terça-feira, 11 de março de 2014

Barriga e prioridades

A barriga cresce de dia para dia. De repente, sinto que toda a gravidez até aqui foi a gozar e que só agora começa a gravidez a sério. Como se tudo tivesse sido um estágio muito fofinho e só agora tivesse realmente começado o trabalho a sério. E sinto que "isto" já é sério, porque a barriga já fala por si, as pessoas já não têm dúvidas quando olham para mim. Assim, até há pouco tempo, talvez porque sentia que não era notório o novo "estado de graça", não tinha tido ainda coragem de usar filas prioritárias nos supermercados, por exemplo. Sentia que teria que empinar a barriga e ainda chamar a atenção às pessoas e faltava-me coragem. Imaginava um diálogo algo assim: “Hello! Posso passar? ... Porquê? Porque isto é uma barriga de grávida e grávidas, podem passar. Onde é que está a barriga? Aqui, vejam. Esperem, deixem-me afastar um bocado o casaco para verem melhor. Já vêem?” Não estava para isso, por isso, fazia a minha vida nas filas normais e sem utilizar esta nova faculdade que assiste às grávidas. Só a semana passada, quando senti que a barriga de sete meses já falava sozinha (e porque tudo isto coincidiu com filas imensas de gente no Pingo Doce), é que arrisquei e saltei para uma fila prioritária, meia a medo. A verdade é que estava a sentir-me um bocado mal por estar a passar à frente de toda a gente só porque tinha mais barriga que eles (nem todos, devo sublinhar), mas… tenho esse direito, por que não usá-lo? Passei toda a gente pelo lado, muito sorrateiramente, com medo de ser insultada, e fui perguntar à empregada se podia pagar. Não sabia bem como é que as pessoas iriam reagir e se começaria a guerra das prioridades: velhos contra grávidas, grávidas contra pessoas com canadianas, velhos contra mais velhos, grávidas contra mais grávidas. Não aconteceu nada disso, afinal. As senhoras atrás de mim começaram a pedir-me desculpa por não se terem desviado:

- Desculpe, menina, nem a vimos!!

Os miúdos mais novos começaram também a juntar-se ao pedido de desculpas:

- Desculpe, estava aí há muito tempo?

Não estava à espera de tanta aceitação e compreensão. Para ser honesta, sinto-me na plenitude das minhas capacidades e este direito parece-me, para já, algo exagerado, daí só ter feito isto agora. Por outro lado, a fila prioritária existe para estes casos, não é? E se não a usar agora, quem sabe quando é que a conseguirei usar outra vez… E a verdade é que, aqui entre nós, nunca foi tão rápido fazer compras. O pacote da gravidez traz dores de costas incluídas e outros mal-estares associados? Pronto, pelo menos também traz este miminho da prioridade. Não sei se vou voltar a usar estas filas, mas valeu pela experiência e para perceber que as pessoas até parecem sensibilizadas para o assunto.

Confiança e bom senso

Hoje lembrei-me de organizar a minha caixa de emails pessoal. Sabia que tinha ali partes da minha vida completamente misturadas, e convenci-me que conseguiria colocar alguma ordem naquele caos sem sentido. O que aconteceu? Acabei deliciada com conversas antigas com amigas, trocas de emails apaixonados, comentários de rir, fotografias e mais fotografias... Nunca pensei que a caixa de emails pudesse afinal funcionar quase como um diário!

A dada altura, encontrei um pedido de ajuda de que já nem me lembrava e que me arrancou um bom sorriso da cara, ao reviver a história. Um colega do secundário mandou-me, há uns anos,
rascunhos de poemas que ponderava publicar e queria saber a minha opinião. A verdade é que, no secundário, eu era muito estudiosa, muito "marrona", e os meus colegas deviam ver-me como a croma da turma com quem se pode tirar as dúvidas. O curso para que queria ir não tinha a média de ingresso altíssima da Medicina, mas mesmo assim eu nunca ficava feliz com menos de 18, por isso, percebo que a turma visse em mim uma espécie de "mãezinha". Este meu colega queria que eu corrigisse os textos e lhe desse a minha opinião. O problema é que eu não tenho muita sensibilidade para poemas, e não conseguia alterar nenhuma frase sem estragar o "todo". Não adorei os poemas, mas também não conseguia alterar nada mantendo a rima bonitinha. Optei por desistir e responder apenas, depois de agradecer a confiança depositada em mim: "Não tenho sugestões de alteração..."

Sentia-em especial por ele ter confiado em mim para sugerir alterações, mas não conseguia alterar nada, por isso, mais valia não me por a inventar... O que me fez sorrir agora foi ler a resposta dele, duma confiança que acho que nenhuma boa nota alguma vez me deu ou dará:
"Ninguém tem conseguido dar sugestões de alterações. Todos adoram. Já me comparam ao Camões, sabias? Os comentários não podiam ser mais positivos. Obrigada na mesma pelo teu tempo."

Ali, naquele canto da minha caixa de entrada, estava uma lição de confiança. Ali não havia espaço para humildade ou demasiado bom senso. As coisas que se aprendem ao reler os emails antigos...

domingo, 9 de março de 2014

Quem tem o vício?

Desabafei no Facebook do blog, na Sexta-feira, que me tinha dado vontade de ser rica de forma fácil. Inédito, não? Que desejo estranho... Por isso, lá joguei (eu é mais todo o Portugal?) no Euromilhões, depois de mais de um ano sem jogar, segundo as minhas contas. Não ia com grandes esperanças, mas pensei que dois euros de aposta em troco de cem milhões de prémio podiam ser um negócio lucrativo. Digo eu, que não sou lido muito com matemática...

Hoje lembrei-me de ir comparar a chave vencedora com a minha aposta... Um número. "Ok..." Dois números iguais... "Hey lá..." Três números. "Ui ui..." Acabou ali. Mesmo assim, o meu coração ficou mais acelerado. Três números já me pareciam coisa séria. Perguntei a uma minha amiga se sabia quanto é que aquilo valeria. Foi espreitar as regras do concurso enquanto eu tentava resfriar o meu entusiasmo com pensamentos mais negativos. "Com certeza não será muito... Com certeza nem dá prémio", tentava dizer a mim mesma. Só que um lado de mim já estava a fazer uma dança imaginária de vitória com algumas centenas de euros.
- Ganhaste...
- Sim?... Quanto?...
- Parabéns!!
- ... Quanto??
- Treze euros!!!
Definitivamente isto não é para mim. Acho que vou passar outro ano sem cair em tentação nos jogos da sorte. A frustração que sinto por ter gasto dinheiro e não receber quase nada é tão, mas tão forte, que sei que nunca hei-de ser viciada em jogo nenhum. Não está simplesmente nos meus genes. Irrita-me esta aleatoriedade total e a quase garantia de falhanço. Segunda-feira lá regresso ao trabalho, porque já percebi que se algum dia quero ser rica terei que chegar lá pelo caminho do suor. Adeus, Euromilhões. Que tal mudares o teu nome para "Zeromilhões"?

sexta-feira, 7 de março de 2014

Ainda os sumos. Verdes.

Muitos poderão dizer que é uma questão de moda. Como a moda do sushi. A moda do brunch. A moda das corridas. “De repente, só se fala de sumos verdes! Secaaa”. E é verdade. Não tenho como contrariar o que é óbvio: dum momento para o outro, tornou-se um bocado mania falar-se dos sumos verdes. No entanto, quando as modas são saudáveis, tento resignar-me um pouco. Se gosto de ver estradas cortadas quase todos os fins-de-semana e ver corridas em todas as esquinas, a crescerem como cogumelos? Já cansa. Se adoro ver mil fotografias tiradas a pratos com temakis e nigiris todos dias? Não adoro. E às vezes só me dá fome, logo às 9h da manhã. As modas cansam, é um facto. Só que tento dar o braço a torcer quando são boas modas. E esta parece-me uma delas. Ainda ontem, depois dum dia a comer gelatinas e barras de cereais, e iogurtes, dei por mim a pensar “e fruta e legumes? Já comi?”. E a resposta era negativa. Toca a por ordem na casa, que a bebé precisa de alimentos em condições, e lá foram três brócolos, espinafres, um aipo, abacaxi, limão, canela no fim e sementes de linhaça. Como? Em forma de sumo. Muitos podem estar a torcer o nariz, mas a verdade é que sabe bem. Muito bem! E, em dois minutos, já me sentia melhor comigo mesma. Demora um bocado a cortar tudo e depois é chato lavar a liquidificadora, mas em vinte minutos temos uma “refeição” preparada e tomada.

Para quem não ficou enojado, mas sim curioso com a descrição que aqui fiz, tenho algo para contar: descobri um sítio (deve haver vários por todo o país, acredito que sim, se quiserem partilhem outros) onde fazem estes sumos. Paga-se mais que comprar os alimentos no supermercado e fazer em casa, obviamente, mas em cinco minutos temos o sumo, bebemos e vamos embora. Experimentei já três ou quatro “Sumos Funcionais” tamanho grande (os tais com frutas, vegetais e ainda ingredientes a que chamam “super alimentos”) diferentes e fiquei fã. Quando me sinto mal com as porcarias que ando a comer, obrigo-me a fazer em casa um destes sumos ou então, se não tenho tempo ou tenho simplesmente preguiça, passo nesse sítio que para mim tem sido o meu “cantinho”, o meu “segredo”. É acolhedor, não me parece ainda muito conhecido, as senhoras são simpatiquíssimas e até já sei que uma delas é do meu signo (as coisas que se conversam enquanto se espera por um sumo). Lá também fazem a dieta “detox”, para os mais corajosos – sim, a dieta de passar dias a sumos e sopas, basicamente, para libertar todas as toxinas marotas que habitem nos vossos corpos –, mas eu reservo-me essas dietas para quando os meus dentes não me permitirem trincar. Até lá, os sumos só me complementam a restante alimentação, não a substituem. Perguntei à nutricionista o que achava, e esta disse-me para beber o sumo em substituição da sopa, mas para completar com um prato constituído por uma carne branca grelhada ou peixe e uma pequena porção de arroz/ batatas/ massa e/ou legumes. Não me pareceu tão fã quanto eu destas modas, mas também não se opôs, por isso, mal não fará. ;)

Aos interessados, o sítio chama-se Lady Bug e fica situado na Av. João Crisóstomo, 23 B, em Lisboa. E, como sempre, não, não tenho comissão nenhuma, nem adianta perguntarem. Estou só a partilhar uma descoberta minha que espero que interesse a alguém.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Troca-se guarda-roupa

Subitamente, os casacos começam a não apertar como antes. As calças, mesmo as largas, começam a ficar ridículas, porque já não tenho nada remontamente parecido com uma cintura. Estou a pensar seriamente em trocar de guarda-roupas com alguém durante os próximos dois meses. Interessadas? Estou a pensar nalguém que emagreceu agora dois números de roupa, mas que sabe que vai ganhá-los no verão. Uma espécie de Matthew McConaughey portuguesa ou uma Alexandra Lencastre mais nova uns anos. Alguém?
Um dos meus casacos que já praticamente não aperta.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Posso congelar este sonho para sempre?

Há uns tempos, alguém me perguntou se andava a sonhar mais.
- Não passas a noite a sonhar? Dizem que as grávidas começam a ter sonhos super reais e a ter um sono muito mais leve.
Abanei a cabeça, na altura. Não, não conseguia notar nada de diferente nos meus sonhos.
- Ainda não devo estar nessa fase. Continuo a dormir como uma pedra.
Hoje, no entanto, acordei a meio da noite com o sonho mais especial de sempre. Tão especial que acho que fiquei de olhos fechados durante meia hora, a sorrir sozinha, feita estúpida, com medo de o esquecer. Quis prolongar aquele sonho o mais possível. O que sonhei? Sonhei com tudo. Sonhei que as águas rebentaram. Sonhei que fui para o hospital. Sonhei com o parto. Com as dores, com as enfermeiras a gritarem, sonhei comigo quase sem forças, e sonhei depois com a bebé ao colo. O corpinho dela, mínimo e desprotegido, enrolado sobre si mesmo, encaixado em mim, a procurar o meu calor. As minhas lágrimas a caírem, em silêncio. Sonhei depois que lhe estávamos a dar o primeiro banho. A sensação de a sentir mínima e frágil. Sonhei que tentei vesti-la, mas que não conseguia perceber como é que se enfiava a roupa. E com um desabafo que pode ser bastante premonitório:
- Vês, ela não tem roupa nenhuma! Temos que ir às compras.
Sonhei que lá a vestimos. Que voltámos a pegar nela, que a cheirámos. Que já estávamos em casa. Sonhei com o sorriso rasgado dela. Com o cabelo forte e escuro, já quase com caracolinhos. Sonhei com a pele clarinha dela, com os olhos rasgados e pestanudos, acizentados, e com duas covinhas, como eu tinha.
- É tão pequenina. Tão pequenina.
Dizia-me ele ao ouvido.
Sonhei com a cara dela, com a sensação de a tocar. E juro - foi tão, tão real, que vou tentar congelar este sonho durante os próximos tempos, até a verdadeira sensação de a ver e de a tocar venha preencher as minhas memórias e substituir finalmente este sonho. Até lá, este sonho é tudo o que tenho. Ah... isso e talvez a ecografia 4D se amanhã o médico vir, na consulta, que está na posição certa para a vermos.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Sustos

Hoje já estava a sonhar com o sofá e com o serão dos Oscars, mas antes fomos ao cinema ver A Grande Beleza, já que a emissão em direto daquele espetáculo começa sempre tardíssimo. A ironia? Apesar daquilo que o nome do filme parecia indicar, acabou por ser o momento menos belo da minha gravidez, até ao momento. Comecei a ter dores fortes de barriga e, a dada altura, senti toda a barriga a mexer-se sozinha duas ou três vezes, em grandes safanões. Primeiro, fiquei assustada e vieram-me as lágrimas aos olhos. Sou uma choramingas do pior e, se me assustar, as glândulas lacrimais dão logo sinal de si. Depois, sentindo as mãos dele a fazer-me festinhas na barriga e ouvindo-o a perguntar-me, preocupado "queres que faça alguma coisa?", pensei em voz alta "não, obrigada, isto é normal. São as contrações de Braxton Hicks". E naquele momento senti-me contente comigo mesma. Senti-me uma aluna que tinha estudado bem a lição e não foi apanhada em falso quando o professor a chamou, no meio da turma. A verdade é que a dor não é muito comum, mas li que é possível que acompanhe as ditas contrações. E li que era normalíssimo sentir as ditas contrações durante a gravidez. Por isso, ainda bem que existe tanta informação, é o que me apraz dizer. Pude manter-me calma e recuperar rapidamente a tranquilidade e boa disposição, para ver o filme em condições. Até agora a gravidez foi tão santa, que fui completamente apanhada de surpresa. Mas pronto, já passou. E o espetáculo precisa de continuar, não é?

Assim sendo, vou agora deitar-me e tentar sonhar com coisas felizes, depois de ter enchido os olhos com a passadeira vermelha e com o Oscar do Jared Leto. Vou tentar sonhar com o dia em que tenha possibilidade de voltar a usar este penteado como o da Sandra Bullock (usei no meu casamento):
Já agora, acompanhado por um vestido destes (lindo! Kate, se não o usares mais, posso perfeitamente ficar com ele):
 Ou destes (acredito que uma morena iria valorizar muito mais este vestido. Desculpa, Julie):

domingo, 2 de março de 2014

Comecei um diário...

... Mas versão alimentar. Fui à nutricionista na Sexta-feira, a mesma que me acompanhou antes do casamento, há dois anos, pela segunda vez desde que estou grávida. O que constatei não foi surpresa nenhuma: engordei, até ao momento, mais do que devia. Agora só posso engordar no máximo dois quilos até a bebé nascer. E sei que isto aconteceu por pura estupidez e preguiça minha (não cumpri nem uma décima do plano de alimentação saudável à risca, como imensas porcarias), por isso, a solução encontrada foi começar a escrever tudo, mas absolutamente tudo o que como. Isso, e encher a casa e o escritório de alimentos saudáveis. A ideia é evitar voltar a ser atacada por desejos incontroláveis por comida que me levem a tirar sacos de bolachas com 500 calorias (aconteceu esta semana) da máquina de snacks do escritório e a devorá-las em dois segundos (vi só as calorias no fim) ou a passar no Mc no fim do ginásio, por estar há demasiadas horas sem comer. O acordo que fiz foi, portanto, muito simples: manter o plano estabelecido, ir às compras para poder andar sempre com snacks saudáveis e muita fruta por perto, e ainda manter o meu diário alimentar sem mentiras.

A nutricionista disse-me algo básico, mas que precisava de ouvir: engordar na gravidez deve ser sustentado numa alimentação saudável e de onde a bebé possa retirar todos os nutrientes de que precisa. A bebé não precisa de doces, fritos, refrigerantes, nem demasiados hidratos de carbono. Resultado? Até ao momento, resisti a gomas que os meus colegas do escritório estavam a dar, às batatas fritas do Prego da Peixaria, resisti às pipocas no cinema, e enchi o frigorífico de fruta, gelatinas, iogurtes magros, purés de fruta, queijos frescos light, fiambre de peru, triângulos da Vaca que Ri light, legumes para saladas e sopa de espinafre sem batata, enchi o congelador de carnes brancas, peixe e legumes, e enchi ainda os armários com tortitas de milho, bolachas cresm crackers e barras de cereais com pouca gordura. Não consigo mentir no diário e tenho vergonha na cara, por isso, acho que vai ser desta que, com a pressão de mostrar o que comi, vou passar a entrar nos eixos. Ou, pelo menos, a tentar com mais convicção. A verdade é que, talvez por nunca ter tido enjoos ou mal-estares na gravidez, ando há meses sempre com um apetite voraz. Será da gravidez, esta fome toda? Às vezes penso se terei uma filha ou outra pequena alarve dentro de mim...

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Quero ser amiga da Maria Helena*

Eu sei que já falei da Maria Helena (aqui) e estou, com certeza, a tornar-me repetitiva. Mas convenhamos: a Maria Helena é a amiga que todos queríamos ter. Há que dizê-lo sem rodeios. A Maria Helena reúne o melhor duma mãe, duma avó, duma vizinha, duma melhor amiga, duma prima, dum gestor bancário, duma nutricionista, dum advogado, dum guia espiritual, dum Chef Ramsay, dum amigo gay, dum consultor de imagem e dum decorador de interiores. A Maria Helena é tudo isso e muito mais. A Maria Helena trata-nos como uma avó - “Olá, meu anjo”. É efusiva como uma mãe - “Olá, olá!”. Tem a familiaridade e a preocupação daquela nossa amiga - “minha querida, então o que se passa?”. E, no meio disto tudo, dá ainda conselhos quanto a dietas - “tem que ter mais cuidado com o que come, invista mais nas fibras!” -, decoração - “precisa duma limpeza à sua casa e de ter um amuleto da sorte” -, gestão - “esta é uma boa altura para investir, sim” - e muito, muito mais. Hoje, antes de sair de casa para o trabalho, ainda assisti até a conselhos jurídicos. O diálogo que ouvi, enquanto bebia rapidamente a minha meia de leite matinal, foi mais ou menos assim:
- Estou a ligar-lhe, porque estou preocupada. Perdi um processo de despedimento. Queria recorrer da decisão, em Tribunal, mas não sei se vou ganhar.
- Hmmm… Realmente vejo aqui que os factos são muito fortes. Parece-me que o recurso não será procedente.
- Ai é? Obrigada!

Ou conselhos amorosos:
- O meu dilema é amoroso: não sei se o meu namorado gosta de mim.
- Então porquê, minha querida?
- Nós nunca estamos juntos. No último ano, só estivemos juntos três vezes. Ele está no estrangeiro.
- Minha querida, e foi ele que veio ter consigo?
- Sim.
- Eu digo sempre isto: se ele vem ter consigo é bom sinal. Um homem interessado anda atrás. Ele gosta de si, querida. Esteja descansada.

Dá também conselhos de trabalho. Hoje, por exemplo, soube que, enquanto Peixes, eu veria finalmente o meu esforço reconhecido. Até vim trabalhar – atrasada, é certo, porque não conseguia descolar da televisão – mais feliz que nunca, por sentir o aroma a reconhecimento no ar.

A Maria Helena é a nova melhor amiga que eu quero. Desculpem todas as minhas amigas, continua a haver espaço no meu coração para vocês, mas têm que admitir que nunca me deram respostas tão prontas e seguras. As nossas conversas demoram sempre horas. Falamos, falamos e raramente me transmitem uma conclusão tão segura. São conversas agradáveis, não me interpretem mal, e são sempre momentos bem passados. Só que… a Maria Helena, em menos de dois minutos, tem resposta para todos os problemas, sem hesitar. Basta-lhe, para isso, colocar as cartas.

Maria Helena,
tentei ligar-te, mas tinhas sempre a linha ocupada. Esperei que os números desaparecessem do ecrã, como sugeriste, e até liguei apenas quando gritaste aquele “Agora!”, mas ia sempre para o voicemail, por isso, fiquei sem saldo no telemóvel e estava a ficar atrasada. Sei que não tenho nada para te dar que não seja um monte de dúvidas e incertezas. No entanto, se tiveres espaço para mais uma amiga, gostaria de ocupar esse lugar. Queres combinar um chá para a semana? Tens ali o meu contacto na barra lateral do blog, para me responderes. Ah, e leva as cartas, sim? Eu levo a minha amizade. Cada um leva o que tem, não é?
Beijos, meu anjo.

*Caro leitor: leia com um toque de ironia, por favor.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Como despachar um visitante não desejado?

Eu sabia que um dia eles acabariam por aparecer. Era uma questão de tempo. Acontece o mesmo com as Testemunhas de Jeová que querem partilhar connosco a sua fé, com as ciganas que leem a sina, com os escuteiros que vendem rifas, com os homens da Cais que insistem para que compremos "só uma revistinha", com os arrumadores que encontraram o melhor lugar de sempre a troco de "uma moedinha, chefe", com os indianos que querem dar-nos o panfleto para o novo restaurante que abriu na esquina, e com os senhores da Abraço (sem desprimor para o seu trabalho!) – sabemos que eles andam aí e que, um dia, vão acabar por nos abordar.

Eu sabia, portanto, que, mais cedo menos dia, teria que contar com eles. Mas sabia também que estes seriam piores que testemunhas de Jeová, piores que ciganas, piores que escuteiros, piores que os homens da Cais, piores que arrumadores, piores que indianos e piores que mil senhores da Abraço. Todos juntos. Sabia que, assim que eles chegassem, nunca mais me iriam largar.

Os anos iam passando. Aos vinte e cinco pareceu-me ver dois, ainda tímidos. Consegui enganá-los bem. Aos vinte e oito, reparei que tinham ido buscar reforços e já eram meia dúzia. Não me assustaram: consegui enganá-los novamente. Até que, estes dias, comecei a reparar no pior. A verdade é que nunca os enganei. Eu é que saí enganada. Eles continuaram aqui, os malandros, unindo forças, em silêncio, quais ratos do esgoto, indesejadamente a viver na penumbra, muito caladinhos e prontos a atacar. E apareceram agora em força, mais fortes que nunca. Não matei o primeiro, porque sou supersticiosa e dizem que aparecem três a seguir. Mas odeio-os de morte. Malditos cabelos brancos, que já devem ser uma dezena, a espreitarem debaixo do cabelo. O que vale é que ainda não atacaram a zona da risca, por isso, passam bem despercebidos. É que só faço madeixas uma ou duas vezes no ano, no máximo. E não queria começar a ficar dependente de tintas para disfarçar os desgraçados. Aiii maldita idade!

Quanto mais sexo, melhor

Ainda ia a meio de ler esta notícia ("quanto-mais-sexo-mais-inteligente") e já estava a saltar do sofá. Tudo para atingir um Q.I. dum Einstein! No entanto, logo caí em mim - "espera, se isto fosse verdade, aquele pessoal todo da Casa dos Segredos saía de lá e ia fazer um doutoramento!!". Pois... Afinal, o estudo não deve ser tão simples e absoluto assim. Mas vale sempre a pena tentar, não é? Esqueçam as desculpas e toca a tratar desses... neurónios!

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Mestre das gordinhas

Quando soube que estava grávida, fiz os exames para confirmar que estava tudo bem, contei à família e amigos mais próximas e, depois, veio inevitavelmente o momento de contar aos "Big bosses" e aos recursos humanos. Por razões que agora não interessam nada - que se prendem unicamente com buracracias - tive que esperar até poder contar a todos os colegas. Durante esse tempo, não me consegui sentir grávida, talvez por não poder partilhar com as pessoas com que trabalhava o meu novo estado. Às vezes penso se não terá também sido por isso que nunca tive enjoos, cansaço ou outros mal-estares. A verdade é que, para todos os efeitos, eu estava apenas mais gordinha. E acredito que aprendi a disfarçar como ninguém a barriga crescente. Desenvolvi a arte de adelgaçar a figura. Usei e abusei das camisas largas ou camisolas mais soltas estrategicamente colocadas por dentro das calças e/ou saias. Inventei mil maneiras de usar casacos soltos por cima das camisas e calças de corte a direito. No meio disto tudo, quando contei a toda a gente que estava gravidíssima, pareceram sinceramente surpreendidos.
- Nunca reparei na tua barriga!
- Oh, pois estás!! Parabéns!!
Senti-me a mestre das gordinhas. Estava gordinha, com mais de seis quilos em cima, e não tinha sido detetada. Orgulho em mim mesma. De qualquer maneira, sinto que, mal contei a toda a gente, a barriga como que "explodiu". Deixou de ser segredo e decidiu exibir-se para o mundo, toda convencida, a tentar compensar o tempo perdido. E, desde então, começo a esgotar os meus segredos de estilista. Ainda não comprei roupa de grávida, mas a verdade é que as camisas e as túnicas começam a ficar mais justas. As calças começam a não passar bem no rabo, quando as tento vestir ("porquê?? Porquê?? A gravidez não devia ser só na barriga?"). Os meus truques começam a ser cada vez menos. De qualquer maneira, como já vou com 7 meses disto e não me sobra muito mais tempo para o fazer, decidi partilhar, em primeira mão, aqui a minha feliz e orgulhosamente grande pancinha de grávida. Se tiverem truques para partilhar, sou toda ouvidos. Esta roupa que estou a usar é por ser fim-de-semana, durante a semana uso roupa mais formal. Um dia destes mostro.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Oh não, aconteceu mesmo! #2

Tenho falado aqui dos filmes que tenho ido ver ao cinema e tenho-me focado apenas nas histórias e naquilo que retiro de cada um. No entanto, hoje, tenho que contar mais um triste episódio que aconteceu comigo durante o último filme que fui ver. É que, às vezes, acho que me acontecem demasiadas palermices para deixar passar em branco. Além disso, nunca se sabe se não haverá por aí alguém tão desastrado como eu que se identifique com as histórias que conto, por isso, pelo menos não se sente tão sozinho... Sim, nesse caso já somos duas pessoas, ok?? Não está sozinho no mundo!!

Então o que aconteceu desta vez? Começando pelo início: eu costumo ir ao cinema e ver os filmes em salas que têm duas entradas: uma de cada lado das escadas, uma de cada lado da tela. Por isso, podemos entrar e sair por um lado ou pelo outro. Até aí tudo normal, certo? Um exemplo de salas assim é a sala 9 do El Corte Inglés. Só que, no outro dia, o filme foi numa sala em que nunca tinha ficado, acho eu - a sala 5. E estávamos os dois muito juntinhos a ver o filme, quando comecei a sentir a respiração dele mais espaçada e a cabeça mais pesada a cair sobre mim. Olhei para ele e estava com os olhos quase completamente fechados. "Não vais adormecer, pois não?? O filme está a ser espetacular, não podes!!". Mas ele não parecia muito convencido com as minhas palavras. "Acho que não vou aguentar..." Comecei a pensar que estávamos desde manhã sem tomar café e decidi agir. O filme era bom demais para ele o desperdiçar. "Vou buscar-te um café!!". Olhou para mim meio a dormir "Não vai resultar, está a dar-me uma quebra enorme...". Não, não podia ser!! Eu ia lutar contra aquele sono! E ia conseguir com um simples café. Em dois minutos ele estaria mais acordado que nunca, tinha a certeza.

Olhei para o lado dele e estava imensa gente sentada, principalmente senhoras de idade bastante espaçosas. Do meu lado, apenas um senhor. Nem hesitei. Pus-me a pé e decidi sair por aquele lado da sala. (Já sabem: sala número 5 do El Corte Inglés, se um dia forem lá lembrem-se de mim!) Pé ante pé, muito curvada para não incomodar nas filas de trás, lá fui até às escadas. A dada altura, percebi que o filme estava mergulhado na escuridão total e absoluta e não conseguia ver nada. Encostei-me à parede e fui descendo os degraus, à procura da porta de saída. Só que a porta não chegava. Quando os degraus acabaram, comecei a andar para um lado e para o outro, a tentar forçar a parede até empurrar também a porta de saída, que estaria algures naquela escuridão. Nada. Nem sinal de porta.
Até que lá vi uma placa verde no meio daquele negro total. Fui até lá e abri rapidamente a porta. Um barulho ensurdecedor a porta enferrujada e com dez toneladas. Por trás da porta, uma luz imensa entrou pela sala e iluminou parte da sala de cinema. Espreitei. Era a saída de emergência e aquilo era um corredor com mau aspeto. Não era nenhuma saída. Fechei a porta, a sentir-me de todas as cores. Não podia voltar para o meu lugar, por isso, inspirei fundo, envergonhada, e decidi atravessar a primeira fila a pé até ao outro lado, onde estava a saída (pelos vistos, a única da sala). Sei que estou grávida de sete meses, mas nesse momento senti-me a mulher mais grávida que alguma vez pisou este mundo. Senti-me enorme, descomunal, desengonçada e mais opaca que nunca. Curvei-me o mais que pude e atravessei aquela sala, tapando a parte inferior da tela de cinema, com certeza a fazer as sombras dignas dum assustador Corcunda de Notre Dame obeso e grávido de trigémeos.

Quando saí da sala, apetecia-me ir queixar-me aos funcionários do cinema. "Então só algumas salas têm duas entradas?? Deviam por um letreiro nas salas que têm só uma entrada para avisar as pessoas!! Ainda no outro dia fiquei na sala 9 e tem duas entradas! Por que é que a 5 não tem?". Apetecia-me compreensão. Apetecia-me que a direção do cinema viesse ter comigo para me dizer algo como "Tem toda a razão. Não é distraída, nós é que estamos errados. Isto acontece a toda a hora. Temos mesmo que fazer algo. Pedimos imensa desculpa pelo sucedido." Só que, no fundo, no fundo, eu sabia que a culpa era minha. Apenas e só minha.
Quando regressei à sala, com dois copos de café na mão, o filme estava a meio duma tórrida cena de sexo e eu quase me enganava na fila. Por pouco não entornava café nas pessoas da fila errada enquanto os "Ohh ahhh" ecoavam das colunas. Só que, naquele momento, já nada me poderia deixar envergonhada. Sentei-me finalmente, contente por estar de volta, sã e salva.
- Que cena foi aquela há bocado? Decidiste que querias sair pela saída de emergência?
- Enganei-me. Não gozes.
A parte boa? Passou o resto do filme acordadíssimo, a rir-se, a comentar partes,... Não sei se foi da cafeína, se foi da minha triste cena, mas o meu objetivo foi cumprido: ele não adormeceu e tenho a certeza que gostou tanto do filme quanto eu. Quanto aos outros... Bem,
para todos os efeitos, estou grávida. E não se goza com as grávidas, certo? ;)

sábado, 22 de fevereiro de 2014

"Então e a Malti, deste-a para adoção?"

Perguntaram-me no outro dia o que era feito da Malti. “Ainda consegues dar-lhe a atenção que davas antes? Quando tiveres a bebé vais deixá-la a viver com alguém? Sabes que é perigoso deixar um cão e um bebé sozinhos, não sabes? Ela não vai ficar ciumenta com a atenção que vais dar à bebé?”

Pronto, hoje é o dia de explicar o que é, então, feito da minha cadela e porque é que não a tenho mostrado muito por aqui. Mas, antes de mais, vou deixar outra pergunta no ar: há quanto tempo é que não mostro fotos minhas? Pois… A verdade é que não tenho simplesmente tirado fotos, nem sequer à noite andamos sempre pelo me minha barriga. Não sei se é pelo tempo horrível que tem estado, não sei se é porque passeio mais a minha cadela à noite, mas não tenho simplesmente registado fotograficamente os últimos tempos. Ainda por cima, passou as últimas semanas com o cio e é uma fase terrível. A veterinária disse-me que aconselhava a castração, mas só de pensar nela espalmada numa mesa de operações, só de pensar na barriguinha dela a ser aberta com um bisturi, para lhe retirarem o útero e os ovários,… não sei, mas parte-me o coração. Tenho preferido aguentar os pretendentes caninos à espera, à porta de casa, dia após dia. Tenho preferido aguentar o mau humor dela e as tentativas de fuga para amar. Tenho preferido aguentar a logística que o cio duma cadela envolve.

A verdade é que a Malti é parte da minha vida. Não consigo imaginar não acordar com ela ao lado. Não consigo imaginar não ir passear aos fins-de-semana e não a levar. Vai comigo para todo o lado, escolho os hotéis onde vou de férias com base no critério de aceitarem animais, muitas vezes almoço em esplanadas mesmo com mais frio, porque é onde os animais podem estar.

Sei que nem toda a gente vê os animais da mesma forma. Na minha família, por exemplo, a minha avó paterna acha os cães não devem entrar nas casas – devem viver na rua, dormir numa casota e o convívio com os donos resume-se aos momentos em que o dono os vai alimentar ou mandar para a casota dormir. No início, fazia-lhe confusão ver-me chegar a casa dela com uma cadela no banco do passageiro ou a “surfar” no separador no meio dos bancos. Fazia-lhe confusão ver-me entrar com ela na sala, ver que ela se sentava aos meus pés durante as refeições, ou até que ia para sofá e que a cadela me seguia.

- A tua cadela é como se fosse tua filha, não é?

- Não, é mais como se fosse uma amiga.

- E não a castraste?

- Não. Até te digo mais, vó. O plano é termos filhos ao mesmo tempo. Queria partilhar com ela a experiência da maternidade. Queria ir para o hospital ao mesmo tempo que ela, ficarmos ali no mesmo quarto, a soro, com os nossos bebés na caminha ao lado. Assim, quem nos fosse visitar via logo os nossos filhos todos ao mesmo tempo. Parece-te bem?

A minha avó riu-se imenso desta história que inventei apenas para a escandalizar, riu-se, riu-se, como se eu estivesse maluca. Eu estava apenas a tentar chocá-la, claro que não tinha planos nenhuns destes. No entanto, quando, no outro dia, me perguntou - Então a Malti, já está grávida? senti que me tinha dado 1 a 0 em sentido de humor.

De qualquer dos modos, tudo isto serve para explicar que, mesmo com a gravidez, a minha cadela continua a fazer parte da minha família. E não conseguia imaginar de outra forma. Acredito que, como família, vai aceitar bem o novo membro que aí vem. Não, não vou mandá-la para lado nenhum quando tiver uma bebé em casa. Não, não vou ter mil cuidados e medos na interação entre as duas. Acredito que vai tudo correr bem, até porque quando escolhi a raça pensei nisso, numa raça que interagisse bem com crianças. E todas as descrições que li iam nesse sentido.

Somos uma família. Ela tem quatro patas. É mais burrinha que nós. E mais peluda também. Mas adoro-a na mesma e escolhi-a para partilhar a vida conosco. Por isso, a resposta a todas as perguntas é simples: “está sempre conosco. Sempre”. E só espero que a minha filha venha a gostar tanto dela como nós gostamos.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Uma história de amor dos tempos modernos

Li a notícia ao acordar: o Facebook vai comprar o Whatsapp. Li os termos em que a compra foi feita, li o número de utilizadores diários que trocam mensagens instantâneas, li os euros envolvidos… Mas não consegui deixar de pensar sempre na Samantha, enquanto lia tudo. E quem é a Samantha? A Samantha é a protagonista do filme que fui ver ontem, o “Her”. Em “Her – Uma história de amor”, de Spike Jonze - passado num futuro próximo em que Los Angeles se assemelha a Xangai, cheio de arranha-céus, neons e luz, - as pessoas passeiam na rua sorridentes e com ar feliz. As pessoas transportam consigo uma aura de calma e tranquilidade. No entanto, se nos aproximarmos e olharmos bem, vemos que as pessoas não se olham. As pessoas passeiam sozinhas no seu mundo, com auriculares nos ouvidos, enquanto têm longas conversas com alguém que não está ali. As pessoas comunicam à distância, sorriem a quem está separado por quilómetros, enquanto ignoram quem está ali ao seu lado. Partilham o mundo com outra pessoa ao longe, mas isolam-se de quem está perto. E, de repente, o ar feliz e sorridente é visto de outro ângulo, e detetamos uma alienação naquele olhar, detetamos uma solidão profunda e um vazio total. A dada altura, surge um sistema operativo inteligente e intuitivo que vai ajudar estas pessoas do futuro a realizarem as suas tarefas quotidianas, que vai acompanhá-las e, quem sabe, preencher aquele vazio, terminar com aquela solidão.

O sistema operativo do nosso protagonista, o Theodore, chama-se Samantha. A Samantha é tudo o que uma mulher deve ser: tem uma voz quente e sexy, uma voz que sorri e faz sorrir, está sempre presente, quer ajudar o Theodore a ser uma pessoa melhor, diverte-o, quer saber tudo sobre ele, admira-o, adora a companhia dela… Só que Samantha não existe, Samantha não tem corpo, a Samantha são só palavras. E o assustador é que, a dada altura, o Theodore parece ser mais feliz com essas palavras que muitos homens com uma mulher de carne e osso.

Por isso, a pergunta coloca-se: o que é necessário numa história de amor? O que é o amor? É o que está para além do físico, é a partilha dos pensamentos, dos sonhos, das angústias, dos medos, dos desejos,…? O amor é rirem-se do que dizemos, fazerem-nos rir e preencherem-nos neste plano imaterial? O amor pode viver nas palavras, apenas? Sem um abraço, um beijo, um olhar? Ao vermos Theodore a falar com Samantha, acreditamos que sim.

E ao ler a notícia de hoje sobre o Facebook que comprou o Whatsapp foi nisto que pensei. Quantas Samanthas terão sido compradas hoje? E quantos Theodores estarão aí preparados para se apaixonarem por palavras? As palavras são importantes, os pensamentos são essenciais. Mas vai sempre fazer-me confusão imaginar um futuro próximo semelhante ao do filme, em que pessoas sorriem na rua, não a quem passa ao seu lado, mas a alguém que não está ali. As palavras são importantes, os pensamentos são essenciais. Só que acredito que, no final, vamos sempre querer desligar as palavras e encostar a cabeça num ombro, quente, acolhedor e real. Apenas assim, em silêncio, e celebrando a existência no aqui e agora.

Ps: se não forem ver o filme, oiçam pelo menos a banda sonora. Foi aprovada pela minha mini matrioska, que se fartou de dar pontapés enquanto a ouvia. E pareceram-me pontapés de prazer. :p