terça-feira, 14 de maio de 2013

Coragem ou apenas fazer o que qualquer um faria?

Acabei de ler aqui que a Angelina Jolie se submeteu voluntariamente a uma dupla mastectomia, pois tinha 87% de probabilidade de desenvolver cancro da mama - de referir que a mãe dela morreu aos 56 anos, vítima de cancro.

Primeiro pensei "uauu que coragem!". Mas a verdade é que depois de reflectir mais um pouco, não sei até que ponto não terá a actriz feito o que qualquer outra mulher, com coragem obviamente, e muita tristeza, faria também. O meu primeiro namorado era órfão desde novo, porque a mãe tinha morrido com um cancro da mama. E conheci bem perto a tristeza, o desespero, a revolta por ter tido uma mãe que passou anos da sua vida a lutar contra um cancro, até perder a luta. Conheci bem o sofrimento dos filhos, ouvi os relatos do sofrimento da mãe, e percebi o impacto que este episódio teve nesta família.

Infelizmente, cada vez mais conhecemos casos destes, ou não fosse o cancro uma das doenças do nosso século e do anterior. Uma doença silenciosa, perigosa, e fulminante. Tento fazer a apalpação em casa, tento estar atenta a qualquer sinal, mas o que é certo é que raramente é possível detectar numa fase precoce. Se fazia o mesmo? Não sei... Mas 87% parece-me realmente um risco tão grande que não pode, de forma alguma, ser ignorado. Agora se se trata de coragem, ou de apenas aquele gesto que qualquer mulher faria, na mesma situação? Não consigo responder. Não consigo imaginar a dor que será ter que perder algo que é parte da nossa feminilidade. Ter que perder algo que marca a nossa silhueta, que é parte da nossa sensualidade e identidade enquanto mulheres. Não consigo imaginar.

Nunca repetir se estiverem sozinhos em casa. Ok?

A casa da minha avó materna marcou a minha infância, não só porque passava muito tempo lá, mas também porque era um verdadeiro tesouro: nos seus inúmeros quartos, adorava espreitar armários, experimentar roupa, calçado, acessórios, e descobrir livros. Os meus tios tinham juntado uma colecção de livros respeitável e adorava ler os títulos e passar os dedos pelas páginas já um pouco usadas. Os meus livros preferidos eram sempre aqueles que estavam relacionados com o desconhecido, com a ciência ou com misticismo. Este passatempo era levado ao extremo quando dormia lá com os meus primos. Levávamos lanternas e ficávamos a explorar tudo durante a noite.

O problema? A casa era muito grande, com um pé direito altíssimo, situava-se no meio do nada, e estava sempre cheia de sons, rangeres do chão inexplicáveis, sombras, cheiros desconhecidos e recantos por desvendar. Como se este cenário não fosse suficiente, muitas vezes decidíamos ler os livros sobre o desconhecido, o que era sinónimo de noites em branco. Que criança consegue dormir depois de ler histórias (verídicas, insistia o livro!) de raptos por extraterrestres, numa casa assim? Que criança dorme depois de ler um adulto descrever até à exaustão como tudo aconteceu, como era o seu raptor, ou para onde o levou? A resposta é que nenhuma criança consegue dormir, e nós não éramos excepção. Principalmente porque estes serões eram sempre passados num quarto com janelas iluminadas pela lua, e trespassados ocasionalmente por morcegos, sombras das árvores, e mil medos.

E o pior é que esta sensação se manteve sempre em mim. Por isso, o filme que optei por ver ontem à noite, sozinha em casa, passado no Espaço e sempre sob o olhar atento de vida alienígena, foi sem dúvida péssima opção. Porque posso já não ter seis anos, nem estar "na" casa, mas trago sempre aqueles relatos cheios de detalhe dentro de mim. E ninguém me tira da cabeça que "eles" podem realmente existir. E que nem no meio da cidade, com segurança à porta, estamos safos. Por isso, só posso insistir comigo mesma para não repetir a façanha se estiver sozinha em casa. E lanço aqui o conselho a quem padecer do mesmo mal: não vejam filmes de terror ou de suspense se estiverem sozinhos em casa e forem tão impressionáveis como eu. ;)

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Algumas pessoas deviam trazer um comando, para podermos carregar no MUTE

Há uns anos, costumava almoçar no mesmo sítio, dia após dia. Era um restaurante calmo, perto do sítio em que trabalhava, tinha sempre diária, não era caro, nunca estava cheio, serviam rápido e tinha ainda uma óptima vista. Estavam, portanto, reunidas as condições para me ter tornado uma freguesa assídua, eu e alguns colegas... até um dia.

Os sinais de que a dona do espaço era muito metediça começaram, lentamente. Primeiro, começou por perguntar o que fazíamos. Depois, onde trabalhávamos. Mas não estava satisfeita e queria saber se ganhávamos bem, se gostávamos do que fazíamos, etc. Era muito curiosa. Alguns colegas começaram a não ter paciência para ter que responder a questionários todos os dias e começaram a ir só de vez em quando. A dada altura, os resistentes eram eu e outro colega. Mantínhamo-nos firmes e continuávamos a ir lá, tentando escapar ao interrogatório com rápidos monossílabos ou simples acenares de cabeça.

Até que, um dia, o meu colega perdeu os óculos de sol e ficou convicto que os tinha deixado lá. No dia seguinte, passou lá a perguntar à dona se os tinha encontrado.
- Eram de marca?
- Sim.
- Caros?
- Sim... um bocado.
- Então esqueça, menino. Mesmo que tivessem ficado aqui, nunca mais os vê. É de bom tempo!
Esta última frase ficou para sempre na minha memória. Nós é que éramos os anjinhos, pelos vistos, com princípios e com uma moral em desuso. Perante isto, o meu colega disse-me que não queria voltar lá.

Passado uns tempos, fui eu tomar lá um café, num Sábado de manhã, com o meu namorado. Afinal de contas, a vista era mesmo boa e estava-se bem na esplanada. Ora, a senhora vê-nos, arregala os olhos, e vem ter connosco:
- Então? Há algum tempo...!
- Pois é.
- Tudo bem?
- Sim, obrigada!
- E os óculos, menino? Ficaram-lhe bem?
- Óculos...?
- Sim, o menino costumava vir almoçar com a menina, todos os dias. E um dia esqueceu-se dos óculos. Já os encontrou?
- Eu nunca vinha cá...
- Ah desculpe, confundi! Como também vinham sempre juntos e ficavam neste sítio a almoçar, achei que fosse o mesmo menino. Afinal é outro, desculpe lá.
Escusado será dizer que o meu colega e o meu namorado não tinham NADA a ver. Era como água para o vinho. A mulher deve ter ficado irritada por nunca mais termos ido e tentou lançar o pânico na minha relação. Resposta do meu namorado:
- Não sei como confundiu. Eu sou muito mais bonito que o colega da minha namorada de que está a falar. Não acha?
- Ahh pois é! (risos nervosos)

Posto isto, julgo que não é preciso acrescentar que, depois disto, nem almoço, nem café, nem nada. Acabou. Agora só volto lá quando a mulher trouxer um comando para poder carregar no MUTE.

Sobreviver à distância

Falei aqui sobre o tema e escreveram-me a pedir para desenvolver mais e, se possível, para dar alguns conselhos a quem estivesse a passar pelo menos. A verdade é que tenho amigos que já me colocaram essa tão difícil questão - "aceito esta proposta de emprego, vou trabalhar para fora?" - e dei por mim sempre a responder o mesmo: "sim, se o emprego é importante, vai! Eu também já fui. Mas prepara-te para a pior altura da tua vida". A questão é que, para um casal que se habituou a estar junto numa base diária, não há nada pior que a separação. É termos que nos confrontar com o pior depois de termos passado pelo melhor. É sempre preferível o contrário, certo - primeiro namorar à distância e depois ficarem juntos?

Para mim, enquanto durou (e ainda foi bastante tempo), não houve dia em que não me sentisse triste a adormecer, não houve dia em que demorasse até conseguir relaxar e adormecer. E sou pessoa para adormecer em dois segundos, num dia normal. Depois de me habituar à companhia, ao dia-a-dia do casal, ao acordar com música, entre mil e um pormenores, custou-me horrores ter que me habituar a um quarto solitário, ao acto de redefinir as rotinas a solo. Custou-me realmente muito. Se é possível? É. Se se sobrevive? Sim. Mas custa. Isso não vou mentir. Tenho amigas mais racionais que sobreviveram/ sobrevivem à distância melhor que eu, mas eu não consegui relativizar como queria: custava, ponto final.

Conselhos? Pensar na questão do currículo - é necessário estar aqui, o meu percurso profissional vai ficar muito mais valorizado depois disto. Pensar na questão económica - a minha conta bancária agradece que aqui esteja, e vou tentar poupar para o futuro. Pensar na maturidade adquirida - estar sozinha vai permitir conhecer-me melhor, crescer, e tornar-me mais madura. Tentar dar valor às saudades - é importante sentir saudades da outra pessoa, é sinal que significa muito para mim. E valorizar sempre o tempo de qualidade a dois - de cada vez que estivermos juntos, vou aproveitar o tempo ao máximo, para recuperar o tempo perdido. Ah, e, por fim, aproveitar para pôr a escrita em dia - escrever emails, mensagens - e ligar. Acredito que, se se seguir realmente estes pontos, a distância fica bem mais fácil de suportar. E o longe pode tornar-se bem mais perto. Além disso, se há altura em que o romantismo deve vir ao de cima, é nesta. Que tal enviar uns miminhos para o local de trabalho, de vez em quando? Ou uma viagem inesperada a meio da semana, quando der?

Espero ter sido mais inspiradora, desta vez. Porque a verdade é que o amor resiste a qualquer contratempo, se for forte. E este é daqueles clichés que vale a pena repetir, porque é realmente verdade.

domingo, 12 de maio de 2013

Como curar um coração partido

O dia de ontem acabou mal, com a derrota do Benfica. Quando, aos 90 minutos, o marcador mostrava 1-1 milhares estavam longe de imaginar que, segundos depois, tudo iria sofrer uma triste reviravolta. Aconteceu. Perdemos já praticamente no final.

Para mim, o resultado era péssimo, mas sabia que ele estaria pior que eu, lá no seu retiro. Prometi a mim mesma que ia ajudá-lo. Veio embora sem jantar. Disse-me que não tinha apetite. Hoje preparei o pequeno-almoço. Disse-me que ainda não lhe apetecia nada. Almoço? Aos poucos comecei a conseguir alimentá-lo. Uns miminhos. E coloquei a dar alguns filmes para animar. Muitos filmes.

Se isto não é igual a um coração partido, então não sei o que é. Os homens têm a mania que são muito mais duros e fortes que nós. Mas o que é certo é que, quando sentem um desgosto, sentem-no de uma forma muito mais avassaladora que nós. Como se fosse um tudo ou nada. Aquela capa que usam deve ser de vidro, pois quando quebra, quebra completamente. Não há cá pequenas fissuras. Não há cá (os tipicamente femininos) acessos de melancolia ou nostalgia.

Mas acredito que não é nada que um dos muitos filmes que pus a dar e muito mimo não resolvam. E acredito que amanhã estará a usar a sua capa de durão, como sempre. E a jurar que este dia de hoje nunca existiu. ;)

sábado, 11 de maio de 2013

Estou a ficar maluca.

Vesti-me de azul e branco, mas achei que podia dar azar. Mudei para a roupa da direita. Definitivamente o convívio com supersticiosos torna-nos supersticiosos também.

Acordei com a música na cabeça. Da dança.

A nossa única experiência com a dança tinha sido já há uns anos (contada aqui) e tinha começado mal, com uma disputa pelo poder. Por isso, quando decidimos, recentemente, marcar algumas aulas de dança, confesso que fui à primeira aula um pouco a medo e com as expectativas muiiiito em baixo. Apesar de ele me contar que teve aulas de dança no colégio (eram obrigatórias, pelos vistos), eu sempre me vi a mim como a expert dos dois. E estava preparada para ter que perder muito tempo a ensiná-lo e a explicar os passos com calma. Chegámos, conhecemos os professores, ouvimos a música e assistimos depois à coreografia toda que tinha sido preparada para nós. A meio, lembro-me de olhar para ele e vê-lo muito atento. Sorri com ternura, como quem olha para uma criança a tentar aprender a escrever pela primeira vez. Só não sabia o longe que estava da realidade.

Começámos. Braços em posição. Costas direitas. Mão na mão. Distância assegurada. A música começou. O que aconteceu novamente? Avançámos em uníssono, ao mesmo ritmo. Cada um fez o seu passo, direitinho. Primeiro uma parte da dança. Depois a segunda. A terceira. Até conseguirmos reproduzir toda a reprografia. Uma vez. Outra vez. Impecável. Sem erros, praticamente. Na segunda aula aconteceu o mesmo. Os professores optaram por ensinar nova coreografia noutro estilo de dança. Chegámos ao fim a fazer a coreografia direitinho. Na terceira aula, nova coreografia em novo estilo.

Hoje acordei com uma destas músicas na cabeça. Vim ao computador a correr e vi os vídeos que os professores nos enviaram - as aulas eram gravadas, para repetirmos em casa, se quiséssemos, e aprendermos com os erros. Não sei se a nossa relação é o que a dança reflecte, mas a verdade é que nos vejo em harmonia, mãos entrelaçadas, a seguir os passos em uníssono, completamente transformados numa só massa dançante. De repente, vejo-me a atirar para trás, a cabeça e as costas dobram-se completamente e ele segura-me com os braços. A professora ri-se. Muito. No fim, bate palmas e oiço-a dizer-me "confia mesmo nele, não confia? é raro ver alguém atirar-se para trás dessa maneira. geralmente têm medo de cair". Digo-lhe que sim. Que confio. Posso ser um pouco possessiva, como um anónimo qualquer me disse no outro dia. Mas confio. E foi só por isso que já resistimos à relação à distância, durante demasiado tempo. Porque, apesar de estarmos longe, sentia que seguíamos juntos, mão na mão, ao mesmo ritmo e a dançar a mesma coreografia. E sentia que podia cair a meio que ele estaria sempre lá a impedir-me de atingir o chão e magoar-me. E vice-versa.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Queria ser escuteira

- Papá, posso ir para os escuteiros? Gostava tanto!
- Não, filha. Desculpa, mas não.
- Ohhh porquê?
- Porque não vais. E não se fala mais nisso.

Hoje, esta história parece um sketch dos Gato Fedorento. Infelizmente (para mim) era o primeiro "não!!" irredutível que ouvia. Ainda insisti com um "não mesmo?". O meu pai não mudou de ideias. Nunca. Perguntei-lhe mais tarde porquê. Disse-me apenas que era tempo perdido e que eu já tinha muitas actividades.

No entanto, sempre que agora vejo grupos de escuteiros penso nisto - "o que estaria por trás daquele não tão decidido do meu pai, o que o levou a ser tão irredutível?" E a única explicação que encontro era a protecção, era o estar a ser pai-galinha. Se não, vejamos: os escuteiros andam sempre todos juntos. Rapazes e raparigas. Elas usam todas saias curtas. Acampam e passam fins-de-semana todos juntos, elas - repito - de saia curta, todos espalhados, a cantar cânticos felizes, pelos montes. Seguem trilhos, aprendem a dar nós, acendem fogueiras e, no fim, entretêm-se a conviver à volta das fogueiras. Rapazes e raparigas. Perdidos pelos montes. Elas de saia curta. Ok... E hoje, a passar por um grupo de escuteiros nos seus doze ou treze anos, apanhei um rapaz a tirar as medidas com os olhos da sua colega escuteira que ia à frente. Ouvi mentalmente o "Nãoo!!" do meu pai e ri-me sozinha. Realmente ser pai deve ser uma tarefa muuuuuito difícil.

Dicas para emagrecer com a corrida

Muitas vezes, quando corria, levava comigo dúvidas que voltavam da corrida sem resposta:
1- Devo tentar acelerar o ritmo ou mantenho o ritmo que me é confortável?
2- Se manter o ritmo confortável e não acelerar, isso não significa que estou a estagnar?
3- Devo tentar aguentar o mais possível sem parar ou posso ir parando e retomar, consecutivamente?
4- Será que, ao correr, estou a emagrecer ou a ficar com as pernas mais desenvolvidas?

Já me inscrevi no ginásio, aproveitei para colocar essas dúvidas ao professor. O que me respondeu foi, resumidamente (e espero não estar a adulterar o sentido das respostas, já que não percebi exactamente tooooodas as explicações):
1- Se queremos emagrecer, devemos manter um ritmo mais confortável, ainda que mais lento;
2- Não significa estagnar, porque estamos a desenvolver a resistência;
3- Devemos tentar aguentar o máximo de tempo a correr sem parar;
4- Perdemos massa gorda se seguirmos estes passos.

Por isso, em vez de tentar acompanhar a minha inspiração, ontem optei por correr mais devagar. Resultado? Corri trinta minutos seguidos, ininterruptamente (ok, ok, excepto na parte em que os atacadores se soltaram e tive que parar um minuto). Cansei-me muito menos. Quando carreguei no STOP não estava a arfar como um cão, nem roxa como uma beringela. Além disso, também tive direito a uma consulta de nutrição. Eu adorei conhecer a Dra. Mariana, o ano passado, e fiquei fã n.º 1 dela, mas a verdade é que gostei igualmente do estilo (oposto) desta nutricionista, bastante aguerrida e faladora. Se quiserem depois partilho algumas dicas por aqui. Posso adiantar que descobri que devo deixar de comer gemas de ovos e que ela a tendência de beber água morna com limão ao acordar pode afinal ser um verdadeiro "disparate". ;)

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Como acabar uma discussão em... dois minutos

- O que achas de ir para um retiro no Sábado ver o jogo?
- Um retiro? (eu a pensar que tinha virado budista) Um retiro como?
- Ir para longe da cidade. Para longe de tudo. Para casa do X.
- Parece-me coisa de malucos. Não parece nada teu.
- Mas é para dar sorte! Não quero ter que ouvir ninguém se perdermos...
- Oh mas tu vês em casa e dizes que o sofá também dá sorte. Porque não manténs a fórmula?
- Não vejo sempre. Às vezes vou ao estádio e já ganhámos e já perdemos. E em casa dos teus pais ganhávamos sempre e no outro dia empatámos. Já não tenho sítio da sorte.
- Mas também dizias que era eu que dava sorte... Agora já é o X que dá sorte? (a tentar puxar para mim a conversa)
- Oh e dás sorte. Mas a verdade é que tu nem vês os jogos. Passas só os olhos. Olha, vou para lá com eles, ok?
- E eu estou convidada?
- Não. É programa de gajos.
- Programa de gajos soa a festa com mulheres no fim.
- Já te estás a passar. É só um jogo!
- Mas se é um jogo, vê aqui. Viste sempre...
- Não posso. Este jogo é importante!! Vai determinar tudo!!
- Oh.
- Vai! Tu é que não percebes de futebol. Tenho que ir para lá. Não percebes a importância disto. Decide-se o campeonato!
- Então, para tua informação, percebo, sim. E o jogo não decide nada o campeonato. Mesmo que o Porto ganhe, se no jogo a seguir o Benfica ganhar e o Porto empatar, ganhamos!!
- Oh...
- O que foi?
- Tu sabes. Estou mesmo orgulhoso!! (emocionado)
- Porquê? O que é que foi?
- Tu sabes. Nunca pensei! Fizeste as contas...
- Olha: não adoro futebol, como sabes. Mas andas todo tenso, achas que não fiz logo as contas na Segunda? Fogo... Estás a subestimar-me. Isto é importante para ti e eu sei. Até andei a ler A Bola. Queria perceber se tinhas motivos para andar preocupado.
- Adoro-te!

E pronto. Mulheres, leiam um site desportivo de vez em quando e pelos vistos têm-nos na mão. Quem diria que era tão simples!
Quanto ao "retiro"? Vamos ver.
Se for, vou ter que pensar em formas de me compensar. Sugestões? Para já, estou a pensar em pô-lo a fazer o jantar e a arrumar a casa uns dias seguidos. É para aprender a não estar constantemente a trocar-me pelo futebol.

Saiu dum romance do Eça, não achas?

Todos aqueles que leram "Os Mais", de Eça de Queirós, se lembram dele: Dâmaso Salcede. O Dâmaso representava o Português rural que decide abandonar a terra em que vive, rumar para a metrópole e tornar-se mais urbano que a própria cidade. Quer ser alguém como os seus ídolos cheios de pinta e poder que cresceu a idolatrar. Quer ser "chic a valer", como repete. Com uma vida totalmente chic, com programas chic, em sítios chic, rodeado de pessoas chic. É convencido, arrogante e representa o novo-riquismo e os vícios de Lisboa naquela época. O Dâmaso é baixinho, tem excesso de peso (talvez por comer demasiadas coisas chic), mas tem proporcionalmente excesso de auto-estima e carência de carácter. Deseja ser alguém, arranjar um bom emprego e viver sem dificuldades, nem que para isso tenha que passar por cima de alguém.

Depois havia também o Euzebiozinho. Representava a educação tradicional Portuguesa: superprotegido pela mãe, abafado em roupas, cresceu a decorar poemas, o catequismo e a Cartilha, e ainda estudou Latim. A consequência foi tornar-se um adulto melancólico, sisudo e triste. Fisicamente era descrito como tísico. Tornou-se um adulto corrupto, como o Dâmaso.

E estas personagens vêm a propósito duma conversa que tive ontem com uma amiga. Falávamos sobre o facto de Eça estar bastante à frente do seu tempo. Quantos Dâmasos ou Euzebiozinhos conhecemos ainda? Quem não conhece aquele "Dâmaso" que decide estudar na cidade, vindo duma terra mais pequena, e que deseja ardentemente ser "alguém"? Muitas vezes começam logo na faculdade: fazem parte da associação, são membros activos, apelam-nos ao voto. Depois, transitam para a política. O perfil mantém-se. Ligam-nos apenas a pedir um voto. Marcam café somente para nos apresentar as vantagens de entrarmos no partido. Enchem-nos a caixa de email com as propostas eleitorais. De repente, começam a aprimorar o vestuário. Por vezes deixam crescer alguma pelugem facial, para demonstrar a maturidade. Encontramo-los em bons sítios a jantar. Perguntamos pelo trabalho. Percebemos que apenas vivem daquilo. E que esperam o dia em que alguém o convide para integrar a sua empresa. Não têm pudor em assumir que procuram um "tacho".

Quem não conhece aquele "Euzebiozinho" enfezado, super ligado aos pais, frágil e com ar melancólico, que acaba por se tornar também um adulto corrupto, sem problemas em aceitar alguma compensação financeira em troca de um favor?

Ontem discutíamos isto e acabámos a rir a pensar que os piores serão mesmo os "híbridos": aqueles com características dos dois. Ora façam lá um esforço e vejam se não conhecem tantos assim. Acho que é por isto que sempre adorei o Eça. 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O que hei-de vestir hoje?

Gosto de roupa, como qualquer mulher. Sempre gostei. Adoro principalmente vestidos. Sempre foi assim. Aquela fase em que nos tornamos autênticas maria-rapaz e em que odiamos o cor-de-rosa e queremos usar apenas calças? Não me lembro de ter passado por isso.

A minha principal paixão sempre foram os vestidos, só queria vestidos. Cheguei ao ponto de fazer vestidos com sacos de plástico. Estão a ver as pegas dos sacos? Tornavam-se alças. Cortava a parte de baixo, enfiava os braços nas "alças", arranjava acessórios da minha mãe, sapatos, maquilhava-me, arranjava o cabelo. E desfilava pela casa, em modo teatral. Adorava moda. Ver revistas. Apreciar mulheres bem vestidas. E principalmente ver a minha mãe arranjar-se, todos os dias de manhã. Adorava vê-la colocar todos os cremes, pentear o cabelo, vestir-se, calçar-se, perfumar-se, maquilhar-se. Cresci a desenhar vestidos que sonhava um dia mandar fazer. E cheguei a desenhar e mandar fazer o vestido do baile de finalistas. Acho que até fez algum sucesso.

Sempre gostei de roupa. Talvez demasiado. E conciliando este gosto com o facto de o meu corpo estar praticamente igual há muitos anos, tenho constatado algo que não será novidade para a maioria das mulheres: tenho roupa a mais!! Abro o armário e por vezes encontro vestidos que nem me lembro que tinha. Calças escondidas. Blazers só vestidos uma vez. Ou sapatos que afinal nem eram confortáveis.

Por isso, disse a mim mesma: "chega"! Não digo que vá entrar numa dieta de compras à moda daquela que a minha Joana, do projecto The Shopping Diet, encetou (e com sucesso, posso confirmar!), mas percebi há algum tempo que tenho que comprar menos roupa. E tentar reutilizar mais aquela que já tenho. A comprar, serão básicos ou alguns pormenores (poucos) que marquem a estação. Este é o meu plano. Alguém está comigo?

Amar alguém à distância

É termos o coração cheio e as mãos vazias, sem ninguém a apertá-la, quando precisamos.
É adormecermos com a orelha a ferver encostado ao telemóvel e os pés frios, sem ninguém a aquecê-los.
É sermos abraçadas por mil palavras de conforto enquanto os braços pendem, sozinhos, no sofá, sem força para mudar no comando o canal de televisão.
É desejar "bom jantar", enquanto pomos um único prato na mesa e nos sentamos.
É sussurrar "boa noite", enquanto colocamos uma única almofada na cama, para dormir.
É dizer "bom dia", enquanto abrimos os olhos e tentamos enfrentar a solidão e a tristeza do quarto.

Amar alguém à distância é saber que está sempre ali alguém. Só esse alguém está a cem, a trezentos ou a três mil quilómetros. Amar alguém à distância é viver cada vida numa tela gigante, separada por uma linha a meio que nunca permite que as duas imagens se intersectem. É um viver individual que aspira ao viver a dois. É um "eu" que deseja muito ser um "nós".

Amar alguém à distância é amar sozinho. É duro. Dói. E sim, já passei por isso. Já acordei angustiada, com um aperto gigante no coração. Já senti as mãos vazias, quando precisava de as dar. Já senti os pés frios, apesar de a orelha estar a latejar com o calor do telemóvel. Já fui abraçada com palavras, quando os meus braços não tinham sequer força para pegar no comando. Já desejei "bom jantar" enquanto olhava o meu único prato na mesa. Já sussurrei "boa noite" e a seguir deitei-me na almofada, triste e só. Já disse "bom dia" enquanto o peso da solidão me caía em cima.

Amar à distância para mim é assinar uma declaração de infelicidade. "Li e aceito as cláusulas do contrato. Opto por ser infeliz." E pode dar para toda a gente. Mas para mim não dá. Não deu. Preferia adormecer até ao fim da vida com um ressonar de 100 decibeis. Desde que fosse o ressonar dele. (E felizmente nem ressona). Acho que a única vantagem que, para mim, o amor à distância teve é que, em dias como este, olho para o lado, enquanto escrevo, e penso como é bom ele estar aqui. E só eu sei o quanto sinto esta felicidade que me consome e me preenche. Está aqui bem junto a mim. Como é bom...

terça-feira, 7 de maio de 2013

O meu gestor de conta

O meu gestor de conta começou por decidir que ia ser o meu melhor amigo. Eram e-mails com sugestões de formas para aplicar o meu salário. Eram telefonemas a apresentar novos produtos. Eram parabéns no meu aniversário. Parecia estar a iniciar-se uma bela amizade daquelas para a vida.

O meu gestor de conta sempre falou colocando ar entre cada palavra. Como se as soprasse. Ou, no caso, como "sehh hhhhas soprassehhh". Fala comigo e oiço uma brisa. Fala num tom grave. Sereno. E muito amistoso. Se não fosse gestor de conta, diria que poderia ser um novo João Chaves, do Oceano Pacífico.

O meu gestor de conta começou por decidir que ia ser o meu melhor amigo. Até que, um belo dia, eu decidi que ia deixar de ter um salário. E comecei a trabalhar com recibos verdes.

O meu gestor de conta pegou então no telefone. Perguntou-me se tinha havido algum erro no processamento do salário. Expliquei-lhe que não, que a partir daí ia começar a trabalhar como trabalhadora independente. E acrescentei ainda que não se preocupasse, porque ia continuar a receber. Nesse dia, não ouvi a habitual brisa. O tom sereno estava um pouco mais agitado.

O meu gestor de conta decidiu então que não podia mais ser o meu melhor amigo. Se primeiro aceitou a minha condição, depois lá terá estado a matutar naquilo. Um certo dia, atingiu o seu limite e decidiu ligar-me:
- Olá! Fala XX.
- Olá, como está?
- Bem, obrigado! A Pippa também?
- Sim, obrigada! (o meu gestor de conta é, como disse, muito amistoso e ficamos sempre cinco minutos a confirmar que estamos os dois efectivamente bem, seguido de mais três minutos de agradecimentos recíprocos pela preocupação)
- Sabe, estive a ver a sua conta.
- ... Sim?
- Está com 60 cêntimos de saldo negativo.
- Saldo negativo? Como é que é possível?
- Deve ter sido um erro informático. Nunca aconteceu.
- Pois... Nem estou a ver o que terei comprado para ficar com esses 60 cêntimos negativos.
- Permita-me então que lhe diga: foi no McDonald's. Adquiriu um McFlurry.

Esta história tem 5 anos. 5. Mas continuo a lembrar-me dela de cada vez que o meu gestor de conta me telefona, colocando ar entre cada palavra. Continuo a lembrar-me dela de cada vez que entro no McDonald's. Ou que "adquiro" um McFlurry. Porque não sei o que foi mais humilhante:
1- Ter-me ligado a dizer que tinha saldo negativo.
2- Ter-me ligado a dizer que o saldo negativo era de 60 cêntimos. 60 cêntimos! Como se fosse tão pobretanas e maltrapilha que nem pudesse ter um saldo negativo digno de gente grande.
3- Ter-me atirado à cara que, pior que ter saldo negativo, à mísera, desgraçada, sabe onde vou jantar, e sabe que vou a sítios de fast food.
4. Ou se foi ter-me atirado à cara que, além de ter saldo negativo, e daqueles saldos negativos de pobretanas, sabe onde vou comer e o quê especificamente - um triste gelado.

O meu gestor de conta ainda é meu amigo. Desde que o dinheiro continue a entrar na conta e não me ponha a adquirir gelados à maluca. A única coisa que não percebi até hoje foi só... Quem é que "adquire" gelados?!

M...* de dia

1. Carro bloqueado. Sessenta e cinco euros pelo bloqueio mais multa. E uma vontade enorme de me auto-mutilar, porque confiei no arrumador. Sim, no arrumador... "Dê-me a mim a moedinha, menina, eu prometo que ponho no parquímetro se vier alguém". Estúpida, estúpida, estúpida por confiar nas pessoas!!

2. Um telefonema que esperava muito, e esperava que trouxesse boas notícias. Chegou, mas não ouvi o que queria. E estava optimista, o que ainda piorou todo o momento. "Lamentamos". Não, quem lamenta sou eu.

3. Uma multa das Finanças, a título de sobremesa.

4. Ah... e por falar em sobremesas. Fui ao ginásio e estou mais pesada. Já sei que pode ser massa muscular, mas nem a balança me anima. Por isso, sobremesas a partir de hoje ou é fruta ou então multas. Pois... Pelo menos estas não engordam e só trazem azia. Há dias assim...

A partir de hoje, estou em modo Popeye: espinafres, legumes, fruta...
(Fui assim ao ginásio e nem sabia que a t-shirt escolhida já tinha um simbolismo)

*E não, o "m..." não é de "maravilha".