terça-feira, 9 de julho de 2013

Gosto dos verbos

- Tinha saudades tuas.
- Tinhas nada.
- Tinha, claro. Gosto da tua companhia.
- Conversa do bandido.
- Não é nada... E se me desses mas é um beijo?
Ele era pessoa de substantivos. Ela preferia fazer mais uso dos adjectivos.
- Estás tão giro hoje.
- Já conhecias este fato.
- Mas fica-te maravilhosamente bem!
- Oh fica como ficam os outros.
- A sério... Estás óptimo.
Ela era pessoa de adjectivar aqueles de quem gostava. Elogiava-o com frequência. Mas também queria arrancar-lhe um elogio da boca. Era mulher e toda a gente sabe que as mulheres alimentam-se de elogios. Só que estava difícil.
- Fica-me bem o cabelo assim?
- Sim.
- Gostas de ver estas calças em mim?
- Muito. Leva-as.
- Fazem-me boa?
- Fazem.
Ele conseguia, com os substantivos, dizer mais que ela em mil adjectivos. Mas ela não estava satisfeita.
- Porque é que nunca me elogias?
- Sabes que sou das Ciências. Gosto do exacto. Do palpável. Do certo. Dos nomes. Dos verbos. Das acções. Os adjectivos e as palavras todas bonitas ficam para os românticos, para os poetas.
- Mas eu gostava de ouvir uns elogios de vez em quando... Uns adjectivos depois do meu nome.
- Não preferes simplesmente saber que te adoro? Sempre te adorei e vou adorar-te para sempre.
- Oh. Estragaste tudo com essa tirada. Ganhaste. Também te adoro e adorarei.
Ele era pessoa de substantivos. Ela, de adjectivos. Mas, juntos, sabiam conjugar verbos como ninguém. E isso pelo menos unia-os. Une-os. E unirá.

Sou perita em enterranços

A praia para onde íamos de férias sempre foi a mesma desde que nasci. Foi, aliás, cenário de namoro dos meus pais, muito muito antes de eu existir. A casa da família ali situada permitia que fôssemos todos os Verões para lá pelo menos quinze dias. Só que, se até aos 13, 14, a família era mais que suficiente para fazer companhia, a dada altura comecei a sentir necessidade de levar também amigas. E então a mesma casa, a mesma praia, e as mesmas ruas tornaram-se sítios novos, como que percorridos pela primeira vez. Com as minhas amigas fizemos quilómetros de bicicleta. Jogámos horas de basquete. Andámos tardes de patins. Caímos juntas. E levantámo-nos. Perdemo-nos. Rimos. Trocámos confidências. E fizemos amigos para a vida. A dada altura, já não éramos duas ou três, mas sim uma massa de miúdos a percorrer as ruas de bicicleta. A encher o campo para jogar basquete. A encher a praia. As esplanadas. Uma massa de miúdos a conversar como adultos até as estrelas subirem ao céu e serem horas de ir embora. Conversávamos muito sobre música (havia uns músicos lá no meio), sobre o futuro, sobre a religião, sobre o amor... E, mesmo que tenha havido ali uns fraquinhos, nunca ninguém andou com ninguém. Éramos apenas amigos, rapazes e raparigas. Amigos de Verão. Amigos de férias. E alguns dias durante o resto do ano.

Guardo esses amigos no mesmo canto do coração onde guardo as minhas recordações mais felizes. Porque foi uma altura de meninice bonita, bem antes dos arrebatamentos da vida adulta. No outro dia, soube que um desses meus amigos ia actuar num hotel pertinho de minha casa. Fiquei curiosa e decidi ir espreitar. Afinal de contas, era pertinho e não tinha planos para essa noite. Quando cheguei, já ele estava com a guitarra em posição e preparava-se para começar a cantar. Acenei eufórica (já não o via há tanto tempo...) e sorri-lhe. Ele olhou de volta e - talvez encadeado pela luz? - fez um sorriso amarelo, de quem não via nada. Sentei-me. A primeira música, a segunda,... A dada altura, tocaram uma música mais calma e a luz baixou. Foi aí que ele me terá finalmente detectado no meio da multidão e sorriu de volta, com o mesmo sorriso de puto que lhe conhecia há quase vinte anos atrás. No fim, radiante por revê-lo, saltei para o palco improvisado para lhe dar um beijinho e um abraço.
- Oláaaa, músico!! Posso conhecê-lo?
- Que boa surpresa!
- Gostaste? Estavas a actuar aqui pertinho de mim, não tinha desculpa para não vir ver-te.
- Fizeste bem! Nem acreditei quando te vi. 
- Eu reparei na tua cara de surpresa!
- Foi da luz! Sabes, estás igualzinha!
- Tu também estás! Ar de puto!
- Mas tenho mais dez quilos.
- Oh cala-te. Tens nada.
E mandei-o calar, como só se mandam calar os amigos. De repente senti uns olhares nas costas. Virei-me. Era uma rapariga que presumi que fosse a namorada. Muito gira e com ar simpático, mas parecia estar à espera que eu saísse para lhe dar um beijinho. Senti-me a mais. E saí. Vejo grande beijo repenicado. Outro. E outro. Um "hmmm" saído a meio dum abraço apertado. Mais um beijo. Senti-me subitamente constrangida. Fomos amigos mil anos e percebi que era a primeira vez que estava a vê-lo como homem, porque a verdade é que nunca o tinha visto com namoradas. Para mim, era o meu amigo das férias e pronto, independentemente de ser do sexo oposto. De repente, ela virou-se para trás, tirou-me discretamente as medidas e sorriu. E foi aí percebi que ela não me conhecia e não estava a ver dois amigos de doze anos, calções e bicicletas, mas sim dois adultos com demasiada confiança, talvez. E fiz então o que se faz sempre que estamos atrapalhados e queremos mostrar que não é o que parece: meti os pés pelas mãos e disse o que não devia dizer.
- Olá, nem me apresentei. Sou a Pippa. Sou amiga do J....
- Olá! Eu sei. Já ouvi falar de ti e das vossas férias.
- Sério? De mim e dos nossos amigos todos, certo? Éramos muitos. Não era só eu. Éramos muitos amigos. Éramos um grupo muito grande.
- Pois... E já o tinhas visto a actuar com esta banda?
- Não, só com a anterior. Íamos a muitos concertos dele. Íamos, quer dizer: eu e os outros todos. Íamos sempre muitos.
- E que tal? Qual gostas mais?
- Desta. Acho que gostei mais desta banda. Adorei. Acho que vou ser fã número um.
- Acho que seres a número um já vai ser difícil.
- Pois claro. Desculpa. Claro que sim. Vou ser fã número dois. Ou três. Ou o número que der. Vou ser uma fã normal, aliás. O que queria dizer é que gostei da banda. É gira. E pronto, já é um bocadinho tarde...

Ficou um silêncio estúpido e pensei "pronto, chega de me enterrar". É que, não sei por que carga de água, fiquei obcecada em mostrar que éramos amigos, sem filmes nenhuns. Mas esforcei-me tanto por mostrar isso, que a única coisa que mostrei foi que era uma amiga sem noção do ridículo.

Cheguei a casa a sentir-me estúpida. Mensagem dele. "Gostei de te ver. E a minha namorada disse que eras de rir". Pudera... "Vou ser fã número dois! Ou três. Ou o número que der!" Se fosse um desenho animado, esta era a parte em que dava com a cabeça repetidamente na parede. Estúpida.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Quero deixá-lo louco

Dizem que as mulheres contam tudo umas às outras. Pela minha experiência, não é inteiramente verdade. Sabemos guardar segredos umas das outras e manter o que é íntimo e pessoal connosco. No entanto, há obviamente assuntos que as melhores amigas abordam. Podemos falar de pratos de comida, dar dicas sobre bons cremes para o corpo, podemos aconselhar um corte de cabelo, uma loja que está em saldos... e podemos acabar também a trocar impressões sobre truques para os deixar loucos na cama. Afinal de contas, é isto que caracteriza os amigos - conseguir conversar sobre qualquer assunto -, certo?

Quanto a mim, tive duas amigas mais velhas que serviram de conselheiras, quanto a este último tópico, em fases diferentes da vida. Ambas relatavam histórias como se do último episódio da nossa série preferida se tratasse - com todos os detalhes, descontracção e paixão no relato. E eu fazia perguntas, qual aluna atenta. Aprendi muita coisa, tirei aquelas dúvidas que não se tiram nos livros, nos filmes ou com os pais. Há dias, depois de algum tempo sem abordar estes assuntos, tive uma amiga que me disse a mim "és mais velha, quero que me digas sem tabus como é que se deixa um homem louco". E sorri. Pelos vistos tinha passado de aprendiz a mestre. E apenas por ser mais velha. Porque se espera que a idade seja um posto. Porque se espera que a idade nos traga experiência, sabedoria e mil truques na manga.

No entanto, depois de brincar um bocado com a pergunta e termos conversado um pouco sobre o que era bom para nós, cheguei a uma conclusão: não há truques. Não é por tocarmos naquele ponto específico que ele vai ficar doido e querer ficar connosco para sempre. Não é por estarmos a usar lingerie mais sexy que os próprios anjos da Victoria's Secret. Não é por aparecermos com um manancial de truques, e jogos, e posições de contorcionista. O truque é gostar-se um do outro. Estar à vontade, sem tabus. Falar sobre tudo. Gostar do que se está a fazer. Mostrar que se gosta. Sentir e dar prazer. O truque é a entrega apaixonada. E esse foi, portanto, o único conselho que, do alto da minha idade, me pareceu fazer sentido dar.

Eu ladra me confesso

Virei ladra. Mas foi sem querer. Juro. Com certeza qualquer ladrãozeco iniciante dirá o mesmo, mas no meu caso é mesmo verdade. Peço encarecidamente que acreditem na história que se segue. E que mantenham a polícia longe disto. Combinado?

Pois que ontem estava um dia para lá de quente. Se este é o Verão mais frio dos últimos 300 anos, não quero imaginar o que é realmente calor, então. Estava tão quente que as incursões ao frigorífico para repor os níveis de água no corpo tinham lugar de cinco em cinco minutos. Após algumas horas, a água em casa terminou, pelo que, com as línguas de fora a morrer de sede, rumámos ao Pingo Doce com a intenção de acabar com o stock nacional de garrafões de cinco litros de água. Pegámos em todos os que as nossas forças e dois braços permitiram. Uma fruta também. E alguns snacks, que o calor puxa uns petiscos. Fomos para a caixa pagar. Cada um pegou no seu saco, levámos para o carro e aufwiedersehen, goodbye, Pingo Doce.

Ao chegar a casa, abri os sacos e achei estranho encontrar um frango inteiro. E panados. E mais uns sacos com carne não identificada. Nem espreitei mais o saco.
- Compraste um frango e panados? Nem me apercebi...
- Um frango? Então viste-me ir às carnes?
- Não, mas... Está aqui...
- Se está, foste tu que trouxeste.
- Eu não! Nunca comprei sequer destes frangos. Ora vê... É daqueles que já vêm temperados. E alguma vez me viste comprar panados?
- Isso não é nosso!
- Tem que ser... Está aqui.
- Não é nada. Trouxeste o saco dos outros senhores?
- Oh...
Deu-me um ataque de riso. Roubei um frango e panados. E outras carnes não identificadas. Tornei-me uma ladra! Uma ladra de carnes.
- Ainda bem que viemos directos para casa. Com o calor que estava, se deixássemos esse teu saco no carro, íamos chegar lá e íamos ter um frango assado!!
- Ahahah.

Ainda fomos ao Pingo Doce, mas ninguém perguntou por um saco perdido/ furtado. O dono do saco, acuse-se, por favor. Tem ali do lado o meu email. Ainda sobram duas asinhas de frango (que eu sou mais de peito e coxa), mas é melhor despachar-se.

domingo, 7 de julho de 2013

Ele era viciado em romance

Trocavam mensagens de telemóvel há semanas. O primeiro beijo tinha acontecido logo dias depois de se conhecerem. O resto veio logo a seguir, apesar de, dia sim, dia não, terem a típica conversa do "temos que ir com calma!!". Mas ela já estava completamente apaixonada.Estava apaixonada por tudo o que ele era. Estava apaixonada pelos sonhos que ele tinha. Pela quinta que iam construir juntos. Pelos filhos que iriam correr entre os cavalos até ser noite. Estava apaixonada pelas mil e uma viagens que iriam fazer juntos. Estava apaixonada até pelo facto de gostarem os dois de música clássica. E de musicais. Ele era a pessoa mais interessante que ela já tinha conhecido e sentia-se uma privilegiada por saber tudo aquilo sobre ele.

Uma noite, ele saiu de casa dela depois dum jantar cuja sobremesa se prolongou, e, talvez ainda com o arrebatamento do encontro, esqueceu-se do telemóvel. Ela queria avisá-lo, mas não tinha como. Tinha que esperar que ele reparasse e voltasse para trás. Os minutos foram passando e nada. Uma hora, duas. Decidiu ir dormir. Os encontros arrebatadores exigem um sono reparador à altura. Pegou no telemóvel dele e colocou-o na mesinha de cabeceira. Deitou-se. Apagou a luz. Um "bip" despertou-a. "Bip!", pareceu insistir o pequeno aparelho. Olhou para o telemóvel. Era uma mensagem. O remetente tinha um nome feminino que não reconheceu. "Quem será?... Bem, não é da minha conta, vou dormir". Mas não conseguia. A sua cabeça pensava em mil hipóteses. "Uma colega? Uma amiga? Prima? Que quererá a estas horas? Será que tem outra? Pior - será importante? Espera. Não é nada disso... Já sei. Como é que não vi antes? É um telemóvel de alguém que arranjou, e foi a única maneira de me dar notícias. Tenho que ler, é ele a comunicar comigo, já que não tem telemóvel!" E assim se convenceu a pegar no telemóvel dele e esquecer as regras da privacidade. Tinha que ser: a mensagem era para ela! Abriu a mensagem.

- Estou a ouvir um Nocturno do Chopin e lembrei-me de ti. Tenho saudades tuas. Tens que vir cá ver como ficou a quinta, depois das obras de restauração. Até os cavalos parecem mais felizes.

"Desculpa?", pensou ela, furiosa. A música clássica, a quinta, os cavalos. A conversa era a mesma. Só que, pelos vistos, esta estava um passo à frente e já tinha até tudo isso. Ficou furiosa. A cabeça parecia que ia explodir. Sentia-se traída. Enganada. Ele tinha-a enganado. Usava aqueles trunfos com todas. Ela não era especial, era só mais uma a quem ele lançava o charme e queria ser idolatrado por isso. Ele precisava de romance. E usava quem pudesse para obter algum. Nessa noite, ela nem conseguiu dormir. Foi dominada pelos piores pensamentos possíveis. Ele era uma fraude e ela sentia-se num pesadelo. No dia seguinte, ele tocou à campainha logo às 8h. Ela deixou-o subir, enquanto espreitava ao espelho o próprio reflexo cansado e cheio de olheiras. Deixou-o entrar.
- Tens aqui o teu telemóvel. Foi isso que vieste buscar?
- Sim! Desculpa. Esqueci-me completamente.
- Aqui está. Podes levá-lo. Até logo, tenho que ir arranjar-me.
- Espera. Trouxe o pequeno-almoço. Não queres que prepare? Toma um banho enquanto eu preparo isto.
- Não, obrigada. Podes levar.
- Que tens?
- Que tenho? Nada. Não tenho nada. Aliás, nós não temos nada, não é? Por isso, o que é que eu havia de ter?
- Não estou a perceber. Fiz alguma coisa?
- Nada. Não fizeste nada. Está tudo bem. Leva o teu telemóvel.
- Calma... Que tens? Diz-me...
- Não me apetece falar.
- Tem a ver com o meu telemóvel?
- Ouve: esquece! Se andas com outras, não tenho nada a ver com isso, vai à tua vida.
- Não me digas que foi a X que escreveu alguma coisa.
- ...
- Foi? Diz-me, estás a deixar-me preocupado!
- Ok. Foi. E eu li, desculpa, mas li. Pensei que fosses tu a escrever-me, já que não tinhas telemóvel. Mas ainda bem que li. Percebi que a tua conversa é sempre a mesma!!
- Desculpa?
- Sim... Os cavalos. A quinta. A música clássica... Eu pensei que me estavas a contar isso tudo, porque eu era especial. Afinal, contas a todas que aparecem à frente. Atiras o isco a ver se cola. Atiras os trunfos todos, lanças o charme e tal. Precisas de romance e queres obtê-lo à força toda em qualquer lugar.
- Estás a interpretar tudo mal. A X é minha ex namorada. E conhecia-me como ninguém. É normal que soubesse ao fim de três anos o que eu gostava, tal como tu sabes... e ao fim de apenas dois meses. Já pensaste nisso?
- Não é nada. Afinal não sou especial.
- Claro que és. Contei-te tudo sobre mim. E tu própria só tiveste a confirmação que... sou coerente!! O que te disse que gosto é o que sou. Só tens que pensar nisso. Não criei uma personagem, não inventei nada. Abri-me totalmente contigo. Partilhei tudo contigo. Porque gosto mesmo de ti. Porque me estou a apaixonar por ti!

Ela sorriu, por fim. Ele não era viciado em romance. Era viciado naqueles sonhos que tinha. Era viciado em partilhá-los com quem fosse especial. E ela era especial. E estava, afinal de contas, também completamente viciada. Estava viciada nele.

sábado, 6 de julho de 2013

Não me apetece pensar no nome deste post.

A minha tia L. foi operada. Encontraram um nódulo numa das mamas. "Vamos operá-la por precaução". Pois... Já se sabe o que se descobriu depois. Merda de cancro que não há maneira de se descobrir de uma vez por todas como se dizimar.

Força, tia. És uma mulher com M, U, L, H, E e R maiúsculos. E agora vamos lá matar esse filho da mãe.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Fala-me sobre o teu trabalho. Quero saber tudo.

- Já não o consigo ouvir falar de trabalho! Ele tornou-se o trabalho. É o trabalho. Já não existe para além do trabalho. Já não tem interesse nenhum para além do trabalho.
- O que vale é que vocês fazem o mesmo... Sempre podes falar com ele sobre tudo, porque afinal de contas estás dentro dos assuntos!
- O problema é esse, sabes? Precisava de chegar a casa e falar do mundo lá fora, estou farta de sair do consultório e ter o consultório em casa! Só falamos disso... Estamos a tornar-nos pessoas limitadas, sem interesse para o resto da humanidade.
- Mas não é tranquilizante saber que podes chegar a casa e desabafar sobre o que aconteceu durante o dia no trabalho, porque a outra pessoa te percebe? Não é tranquilizante saber que partilham tudo um com o outro? Têm os mesmos gostos, fazem o mesmo, são quase almas-gémeas...
- Já foi mais. Sinceramente agora que ando com mais stress só me apetecia chegar a casa e ouvi-lo falar de coisas novas, para me animar o dia e fazer-me esquecer tudo. É cansativo fazermos os dois o mesmo, parece que não temos outros assuntos, não nos puxamos um ao outro. Não ensinamos nada um ao outro. Não nos inspiramos mutuamente. Não abrimos horizontes. Percebes a ideia?

Percebi a ideia. Completamente.

E, percebo-a muito bem, porque eu própria sempre me senti mais fascinada por homens de outras áreas, que me pudessem mostrar outro mundo diferente daquele que vejo, um mundo diferente daquele que é o meu. Sempre achei mais interessante falar com alguém que, vivendo no mesmo lugar que eu, rodeado pelas mesmas coisas,  trabalha com diferentes peças desta máquina - chamada "vida" - que é só uma, mas com múltiplas possibilidades. Gosto de aprender. Ensinar. Gosto de crescer. Abrir os horizontes. Ver fora da caixa. Ouvir conceitos novos. Percursos diferentes. Acompanhar relatos de dias tão diferentes dos meus. Dizem que amar é sermos um só. É encaixarmos. Completar-nos. Concordo. Simplesmente, sempre achei que me completava melhor com alguém diferente de mim. Para ser eu, já basto eu. Não preciso de ninguém igual a mim. Dizem que amar é partilhar. É contar tudo. É saber ouvir. Eu gosto de partilhar dias diferentes dos meus. Relativizar. Aprender. Quem disse que amar tem que ser encontrar alguém igual a nós? A alma-gémea pode ser, afinal, cansativa, monótona. E talvez por isso, sempre procurei, isso sim, a cara-metade - alguém que, mesmo sendo diferente, com gostos opostos, hábitos distintos, percursos díspares e outra profissão - se vai encaixar, como uma peça dum puzzle, bem direitinho na minha vida. E ensinar-me. Fazer-me crescer. Amar não é crescer, também?

quinta-feira, 4 de julho de 2013

A feia do grupo

Sempre ouvi dizer que todos os grupos de amigas tinham sempre uma feia no meio, qual passatempo "descobre o elemento que está a mais na imagem". Também de acordo com alguns amigos meus, "as mais giras andam sempre com uma amiga mais feia, para fazer sobressair a sua beleza e sentirem-se superiores, elogiadas". Eu nunca concordei de todo e sempre mostrei o meu grupo de amigas como estandarte da minha teoria - "vêem? São todas bonitas, sem excepção! Não há cá 'a' feia, ou a 'gorda' aquela que só serve para ouvir as outras descrever os seus encontros tórridos, sempre com paciência e amizade".

Acontece que a minha amiga "suecializada" voltou. E ontem foi o jantar do reencontro. Como até já chegou há uns dias a Portugal, tem ido até à praia, tem apanhado sol... Tem também corrido, feito desporto... A nós juntou-se a E. A E. também já esteve de férias, já apanhou imenso sol, anda sempre cheia de estilo e saltos mega altos. E as estas brasas juntou-se... Me! Lá fui eu saída do trabalho, branquinha porque ainda não apanhei sol, com sabrinas calçadas, e cabelo apanhado numa trança que me pareceu profissional e fresca de manhã... Jantámos, pusemos a conversa em dia, contámos peripécias, actualizámo-nos... No fim, as obrigatórias fotografias. Alinhámo-nos direitinhas, costas direitas, barriga para dentro, peito para fora, sorriso rasgado, encostámos as cabeças umas às outras. O típico. Depois disso, mais duas de conversa e despedimo-nos. Foi cada uma embora. Foi um jantar bonito, por isso fui para casa com o coração mais preenchido.

Já em casa, fui espreitar as nossas fotos ao telemóvel. Elas estavam lindas. Morenas, boazonas. Eu mais raquiticazinha, com um decote bem mais humilde, um sorriso mais de menina a contrastar com o ar de mulherões delas. Até que, subitamente, pensei no que os meus amigos sempre me disseram: "todos os grupos de mulher têm uma feia". E comecei a rir-me sozinha. "Queres ver que nunca detectei a feia, porque a feia era eu?". Ri-me com vontade. Não vou estar com falsas modéstias - acho-me até gira, mas a verdade é que naquele momento, a ver aquelas fotos, senti-me o tal "elemento a mais na imagem". Talvez esse elemento seja afinal cada uma de nós, pois cada uma se sente de vez em quando o patinho feio do sítio. Ontem fui eu. Amanhã é, quem sabe, a E. Depois a "sueca". Depois outra. Será que o elemento feio pode, afinal, ir alternando? E pode estar só na cabeça de cada uma de nós? Parece-me que sim. E prefiro acreditar nisso a acreditar na teoria dos meus amigos.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

"Cada vez gosto mais dos animais que dos homens"

..."é que ao menos os animais são fiéis e não nos enganam".

Quantas vezes não ouvimos já esta frase? Eu própria já fiz um post sobre isto. No entanto, continuo a ouvir esta frase repetidamente. Hoje ouvi outra vez. E, sinceramente, assusta-me. Assusta-me muito. Não entendo como é que alguém pode chegar a esse ponto. Não entendo... Pessoas que passam a viver em função dos animais. Que apregoam ao mundo o quanto o seu cão/gato/piriquito/cágado/hamster é melhor que qualquer homem/mulher. Não é, minhas ricas pessoas. Não é. Ou o vosso cão/gato/piriquito/cágado/hamster:
1. Conversa sobre tudo?
2. Vai para a cama com vocês e proporciona-vos sexo louco?
3. Faz-vos o pequeno-almoço?
4. Fica à vossa espera, estoicamente, nos provadores das lojas enquanto experimentam mil roupas, diz que gosta de tudo, e no fim aceita que não levem nada?
5. Conduz o carro quando estão cansados?
6. Vai à farmácia comprar-vos Benuron se vos dói a cabeça?
7. Dá-vos um beijinho de bom dia?
8. Elogia-vos de vez em quando?
9. Faz-vos rir?
10. Dança com vocês?

A resposta a estas perguntas - a menos que tenham tomado alucinogénios - é pelo menos oito redondos NÃO. Admito que os vossos queridos animais vos façam rir e até saltitem ao som da música. Tudo o resto, NÃO. Por isso, quero alertar novamente a população frustrada com o sexo oposto: insistam. Procurem. Preferir animais a pessoas não é a solução. E diz-vos isto alguém que é louca por animais.

As minhas unhas

Numa altura em que se discute a instabilidade política do país, decidi abordar hoje outro tema assaz preocupante: o futuro das unhas das mulheres. Ok, talvez a escala de preocupação seja diferente: este tema é internacional e não se restringe ao país, como o primeiro.* Estava a ler este blog - que descobri recentemente -, e percebi que finalmente podemos estar (literalmente) em boas mãos. Isto porque, de acordo com a imprensa especializada, Peter Philips abandonou a liderança, após cinco anos, enquanto Director Criativo da Chanel Make-Up. E se o mundo da moda chora a sua saída - que é feito do do Particulière, do Jade, do Mimosa? - eu, feliz defensora das unhas mais naturais, feliz defensora do fim da escravatura "unhal" e da opressão das limas, alegro-me um pouco. Como podemos verificar nesta campanha mais recente da marca (retirada do referido blog), a verdade é que parece que as unhas respiraram de alívio e aparecem, por fim, livres e sem vernizes.
Sei que se trata de algo de que poucos gostarão, mas quanto a mim sempre preferi unhas mais discretas, sem acrílicos, sem terem meio metro de comprimento, sem cores berrantes (a não ser no Verão), sem brihantes, sem desenhos, sem grandes confusões. A verdade é que não tenho jeito nenhum para arranjar unhas, odeio o cheiro que fica na lima após limarmos a unha, e acho um bocado anti-higiénico usar as unhas demasiado compridas - imagino imensa porcaria a viver alegremente debaixo das garras -, além de ser pouco prático. Prefiro a manicure francesa, hoje e sempre. Gosto também dum branco, dum rosa claro, dum preto a contrastar com roupa formal, gosto de cinza e cappuccino. Aceito um laranja/ framboesa no verão. Ou um azul petróleo uma vez ou outra. Até aguento um azul Tiffany ou um amarelo claro se agarrado às unhas vive alguém com estilo. Mas a banalização do arco-íris nas unhas acabou por tornar-se, ultimamente, assustadora. Tem sido usada para o mal, por tudo o que é pimbalhada. E, comigo, funcionou como um back to the basics. Deixei de aceitar qualquer verniz que não fosse a clássica manicure francesa desde há mais de um ano. E, no dia a dia, ando com as unhas sempre ao natural.

A diferença é que, até aqui, passava por empregada de limpeza com as unhas assim sem nada. Após esta campanha, já posso dizer: "as minhas unhas? São Chanel!!". ;) E desse lado, como gostam das unhas?

*Esta parte é a brincar, calma. Mas sinceramente apeteceu-me não abordar temas muito sérios, hoje. Devo estar em modo negação...

terça-feira, 2 de julho de 2013

... trancas nas portas

Já dizia o ditado: "depois de casa roubada, trancas na porta". Continuando a fazer uso deste provérbio popular, após recentes assaltos, tentou-se encontrar a solução e reinstalar a segurança e estabilidade na casa, recorrendo a portas, medidas de austeridade, contenção e outros conceitos repetidos e aplicados até à exaustão todos os dias. Infelizmente, parece que as próprias Portas se demitiram do papel. O que virá a seguir? Ninguém quer ser uma nova Grécia... Espero com ansiedade o desenvolvimento dos próximos dias.

Eu sei que já disse que não queria falar muitas vezes de política aqui, mas de vez em quando é mais forte que eu. Como hoje.

Guião para um filme a dois

Somos constantemente bombardeados com casais apaixonados, seja em qualquer anúncio televisivo, seja nos filmes, seja nas redes sociais, seja em vídeos no Youtube, seja até em livros e músicas. O romantismo persegue-nos. As viagens paradisíacas. Os presentes caros e maravilhosos. As surpresas hollywoodescas. Os gestos grandiosos. Os filmes sempre com um grand finale. É vê-los correr atrás dum avião para o impedir que levante voo e leve para sempre a sua amada. É vê-los comprar anéis da Tiffany a cada semana (eu tive um uma vez na vida, já não me queixo), sapatos com a tão ansiada sola vermelha, é vê-los reservar restaurantes inteiros só para poderem jantar os dois, é vê-los pedi-la em casamento no meio duma banda filarmónica a cantar a música preferida dela... Os exemplos não acabam. Tudo o que nos rodeia nos impinge romantismo. A vida a dois tem que ser romântica. Maravilhosa. Única. Sem o mínimo esforço. Tem que ser um sonho diário. Mas... e se não for?

E se, em casa, ele começar a resmungar, porque o dinheiro nunca chega para nada? E se ela começar a gritar que ele se tornou um desleixado? E se discutem por tudo e por nada? E se começam a fazer amor uma vez por mês, apenas, porque subitamente nenhum dos dois sente grande desejo? E se, de repente, ela chora de cada vez que vê um filme com o Richard Gere e sonha com o dia em que ele irá resgatá-la vestido de "Oficial e Cavalheiro"? Algo está mal. Acontece que esse mal não é irreversível.

O assunto não é novo, mas lembro-me dele recorrentemente. Ou porque o telefone toca e uma amiga se sente triste. Ou porque me enviam um vídeo do youtube com o maior pedido de casamento de sempre. É que estas últimas imagens estão tão distantes da realidade, do dia-a-dia, que basicamente era impossível não haver consequências.
- Ele já não me trata bem. Eu estava mal e ele nem perguntou se precisava de alguma coisa.
- Mas queixaste-te? Pediste ajuda?
- Não. Mas ele tem que perguntar na mesma. Se gostar de mim, preocupa-se
A verdade é que nos filmes nada se passa assim. Nos filmes, eles antecipam-se. Mais: nos filmes, eles já teriam composto uma música romântica a pensar em nós, a explicar o quanto nos amam e o medo que têm de nos perder enquanto nós tomávamos um Benuron. Nos filmes, a dor de cabeça passaria logo e sairíamos disparados de casa num descapotável, cabelos ao vento, em direcção ao pôr-do-sol. Só que na realidade temos que dizer com todas as letras: "ouve lá, dói-me a cabeça. Vais à farmácia comigo? E preciso mesmo de mimos, estou carente". Na realidade, temos que escrever o guião todos os dias e dar-lhe muitas vezes a parte dele para ele ler. Outras vezes, vamos esquecer-nos da fala certa e dizer asneiras. Vamos tentar apagar o diálogo e reescrevê-lo. Vamos repetir cenas. Vamos apagar folhas do guião de que não gostámos. Vamos treinar outra vez. Na realidade, o guião pode ser o que quisermos. Temos é que nos empenhar em escrevê-lo a dois.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Manda-me uma carta. Mandas?

O diálogo que se segue é pura ficção e não me envolveu.
Ok. O diálogo que se segue é baseado em factos verídicos. Passa-se num café e envolve uma jovem adulta indeterminada e uma criança indeterminada também que a aborda, como só as crianças sabem fazer - a despropósito, sem motivo nenhum.
Pronto, apanharam-me: o diálogo que se segue aconteceu mesmo comigo no Sábado, com um rapaz muito simpático que veio meter conversa comigo e que, no final, me partiu o coração.

- Olá! Sabes como é que eu me chamo?
- Não... Queres que adivinhe?
- Sim.
- Pedro? João? António? Rui? Bernardo?
- Não. Chamo-me Carlos.
- Olá, Carlos. Tens o nome duma das histórias portuguesas de que mais gosto - os Maias.
- Eu gosto do meu nome.
- E fazes muito bem em gostar. E de ler, também gostas?
(Conversa sobre trivialidades durante uns minutos... Até que a mãe dele o chama e o final da conversa se precipita.)
- Olha, mandas-me uma carta?
- Queres uma carta minha?
- Sim!
- Oh que querido. Mando, claro. Adoro escrever. Costumo escrever muito, sabes? Estou sempre a pensar em histórias e no trabalho também tenho que passar o dia a escrever. Além disso, adoro escrever e receber cartas. Claro que te escrevo! Vou adorar escrever-te.
- Está bem. Mandas uma carta?
- Sim. Vou já pensar no que vou escrever.
- Não... Não tens que escrever. Só quero a carta. Eu gosto de cartas.
(A mãe junta-se à conversa)
- Olá! Desculpe. Ele está a maçá-la a pedir cartas? Não ligue... é que ele colecciona envelopes. Pede isso a toda a gente.
- Ah...

Os meus primeiros calções

Há umas semanas, aproveitei os primeiros saldos (ou vendas privadas, como chamaram) do El Corte Ingles para comprar as primeiras peças do Verão com desconto. Dei um salto à French Connection e comprei os primeiros calções que me lembro de ter comprado desde que entrei na idade adulta. E não estou a exagerar: não usava calções sem ser na praia desde que tinha 15 ou 16 anos. Sempre achei que não me favoreciam, só gostava de ver nas outras mulheres, não em mim. No entanto, desta vez, vi uns calções azuis escuros não demasiado curtos (são um pouco acima do joelho), com um toque suave, sedosos, um pouco largos, com bolsos e o pormenor engraçado de ter uma fita comprida à frente para se fazer um laço. Pareceram-me femininos, elegantes e com classe. Decidi experimentar. E não é que gostei? Gostei tanto que até me deu até vontade de os usar para trabalhar, com uma camisa e um blazer, apesar de ainda não ter decidido se será apropriado ou não. São estes os calções:
Fiquei tão contente por ter gostado de me ver de calções - essa peça de roupa que associava a miúdas mais novas ou mulheres magras com 1,80m - que não resisti a experimentar outros. Estes mais justos, curtos e em pele:
E não é que também gostei? Não sei se é por me ter habituado a ver toda a gente de calções, hoje em dia, não sei se é porque a luz daquele provador deixa qualquer corpo sem imperfeições, não sei se são as corridas finalmente a mostrar algum resultado... A verdade é que odiava ver-me de calções e acabei por vir com dois para casa. Uns espero usar em mil e uma ocasiões. Os últimos parecem-me mais apropriados para a noite. Agora é esperar pelos saldos da Zara. Ando de olho em dois vestidos, umas calças, um colete branco lindíssimo e umas sandálias pretas que não param de me piscar os olhos, as marotas . Se conseguir comprar nos saldos, depois mostro. E por aí, já se perderam nalguma loja? Contem-me tudo.

Engate morto à nascença

Conheces de vista dos tempos de liceu. Trocaram não mais de duas palavras na altura, mas parecia bastante simpático. Adiciona-te no Facebook. Reparas que têm dez mil amigos em comum. Pensas "vou aceitá-lo, parece querido". Aceitas o pedido. Acto contínuo, vem falar contigo.
- Olá! Lembras-te de mim? Andámos juntos na escola.
- Olá! Lembro... Tudo bem?
- Sim, obrigado. Enviei-te um pedido de amizade, porque sei que tiraste Gestão/ Economia/ Contabilidade/___, não foi? (preencher com curso em questão)
- Sim.
- Por vezes gosto de trocar impressões ou tirar dúvidas com pessoas que percebem da matéria.
- O que fazes?
- Sou ____ (preencher com profissão em questão). Sinto-me deveras realizado. Ainda que às vezes seja um pouco ingrato. As preocupações são diversas e a vários níveis. No entanto, não trocaria por nenhuma outra profissão
- Pois.
Ouvem-se os grilos.

Uma dica: se quiserem engatar (ou até fazer amizade com alguém) NÃO:
1. Falem logo de trabalho;
2- Usem logo palavras demasiado caras;
3- Tentem ser demasiado formais/ profissionais... é o Facebook, não é uma sala de reuniões!;
4- Recorram logo ao modo verbal condicional;
5- Usem mil palavras para não dizer nada.