O meu gestor de conta começou por decidir que ia ser o meu melhor amigo. Eram
e-mails com sugestões de formas para aplicar o meu salário. Eram telefonemas a apresentar novos produtos. Eram parabéns no meu aniversário. Parecia estar a iniciar-se uma bela amizade daquelas para a vida.
O meu gestor de conta sempre falou colocando ar entre cada palavra. Como se as soprasse. Ou, no caso, como
"sehh hhhhas soprassehhh". Fala comigo e oiço uma brisa. Fala num tom grave. Sereno. E muito amistoso. Se não fosse gestor de conta, diria que poderia ser um novo João Chaves, do
Oceano Pacífico.
O meu gestor de conta começou por decidir que ia ser o meu melhor amigo. Até que, um belo dia, eu decidi que ia deixar de ter um salário. E comecei a trabalhar com recibos verdes.
O meu gestor de conta pegou então no telefone. Perguntou-me se tinha havido algum erro no processamento do salário. Expliquei-lhe que não, que a partir daí ia começar a trabalhar como trabalhadora independente. E acrescentei ainda que não se preocupasse, porque ia continuar a receber. Nesse dia, não ouvi a habitual brisa. O tom sereno estava um pouco mais agitado.
O meu gestor de conta decidiu então que não podia mais ser o meu melhor amigo. Se primeiro aceitou a minha condição, depois lá terá estado a matutar naquilo. Um certo dia, atingiu o seu limite e decidiu ligar-me:
- Olá! Fala XX.
- Olá, como está?
- Bem, obrigado! A Pippa também?
- Sim, obrigada! (o meu gestor de conta é, como disse, muito amistoso e ficamos sempre cinco minutos a confirmar que estamos os dois efectivamente bem, seguido de mais três minutos de agradecimentos recíprocos pela preocupação)
- Sabe, estive a ver a sua conta.
- ... Sim?
- Está com 60 cêntimos de saldo negativo.
- Saldo negativo? Como é que é possível?
- Deve ter sido um erro informático. Nunca aconteceu.
- Pois... Nem estou a ver o que terei comprado para ficar com esses 60 cêntimos negativos.
- Permita-me então que lhe diga: foi no McDonald's. Adquiriu um McFlurry.
Esta história tem 5 anos. 5. Mas continuo a lembrar-me dela de cada vez que o meu gestor de conta me telefona, colocando ar entre cada palavra. Continuo a lembrar-me dela de cada vez que entro no McDonald's. Ou que
"adquiro" um McFlurry. Porque não sei o que foi mais humilhante:
1- Ter-me ligado a dizer que tinha saldo negativo.
2- Ter-me ligado a dizer que o saldo negativo era de 60 cêntimos. 60 cêntimos! Como se fosse tão pobretanas e maltrapilha que nem pudesse ter um saldo negativo digno de gente grande.
3- Ter-me atirado à cara que, pior que ter saldo negativo, à mísera, desgraçada, sabe onde vou jantar, e sabe que vou a sítios de
fast food.
4. Ou se foi ter-me atirado à cara que, além de ter saldo negativo, e daqueles saldos negativos de pobretanas, sabe onde vou comer e o quê especificamente - um triste gelado.
O meu gestor de conta ainda é meu amigo. Desde que o dinheiro continue a entrar na conta e não me ponha a adquirir gelados à maluca. A única coisa que não percebi até hoje foi só...
Quem é que "adquire" gelados?!