domingo, 9 de fevereiro de 2014

Os maridos ursos

Nós, mulheres, nunca estamos completamente satisfeitas com nada, não é verdade? Ou porque ele podia ser mais meigo. Ou porque podia ser mais bad boy. Ou porque podia cozinhar mais. Ou porque podia elogiar mais quando cozinhamos nós. Ou porque podia ligar mais ao físico. Ou porque devia dar-nos mais atenção e ir menos ao ginásio. Enfim. Há sempre algo para apontar. E eu, como mulher que sou, enfio completamente a carapuça e admito que também vou tendo a minha quota-parte de queixume.

Por isso mesmo, por ter os meus momentos de insatisfação, hoje estou aqui a obrigar-me a escrever isto. Sim, porque sei que também temos que reconhecer quando há algo a elogiar. O que aconteceu? Hoje tínhamos um jantar. Um amigo dele convocou os amigos e lá viemos os dois, sem pensar se era convite para casais ou não. Quando chegámos ao restaurante, eram só homens. Só testosterona à mesa. E eu ali a meio, mulher-matrioska, com outra mini mulher dentro de mim. Primeiro, senti-me mal. Senti-me um daqueles passatempos para as crianças em que colocam uma imagem só com ursos e um pato e perguntam "o que está a mais nesta imagem?". Hoje, eu era o pato. Impliquei com ele "então trazes-me para um jantar de homens? Sinto-me a mais!". Respondeu-me que nem pensou. "Quando convidam, penso logo em ti. O que queres?..." Engoli tudo. Passei a sentir-me um urso outra vez. E um urso que reconhece os momentos fofinhos, quando os vê.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

As grávidas e os ursos

Ontem pus-me a ler avidamente livros e revistas sobre grávidas. Aprendi tantas coisas maravilhosas que até vou partilhar com vocês, tamanha é a alegria e a emoção que sinto neste momento. Aprendi que estou a abandonar a melhor fase da gravidez. Aprendi que a partir de agora vou deixar de ter posição para dormir. Que a partir de agora vou passar a ter azia. Que me vai nascer uma linha negra na barriga. Que posso ganhar manchas escuras na cara. Que vou ficar mais peluda em sítios improváveis. Que os meus mamilos vão crescer e escurecer. Que vou ter dores de costas. Que vou ter sono. Que vou ter dores de cabeça. Que vou ter fome. Muita fome. Que vou ter hemorroidas (mais nojento que isto não pode haver). Que vou ter tornozelos e pulsos inchados. Que vou passar a ver pior. Que posso ter comichão nas mãos. Ah e aprendi que vou passar a andar sempre cansada. Já disse que vou passar a andar sempre cansada?

Um urso. Em resumo, aprendi que vou transformar-me num urso gordo, escuro, lento e nojento. Um urso maternal, mas um urso. Se não estivesse já grávida, ia já para casa engravidar, tamanha é a beleza destas ricas descrições.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O império desumidificador contra-ataca

A longa missão-desumidificador (que, entretanto, já retomei, cessei e retomei novamente, pois a humidade não brinca em serviço e anda sempre à espera da mais pequena distração para dar um ar da sua desgraça) deixou rastos da sua passagem: fiquei, desde então, com a paranoia dos cheiros. O problema é que, não sendo eu propriamente a pessoa com o olfato mais desenvolvido à face da terra (digamos que tenho um olfato razoável, numa escala que vai do nível o-meu-nariz-só-tem-efeitos-decorativos ao nível sou-um-cão-farejador-de-droga), passei a viver em constante tormento. Perguntas como “Estarei a cheirar a mofo?” ou “As minhas roupas cheirarão a roupa da avó?” ou ainda“Será que ultimamente sou convidada para menos almoços derivado do meu cheiro?” passaram a atormentar a minha vida, qual nuvem negra a pairar sobre mim. (Ok, a última questão é mesmo a gozar).

E convenhamos que viver em constante tormento pelo cheiro que as minhas roupas possam inalar não é bom. Não é agradável. Não é uma vida pacífica como aquela a que estava habituada. O desumidificador já está instalado em minha casa e pronto a sugar toda a humidade não convidada, mas fiquei com medo dos danos retroativos, por isso, lavei roupa. E lavei. E lavei. Mesmo assim, parecia que o cheiro se mantinha entranhado e não havia maneira de sair. Sinceramente, a dada altura, pensei mesmo que já seria a minha pele, as minhas células, o meu corpo, o meu nariz a cheirar a humidade, a mofo, porque o cheiro parecia sempre estar ali, a rir-se na mesma cara. Por isso, comecei a abusar do perfume e a insistir nas borrifadelas matinais, logo ao acordar. "Perfume aqui no pescoço. Agora do outro lado. No pulso direito. No pulso esquerdo. Na roupa. Ora bem…. No decote, que agora tenho mais área para perfumar ("Oh yeah"). No cabelo…" Até que, no outro dia, comecei a ouvir os protestos dele.

- Ouve lá, estás a ver se consegues acabar o perfume hoje?

Não percebem nada, os homens. Eu ali a lutar contra um dos males atuais da humanidade: a humidade. Eu ali a travar uma luta silenciosa, daquelas que não abrem telejornais, nem fazem manchetes dos jornais, é verdade, mas que são travadas na descrição das nossas vidas, nos nossos lares. Eu ali a travar a luta duma vida. E interrompeu-me a missão com protestos. Ai estes homens. Só por isso, pela falta de compreensão e solidariedade, vou pedir-lhe para me trazer um perfume novo na próxima viagem que vai fazer, para a semana. ;)

Pippa: 1. Resmungões e humidade: 0

Saber contar a verdade

Uma amiga contava-me ontem que, certo dia, logo após a faculdade, em determinada entrevista, lhe perguntaram se achava que iria gostar de trabalhar em determinado departamento. A minha amiga, do alto da sua transparência, respondeu:
- Não lhe posso garantir que vá gostar, porque a verdade é que nunca trabalhei nesse departamento, seria a primeira vez.
A este episódio acrescentou outras entrevistas que teve. Numa, assumiu que a má média da faculdade se deveu a não ter estudado muito, e que teve sempre muita vida social durante esses anos. Noutra, assumiu que, após um primeiro emprego, chegou a trabalhar numa loja, porque precisava de se manter financeiramente independente enquanto não encontrava nada na área.
- Achas que foram todas respostas erradas?
Tive que ser honesta e dizer que sim, que achava que tinham sido respostas erradas. Aliás, as respostas poderiam ser consideradas corretíssimas num mundo ideal. No mundo ideal, no entanto, a verdade tem que ser trabalhada. E dourada. A ponto de se tornar a verdade que querem ouvir, e não a queremos necessariamente contar.

Assim, no primeiro caso, a resposta que queriam ouvir para contratar seria "com certeza irei adorar. Parece uma área fascinante". Ora, ninguém tem certezas de algo que não conhece, o que faz desta resposta um bocado manhosa, na minha opinião. De qualquer maneira, tenho a certeza que um candidato com esta resposta seria escolhido em detrimento da minha amiga.

No segundo caso, teria que justificar a média baixa com "o trabalho em simultâneo, durante a faculdade, para manter a independência financeira". No terceiro, diria que estava a investir na formação (mesmo que a formação fosse apenas ver a Maria Helena e o tarot na televisão, de manhã) e que estava a trabalhar por conta própria.

"Mas é mentiraaaaa", dirão vocês, a cantarolar João Pedro Pais. Não é mentira, respondo-vos. É a verdade que aqueles entrevistadores querem ouvir, convenhamos. ;) E não tenho formação nenhuma em recursos humanos, mas penso apenas na perspetiva do futuro empregador... O futuro empregador quer ser enganado, quer ser conquistado, quer ser galanteado. Sim, isto é tudo como um namoro na fase inicial: conquistar, elogiar e vender o nosso melhor. O pior? Não interessa nada para já...

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

E vocês, já pediram a vossa fatura? ;)

Não resisti em partilhar aqui no blog. Será que vamos chegar a isto? Muito bom.
E como este exemplo, muitos se podem imaginar. Pensem lá no Senhor Amílcar, que gastou 300 euros na Toninha, Lda.
- Senhor Amílcar, muito copo bebeu você, seu malandro... Mas o carro é seu.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Unhas de barbatana

Acho que já disse aqui que tenho (entre outras mais ou menos notórias) uma incapacidade: não consigo tratar da minha própria manicura. Tenho amigas que pegam numa lima e num verniz e fazem milagres ao nível das unhas em cinco minutos. Eu, com o mesmo arsenal de instrumentos, faço asneira. Como sou perfeccionista, começo a ficar enervada se as unhas não estão exatamente iguais, se se nota o verniz aqui e ali não, se não estão simétricas e acabo a pegar no corta-unhas e a cortá-las rentes. Quanto ao verniz? Sai todo das unhas Não aguento o tempo de as secar e acabo sempre a estragar parte do trabalho. Enfim. A aventura acaba quase sempre comigo farta ao fim duns minutos, a pegar na acetona, a tirar tudo e a ficar só com unhas de rapazinho - pequeninas e sem cor. E isto era sempre assim até que uma manicura passou a ir ao trabalho. Desde aí arranjo as unhas sempre com ela e desisti definitivamente de o tentar fazer em casa. Não dava. Era demasiado filme. E de terror. Passei a ter mãos de mulher e não de rapazinho. Fiquei talvez mais vaidosa também, porque sinto que já faço parte do clube das "mulheres", dos "grandes". Já não sou a miúda com mãos de rapazinho num mundo de unhas compridas e orgulhosas. Sinto-me perante semelhantes.

No entanto, se há algo que nunca vou entender (sei que já falei aqui uma vez de unhas, mas hoje o tema é outro, calma) são aquilo que batizei de "unhas barbatana". São unhas que já nem são quadradas, porque são mais largas em cima. Compreendo que sejam úteis para nadadoras, porque permite-lhes atirar mais água para trás a cada braçada e torná-las mais rápidas numa corrida. Compreendo que sejam úteis para quem tem que escavar algo, porque parece ser uma ferramenta adequada. Agora... para usar no dia-a-dia? Só imagino como é que se escreverão mensagens num telemóvel screen touch. Como é que se escreverá no computador. Entre outras tarefas. Não percebo. Além de serem deselegantes, devem atrapalhar completamente... Unhas mais arredondadas ou ligeiramente quadradas não são tão mais bonitas e práticas? Unhas barbatana são tão Jersey Shore...

sábado, 1 de fevereiro de 2014

As barrigas das outras

É impressão minha ou as únicas barrigas de grávida que achamos fofinhas e irresistíveis são as "nossas" - nossas mesmo ou das nossas amigas e familiares? Hoje a minha mãe encheu a minha barriga de beijos e mimos, como se tivesse mel. E ria-se e falava com a futura neta, ao ponto de eu me sentir ali a mais. Eu própria já dei por mim a ter diálogos imaginários com nascituros, a dar festinhas a barrigas, e beijinhos, e a adorar aquelas barrigas como se fossem minhas. No entanto, quando vejo barrigas gigantes, quase a explodir, com uma linha escura e um umbigo saltitante partilhadas alegremente por desconhecidos, não sinto nada. Só as acho feias, geralmente. Sim, porque nem todas as grávidas ficam uma Demi Moore ou uma Gisele. Acho demasiada intimidade para ser exposta assim. Demasiados detalhes. Demasiado tamanho. Demasiado tudo. Sou imune às barrigas das outras. Sou maluca pelas "minhas" barrigas. Será assim com todos?

Hoje estava a ver uma foto minha que tiraram, a mostrar o crescendo desta minha "pança", e estive por um triz para a por aqui, para partilhar com vocês. Só que depois pensei: "esperem lá, mas isto é só bonito para mim. Para os outros, é só uma barriga gigante, sem piada". Certo?

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Precisa-se colaborador. Urgente.

Rapariga armada em escritora em part-time, mas com pouco tempo para o mundo da blogosfera procura colaborador para relação estável, que possa desempenhar as funções de, em nome daquela, embelezar o aspeto do blog, que está tão 2012, escrever durante o dia as sugestões da sua autora e/ou apresentar outras ideias, ler outros blogs e mostrar os posts mais interessantes à autora no final do dia para a manter atualizada, comentar aqueles outros blogs em nome da mesma, com sentido de humor e oportunidade, alimentar o Facebook do blog, responder aos comentários do blog, participar em eventos sociais em representação do blog, publicitá-lo, dinamizá-lo, organizar passatempos e concursos divertidos e pertinentes.

Oferece-se: integração numa equipa em amplo crescimento (sim, diz que a rapariga vai ser mãe), dinâmica e proactiva (ou não, mas consta que esta palavra é requisito essencial em ofertas de emprego), possibilidade de viajar (pelo menos nos meandros da internet, que a crise pode não dá para muito mais) e trabalhar a partir de casa, e ainda salário adequado à experiência demonstrada.

Procura-se: alguém que partilhe o gosto pela escrita, saiba colocar corretamente as vírgulas nas frases, seja um chato de primeiro com a gramática (saber Latim é considerado mais-valia, mas línguas vivas também são bem-vindas), que acumule conhecimentos de informática, web designer e que adore o mundo dos blogs e das redes sociais.

Interessados? Enviar candidaturas para o email do blog, com carta de apresentação e curriculum vitae.

Sim, o anúncio é a brincar, mas a brincar dizem-se as verdades, não é o que se costuma dizer? E o que é certo é que este meu querido blog anda meio paradinho, cheio de teias de aranha, já, com tão pouca escrita, por isso, eu precisava mesmo mesmo da colaboração de alguém com as caraterísticas que descrevi para me representar durante o horário de trabalho, enquanto estou escravizada e praticamente sem um segundo para tentar dar um ar da minha (des)graça por aqui. A sério que precisava. Ai, mundo cruel! Não há ninguém que leve o anúncio a sério e se ofereça? :)

Não acredito em precipitações

A minha professora de Espanhol é, segundo a própria,"muy muy patosa". A primeira vez que ouvimos a palavra, não a identificámos. Soava a "pato". Só isso.
- Patosa?
- Sí. Patosa!
E começou com a gesticular, a fingir deixar cair coisas, a fingir que tropeçava, enquanto se ria dela própria.
- Patosa...!
- Ah! 
E, à falta de palavra mais engraçada ("trapalhona" e "distraída" não são palavras com uma sonoridade tão forte), lá ficou assim batizada - patosa.

Não consegui achar piada à minha professora de Espanhol à primeira. Achava que se ria muito, demasiado, até dobrar o lábio de cima, mesmo quando as coisas não tinham piada.
- ... Y entonces mi abuela se rompió una perna y se quedó coja desde ese día.
E ria, enquanto eu ficava séria, com os músculos da cara tensos, a pensar qual seria a piada em ver a avó com a perna partida e coxa até ao fim da vida. Definitivamente, não percebi o sentido de humor dela à primeira. E acho que, como eu, todo o resto da turma.

A minha professora de Espanhol tem horários de latina, explica muitas vezes. E tenta, assim, justificar os seus sucessivos atrasos. Mas só começámos a perdoar para aí à quarta vez. E porque ela depois compensava com aulas espetaculares e cheias de boa disposição.

A minha professora de Espanhol explicou-nos que os Espanhóis não nos odeiam - os Espanhóis odeiam os Franceses. A nós não odeiam, porque nem se lembram que existimos. "Es verdad!", insiste. Enquanto se ri. Muito. E explicou-nos que a mãe só se apercebeu que Portugal existia, quando ela veio para cá dar aulas. Agora, pelos vistos, está sempre a ligar-lhe a falar de Portugal, ou porque ouviu nas notícias, ou porque ouviu falar a nossa língua na rua... Vê-se que a professora gosta muito da mãe, porque, quando fala dela e se ri, não dobra o lábio de cima, mas dobra apenas os olhos, que ficam mais transparentes.

Hoje a minha professora de Espanhol voltou a atrasar-se. Dez. Quinze. Vinte minutos. "Ela bem diz que é patosa! Aposto que vai chegar a tropeçar e a pedir desculpa!", dizia um. "Se tivéssemos todos estes horários latinos, o país não saía do sítio", dizia outro. Até que alguém recebeu uma mensagem dum número estrangeiro e nos traduziu: "Desculpem. A minha mãe morreu. Vim para Espanha." Naquele momento, fez-se silêncio. E dei por mim apenas a pedir para voltar a ver o riso dela, as mímicas a fingir que tropeçava, o lábio de cima a dobrar para trás de tanto rir.... Naquele momento, fez-se silêncio absoluto, ninguém se riu mais, e tenho a certeza que todos viajámos para Espanha por uns segundos e lhe demos um abraço sentido. Sim, a minha professora de Espanhol pode ser patosa, e atrasada, e rir-se demais. Mas é também das professoras mais "guay" que já tive. Se o meu Espanhol chegasse, dizia-lhe tudo isto na língua dela. Assim, fica aqui registado no meu cantinho tudo o que me apetecia dizer-lhe.

Sim, não acredito em precipitações. Quando nos precipitamos a avaliar alguém, como fiz, erramos sempre. E ainda bem. Gosto de boas surpresas. Mesmo que vindas do lado de lá da fronteira.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Oh não aconteceu mesmo!

Não tenho muita paciência para comédias. Pronto, já disse. Irritam-me aqueles momentos trôpegos, em que o protagonista se engasga, tropeça e cai. Irritam-me os desencontros, as confusões e as faltas de jeito. Sempre que estou a ver uma comédia com uma cena destas, apetece-me fechar os olhos com vergonha alheia ou simplesmente entrar rapidamente no ecrã e resgatar a vítima de tantos desastres. Além disso, aquilo parece-me sempre irreal, praticamente impossível de acontecer na realidade.

Hoje, no entanto, vi-me como a infeliz protagonista dum desses filmes. À hora do almoço tinha passado no Pingo Doce para comprar meia dúzia de coisas e lembrei-me de trazer uns pacotes de puré de fruta para bebé de que a minha nutricionista me falou. Por isso, quando vi que já eram 18h, peguei num dos purés de maçã e fui à copa para pegar numa colher e lanchar. Apetecia-me aquele momento de solidão, só eu e o silêncio. Quando cheguei à copa, no entanto, estavam lá alguns colegas e "big bosses" a passear e a petiscar também. Comecei a pensar "sento-me aqui com alguém numa boa, mesmo que estejam a ter conversas privadas? Sorrio, faço um ar confiante, mas pego na colher e vou-me embora comer à secretária? Ou armo-me em independentemente e sento-me sozinha?". Sim, sou envergonhada e não gosto de me impor, por isso, tenho sempre estas dúvidas nestes momentos. No meio desta indecisão, no entanto, peguei numa colher e decidi não pensar mais e juntar-me a alguém. Só que enquanto abria o pequeno pacotinho, virada para o balcão, um colega apareceu-me por trás e cumprimentou-me com um sonoro e inesperado "olaaaá!!". Talvez por estar embrenhada no meio das minhas indecisões e falsos problemas, assustei-me, abri mal o pacote e a comédia aconteceu: o puré explodiu, como uma garrafa de refrigerante que foi agitada, e fiquei cheia de maçã na cara, no cabelo e na roupa. Tentei manter-me de costas para toda a gente, a disfarçar e a limpar tudo discretamente, mas era impossível. Olhei para o meu colega como quem pede socorro e devo ter sido mesmo convincente, porque em menos de um piscar de olhos já ele me tinha trazido meia dúzia de guardanapos. Entretanto, não sei se foi impressão minha, mas a sala parecia mergulhada no mais profundo silêncio, enquanto apenas ouvia a voz dele, grave e mais alta que nunca: "ainda tens no cabelo. Aqui. Aqui na testa. Aqui no queixo. Aqui no casaco. Aqui no vestido. Tanta maçã! É melhor ires à casa-de-banho". Entretanto, um grupo talvez saído duma reunião, resolveu passar lá na copa. Parecia que toda a gente tinha ido lá para assistir ao meu desastre. Lá fui à casa-de-banho, com o rabinho entre as pernas, e enquanto me via ao espelho naquela triste figura, só tinha vontade de me fechar num cubículo da casa-de-banho e nunca mais sair dali, tamanha era a minha vergonha. Mas lá tive que voltar.
- Estava difícil!, disse-me o meu colega, mal me viu, com um sorriso, a tentar ser simpático, enquanto toda a copa esvaziava e me deixava sozinha. Que frustração. Tenho a certeza que sozinha nada daquilo acontecia. Porque é que é sempre assim?

Em segundos, já refeita e limpa dos mil pedaços de maçã, lá fiquei sozinha a lanchar o meu puré explosivo. E correu tudo bem, mas já não tinha plateia para o testemunhar. Pelos vistos, aquele público só tinha pago bilhete para a comédia. Haja alguém que aprecie...

Alergias gramaticais

Faço parte do grupo de pessoas para quem um "já mandas-te?" ou um "foi à muitos anos" funcionam melhor como repelentes que qualquer outro defeito possível. Embirro com as vírgulas. Nunca consegui simpatizar com o "lol". Tenho problemas de coexistência com o "fica bem" ou com o "fui". Nunca hei-de perceber o "continuação" e mil outras expressões. Tenho algumas pancas, sim. O que não sabia era que as pancas se iam desenvolvendo com a idade. Pensei que havia um numerus clausus de pancas para cada pessoa e que nunca ultrapassávamos esse número limite. Só que, afinal, à medida que os anos passam, vou descobrindo novas alergias a expressões. Hoje descobri uma nova. Enquanto falávamos ao telefone, ele, obviamente distraído com algo, repetia-me continuamente "pronto", seguido dumas reticências em forma de silêncio, como quem pede o fim da conversa. Já não é a primeira vez que faz isto: sempre que estrá distraído, começa a "prontificar", seja comigo, seja qualquer outra pessoa. Quem quiser saber se está atento à conversa, é só atentar no número de "prontos": a atenção é sempre inversamente proporcional ao número de vezes que lhe sai a expressão. É-lhe natural, nem repara. Geralmente respeito a distração (99% das vezes é porque ouve falar de futebol ou carros, seja na televisão, seja alguém ao lado). Mas hoje apetecia-me mesmo falar e fiquei irritada com a distração a meio da conversa. Dei por mim a resmungar: "pronto? Mas pronto o quê? O jantar? O jantar está pronto? Pronto o quê?? Pronto, pronto... Tanto pronto!!". Sim, está decidido. A partir de hoje também sou alérgica ao "pronto". Pior mesmo só se estiver associado a alguma das outras expressões... Não... Isso seria mau demais!!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Encontros imediatos

Estava a trabalhar e o meu telemóvel tocou. Era ele.
- Sabes quem vi agora? A X.
(A X. é a ex dele.)
- A sério? E então? Já não a vias há muitos anos, pois não? Está igual? E foi esquisito?
- Até está com bom aspeto. Mas foi muito cordial... Acho que ficou atrapalhada por me ver.
- Claro, e tu estavas rodeada de gente e ela sozinha, não?
- Foi, mas também não ajudou a conversa que me ouviu ter.
- Que conversa?
- Antes de a cumprimentar, cumprimentei o Y. e o Z., que também lá estavam. Eles deram-me os parabéns, ainda não tinham dado pessoalmente. Disseram que já sabiam da novidade, pareciam mesmo contentes. E deram-me um forte abraço.
- E qual é o mal?
- O mal é que, como eles os dois também tiveram meninas, eu respondi "já viram, mais uma menina! Só temos meninas, agora". Estava a falar de mim e deles, claro. Só que nesse momento olhei para trás e ela estava ali a ouvir.
- Pois. Coitadinha, soube que o ex ia ser pai.
- Não é só isso. Deve ter achado, pela minha resposta, que já tínhamos meia dúzia de filhas.
E sinceramente fiquei com pena da miúda. Ali sozinha, no meio de desconhecidos, a achar que o ex namorado estava a produzir filhos como se não houvesse amanhã. Não deve ter sido a melhor conversa do mundo para se ouvir, não... E agora, que tantos e tantos anos passaram, até sinto algum carinho pela miúda. Será normal?

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

12 anos de golpadas

Queria escrever sobre filmes, mas ultimamente dou por mim a subjetivizar totalmente todos os temas, por mais objetivos que sejam. Queria escrever sobre cinema e sobre os Óscares, mas permitam-me que acabe a levar este tema.... mais uma vez, até mim. Pois a semana passada fomos ao cinema ver finalmente o "12 anos escravo". As expectativas eram elevadas e o filme esteve sempre à altura. Passei a semana seguinte a relembrar-me de passagens do filme e isso foi a maior prova do quanto o filme me marcou. Hoje foi a vez de "A golpada americana". As expectativas já não eram tão elevadas, mas mesmo assim ficou um pouco aquém. Para além dos desempenhos fenomenais de meia dúzia de atores (que não há como negá-lo - estão brilhantes, principalmente a Amy Adams e a Jennifer Lawrence), a história pareceu-me uma reinterpretação do "Ocean's eleven", mas reduzido a versão "Ocean's three". Mas como dizia, gostei incomparavelmente mais do "12 anos escravo", talvez porque a verdade é que o primeiro filme é também uma história sobre um primeiro grande amor, sobre um homem que encontra forças para aguentar doze anos de trabalhos forçados e humilhação na constante esperança de voltar para os braços da mulher que ama. O segundo filme, para além de todo o argumento em si, acaba por ser um filme sobre histórias de amor que chegaram ao fim há demasiado tempo e que deram lugar a situações de dualidade. Sei que nenhum destes pontos é o ponto fulcral em nenhum dos filmes, as histórias desenrolam-se muito muito para além disto. Mas não consigo evitar: os filmes com amores arrebatadores mexem sempre mais comigo e conseguem sempre inspirar-me mais. E entre um filme sobre um amor que aguenta doze anos de distância e privações e outro que aguenta anos sem sinceridade, nem hesito em escolher o primeiro, sem mais.

E porque é que afinal esta crítica de cinema é sobre mim? Porque ao ver um e outro filme, não consegui deixar de pensar no meu próprio exemplo: o trabalho também me tem afastado do meu amor. Não sou escrava, nem fui forçada a estar assim. Mas todos os filmes que me transmitam esperança num futuro melhor, em que todo o sacrifício compense, têm a minha atenção a 100%. E, aos domingos, estas mensagens são particularmente especiais para mim. Não fui forçada a estar assim, mas virei costas a uma vida mais confortável pelo trabalho, por querer mais para mim, por querer aprender e crescer mais profissionalmente. E rezo todos os dias para que, um dia, finalmente um dia, tudo isto compense. Pensei que nunca mais ia estar assim e custa muito estar longe depois de tanto tempo a viver uma vida a dois. Sinto-me uma escrava do trabalho vítima da golpada da economia. E, por isso, mesmo a querer escrever sobre os filmes de forma desapaixonada, não consegui evitar acabar a falar apenas sobre mim. E sobre a esperança que tenho de ver a minha "escravidão" acabar um dia e também eu voltar para os braços de quem mais amo.

Bem... Eu avisei que ia falar sobre mim outra vez. ;)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

As grávidas também são safadas

Hoje dei por mim a fazer algo que nunca teria feito se não estivesse neste “estado de graça”. Hoje dei por mim a fazer algo que seria apenas indecente e nojento caso não tivesse esta mega barriga. E deu-me um ataque de riso quando me apercebi do que iria parecer se não tivesse uma criança a crescer dentro de mim. E o que fiz? Fui finalmente receber uma massagem que me ofereceram, à hora de almoço, e, no fim, depois da massagista sair da sala e deixar-me sozinha para me vestir, olhei-me ao espelho e deu-me um ataque de narcisismo: “vou tirar uma fotografia ao meu reflexo no espelho”. Vi as minhas novas (gigantes) formas à luz das velinhas e ao som daqueles sons orientais típicos dos spas e senti-me preenchida por todo um amor dirigido àquela barriga. Toda eu era puro amor por aquela mega barriga. Nem reparei que estava praticamente nua e só de roupa interior. Peguei no telemóvel e não hesitei – “sai uma selfie!!”. Reencaminhei aos meus pais, com a legenda: “digam olá à vossa netinha”. Pareceu-me muito bem e nem pensei mais nisso.

Só há bocado é que parei dois segundos e pensei:“espera aí!! O que é que eu fui fazer? Mandei uma fotografia em lingerie aos meu ... PAIS!!”.

Sim, se tirarmos a pança, temos apenas uma mulher de trinta e um anos, em lingerie com rendas, a tirar uma fotografia a si mesma, rodeada de velinhas, e a enviá-la a quem? Ao namorado, para apimentar a relação? Ao marido? A um amigo especial, num momento de pura safadez? Nãaa. Aos pais. Definitivamente, a barriga muda muita coisa.

Entretanto, amanhã é dia de exames para ver se tenho diabetes gestacional. Dizem que se tem que beber um líquido nojento em jejum. E talvez repetir. Vou ter um ótimo início de fim-de-semana. Só espero não vomitar, como já ouvi dizer que acontece. E, já agora, também espero não ter diabetes. Seria um pouco chato. Porque os doces duas vezes por dia até têm sabido bem…

Crises existenciais

Hoje, a meio do dia, a meio dum trabalho, deu-me uma valente crise existencial: "estou a trabalhar para quê? O que é que estou aqui a fazer quase sem dormir e com olheiras até aos pés de tantas horas em frente ao computador? Vou ter uma filha e devia estar a curtir este momento. Vou ser mãe, devia ter uma vida que não me obrigasse a ficar quase 12 horas por dia fechada dentro de quatro paredes, nem agora nem depois!".

Depois parei para lanchar, comi um croissant com chocolate e voltei a sentir-me realizada, agradecida pelo trabalho que tenho e parte desta grande máquina bem oleada e sempre a produzir. Só espero que a crise tenha sido um pequeno sismo sem réplicas.