços/ lanches com os meus antigos colegas eram sempre interessantes e com temas diversificados. De vez em quando lá vinha um tópico a debate e cada um tinha que dar a sua opinião, mais ou menos séria. A verdade é que em trabalho poucas palavras trocávamos - tínhamos sempre muito trabalho, deadlines a cumprir e mal tínhamos tempo para respirar - mas estas horas eram um verdadeiro escape. Saía sempre do restaurante/ café, de volta ao trabalho, revigorada e bem-disposta.

Lembro-me duma conversa em particular que tivemos sobre um tópico idiota que nem sei como começou. Perguntou-se o que escolheríamos se tivéssemos que ficar numa gruta e só pudéssemos levar um prato. Um prato, apenas. Enquanto todos pensavam no seu prato preferido, ouve-se um rápido: "pão com queijo!". "Pão com queijo?", perguntámos? "Era isso? Podias morrer ali e a tua última refeição ia ser um pão com queijo?". Ele ria-se. "Sim, perdoem-me não ser uma pessoa requintada, mas era feliz assim. Adoro pão com queijo e adoro ao ponto de saber que nunca me ia cansar. Doutros pratos melhores sei que me ia cansar. O segredo está na simplicidade."

O pão com queijo vem-me muitas vezes à cabeça. Quando alguém me fala de alguém, que é lindo e espectacular, inteligente e requintado, e viajado, e isto e aquilo, penso no pão com queijo. Afinal, se tivermos que viver para sempre com alguém, vamos querer alguém que adoremos, mas também que nunca canse, certo? E julgo que o segredo estará realmente na tal simplicidade. E, sim, o meu amigo é um poeta e acho que ele nem sabe a profundidade daquilo que disse.

E para vocês, qual seria o vosso prato eterno? ;)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Quero ser agricultora*

Lembram-se da D. Adélia (aqui)?

Pois eu tenho-me lembrado imenso dela nesta última semana. Tudo começou quando fomos ao Leroy Merlin comprar uns cabos e outras cenas cujo nome desconheço. Ele andava entretido a escolher o melhor cabo e a melhor "cena" para esconder o fio do televisor e eu sentia-me um peixe fora de água - não percebia nada do que via à volta. Até que algo me chamou a atenção: um cantinho com um jardim cheio de plantas! Fui até lá, quase que hipnotizada. Nunca liguei muito a plantas, mas pareceram-me mais convidativas que aquele labirinto confuso com mil cabos todos iguais.

Quanto lá cheguei, ele era frutos vermelhos, ele era ervas aromáticas, ele era todo um mundo novo ali arrumado naquele pequeno jardim/horta. E veio-me à memória a D. Adélia, minha antiga empregada, a tratar da minha floreira de casa, a plantar flores, a regar com carinho e a tornar a minha casa um sítio mais florido. Subitamente, fiquei com um desejo enorme de tentar repetir a façanha dela. Fiquei com um desejo enorme de criar um canteiro com salsa, tomilho, manjericão, hortelã, alecrim ou ainda frutos vermelhos, tudo bem dividido e organizado. Apesar de não perceber patavina do assunto (e, como tal, perdoem-me os entendidos que tiver dito aqui algum disparate), julgo que não será nada que, com algum estudo, não consiga. Adorava poder dizer que tinha uma casa em parte auto-sustentável, mesmo no meio da cidade. Já alguém experimentou algo do estilo? E que tal?

Quem sabe se, num futuro próximo, não vos posso mostrar fotografias parecidas com estas:

* Nota: se correr bem e sobrar, prometo também posso mandar umas ervas aromáticas ou frutos vermelhos excedentários ao Sr. Romântico à forca, que anda hoje a cravar morangos publicamente no seu blog, e há que ser solidário com os outros.

Eu vou. Alinhas?

Acordei com uma mensagem da minha irmã: "temos um bilhete a mais. Alinhas?"
O bilhete a mais é para uma corrida que se aproxima. Cinco quilómetros. "Apenas?", acrescentarão vocês. "Cinco quilómetros, cinco!!", repetirei eu. A verdade é que tenho corrido, desde há um ano, mais ou menos de forma assídua, mas continuo a não ser grande atleta. Também digamos que, quando comecei, estava no pior nível que possam imaginar. A primeira vez que tentei correr na idade adulta, após anos e anos sem aulas de Educação Física (única altura em que corria), aguentei cerca de dois minutos seguidos a correr, apenas. Lembro-me de irmos os dois e ele insistir comigo "força, tens que correr pelo menos cinco minutos seguidos!!". Para mim, cinco minutos era o tempo que durava uma eternidade. Não conseguia.

Mas se há coisa que não me considero é desistente. Não sou nem quero ser. Tinha metido na cabeça que ia conseguir aguentar mais tempo seguido a correr. A minha meta sempre foi a resistência e não a velocidade, pois nesse campo até me sentia confortável - corria relativamente rápido durante 100 ou 200 metros, mas depois ficava a arfar. Pensei que, se a Rosa Mota conseguia (outra asmática), eu também havia de conseguir. Falei com o meu alergologista - "posso correr?". "Pode e deve", vociferou-me ele. E insistiu que, por ter asma, devia fazer o dobro do desporto de qualquer outra pessoa. O dobro, porque tinha metade da resistência.

Comecei a correr, a insistir, a tentar ultrapassar o cansaço, a tentar controlar a respiração e a mente. Continuava a aguentar seguido apenas um cinco minutos. Mas passados dois dias estava de volta à estrada a tentar aguentar seis. E passado uns dias, sete. Hoje, um ano depois, continuo a não ser nenhuma atleta. No entanto, tenho orgulho em saber que já consigo correr trinta minutos seguidos, quando estou inspirada. Há dias que correm pior, mas forço-me a melhorar. Phones nos ouvidos, ligo a minha música e tento melhorar a última prestação. Apesar de tudo, entrar numa corrida continua a ser talvez demais para mim. Sei que são só cinco quilómetros, mas tenho medo de ser esmagada na multidão, ou empatar os restantes membros da equipa. Assim, é algo a ponderar nas próximas horas... Ir ou não ir? Eis a questão.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Força anímica

Instalei há dias uma aplicação nova no telemóvel: um dicionário. Ora, estava eu hoje de manhã a espreitar a palavra do dia (gosto de fazer isto todos os dias, é daqueles hábitos estúpidos que não sei como ganhei), quando decidi ver também as últimas pesquisas. Eram elas "anímico, anínimicas, anímica". Primeiro, confesso que não associei à notícia do dia, e limitei-me a rever a definição:
"adj.
Da alma ou a ela relativo (ex.: força anímica). = Psicológico, psíquico."

Só depois, ao ler novamente isto, percebi tudo. Muitas pessoas não compreenderam os motivos da saída de Miguel Relvas, responsável pelos Assuntos Parlamentares. "Saio apenas e só por entender que já não tenho condições anímicas para continuar", dizia o Ministro demissionário perante os jornalistas. Discretamente, pelo que agora percebo, metade das pessoas espreitava nos seus dicionários o significado daquela palavra. Não tinha condições anímicas? Como assim? Estaria doente? Uma maleita perigosíssima? Um vírus tropical? Estaria relacionado com factores económicos ou financeiros? Teria alguma ligação com a possibilidade da anulação eminente da sua licenciatura? Que queria dizer Miguel Relvas? Que condições eram essas, afinal, que o impediam de continuar?

Creio que todos terão tido a sua resposta, ao longo do dia. E a resposta é que o que falhou, afinal, foi a sua alma. Uma dor de alma profunda. Pois muito bem. Assim sendo, ele saiu com a dor de alma (só consigo lembrar-me do poema do António Gedeão), nós ficamos com a fusão das freguesias, com o Impulso Jovem e.... ironicamente cheios de força anímica, com a sua saída?

Dona de casa (im)perfeita

Chamava-se "A dona de casa perfeita"(cuja autora escreve também aqui).
Perfeita. Dona de casa. Perfeita.
O título chamou-me tanto a atenção que não consegui sair do El Corte Ingles sem ele. Era suposto estarmos a comprar os presentes de Natal, mas não resisti e comprei um para mim também. A verdade é que, apesar de viver sozinha desde os 18 anos, de saber cozinhar e gostar de ter a casa minimamente arrumada, nunca fui grande fada do lar, como já aqui contei. Nunca fui e há que saber admitir.

Não faço cupcakes para o lanche, tartes de maçã para sobremesa, cabrito no forno, canja de galinha, não passo a ferro de forma profissional (aliás, só comecei a passar a ferro há uns meses, admito), e podia ficar aqui horas a divagar sobre mil e um motivos por que não sou a tal fada do lar. A minha casa costuma estar minimamente apresentável, come-se às horas das refeições, a roupa aparece lavada e passada a ferro, mas a verdade é que tive durante anos e anos a ajuda de empregada e dos meus pais.

Ao ver este livro, pensei logo "isto é para mim!", enquanto me imaginava de cabelo esticado, maquilhagem irrepreensível, vestido justo, com um avental a condizer, e a retirar uma iguaria do forno e a colocá-la na mesa, sempre de sorriso rasgado e dentes impecavelmente brancos. A imagem da perfeição. Cheguei a casa, li o livro sofregamente, sublinhei, decorei e, no dia seguinte, comecei a pôr em prática. Tal como no dia a seguir, e depois. E sentia-me realmente melhor.

No entanto, aqui há uns dias, no meio das mudanças e da confusão das tralhas que pusemos na casa nova, ele vira-se para mim (talvez assustado por estarmos a jantar no meio de dossiers e livros meus) e diz-me:
- É verdade... Não sei por que me lembrei disto agora, mas chegaste a ler aquele livro?
- Qual livro?
- O da dona de casa perfeita?
- Sim, li quase todo. Aquilo é por capítulos, saltei alguns que não interessavam tanto.
- Saltaste quais? O que dizia que a mesa é apenas para ter pratos, ou o que dizia que os livros se põem nas estantes?, pergunta-me ele, com ar de gozo.
- Pois. Acho que esses saltei.
- Jura!? É que ia jurar que a capa do livro era uma mesa de jantar cheia de livros, tralha e sacos à volta, no chão. Não é?
- Sim, acho que é exactamente assim.
- És uma fraude. Compras um livro desses e nem lês. Aposto que saltaste da capa para o fim. Dona de casa perfeita.... E ria-se, ria-se.
- Sou assim tão má?
- Não. Mas lembrei-me. E tens que admitir que, no meio deste caos, não podia ser mais irónico ter sido essa a tua leitura recente.

Tem razão. À Mónica Duarte - que não conheço, mas sinto que devo fazê-lo - aproveito para pedir desculpa. O livro está impecável e eu ainda não pus em prática nem metade dos truques. Mas hei-de pôr. Eu e ele, que, apesar de o livro ser no feminino, os conselhos são unisexo e hei-de solicitar bastante ajuda no masculino. ;)

A mentira que nos juntou

Ao ler esta notícia sobre duas deputadas distraídas que felicitaram o Ministro da Saúde, Paulo Macedo, pela alegada contratação de 600 enfermeiros - quando, afinal, tudo se tratava de uma partida do Dia das Mentiras -, e ao perceber a repercussão da história do António (aqui no blog e aqui no Facebook, principalmente), lembrei-me de uma história, que teve lugar há muitos e muitos anos atrás. Essa história também envolvia uma "pequena" mentira.

Corria o dia 1 do mês de Abril do ano da graça do Senhor de 2002, quando eu e uma amiga, a E., achámos que seria tremendamente engraçado se começássemos a pregar partidas a toda a gente que se cruzasse connosco. Se a memória não me atraiçoa, tudo começou logo de manhãzinha. Nós que nem éramos de acordar muito cedo, nesse dia ganhámos alergia à cama e saltámos para a rua, mal o Sol subiu no horizonte. Fomos juntas para a faculdade a planear mil e uma histórias, e respectivos destinatários. A maior parte das histórias foram contadas, depois desmentidas, depois alvo de riso, e desse dia não passaram, porque já me esqueci. Houve, no entanto, uma história que mudou o rumo da nossa própria história.

Eu tinha ficado incumbida de contar uma das maiores mentiras a um colega nosso. Lá entrei na personagem, revi o argumento e fui ter com ele, para lhe contar. O que eu não contava era que ia ficar ali retida as próximas quatro horas. Sim, quatro horas. Depois de lhe contar a história (falsa), foi como se tivesse aberto algum cofre, guardado a sete chaves. E daquele cofre saiu a maior riqueza que este colega tinha: as suas verdadeiras histórias. Mal acabei de contar a minha, ficou um segundo em silêncio e começou a confidenciar-me os seus maiores segredos. Senti-me mal e expliquei-lhe que era 1 de Abril. Tarde demais. O cofre estava aberto. Abriu o coração e partilhou comigo dúvidas, medos, ânsias. Pediu conselhos, opiniões sinceras. O resultado? Aquela partida juntou-nos. Nesse dia, senti que nasceu um amigo, a que depois acabámos as duas, mais tarde, a tratar por "irmão". Hoje em dia não somos tão próximos, mas é daquelas pessoas que ainda liga a dar os parabéns, porque se lembra da data; é daquelas pessoas que sei que, se encontrar na rua, vamos falar imenso tempo abertamente sobre a vida de cada um. Tenho pena que tenha começado assim, mas a amizade foi verdadeira, por isso, sei que a mentira foi só um percalço.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Mulher de dois homens

Há pouco ri-me tanto ao telefone que tenho que partilhar.
Uma amiga ligou-me, a pedir para eu a convencer a ir ao ginásio. Lá fiz o meu papel (enquanto me convencia a mim mesma a correr também) e, a meio do meu discurso motivacional inflamado, só a oiço a rir.
- Que se passa?
- É uma mulher que está aqui a passar.
- Hmm... (grunhi, porque não a via, nem podia partilhar da piada...)
- Anda sempre aqui por esta zona, é maluca. Anda sempre cheia de sacos, que eu achava que tinham lixo, mas que só hoje percebi que são pombas.
- Pombas?
- Sim. Vê lá tu. Pombas! Umas mortas, outras doentes, mal voam.
- Que nojo.
- Pois! Mas não me estava a rir disso. Estava a rir do que ela estava a dizer. Virou-se para uma e disse "calça lá os sapatos, que hoje vamos sair". (E ria-se sozinha.)
- Ainda acha que são uma família.
- Pois acha. E está sempre a dar-lhes beijos. E a agarrá-las.
- Que porcaria. As pombas não são um veículo de doenças?
- São. Mas ela é doida. Olha agora está a resmungar com duas. Ahaha.
- Então?
- Virou-se para elas e disse "Aii, isto de ser mulher de dois homens. Não se despacham!"
Rimo-nos as duas. Entretanto, ela lá chegou ao ginásio e eu também já estava pronta para correr. Desligámos. Já alguém se cruzou com esta mulher? Pelos vistos costuma andar pelo Chiado, com as suas mil pombas/ maridos, a viver a sua realidade paralela.

Dentro de quatro paredes

Não tenho claustrofobia, mas não consigo imaginar como será ter que viver dentro de quatro paredes, numa prisão. Já visitei prisões e parece-me que é realmente o castigo supremo. Pena de morte? Sou totalmente contra. A morte é um rápido final. A prisão é um castigo duro e lento, doloroso e solitário, é tempo para meditar, para arrepender ou pedir perdão. Deve ser a pior dor de todas.

Por isso, ontem à noite, lembrei-me do Carlos Cruz, que se entregou para cumprir o resto da pena... e não conseguia dormir a pensar como se estará a sentir o homem que cresci a ver como Senhor Televisão, o homem que tinha o mundo aos seus pés. Sentirá claustrofobia? Revolta? Arrependimento? Injustiça? Solidão? Dor, muita dor? Vergonha? Estará a pedir perdão?

Falaste comigo três vezes. Contaste?

Ela não conseguia dormir. O exame era no dia seguinte.
Queria chorar de nervos. Queria dançar de agitação. Queria meditar. Queria fazer avançar o relógio. Queria mais tempo. Estava o caos instalado dentro de si.
Ligou o computador. Uma janela do chat piscou. Era um colega com que tinha trocado duas ou três palavras, apenas. Sabia apenas que era mais velho e parecia muito simpático.
- Preparada?
- Não sei... Estou nervosa.
- Então transforma esse nervosismo em energia positiva. De certeza que vai correr bem!
- Obrigada. Espero que sim.
- Também vou estar lá, porque tenho exame a seguir a ti.
- A sério? Não sabia. Desculpa, que egoísta. Nem perguntei como é que tu estás!
- Estou óptimo. Estou a ouvir música, agora, para relaxar. Já estudei tudo.
- Eu devia fazer o mesmo! O que ouves?
- Isto - xxxxx, dos yyyyy. Conheces?
- Oh. Estás a brincar, não estás?
- Porquê, é assim tão má, a música?
- Não. De forma alguma! É apenas a minha música preferida. E ninguém - ninguém!!! - a conhece.
- Eu conheço.
- Impossível!! Fui eu que falei nela, de certeza.
- Falaste comigo três vezes.
- Contaste?
- Contei.
- Oh.
- E nunca falaste de música. Esta é "a" minha música.
- Mentira, é "a" minha música. A minha música preferida de sempre. E só eu conheço, mais ninguém.
Quando deram por ela, eram horas de fazer o exame. Cada um tinha dormido umas três horas. Mas foram mais calmos que nunca. Sem sono. Sem medos. Sem nervosismos. E correu bem. No final, foram jantar com um grupo de colegas. Beberam. Conversaram. Riram. Entreolharam-se. E cada um com a música a ecoar, baixinho, como uma banda sonora que só eles conseguiam ouvir. As pessoas foram saindo e ficaram apenas os dois. As horas passavam. Até que foram educadamente convidados a sair. E ficaram na rua, numa quente noite de Verão, a conversar até ser dia, sem sentir as horas passar, sempre com a música, baixinho, a ecoar como uma banda sonora que só eles podiam ouvir. "A" música de cada um deles. "A" música dos dois. Mil palavras podiam ter sido ditas, mas aquela música valeu logo por muito mais. Já não se queriam separar mais.

Ontem falava de música. Este é o poder da música. Consegue quebrar o gelo. Derreter corações. Aproximar pessoas. Ou transmitir mensagens que por vezes as palavras não conseguem.

Quanto àqueles dois, por muito exagerado que possa parecer, reza a história que aconteceu mesmo.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Meninas e meninos, não façam isto em casa

Cheguei a casa da corrida. E, depois dum dia a portar-me bem e a evitar doces, para corrigir os erros nutricionais pascais, já me sentia mais magra e tonificada. Sim, eu sei que sou demasiado optimista, mas admito que, de cada vez que consigo resistir a comer porcarias, sinto-me 1kg mais magra e 1 degrau mais perto da perfeição (por muitos milhares que faltem). É triste, é ridículo, é tudo o que quiserem chamar, mas é verdade.

Pois então cheguei a casa completamente exausta e com a roupa encharcada de suor, liguei as colunas na casa-de-banho, fui tomar um banho e, no fim, resolvi fazer algo que tão cedo tão repito. Sabem aqueles espelhos que aumentam para aí 50x e que servem para observarmos, não a superfície lunar, mas os nossos queridos pontos negros ou procurar pelosidades mais tímidas? (Homens, finjam que não leram esta frase, por favor.) Tenho um desses espelhos na casa-de-banho e, apesar de não o utilizar muito - felizmente vejo bem e consigo ver tudo a olho nu - hoje pareceu-me tentador. Ora o que é que resolvi fazer? Pôr-me estrategicamente de costas para o espelho ampliador e de frente para o espelho grande da casa-de-banho, para observar as minhas costas, pernas e rabiosque. Big big mistake!

Vou ficar uns dias sem conseguir comer porcarias. Sentia-me tão magrinha... Mas vi 50 vezes ampliadas todas as minhas gordurinhas, buracos da celulite, riscos das estrias. Um nojo. Desculpem esta imagem, mas fiquei mesmo irritada. Por isso, vou ser vossa amiga e alertar: meninos e meninos, não façam isto em casa!! Limitem-se a utilizar com dignidade o espelho normal, esqueçam por tudo estes espelhos demoníacos.

Preciso de "concertar"

Não consigo viver sem música. Tenho sempre música a tocar baixinho, na cabeça - por mais esquisito que isto soe. Gosto de acordar e ouvir música, só consigo trabalhar ou estudar com phones nos ouvidos, a ouvir rádio (costumo variar entre a Vodafone, Antena3 ou Radar) ou alguns sites (como o grooveshark, o soundcloud, ou a descobrir música nova pelo pitchfork), e motivo-me muito mais para o desporto se tiver a "música certa" a dar. Tento ler numa base diária sites sobre música, para me manter actualizada, e adoro a sensação de descobrir boa música nova. E sei que tenho a sorte de ter tido pais que incentivaram este meu gosto e me inscreveram logo aos 6 anos numa academia de dança e, depois, numa escola de música.*

Ora, para quem gosta assim tanto de música, qual é o auge, qual é o momento em que mais se pode viver e sentir a música? Concertos, certo? Concertos de música e festivais. Festivais esses que não têm que ser no meio do pó, nem temos que viver em tendas de campismo durante uma semana, certo? Podemos ter o mínimo de qualidade de vida, não temos que abdicar do conforto só porque vamos a um concerto/ festival, e até aí julgo que todos estaremos todos de acordo. Sim? Não. O meu querido mais-que-tudo discorda. Até hoje só consegui arrastá-lo para três ou quatro concertos e festivais. Preciso praticamente duma grua. E o pior é que adora música tanto ou mais que eu, mas defende que poucas bandas têm ao vivo uma prestação que faça valer a pena o esforço de nos deslocarmos para as ver. Defende que as novas bandas se limitam a tocar igual ao original e que, para isso, é preferível ouvirmos o cd.

Tenho, portanto, três meses e meio para o convencer que os Kings of Leon, os Phoenix, os Tame Impala, os Twin Shadow e os Alt-J, por exemplo, são excelentes ao vivo, algo nunca visto! E, se tudo correr bem, poderei cancelar o aluguer da grua com que ia tentar arrastá-lo, dia 14 de Julho, para o Passeio Marítimo de Algés. Se tudo correr bem, ele irá pelo seu próprio pezinho. Caso contrário, vou curtir na mesma com a minha irmã e amigas. (Tá jóbire?) Ando a sonhar em ver os Kings of Leon ao vivo há cinco ou seis anos. Vai ter que ser este ano. Ai vai, vai.


*Um dia destes prometo explorar melhor o assunto das duas bandas de música que tive, porque vivi algumas histórias engraçadas. Uma delas terminou com a minha mãe a odiar um conhecido guarda-redes, porque acha ainda hoje que ele me impediu de ser uma cantora de sucesso, ahah - mas, não, mamã, eu não canto nada de especial, aquilo era só uma brincadeira de miúdos.

Fim-de-semana bom é...

...Depois de horas a arrastar móveis, em compras no Ikea ou no Leroy Merlin, a dar uma perninha na decoração ou no bricolage, finalmente receber o descanso merecido. Porque fiquei fisicamente cansada com tanta coisa! Assim, aproveitei o Sábado e o Domingo para dormir bastante e assumir perante mim mesma que, se não posso vencer a chuva.... não devo lutar contra ela! Andei de bicicleta quando o Sol apareceu, mas depois rapidamente esqueci a mala já preparada com equipamento de corrida, ignorei o ipod e a vontade (pouca) de correr e atirei-me de cabeça para o sofá, para dois serões cinematográficos, mal o mau tempo reapareceu.

Primeiro, foi o "Ferrugem e Osso" (no original, "De rouille e d'os" - aqui), um filme francês do Jacques Audiard. Confesso que cada vez mais me rendo ao cinema francês. Cada vez me rendo mais às paisagens magníficas apresentadas  - neste caso, o azul intenso e feito de luz das praias de Antibes, no Sul do França, em cujas águas temos vontade de mergulhar e ali ficarmos esquecidos. Rendo-me aos actores - aqui, a belíssima Marion Coutillard, num papel que poderia simplesmente ser de dor e revolta, mas é essencialmente de força, luta e garra. Rendo-me à crueza da história, sem tempo para autocomiserações ou perguntas. Não há porquês, porque também não há grandes respostas. Ele não tem mulher? Tem que criar o filho sozinho? Sem emprego? Há que avançar. Agir. Reagir. Ela perdeu as pernas? O emprego dos seus sonhos? O marido? Perdeu parte de si? Felizmente encontra-o a ele. E ele ajuda-a a emergir da dor. Flutuar. E ela fecha os olhos e entrega-se. E é vê-la feliz, no mar azul intenso e feito de luz. Cheio de luz. Esperança. Aquele Robocop, metade aço, metade curvas femininas e olhos cor do mar ergue-se, no fim de tudo. E apesar do nome do filme referir a "ferrugem", acreditamos que parte daquela mulher é feita de material inoxidável. No fim, aquele Robocop feminino acaba por se entender com aquele monte de ossos, o seu salvador. Não têm coração, tentam dizer-nos. Insistem até acreditarmos que são ambos insensíveis e sem tempo para amar. Saímos do filme a achar precisamente o contrário. Há esperança.

Depois, foi a vez do não-tão-recente "Extremamente Alto, Incrivelmente Perto" (aqui). Se, no primeiro filme, não havia espaço para lágrimas ou desespero, aqui as mesmas lágrimas parecem sempre estar a ser apenas adiadas. Estão mesmo. É impossível terminar o filme sem sentir nada. O momento final, com a Sandra Bullock a mostrar um novo lado seu, enquanto mãe até aí fria e ausente, faz toda a procura (em vão?) valer a pena. Oskar ficou orfão do seu pai (Tom Hanks), que se encontrava nas Torres Gémeas no 11 de Setembro. Conta-nos que a luz do Sol demora 8 minutos a chegar à Terra, pelo que, se o Sol se apagasse, só saberíamos 8 minutos depois. Oskar vai tentar, portanto, prolongar os seus 8 minutos. Quer adiar ao máximo o momento em que interioriza a morte do seu pai, e entrega-se à maior busca alguma vez levada a cabo, na tentativa de tentar encontrar um porquê para tudo, um porquê que acalme as milhares de questões que os seus interrogativos gigantes olhos azuis parecem carregar. Posso ter gostado mais do primeiro filme, por ser mais cru, mas também gostei muito deste e de toda a esperança que nos transmite sempre.

Aconselho o primeiro filme para quem gostar mais de filmes duros e realistas, cheios de pele, ossos e dor a nú. O segundo filme é para quem preferir uma abordagem mais romântica, emotiva e determinada duma história também trágica. De qualquer das formas, gostei dos dois filmes. Foram boas surpresas. E fiquei feliz por ter havido pelo menos um lado positivo no meio de tanta chuva.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Deixei de ter vergonha

Pedia imensas vezes uma garrafa de água a acompanhar o café, porque sabia-me bem dar dois goles de água para cortar o sabor forte do café (sempre sem açúcar), no fim. Mas a verdade é que pedia a tal garrafa de água essencialmente porque me sentia inibida para pedir apenas um copo de água. Sentia que iriam olhar logo de lado para mim, se o fizesse.

Até que, recentemente, perdi a vergonha. Em conversa com um médico, comentei que não tinha a certeza se era saudável beber água da torneira e acabei por perceber que não havia qualquer inconveniente em fazê-lo. E aquilo funcionou verdadeiramente como palavras mágicas - comecei a pedir um copo de água sem pudor, quando tinha sede no final da refeição, por exemplo. Comecei a pensar, de mim para mim: "se vou consumir outras coisas, não é um copo de água que os vai levar à ruína". Nem costumo ser forreta, mas a verdade é que maior parte das vezes aquela é a minha medida de sede depois do café: um copo, apenas.

Estes dias, fui a um restaurante que me fez sentir menos bicho raro: tinham, na ementa, algo chamado 'Água del cano - gratuita'. Escolhi, assim, da lista: as entradas, o prato principal, a bebida e a sobremesa... No fim, já sem mais bebida, pedi um café e 'água del cano, por favor'! Veio servida assim (imagem infra). Não está demais? Adorei. Fica a ideia para quem tiver cafés ou restaurantes.

Ser atiradiça é...

Estar numa fila para pedir um café, ver um grupo de miúdos entre os dezoito e os vinte e poucos anos, e iniciar uma espécie de monólogo, em voz mais alta que o normal:
- Fui hoje à Intimissimi e fiquei chocada! Não é que os novos soutiens são todos alcochoados? Aquilo é uma fraude! Se fosse um homem e tirasse um soutien daqueles, ia sentir-me completamente enganado. É uma mentira! Além disso, não entendo a necessidade de quererem parecer que têm mais! Eu vejo-me aflita para tentar esconder as minhas mamas. São enormes, vejo-me aflita para tentar disfarçar o tamanho delas. Olha para isto. Não são gigantes?
Escusado será dizer que os miúdos se esqueceram completamente do que iam ali fazer. Café? Qual café? Estavam mais acordados que nunca. A mam... ups, mulher saiu e era ver um grupo de jovens atrás dela. Sim, eles eram totalmente contra a mentira, fraudes e enganos. Queriam a verdade. E lá a seguiram, maravilhados.

Finalmente vou dizer-vos quem sou

Não sei se vou desiludir alguém, porque, para tal, seria necessário estarem iludidos.
Não sei se vou deixar-vos tristes ou simplesmente confirmar o que já pensavam de mim.
Tal como publiquei aqui, a minha identidade foi descoberta, por isso, resta-me apenas contar tudo. Tudo.
O nome é António.
Pippa é o nome da minha gata e era o nome que gostaria de ter se um dia tivesse uma filha.
Tenho 63 anos.
Reformei-me recentemente e comecei a escrever para ocupar mais o tempo.
Abri inicialmente um blog em que me identificava, mas rapidamente percebi que as pessoas procuravam sangue novo, gostam de ler jovens sem rosto, que lhes desperte a curiosidade.
A curiosidade aguça o espírito.
Um rosto masculino, marcado pelas rugas e pelo excesso de peso afugenta a leitura.
As pessoas preferem ler quem não conhecem.
Identificam-se mais com palavras que com rostos.
As palavras são livres e permitem-nos voar para longe.
As imagens prendem-nos e limitam-nos.
E isso é a explicação mais sincera que encontro para vos explicar o que fiz.
A criação do nome.
A identidade feminina.
A idade jovem e os hábitos de vida.
A verdade é que nunca me leriam se apenas relatasse como são os meus dias.
Do António, de 63 anos.

Posto isto, peço apenas que me perdoem.
Perdoem-me por não ter jeito para mentir.
É demasiado óbvio para qualquer pessoa, não é?
Estou a contar-vos a partida do dia das mentiras.
Boas partidas para todos e que tenham mais jeito que eu, é o que vos desejo.