sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Precisa-se colaborador. Urgente.

Rapariga armada em escritora em part-time, mas com pouco tempo para o mundo da blogosfera procura colaborador para relação estável, que possa desempenhar as funções de, em nome daquela, embelezar o aspeto do blog, que está tão 2012, escrever durante o dia as sugestões da sua autora e/ou apresentar outras ideias, ler outros blogs e mostrar os posts mais interessantes à autora no final do dia para a manter atualizada, comentar aqueles outros blogs em nome da mesma, com sentido de humor e oportunidade, alimentar o Facebook do blog, responder aos comentários do blog, participar em eventos sociais em representação do blog, publicitá-lo, dinamizá-lo, organizar passatempos e concursos divertidos e pertinentes.

Oferece-se: integração numa equipa em amplo crescimento (sim, diz que a rapariga vai ser mãe), dinâmica e proactiva (ou não, mas consta que esta palavra é requisito essencial em ofertas de emprego), possibilidade de viajar (pelo menos nos meandros da internet, que a crise pode não dá para muito mais) e trabalhar a partir de casa, e ainda salário adequado à experiência demonstrada.

Procura-se: alguém que partilhe o gosto pela escrita, saiba colocar corretamente as vírgulas nas frases, seja um chato de primeiro com a gramática (saber Latim é considerado mais-valia, mas línguas vivas também são bem-vindas), que acumule conhecimentos de informática, web designer e que adore o mundo dos blogs e das redes sociais.

Interessados? Enviar candidaturas para o email do blog, com carta de apresentação e curriculum vitae.

Sim, o anúncio é a brincar, mas a brincar dizem-se as verdades, não é o que se costuma dizer? E o que é certo é que este meu querido blog anda meio paradinho, cheio de teias de aranha, já, com tão pouca escrita, por isso, eu precisava mesmo mesmo da colaboração de alguém com as caraterísticas que descrevi para me representar durante o horário de trabalho, enquanto estou escravizada e praticamente sem um segundo para tentar dar um ar da minha (des)graça por aqui. A sério que precisava. Ai, mundo cruel! Não há ninguém que leve o anúncio a sério e se ofereça? :)

Não acredito em precipitações

A minha professora de Espanhol é, segundo a própria,"muy muy patosa". A primeira vez que ouvimos a palavra, não a identificámos. Soava a "pato". Só isso.
- Patosa?
- Sí. Patosa!
E começou com a gesticular, a fingir deixar cair coisas, a fingir que tropeçava, enquanto se ria dela própria.
- Patosa...!
- Ah! 
E, à falta de palavra mais engraçada ("trapalhona" e "distraída" não são palavras com uma sonoridade tão forte), lá ficou assim batizada - patosa.

Não consegui achar piada à minha professora de Espanhol à primeira. Achava que se ria muito, demasiado, até dobrar o lábio de cima, mesmo quando as coisas não tinham piada.
- ... Y entonces mi abuela se rompió una perna y se quedó coja desde ese día.
E ria, enquanto eu ficava séria, com os músculos da cara tensos, a pensar qual seria a piada em ver a avó com a perna partida e coxa até ao fim da vida. Definitivamente, não percebi o sentido de humor dela à primeira. E acho que, como eu, todo o resto da turma.

A minha professora de Espanhol tem horários de latina, explica muitas vezes. E tenta, assim, justificar os seus sucessivos atrasos. Mas só começámos a perdoar para aí à quarta vez. E porque ela depois compensava com aulas espetaculares e cheias de boa disposição.

A minha professora de Espanhol explicou-nos que os Espanhóis não nos odeiam - os Espanhóis odeiam os Franceses. A nós não odeiam, porque nem se lembram que existimos. "Es verdad!", insiste. Enquanto se ri. Muito. E explicou-nos que a mãe só se apercebeu que Portugal existia, quando ela veio para cá dar aulas. Agora, pelos vistos, está sempre a ligar-lhe a falar de Portugal, ou porque ouviu nas notícias, ou porque ouviu falar a nossa língua na rua... Vê-se que a professora gosta muito da mãe, porque, quando fala dela e se ri, não dobra o lábio de cima, mas dobra apenas os olhos, que ficam mais transparentes.

Hoje a minha professora de Espanhol voltou a atrasar-se. Dez. Quinze. Vinte minutos. "Ela bem diz que é patosa! Aposto que vai chegar a tropeçar e a pedir desculpa!", dizia um. "Se tivéssemos todos estes horários latinos, o país não saía do sítio", dizia outro. Até que alguém recebeu uma mensagem dum número estrangeiro e nos traduziu: "Desculpem. A minha mãe morreu. Vim para Espanha." Naquele momento, fez-se silêncio. E dei por mim apenas a pedir para voltar a ver o riso dela, as mímicas a fingir que tropeçava, o lábio de cima a dobrar para trás de tanto rir.... Naquele momento, fez-se silêncio absoluto, ninguém se riu mais, e tenho a certeza que todos viajámos para Espanha por uns segundos e lhe demos um abraço sentido. Sim, a minha professora de Espanhol pode ser patosa, e atrasada, e rir-se demais. Mas é também das professoras mais "guay" que já tive. Se o meu Espanhol chegasse, dizia-lhe tudo isto na língua dela. Assim, fica aqui registado no meu cantinho tudo o que me apetecia dizer-lhe.

Sim, não acredito em precipitações. Quando nos precipitamos a avaliar alguém, como fiz, erramos sempre. E ainda bem. Gosto de boas surpresas. Mesmo que vindas do lado de lá da fronteira.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Oh não aconteceu mesmo!

Não tenho muita paciência para comédias. Pronto, já disse. Irritam-me aqueles momentos trôpegos, em que o protagonista se engasga, tropeça e cai. Irritam-me os desencontros, as confusões e as faltas de jeito. Sempre que estou a ver uma comédia com uma cena destas, apetece-me fechar os olhos com vergonha alheia ou simplesmente entrar rapidamente no ecrã e resgatar a vítima de tantos desastres. Além disso, aquilo parece-me sempre irreal, praticamente impossível de acontecer na realidade.

Hoje, no entanto, vi-me como a infeliz protagonista dum desses filmes. À hora do almoço tinha passado no Pingo Doce para comprar meia dúzia de coisas e lembrei-me de trazer uns pacotes de puré de fruta para bebé de que a minha nutricionista me falou. Por isso, quando vi que já eram 18h, peguei num dos purés de maçã e fui à copa para pegar numa colher e lanchar. Apetecia-me aquele momento de solidão, só eu e o silêncio. Quando cheguei à copa, no entanto, estavam lá alguns colegas e "big bosses" a passear e a petiscar também. Comecei a pensar "sento-me aqui com alguém numa boa, mesmo que estejam a ter conversas privadas? Sorrio, faço um ar confiante, mas pego na colher e vou-me embora comer à secretária? Ou armo-me em independentemente e sento-me sozinha?". Sim, sou envergonhada e não gosto de me impor, por isso, tenho sempre estas dúvidas nestes momentos. No meio desta indecisão, no entanto, peguei numa colher e decidi não pensar mais e juntar-me a alguém. Só que enquanto abria o pequeno pacotinho, virada para o balcão, um colega apareceu-me por trás e cumprimentou-me com um sonoro e inesperado "olaaaá!!". Talvez por estar embrenhada no meio das minhas indecisões e falsos problemas, assustei-me, abri mal o pacote e a comédia aconteceu: o puré explodiu, como uma garrafa de refrigerante que foi agitada, e fiquei cheia de maçã na cara, no cabelo e na roupa. Tentei manter-me de costas para toda a gente, a disfarçar e a limpar tudo discretamente, mas era impossível. Olhei para o meu colega como quem pede socorro e devo ter sido mesmo convincente, porque em menos de um piscar de olhos já ele me tinha trazido meia dúzia de guardanapos. Entretanto, não sei se foi impressão minha, mas a sala parecia mergulhada no mais profundo silêncio, enquanto apenas ouvia a voz dele, grave e mais alta que nunca: "ainda tens no cabelo. Aqui. Aqui na testa. Aqui no queixo. Aqui no casaco. Aqui no vestido. Tanta maçã! É melhor ires à casa-de-banho". Entretanto, um grupo talvez saído duma reunião, resolveu passar lá na copa. Parecia que toda a gente tinha ido lá para assistir ao meu desastre. Lá fui à casa-de-banho, com o rabinho entre as pernas, e enquanto me via ao espelho naquela triste figura, só tinha vontade de me fechar num cubículo da casa-de-banho e nunca mais sair dali, tamanha era a minha vergonha. Mas lá tive que voltar.
- Estava difícil!, disse-me o meu colega, mal me viu, com um sorriso, a tentar ser simpático, enquanto toda a copa esvaziava e me deixava sozinha. Que frustração. Tenho a certeza que sozinha nada daquilo acontecia. Porque é que é sempre assim?

Em segundos, já refeita e limpa dos mil pedaços de maçã, lá fiquei sozinha a lanchar o meu puré explosivo. E correu tudo bem, mas já não tinha plateia para o testemunhar. Pelos vistos, aquele público só tinha pago bilhete para a comédia. Haja alguém que aprecie...

Alergias gramaticais

Faço parte do grupo de pessoas para quem um "já mandas-te?" ou um "foi à muitos anos" funcionam melhor como repelentes que qualquer outro defeito possível. Embirro com as vírgulas. Nunca consegui simpatizar com o "lol". Tenho problemas de coexistência com o "fica bem" ou com o "fui". Nunca hei-de perceber o "continuação" e mil outras expressões. Tenho algumas pancas, sim. O que não sabia era que as pancas se iam desenvolvendo com a idade. Pensei que havia um numerus clausus de pancas para cada pessoa e que nunca ultrapassávamos esse número limite. Só que, afinal, à medida que os anos passam, vou descobrindo novas alergias a expressões. Hoje descobri uma nova. Enquanto falávamos ao telefone, ele, obviamente distraído com algo, repetia-me continuamente "pronto", seguido dumas reticências em forma de silêncio, como quem pede o fim da conversa. Já não é a primeira vez que faz isto: sempre que estrá distraído, começa a "prontificar", seja comigo, seja qualquer outra pessoa. Quem quiser saber se está atento à conversa, é só atentar no número de "prontos": a atenção é sempre inversamente proporcional ao número de vezes que lhe sai a expressão. É-lhe natural, nem repara. Geralmente respeito a distração (99% das vezes é porque ouve falar de futebol ou carros, seja na televisão, seja alguém ao lado). Mas hoje apetecia-me mesmo falar e fiquei irritada com a distração a meio da conversa. Dei por mim a resmungar: "pronto? Mas pronto o quê? O jantar? O jantar está pronto? Pronto o quê?? Pronto, pronto... Tanto pronto!!". Sim, está decidido. A partir de hoje também sou alérgica ao "pronto". Pior mesmo só se estiver associado a alguma das outras expressões... Não... Isso seria mau demais!!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Encontros imediatos

Estava a trabalhar e o meu telemóvel tocou. Era ele.
- Sabes quem vi agora? A X.
(A X. é a ex dele.)
- A sério? E então? Já não a vias há muitos anos, pois não? Está igual? E foi esquisito?
- Até está com bom aspeto. Mas foi muito cordial... Acho que ficou atrapalhada por me ver.
- Claro, e tu estavas rodeada de gente e ela sozinha, não?
- Foi, mas também não ajudou a conversa que me ouviu ter.
- Que conversa?
- Antes de a cumprimentar, cumprimentei o Y. e o Z., que também lá estavam. Eles deram-me os parabéns, ainda não tinham dado pessoalmente. Disseram que já sabiam da novidade, pareciam mesmo contentes. E deram-me um forte abraço.
- E qual é o mal?
- O mal é que, como eles os dois também tiveram meninas, eu respondi "já viram, mais uma menina! Só temos meninas, agora". Estava a falar de mim e deles, claro. Só que nesse momento olhei para trás e ela estava ali a ouvir.
- Pois. Coitadinha, soube que o ex ia ser pai.
- Não é só isso. Deve ter achado, pela minha resposta, que já tínhamos meia dúzia de filhas.
E sinceramente fiquei com pena da miúda. Ali sozinha, no meio de desconhecidos, a achar que o ex namorado estava a produzir filhos como se não houvesse amanhã. Não deve ter sido a melhor conversa do mundo para se ouvir, não... E agora, que tantos e tantos anos passaram, até sinto algum carinho pela miúda. Será normal?

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

12 anos de golpadas

Queria escrever sobre filmes, mas ultimamente dou por mim a subjetivizar totalmente todos os temas, por mais objetivos que sejam. Queria escrever sobre cinema e sobre os Óscares, mas permitam-me que acabe a levar este tema.... mais uma vez, até mim. Pois a semana passada fomos ao cinema ver finalmente o "12 anos escravo". As expectativas eram elevadas e o filme esteve sempre à altura. Passei a semana seguinte a relembrar-me de passagens do filme e isso foi a maior prova do quanto o filme me marcou. Hoje foi a vez de "A golpada americana". As expectativas já não eram tão elevadas, mas mesmo assim ficou um pouco aquém. Para além dos desempenhos fenomenais de meia dúzia de atores (que não há como negá-lo - estão brilhantes, principalmente a Amy Adams e a Jennifer Lawrence), a história pareceu-me uma reinterpretação do "Ocean's eleven", mas reduzido a versão "Ocean's three". Mas como dizia, gostei incomparavelmente mais do "12 anos escravo", talvez porque a verdade é que o primeiro filme é também uma história sobre um primeiro grande amor, sobre um homem que encontra forças para aguentar doze anos de trabalhos forçados e humilhação na constante esperança de voltar para os braços da mulher que ama. O segundo filme, para além de todo o argumento em si, acaba por ser um filme sobre histórias de amor que chegaram ao fim há demasiado tempo e que deram lugar a situações de dualidade. Sei que nenhum destes pontos é o ponto fulcral em nenhum dos filmes, as histórias desenrolam-se muito muito para além disto. Mas não consigo evitar: os filmes com amores arrebatadores mexem sempre mais comigo e conseguem sempre inspirar-me mais. E entre um filme sobre um amor que aguenta doze anos de distância e privações e outro que aguenta anos sem sinceridade, nem hesito em escolher o primeiro, sem mais.

E porque é que afinal esta crítica de cinema é sobre mim? Porque ao ver um e outro filme, não consegui deixar de pensar no meu próprio exemplo: o trabalho também me tem afastado do meu amor. Não sou escrava, nem fui forçada a estar assim. Mas todos os filmes que me transmitam esperança num futuro melhor, em que todo o sacrifício compense, têm a minha atenção a 100%. E, aos domingos, estas mensagens são particularmente especiais para mim. Não fui forçada a estar assim, mas virei costas a uma vida mais confortável pelo trabalho, por querer mais para mim, por querer aprender e crescer mais profissionalmente. E rezo todos os dias para que, um dia, finalmente um dia, tudo isto compense. Pensei que nunca mais ia estar assim e custa muito estar longe depois de tanto tempo a viver uma vida a dois. Sinto-me uma escrava do trabalho vítima da golpada da economia. E, por isso, mesmo a querer escrever sobre os filmes de forma desapaixonada, não consegui evitar acabar a falar apenas sobre mim. E sobre a esperança que tenho de ver a minha "escravidão" acabar um dia e também eu voltar para os braços de quem mais amo.

Bem... Eu avisei que ia falar sobre mim outra vez. ;)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

As grávidas também são safadas

Hoje dei por mim a fazer algo que nunca teria feito se não estivesse neste “estado de graça”. Hoje dei por mim a fazer algo que seria apenas indecente e nojento caso não tivesse esta mega barriga. E deu-me um ataque de riso quando me apercebi do que iria parecer se não tivesse uma criança a crescer dentro de mim. E o que fiz? Fui finalmente receber uma massagem que me ofereceram, à hora de almoço, e, no fim, depois da massagista sair da sala e deixar-me sozinha para me vestir, olhei-me ao espelho e deu-me um ataque de narcisismo: “vou tirar uma fotografia ao meu reflexo no espelho”. Vi as minhas novas (gigantes) formas à luz das velinhas e ao som daqueles sons orientais típicos dos spas e senti-me preenchida por todo um amor dirigido àquela barriga. Toda eu era puro amor por aquela mega barriga. Nem reparei que estava praticamente nua e só de roupa interior. Peguei no telemóvel e não hesitei – “sai uma selfie!!”. Reencaminhei aos meus pais, com a legenda: “digam olá à vossa netinha”. Pareceu-me muito bem e nem pensei mais nisso.

Só há bocado é que parei dois segundos e pensei:“espera aí!! O que é que eu fui fazer? Mandei uma fotografia em lingerie aos meu ... PAIS!!”.

Sim, se tirarmos a pança, temos apenas uma mulher de trinta e um anos, em lingerie com rendas, a tirar uma fotografia a si mesma, rodeada de velinhas, e a enviá-la a quem? Ao namorado, para apimentar a relação? Ao marido? A um amigo especial, num momento de pura safadez? Nãaa. Aos pais. Definitivamente, a barriga muda muita coisa.

Entretanto, amanhã é dia de exames para ver se tenho diabetes gestacional. Dizem que se tem que beber um líquido nojento em jejum. E talvez repetir. Vou ter um ótimo início de fim-de-semana. Só espero não vomitar, como já ouvi dizer que acontece. E, já agora, também espero não ter diabetes. Seria um pouco chato. Porque os doces duas vezes por dia até têm sabido bem…

Crises existenciais

Hoje, a meio do dia, a meio dum trabalho, deu-me uma valente crise existencial: "estou a trabalhar para quê? O que é que estou aqui a fazer quase sem dormir e com olheiras até aos pés de tantas horas em frente ao computador? Vou ter uma filha e devia estar a curtir este momento. Vou ser mãe, devia ter uma vida que não me obrigasse a ficar quase 12 horas por dia fechada dentro de quatro paredes, nem agora nem depois!".

Depois parei para lanchar, comi um croissant com chocolate e voltei a sentir-me realizada, agradecida pelo trabalho que tenho e parte desta grande máquina bem oleada e sempre a produzir. Só espero que a crise tenha sido um pequeno sismo sem réplicas.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Cartas de amor

No meu liceu era prática comum (não seria em quase todos?) começar a haver o “Correio do Amor” por volta desta altura em que se aproxima o Dia dos Namorados. O mês de janeiro começava a chegar ao fim e os corações começavam a multiplicar-se um pouco por todos os corredores. No bar principal, aparecia uma caixa gigante vermelha que não deixava margens para dúvida: o amor depositava-se ali. Por isso, quem quisesse escrevia umas palavras à pessoa amada, sob o anonimato ou não, guardava-as num envelope, depositava-as ali e, mais tarde, as cartas eram entregues de sala em sala por ajudantes de Cupidos. E o quanto eu adorava este ritual! No dia 14 de fevereiro, lá batiam à porta. O professor mandava entrar e procedia-se de forma solene ao ritual da “chamada amorosa”.
- Ana Isabel?
- Aqui.
- Tens estas cartas para ti. (…) Pedro Miguel??
- Sim?
- Estas são para ti.


A ânsia era sempre grande. Eu não era propriamente a Miss Popular nessa altura. Era uma adolescente um pouco insegura e, por isso, esperava sempre o pior, ou seja, nada. No entanto, as cartas lá vinham. A maioria era das parvas das minhas amigas, que me inventavam admiradores secretos. Essas cartas percebia logo quais eram, geralmente pelo exagero da declaração e pelo perfume polvilhado, com um toque feminino inegável. No entanto, havia sempre alguma carta que me surpreendia completamente. Não sei se já disse aqui alguma vez, mas tive sempre tendência para atrair doidos rapazes um pouco tresloucados. Um ano, recebi uma carta do conhecido por ser "o maluquinho do corredor" – um rapaz continuamente repetente, ano após ano, que ia um dia de barbatanas para a escola e outro dia andava de óculos de sol dentro do edifício. Os Populares, gostavam das Populares. De mim gostavam os malucos. Vá-se lá saber porquê...

No entanto, agora que tantos anos passaram, admito que tenho saudades do que essa altura representava. Podia atrair personagens estranhas nesses tempos, mas tenho saudades de abrir as cartas e descobrir mundos novos, mesmo que imaginados pelas minhas amigas. Tenho saudades de cheirar o papel, analisar a letra, a cadência da escrita, a expressividade da pontuação. E do cheiro do papel, já falei do cheiro a papel? Numa altura de SMS, Whatsapp, Viber, Gtalk, emails, etc, as palavras escritas à mão são cada vez mais escassas. E fazem falta. Ainda mais nesta altura, pirosa ou não.

Por isso, se me estás a ler, este recado é para ti... ;)

"Isto ainda se vai virar contra mim"

Há dias, decidi armar-me em engraçadinha e comprar uma brincadeira lá para casa. Quando estava a pagar, comentei com a minha amiga que estava comigo, a rir: "isto ainda se vai virar contra mim!!". Mal sabia eu o quão premonitória era aquela frase.

Vim para casa, coloquei a nova brincadeira na cozinha e esperei pela reação ou comentários dele. Nada! Fiquei frustrada. À noite, quando estava a fazer o jantar, ia olhando para lá, a ver se ele via e comentava. Estava cego, o raio do homem!!, pensei. A dada altura, ficou tudo escuro. Uma dor cortante, um ardor, as lágrimas a caírem-me dos olhos, sem parar. Só senti os braços dele agarrados a mim:
- Mostra... Não te cortou, fica descansada. Está tudo bem, foi só uma pancada, mas não vais ficar com marcas. Não cortou nada.
Um beijinho.

Quando a dor passou, olhei para a brincadeira, ali pousada, com ar vingativo  a rir-se para mim como quem ri por último. Perguntei-lhe, finalmente:
- Viste o que me caiu em cima do nariz?
- Vi. Aquela placa. É bem pesada, deve mesmo ter-te magoado.
Nem um comentário. Nem se sentiu afetado. O meu ego humorista ficou irremediavelmente magoado. Literalmente!!
Aqui jaz a minha tentativa de piada.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Quanto pesa um drama amoroso?

Hoje, no final do dia, uma prima emprestada ligou-me com o pretexto de ver "a barriguinha". Eu estava a ter um dia de cão, cheia de stress, cheia de dúvidas existenciais e disse logo que sim. Claro que sim! Apetecia-me tanto espairecer... Já eram quase dez da noite quando saí para a rua e só queria pensar em tudo menos em trabalho. Ela já estava à minha espera vinda do ginásio. Vida boa, pensei eu do alto da minha cara branca e olheiras de tantas horas em frente ao computador. Quando demos por ela, estávamos a comer sushi e eu a desabafar afinal sobre os stresses normais do dia. Não queria que a conversa seguisse esse caminho, mas não consegui evitar. Foi mais forte que eu. E então falei, falei, falei. Fiquei com menos uma tonelada em cima dos ombros. No fim, disse-lhe que tinha que tinha que passear a Malti, convidei-a a juntar-se a nós e acabámos as três a dar uma voltinha.
- Como é que estás com o X?, perguntei a meio.
E foi então a vez de a ver descarregar uma tonelada de cima dos ombros. Falou, falou, falou. Contou os seus dramas amorosos. Desabafou. Contou tudo ao pormenor. As dúvidas, as incertezas, os medos. Ouvi-a e ia dando algumas opiniões. No fim de mais de uma hora de conversa, pediu-me desculpa:
- Macei-te com a minha história, não macei?
Não podia estar mais enganada. Os problemas dos outros não nos tornam mais felizes. De forma alguma. Estou feliz se os meus amigos estão felizes. Mas hoje, não sei porquê, o saber que diariamente pessoas se debatem com problemas amorosos e só desejavam ter já uma relação sólida, enquanto outras têm isso mas queixam-se do trabalho, às vezes serve para isto - para relativizarmos os nossos dramas. O trabalho correu mal? Ok, mas tenho trabalho. Na área que sempre quis.
A ganhar o que pedi para mim. E saúde. E alguém que gosta de mim e com quem quero partilhar a vida. Tenho uma filha na barriga. Problemas? Problemas todos temos, afinal. E ouvir a minha prima emprestada a falar dos seus problemas amorosos fez-me colocar tudo em perspetiva. Fez-me perceber que os meus problemas são mais irrelevantes do que me parecem se forem vistos de fora. Fez-me respirar fundo. Nunca temos tudo, pois não? Que tenhamos então as pessoas para desabafar sobre estes nossos nadas. Que tenhamos pessoas para fazer estas trocas de problemas: conta-me os teus que eu conto-te os meus. Que tenhamos pessoas a quem dar a nossa tonelada de dúvidas. E que nos deem as suas. Porque as toneladas dos outros são tão mais leves de carregar...

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Terapia Casas dos Segredos

A primeira vez que ouvi alguém falar na Casa dos Segredos (a primeira), senti alguma repulsa. Já tinham passado uns anos desde o Big Brother, parecia-me que o formato já estava esvaziado de conteúdo e já tinha dado tudo por tudo, por isso, não me apetecia voltar a ouvir falar de pessoas a discutirem disparates dentro duma casa. Ouvia comentarem este e aquele concorrente, mas punha-me à parte e respondia apenas "nunca vi isso!". E tinha orgulho em não ter visto. Admito que respondia aquilo com aquele orgulho de quem acha que tem cultura a mais para perder tempo com esses disparates televisivos. Essa Casa dos Segredos acabou entretanto, e dela só fiquei a saber que o "Pastor" tinha ganho. Mais nada. E mais nada queria saber. Era feliz assim.

Até que a segunda Casa dos Segredos começou e as conversas de café (e mesmo no trabalho) andavam todas à volta dum tal de Carlos, que tinha ido para a cama já com duas miúdas, e duma Cátia que não sabia Geografia. Os vídeos no Facebook sobre as calinadas de Geografia sucediam-se. Não queria ver, não queria ver, mas a curiosidade foi mais forte que eu. Em casa duns amigos, num certo domingo, demos por nós todos colados à televisão a vermos uma gala e a rirmos às gargalhadas com algumas respostas dos concorrentes. Aos poucos, tornou-se um vício: aos domingos, reuníamo-nos e lá soltávamos umas gargalhadas. As semanas passavam com trabalho, com horários carregados, prazos, refeições para preparar, contas para pagar... e aqueles domingos serviam para desanuviarmos e esquecermos tudo. Aos poucos, passei a sentir um carinho especial por aquelas pessoas que expunham assim sem problemas a sua falta de cultura, falta de papas na língua, que falavam sobre tudo sem pensar duas vezes, que se apaixonavam e desapaixonavam e que não se importavam de ser vigiadas por milhares de desconhecidos. O meu trabalho é tão sério, com uma linguagem tão cuidada e tantos formalismos, que estas pessoas tornaram-se uma lufada de ar fresco.

Hoje, quando oiço alguém comentar a Casa dos Segredos (ou, atualmente, o Desafio Final), já não sinto repulsa nenhuma nem mudo rapidamente o tema. Com dias tão sérios, com problemas tão "de adultos" que tenho, estas pessoas e as suas histórias fazem-me regressar ao liceu, aos primeiros beijos, às discussões sem motivos, aos grupos, às rivalidades, às histórias de corredor. E regressar ao liceu com trinta e um anos, uma criança na barriga, um trabalho tão absorvente e as pessoas mais importantes da minha vida longe de mim, é tudo o que podia pedir dum programa. Obrigada, Casas dos Segredos e afins. São a minha terapia diária, lado a lado com as séries, o blog e algum possível desporto. Não me fazem mais culta nem apta a discutir Economia ou Política no dia seguinte, mas dão-me um sorriso em dois segundos de programa. E há dias em que é tudo o que preciso.

sábado, 18 de janeiro de 2014

O meu drama caseiro

Para quem segue a página do Facebook do blog: nada temam! Não morri afogada com a humidade que tenho tido em minha casa. Ainda... Estou sã e salva! E de casa desumidificada.

Para quem não segue (ohh... e por que não seguem? Toca a fazer um like, vá lá), aqui vai a história: ontem estava a ouvir o Nuno Mark, n'O Homem que mordeu o Cão, e identifiquei-me tanto com o relato dele sobre a humidade que tem em casa, que decidi perder a vergonha e partilhar com vocês este drama que tem assolado a minha vida nas últimas semanas. Pois dum momento para o outro, sem que nada o fizesse prever, comecei a ver que os vidros das janelas não secavam. As paredes da casa-de-banho, depois do banho, também não secavam. Fui aguentando, porque não me parecia dramático. Abria as janelas de manhã, ligava o aquecimento à noite e tudo se resolvia. Aparentemente... Até que um dia me vesti e percebi que a minha roupa cheirava a ... humidade! Eu sei que pode parecer um cheiro inexistente, mas acreditem que ele existe. E não é bom. As roupas começaram a cheirar a humidade. Lavava-as, secava-as, guardava-os no armário e o cheiro voltava. E nem um frasco de perfume tirava o cheiro. Até que ia pegar nas minhas melhores botas e vi que tinham ganho um bocado de bolor. Nojento. Nojento. Nojento. Foi a gota de água. Literalmente! Saí e fui ao El Corte Inglés comprar o primeiro desumidificador que vi, sem pensar nos 139 euros (cento e trinta e nove euros!!!) que tive que lá deixar. Eu estava tão desesperada que dava o que for preciso naquele momento. Vim para casa, liguei aquilo e passei a última semana na missão-desumidificar. A minha casa voltou a tornar-se um lar habitável. A roupa voltou a ter o cheirinho bom a roupa lavada. E até as minhas melhores botas foram salvas. No entanto, identifiquei-me a 100% com o Nuno e com esta mulher:
Se se identificarem também, saibam que não estão sozinhos. E que tudo pode ter um final feliz! Só aconselho é que procurem um pouco melhor que eu, pois com certeza encontrarão forma de levar a cabo a missão-desumidificar por menos dinheiro. Boa sorte!! ;)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Adiar o prazer

Ando há semanas a ver os últimos episódios do "Homeland" para adiar o momento do grande final. Sempre fiz isso com as séries. Faço isso com os livros - quando começam a chegar ao fim, começo a ler mais devagar e, por vezes, até recuo páginas para saborear cada palavra que se aproxima do fim. Faço isso com as caixas de bombons - se há um preferido, deixo-o ali à espera, a olhar para mim, até o ir buscar no final. Até já fiz isso nas relações - se gostava a sério do rapaz, adiava ao máximo o primeiro beijo. No entanto, a falar com uma amiga solteira sobre até onde se deve resistir nos encontros amorosos, a partir dos vinte e muitos, dei por mim sem resposta.
- Achas que as relações em que esperaste mais até acontecer alguma coisa foram as que duraram mais tempo?, perguntou-me.
A verdade é que não foram. A verdade é que tenho a história de amor mais atípica de sempre, eu, romântica incurável e supostamente adepta do adiar do prazer A verdade é que a minha história de amor toda trocada, sem grandes regras nem nada, provou ser, afinal, "a" tal.
- Achas que estraguei tudo por ter sido tão fácil?, perguntava-me ela, mais uma vez, a medo.
Não estragou nada. O que estraga é isto: estes medos. O perguntar à amiga em vez de lhe ligar a ele a perguntar. O que estraga são as dúvidas, as inseguranças, as incertezas.
- Achas que devia ligar-lhe?, acrescentou, quase a sussurrar.
- Acho que estás há quinze minutos a falar com a pessoa errada. Liga-lhe mas é.
- O quê?...
E desliguei a chamada, para a deixar com a linha livre para telefonar ao tal rapaz.
O Homeland espera. Os livros esperam. Os chocolates esperam. Já ele, eu não sabia.
Não sei como é que nunca mais me convidam para ser madrinha de casamento...

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

As mulheres gostam dos antipáticos

Ontem, no meu zapping noturno, deparei-me com o primeiro episódio do Sexo e a Cidade. O primeiro! Primeiro, não conseguia deixar de reparar nas diferenças físicas de cada personagem (até o Big!!), separadas pelo presente por muitos mais anos que aquilo que queria acreditar. Concentrei-me na tez brilhante e impecável de cada, sem rugas, nos penteados mais antiquados, nas roupas mais datadas,… Depois, deixei-me levar pela história. A dada altura, falava-se de um tipo, o Skipper, se não estou em erro, que era demasiado simpático. Confesso que a minha atenção não estava ainda a 100% concentrada na história, mas, por aquilo que percebi, o tal Skipper não arranjava namorada porque era “demasiado simpático”. Ora, já falei aqui uma vez sobre rapazes considerados “demasiado simpáticos”, mas na altura veio tudo em defesa dos mesmos, talvez porque contei um caso específico e até simpatizaram com o rapaz. No entanto, por sentir que o assunto não esgotou todo o seu conteúdo, hoje apeteceu-me retomá-lo.


Pois então, quando é que alguém se torna simpático em demasia a ponto de, em vez de agradar e atrair, causa repulsa e irritação? Qual é o limite entre o agradável e o insuportável? Vou dar-vos os meus indicadores.

Para mim, o limite é ultrapassado quando as solicitações deles são superiores às vezes em que aceitamos convites, por exemplo. Quando convida mais que as vezes em que dizemos sim? Pode ser um indicador de que a simpatia está a chegar ao limite e é melhor doseá-la.

O limite é ultrapassado quando a relação se torna unilateral: ele oferece-se para ajudar a qualquer altura e nunca é correspondido por nós.

O limite é ultrapassado quando os sorrisos são tão constantes que já nem nos lembramos como é que ele fica de boca chegada, sem aquele sorriso rasgado e estampado no rosto.

O limite é ultrapassado quando nunca responde torto, mesmo que o interlocutor até merecesse.

O limite é ultrapassado quando deixamos de o ver como potencial qualquer coisa e o colocamos na gaveta dos amigos.

O limite é ultrapassado quando, ao fim dum mês de constante contacto, ainda faz cerimónia quando está ao nosso lado.

O limite é ultrapassado quando é sempre educado, polido e cavalheiro, sem nunca mostrar, por um segundo que seja, um lado mais rebelde.

O limite é ultrapassado quando damos por nós a falar-lhe de outros homens sem ser para fazer ciúmes, e a contar-lhes a nossa vida toda.

Todos estes são indícios de que, para mim, o caminho sem retorno para a amizade se concluiu. Depois deste caminho estar feito, dificilmente se consegue retroceder: chegou-se a terras de amizade e não há hipóteses de se resvalar para a marotice. O nosso simpático é nosso amigo e não queremos nada com ele que fuja destas diretivas.

Concordam? A partir de que ponto consideram alguém demasiado simpático?