terça-feira, 1 de julho de 2014

Sê tu mesmo

Hoje, em conversa com uma pessoa amiga que me dizia que ia ter uma entrevista importante, lembrei-me de algumas frases com que embirro e que são geralmente ditas e repetidas nestes dias:
- Sê tu mesmo.
A questão é: será que alguém decide, em plena entrevista, encarnar outra pessoa?... Este conselho sempre me pareceu tão vão...
- Parte uma perna.
A última vez que me disseram esta frase parti literalmente a perna, por isso, fiquei com particular aversão a esta.
- Vou ficar a torcer por ti.
Aqui talvez seja o meu lado infantil a falar, mas sempre que dizem isto imagino-os em modo contorcionista chinês de seis anos, todos torcidos sobre si mesmos, com as pernas enroladas à volta da cabeça.

Assim sendo, geralmente opto por dizer apenas, nestes dias decisivos: "espero que corra bem". E fico honestamente à espera que corra bem, de telemóvel na mão, a acreditar que, se a sorte protege os audazes, o sucesso protegerá quem tem mérito, garra e dedicação. Mesmo sem conselhos sábios e gastos.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Este não é um texto sobre moda*

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Não se deixem enganar pela fotografia, tirada no casamento que tive no último fim-de-semana: este não vai ser um texto sobre moda. O vestido da imagem tem cinco anos e comprei no El Corte Inglès, na Studio Classics, que é uma marca que só conheço de ver lá. As sandálias têm também dois ou três anos e são da Schutz, marca que adoro, mas onde só me atrevo a comprar de vez em quando. O cabelo foi esticado em casa e a pulseira com o infinito e pendente com o "mum" foi presente de Natal, é da Tiffany, e já a mostrei melhor aqui. Nada de novo e a gritar "novidade-2014!!", portanto. Lamento...

Não se deixem enganar pela fotografia, repito: este pretende ser apenas uma prova de que, após mês e meio de se ter um bebé, é possível metermo-nos nas roupas do "antes". Há um longo caminho a percorrer, e custa ver que, de repente, todo o mundo se concentrou na imagem, no ginásio, nas corridas, nas sementes, nas zumbas, nos sumos, nos grãos, nos abdominais, enquanto nos concentramos nas fraldas, nas vitaminas, nas vacinas, nos carrinhos, nas roupinhas, nos toalhetes, e nos cremes para bebés. Há um looooongo caminho a percorrer, mas hei-de percorrê-lo com calma. Coube num vestido de 2009 e isso já foi um grande passo para mim.

* E, no entanto, como me perguntavam várias vezes as marcas das roupas que mostrava aqui, foi a primeira vez que optei por mencioná-las logo desde o início. Não falei sobre moda, mas, pensando bem, também nunca estive tão perto.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

O pai e a mãe do recém-nascido - descubra as diferenças

Cenário 1
Mãe está com o filho recém-nascido ao colo e este chora.
Consequência:
Surgem logo mil fiscais-da-mama, trezentos fiscais-do-frio, cento e quarenta fiscais-do-calor, sessenta fiscais-da-fralda e vinte e nove fiscais-da-chupeta, a correr de todos os cantos, em sobressalto, como que a responder a um chamamento qualquer e à obrigação de educar a mãe novata, perguntando, sábia e rispidamente:
- Será fome? Há quanto tempo deste de mamar? O teu leite será suficiente? Estás a dar suplemento?
- Terá frio? Não devias aquecer esses pezinhos? Não terá o peito descoberto? Não será melhor por um cobertor? Não será melhor vestir um casaquinho?
- Terá calor? Não está transpirado? Não será melhor tirar as meias? Não queres tirar o casaquinho?
- Terá feito cocó? Já mudaste a fralda? Serão cólicas? Fizeste massagens?
- Não queres experimentar por-lhe a chupeta? Não queres insistir para se habituar?

Cenário 2
Pai está com o filho recém-nascido ao colo e este chora.
Consequência:
Surgem logo mil quinhentas e vinte e nove mães, a correr de todos os cantos, como que responder a um chamamento qualquer:
- Ohhhhh!!
- Que querido!
- Que jeitinho...
- Ohhh...
- Está a chorar? Coitadinho!
- Ohhh... Queres ajuda?

É verdade, ser mãe pela primeira vez no meio de mães mais experientes é lixado. Os fiscais andam sempre em cima. Ser pai é tãaaao mais fácil, não me venham com tretas. A mãe tem todos os seus passos serem analisados: é a mama que tem que dar leite a toda a hora (e do bom!), é a temperatura que está sempre em mudança e deve ser refletida na roupa, é a fralda que tem que ser mudada, é a forma como se pega ao colo no bebé, é tudo... Ser pai é tão, mas tão mais fácil. E não, não estou ressabiada com nada nem com ninguém, mas é uma constatação que tenho feito desde os dias em que estive na maternidade e da análise de outras famílias também. De certa forma, a sociedade exige perfeição das mães no contacto com os filhos. Dos pais? Exige apenas a sua presença. Sim, a sua sociedade é machista. Mas o que é mais triste é que, muitas vezes, este machismo começa nas próprias mulheres. Por que será? Por que nos sairá um "ohhhh" automaticamente se vemos um pai pegar num filho e, se vemos uma mulher, já desligamos o botão do "oh" e buscamos apenas mais e mais perfeição? Por que será que somos tão mais críticas com as outras mães e totalmente condescendentes com os pais? Não deveríamos, em pleno século vinte e um, ter evoluído para a total igualdade de sexos também nestes cenários? Se isto fosse o outro programa de rádio, terminaria dizendo "vale a pena pensar nisso"... Como não é, resta-me ir embora e pensar nisto mais um bocadinho. Juntem-se a mim se quiserem. ;)

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Ainda és desse tempo?

Hoje acordei a sentir-me cheia de energia (benditas seis horas de sono!!) e determinada, entre outras mil coisas, a por em dia a leitura dos meus blogs preferidos. E uma das vantagens de ler é que, estava a "nostalgiar-me" com este post da Loira (que não conheço pessoalmente, mas que me parece uma mulher cheia de graça) e lembrei-me dum episódio recente. Sim, porque às vezes ler e conhecer os outros, é conhecermo-nos também a nós mesmos e revivar a nossa própria memória.

Pois então aqui há meia dúzia de meses encontrei, num aniversário dum tio, uma cara familiar. Ela teria cerca de quarenta anos, era uma mulher bem parecida e com um sorriso simpático. Olhou para mim e eu olhei para ela. Desviámos o olhar. Eu conhecia-a, mas de onde? Voltei a olhar. Ela, talvez sentindo o olhar, olhou também. Sorriu timidamente. Eu respondi ao sorriso fazendo um sorriso "meio-termo", daqueles que servem para cumprimentar quem não temos a certeza se conhecemos bem ou não. Continuei a falar com as minhas primas e esqueci aquilo, talvez fosse apenas alguma amiga dos meus tios e já nos tivéssemos cruzado neste tipo de jantares. É, talvez fosse isso. Mas passado uns minutos, oiço um "Oláaa!! Já sei de onde a conheço! Bem me parecia!!". Olhei para trás.
- Foi minha aluna no secundário!
- Ahhh...!!
- Introdução às Técnicas de Informática.
- Sim!! Tem razão!
- Bem me parecia. Comentei com a sua tia que a conhecia e pelo seu nome cheguei lá.
- Oh professora, desculpe! Como estávamos noutro contexto não a associei ao secundário. Tem toda a razão, fui sua aluna.
E acrescentei, com toda a sinceridade, que a professora estava exatamente igual desde há dezasseis ou dezassete anos atrás. Conversámos um pouco, perguntou-me pelo meu percurso profissional, falámos da minha vida pessoal, da gravidez, etc, até que, a dada altura, comentei com ela:
- Professora, estava agora a pensar e julgo que a última vez que trabalhei com disquetes foi nas suas aulas.
- Disquetes...?
- Sim, e a última vez que trabalhei com o MS-DOS.
- Oh... ainda é desse tempo?
- Sim...
- Ai que agora fez-me sentir tão velha.
- Oh professora, não diga isso, se não, também me sinto velha...!

O que é certo é que, de repente, no meio de uma multidão de adultos e até crianças com iPhones e iPads com internet e wifi, fomos transportadas para esses longínquos anos 90, em que, se queríamos ligar-nos à internet, tínhamos que esperar, pois o modem demorava minutos a ligar e fazia imenso barulho - piiiii piiiii piiiiiiiiii. Fomos transportadas para esse tempo em que uma disquete servia apenas para guardar documentos em Word, PowerPoint ou Paint, em que uma música demorava dias a "sacar", em que as conversas se tinham no mIRC e em que cada página da internet demorava segundos a carregar. Esse tempo do MS-DOS, do C-dois-pontos-parágrafo.

Sim, sou desse tempo. E dei por mim a lembrá-lo cheia de nostalgia, como se lembrarão os nossos pais e avós do momento em que viram a primeira televisão a cores, o primeiro computador ou o primeiro telemóvel. Nostalgia, não tristeza ou saudades, porque felizmente sou do tempo em que tenho a certeza que sou mais feliz agora que aquilo que era nesse tempo que passou.

domingo, 22 de junho de 2014

O sorriso que me deste

Sábado de manhã. Acordar com as temperaturas a fazerem (finalmente!) lembrar o verão. Olhar lá para fora e ver o céu completamente azul a perder de vista. Decidir passar o dia junto ao rio, perdidos no meio dos recortes verdes das montanhas. Sorrir perante a possibilidade de andar de barco. Nadar. Bronzear. Dar uns mergulhos e umas braçadas no rio ou na piscina. Preparar as toalhas, o protetor, as havaianas, o saco da bebé. Andar uma hora e meia de carro. Sim, a promessa do dia paradisíaco fazia valer a pena a viagem. Chegar ao destino. Pegar em tudo, por a bebé na alcofa à sombra, a dormir. Despir. Ficar em bikini. Inspirar. Meter a barriga para dentro. E depois decidir assumir sem complexos o corpo imperfeito de um-mês-pós-parto. O dia estava bom demais para dramas desse tipo. Fechar os olhos. Sentir o sol a tocar a pele, finalmente. Abrir os olhos. Olhar para a piscina e para o rio, lá em baixo. Saborear os momentos de tranquilidade antes de mergulhar. Aiii, rico dia, finalmente!! Até ouvir um choro. Tímido, primeiro. Seguro, depois. E cada vez mais alto. Pegar na bebé. Pegar na bebé, que pelos vistos detestou o calor e queria atenção. Pegar nela e não conseguir voltar a deitá-la o resto do dia, sem que desatasse novamente a chorar de forma desalmada. Piscina? Rio? Sol? Esquecer tudo. Azar... Sol há sempre. E aquele sítio também. Pegar na bebé e ficar à sombra o resto do dia, a ver a paisagem paradisíaca à distância de um choro.

Sábado à noite. Jantar, cada um a pegar na bebé à vez. Despedir-nos do destino. Entrar no carro. Ligar a música. Fechar os olhos. Desfrutar do silêncio, finalmente. Até ouvir um choro. Tímido, primeiro. Seguro, depois. Será fome? Fome será certamente. Olhar para o relógio. Constatar que faltam 45 minutos para chegar ao destino. Decidir saltar para o banco de trás, tirar a bebé do ovo e dar-lhe de mamar. Nisto, reparar que o carro parou. Olhar para fora. Ver, com estupefação, dezenas de caras desconhecidas a olhar para dentro do carro no exato momento em que eu tinha posto a mama de fora para lhe dar de mamar. Pelos vistos tínhamos passado no meio duma festa popular qualquer que tinha ocupado parte da estrada onde passávamos. Oiço-o só comentar virado para trás, meio engasgado: "Pior timing era impossível, não era?". Sim, pior timing era completamente impossível. Escondo-me como consigo. Dou por mim a maldizer com todas as forças aquele sábado, 14, que é pior que mil sextas, 13.

Chegar a casa, cansada e rabugenta. Pegar na bebé. Prepará-la para por a dormir, a sentir-me em modo zombie, a dizer mal do meu dia. De repente, ei-lo. Ali, no meio da escuridão, apenas iluminado pelo candeeiro ao longe da mesinha de cabeceira. Primeiro, duvidei. Seria mesmo? Olhei para outro lado. Voltei a olhar. Seria? Seria? Mas ali estava mesmo. Confirmava-se! O primeiro sorriso da minha bebé querida. O primeiro sorriso rasgado, a desafiar todo o meu cansaço e rabugice. O primeiro sorriso... E repetiu-se. E eu a sorrir também, de modo pateta e descontrolado, sem conseguir parar de sorrir, e depois a rir, e a rir, sem conseguir parar de rir até doerem os músculos da cara. De repente, aquele sábado era um dia radiante e maravilhoso. O cliché do sorriso duma criança. Tornei-me uma pessoa que diz clichés como "nada bate o sorriso duma criança". Mas como não dizer? Não é uma criança qualquer. É a minha filha, que há um mês estava ainda dentro de mim. E riu-se. Riu-se para mim. Que dizer? Fez o meu dia. Sábado, catorze? Fica para sempre assinalado, sim. Mas pelos melhores motivos.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

As duas versões da história

Sábado tive um casamento dum casal de que gosto muito e a quem desejo as maiores felicidades. Sábado tive um casamento e estava excitadíssima não só por, enquanto romântica incurável, adorar celebrar o amor, mas também por ter saudades de festa a sério. Sim, tinha saudades de ter um pretexto para me embonecar, tinha saudades de usar saltos altos, arranjar o cabelo, usar vestidos de festa e acessórios. Passei as últimas semanas por casa, a sair apenas por períodos muito muito curtos, e estava realmente com saudades de ter uma festa com tudo a que tinha direito. A bebé ficou em casa dos meus pais, tirei leite nos dias anteriores e congelei, por isso, até podia beber álcool pela primeira vez em quase um ano sem pesos na consciência... Os dados estavam lançados para ser um dia em grande - e foi. Só que, como em todas as histórias, também esta tem uma versão completamente cor-de-rosa e outra mais realista.
Versão 1
O casamento foi um sucesso a todos os níveis. Quanto à parte que me toca, fiquei com o ego em cima de tantas vezes ter sido abordada por outras mulheres com comentários do estilo: "Estás igual, parabéns!!", ou "Inacreditável que tenhas acabado de ser mãe, estás ótima!!" e por aí fora. Sim, uma pessoa pode dizer que entra por um ouvido e sai por outro, mas há uma parte dos elogios que ficam e fazem bem à auto-estima, não há como negar. Comemos muito bem, dançámos até às 3 da manhã, bebi gin pela primeira vez em muitos meses, pus as conversas em dia e aproveitámos para namorar muito. Sim, foi um sucesso.

Versão 2
O casamento foi um sucesso, mas eu não estava nada igual a antes de engravidar, apesar dos simpáticos elogios. Horas antes, após tentar dois vestidos que não serviam, mesmo com a ajuda da minha mãe - "filha, desiste, vais estragar o fecho, isto não aperta!! - e estar quase a desistir, houve finalmente este vestido que me serviu, não sei como, porque até parece bem justo na cintura. Dois dias antes, a minha amiga B. - obrigada!! - tinha-me emprestado uma cinta para o pós-parto, que apertava tudo e me deixava quase sem respirar. Magreza, a quanto obrigas!! Pensei que com a cinta podia caber em qualquer trapinho dos meus tempos pré-gravidez, mas mesmo assim só a terceira consegui entrar num vestido. Imaginem a frustração... Por outro lado, durante o casamento, os meus pais estavam sempre a mandar fotografias e vídeos da bebé, o que me deixou com o coração nas mãos e gradualmente mais ansiosa por voltar para casa. Também gradual foi o crescimento das mamas. Quem já deu de mamar sabe do que falo. Pode parecer espetacular (visualmente para mim até é), mas fiquei quase a explodir e a sentir imensa pressão. Conclusão: no final da noite, quando cheguei a casa, foi com uma alegria incontrolável que saltei dos saltos, arranquei o vestido e a cinta, respirei finalmente e abracei a minha filha como se não a visse há meses, não a conseguia largar. Acho que quase a afoguei em beijos.

Agora digam lá: que versão preferem? O glamour da primeira, certo? Também eu. Mas não seria inteiramente verdadeira se não vos contasse as duas. Sim, ser mãe é um novo mundo. Não são só os sorrisos que vemos na Caras, em que famílias numerosas com roupas a condizer, cabelos brilhantes e dentições perfeitas posam, elegantemente. Ser mãe também é isto tudo que contei aqui na segunda versão. Pode não ser só glamour, mas é o maior amor do mundo e sinceramente tem compensado tudo. No final da festa, após só umas horas separadas, vieram-me as lágrimas aos olhos de saudades da bebé. Nem um mês tem e já me faz isto. Quero ver onde vou chegar ao fim de alguns anos...

sexta-feira, 30 de maio de 2014

E foram dias e dias...

(Caros leitores sádicos amantes de drama e sangue, os relatos do dia D retomarão dentro de momentos. Este post é apenas uma pausa, porque a autora do blog hoje quis desabafar sobre a licença de maternidade. Ok? Pode ser? Obrigada. O drama e o sangue regressarão rapidamente, para vosso gáudio.)

Nos últimos meses trabalhei o mais que pude sempre a pensar que no fim seria recompensada com dias, e dias, e dias em casa a descansar com a minha filha nos braços. Nas imagens que o meu cérebro me ia passando em modo repeat via-me sorridente e impecavelmente vestida, no sofá, com a minha filha nos braços, um piano como música de fundo, um batido verde já meio bebido na minha mão direita, um livro aberto ao meu lado, a Malti aos meus pés... Essas imagens passaram tantas vezes, qual vídeo motivacional, que acabei por me convencer que a licença de maternidade seria realmente assim. Acreditei que estaria quatro meses em casa com todo o tempo do mundo para fazer o que quisesse, para atualizar o blog dez vezes ao dia, para voltar a comentar os meus blogs preferidos, para por as leituras em dia, as notícias, os filmes, as séries... Acreditei que teria uma espécie de férias zen com o bónus de ter a minha bebé para abraçar e encher de beijos.

Ora, de facto estou realmente a ser compensada e sinto-me de férias, sim. Só que as semelhanças com a imagem que descrevi terminam aqui. Nem para dormir arranjo tempo. Entre dar de mamar, por a arrotar, dar de mamar outra vez porque já-está-com-ar-ávido-agarrada-aos-dedos-e-a-tentar-come-los-como-se-fosse-um-urso-saído-da-hibernação, por a dormir, pegar outra vez porque "bolçou", limpar a roupa, mudar a fralda, mudar o muda-fraldas todo porque fez xixi e molhou tudo, mudar a roupa, deita-la, dormir 2 horas, pegar outra vez, dar de mamar, e assim sucessivamente...  parece que os dias duram 5 minutos... Ainda nem o IRS entreguei (vamos ver se é hoje que o fazemos), não consegui passar as mais de 600 fotografias que tirei com a máquina para o computador, e também nada de leituras, notícias, filmes ou séries.

No meio disto tudo, a parte boa é que já tenho praticamente o mesmo peso que tinha antes de engravidar. Posso estar mais molezinha que nunca (que belo eufemismo para "flácida", hã?), com barriga de 3 meses (também nunca usei cinta), mas pelo andar da carruagem acredito com todas as minhas forças que no próximo dia 6 conseguirei caber num dos meus vestidos pré-gravidez para ir ao casamento que temos. Nem que tenha que me enfaixar em cintas e ficar sem respirar um dia inteiro.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

O dia D #3

(Primeira parte: aqui; segunda parte: aqui)

À medida que vou crescendo vou aprendendo que as certezas são realmente absolutas e imutáveis... mas apenas no exato momento em que surgem. Aprendi a admitir que (pelo menos as minhas certezas) têm muitas vezes a eterna duração de um instante. Sim, voltando ao tema do parto, eu tinha a certeza que queria que este fosse o mais natural e espontâneo possível, com o mínimo de intervenção da medicina. Tinha a certeza que queria que fosse a minha filha a escolher a data, e não eu ou algum médico. Tinha a certeza que iria portar-me bem durante o parto e que aguentaria bem todas as dores ou stresses, pois não tinha qualquer tipo de medo ou ansiedade - estar mais calma era praticamente impossível. Tinha a certeza que o momento em que visse a minha filha seria o momento mais especial da minha vida e conseguiria saboreá-lo, tal como consegui saborar o dia do meu casamento. Eu tinha também a certeza que ser mãe seria instintivo para mim, tal como dar de mamar, acalmar os choros da minha filha, pô-la a dormir ou conciliar o ser mãe com a minha vida amorosa e social. Tinha ainda a certeza que, logo após o parto, o meu corpo iria voltar ao normal num ou dois dias, pois tinha praticado desporto e tinha-me mantido muito ativa até praticamente o momento do parto. Sim, toda eu eram certezas. Só não sabia é que toda eu eram certezas tão eternas como a eternidade dum piscar de olhos.

Retomemos então do ponto em que ficámos no último post. A magia do dia? Sim, tinha decidido que em circunstância alguma provocaria o parto. Parecia-me contra natura, pouco romântico. "Provocar nunca, quem decide é a minha filha!" Mas o que fazer quando trabalhamos longe de casa e corremos o risco de entrar em trabalho de parto longe de tudo e de todos? O que fazer quando o médico em quem confiamos nos diz que, se o queremos 100% disponível, aquele dia seria o melhor? O que fazer quando até estamos apenas a 2 dias do tempo de parto completo e da data em que fazemos 40 semanas? Eu queria magia, sim. Queria surpresa. Queria muito romantismo. Queria acordar um dia a meio da noite, sentir que as águas tinham rebentado, como acontece sempre nos filmes, virar-me para o lado, chamá-lo baixinho e dizer "é agora!". Mas, como disse, estava a 2 dias de fazer as 40 semanas e nada disso tinha ainda acontecido. Assim, perante a inevitável pergunta, decidi pegar nas rédeas da gravidez da única maneira possível, e responder a mim mesma, entredentes: "vamos a isto". Além disso, pensando bem: haverá algo mais romântico que uma mãe que já não aguenta mais um dia de existência sem conhecer a filha?... Eu já não aguentava nem mais um dia sem poder abraçar a minha filha, precisava de a ver, precisava de a ter cá fora comigo, precisava de senti-la real.
- Vamos a isto, respondi, agora bem alto.
- Muito bem. De qualquer maneira, não sabemos como é que o teu corpo vai reagir. Pode ser rápido, mas pode durar muitas horas e podemos ficar aqui até amanhã... Isto acelera o processo, mas cada corpo reage de forma diferente.

Enquanto me encaminhava para as enfermeiras, peguei no telemóvel e liguei-lhe logo (apesar de estar apenas a metros de mim, à espera no hall de entrada de obstetrícia).
- Vão por-me ocitocina no soro. Vai começar tudo. Agora é ver como é que o corpo reage, pode ser rápido ou não. Está quase. Está quase... Vamos conhecê-la.
Do outro lado, a voz que denunciava a mesma alegria que do meu lado. A enfermeira levou-me então até um quarto. Pediu-me as malas para guardar num cacifo e a primeira roupa da bebé para preparar. Percebi que ia tudo tornar-se finalmente real. Dei-lhe as roupinhas, não sem antes confirmar se a quantidade de peças seria a adequada (body interior, calças interiores, babygrow, gorro - a enfermeira quis ainda acrescentar meias e um casaco). Levou tudo para um canto do quarto e começou a preparar a primeira toilette da bebé. Foi então que reparei que, nesse canto, havia uma balanca, estetoscópio, réguas e diverso material clínico que não soube identificar. Ao lado, um pequeno lavatório. Em cima da cama (que calculei que fosse para mim), toda uma diversidade de tubos e máquinas. Não resisti a perguntar, apesar de já antever a resposta:
- Desculpe... O parto faz-se no bloco operatório, não é?
- Não, querida. O parto faz-se aqui.
Aí, sim, admito que senti finalmente um friozinho no estômago...
- A seguir peço-lhe que vista a camisa de dormir e se deite, porque vou por-lhe o soro, ok?
Obedeci. O friozinho ia aumentando. Preparou o soro.
- Já puseram ocitocina?, perguntei-lhe.
- Já. Agora é esperar... Se quiser acelerar o processo pode ir passeando no corredor, desde que leve o soro atrás. Também temos uma bola de pilates, se quiser fazer exercício. Quando tiver dores, carregue neste botão, por favor.

Peguei no soro, fui à socapa ter ao hall de entrada chamá-lo e fomos os dois passear corredor fora, sem saber muito bem o que esperar. Lá fora, o sol ia ainda alto, bem alto. Cerca de duas horas depois, sem desenvolvimentos, pedi a bola de pilates à enfermeira e pus-me a inventar todo o tipo de exercícios, enquanto ele gritava "cuidado!!". (Confesso que na altura não percebi por que estava tão preocupado comigo - eu estava a exercitar-me em cima da bola de pilates a protagonizar momentos de extrema delicadeza, elegância e equilíbrio. Só a ver as fotografias mais tarde percebi que a extrema delicadeza era afinal a delicadeza de um elefante em cima duma pequena bola. Eu estava gravidíssima!!) Nesse momento ainda estávamos oficialmente divertidos, a tirar fotografias a tudo, e a conversar animadamente sobre tudo e mais alguma coisa. No entanto, aos poucos, eu começava a ficar um pouco irritada por não sentir grandes contrações. De vez em quando, alguma enfermeira ou médico ia ao corredor chamar-me para me ir deitar na cama, medir as contrações e fazer novo toque (sim, eu avisei que iam sentir-se "Os Maias"!!). Nada de relevante, pelo menos para mim. Para as enfermeiras, no entanto, eu estava a ser uma heroína:
- Tem grande resistência à dor, não tem? É notável.
- Não... Na realidade ainda não senti dores nenhumas.
- Pois, por isso mesmo. Já era suposto ter imensas dores e estar a queixar-se.
As enfermeiras saíram, deixando-o admirado a olhar para mim.
- Ouviste? Estás a portar-se maravilhosamente bem. "Grande resistência à dor", foi o que disseram.
- Oh... cala-te. Não tenho nada resistência à dor. Resistência à dor é ter dor e aguentá-la. Eu ainda não tenho dor nenhuma para aguentar. Nada. Acredita em mim. [o final do dia viria a dar-me razão]

E assim tudo continuou, entre passeios, exercícios na bola de pilates, medição de contrações e toques. Lá fora, o sol ia descendo, lentamente, no horizonte. A dada altura, os quatro futuros-avós lembraram-se que eram muito católicos, e que o dia treze de maio era o dia mais especial da história da humanidade, por mil e um motivos, e concluíram em uníssono que adoravam que a neta nascesse no dia treze de maio, isto é, depois da meia-noite. Começaram a congeminar juntos ao ponto de me ligarem e ficarem contentes quando eu dizia que ainda não havia novidades. Comecei a ficar preocupada que, com tanta religiosidade e congeminação coletiva, o dia se prolongasse horas e horas e que fossem feitas as suas vontades. Só que, de repente, algo aconteceu (por sorte estava deitada): comecei a sentir-me molhada.
- Acho que as águas rebentaram!!
Finalmente... Podia ser do raio da ocitocina que me estava a entrar nas veias, podia ser a minha bebé finalmente a querer nascer, mas o que era certo é que tanto tinha sonhado com aquele momento e estava a vivê-lo: a rutura da bolsa. Chamámos as enfermeiras, que ajudaram a limpar tudo. Depois, mais uma médica nova analisar a dilatação.
- Já está quase...
A frase mais ouvida nesse dia - "já está quase". A médica saiu e ficámos os dois no quarto, a olhar um para o outro, cada vez mais ansiosos. Até que ele teve uma ideia para me (nos?) ajudar a descontrair. E não, não me fez massagens. Não trouxe uma guitarra e começou a cantar para mim. Não pegou num livro de poemas e começou a recitar. Não trouxe velas com aroma a baunilha. Nem me fez um chá de camomila. Bem mais simples que isso:
- É segunda-feira. E se víssemos o novo episódio da Guerra dos Tronos? Já está disponível na internet.

Assim, quando, minutos depois, senti a primeira contração a sério - "aiiii meu Deus!!!" -, e quando finalmente toquei no tal botão "das dores", meia contorcida, as enfermeiras entraram a correr no quarto e depararam-se talvez com um cenário improvável: encontraram, não uma grávida sozinha aos gritos agarrada aos lençóis, mas um casal de ipad na mão, às escuras, a assistir compenetrado a duelos medievais.

(Continua...)

domingo, 25 de maio de 2014

Domingos bons

Podia falar do almoço. Podia falar do filme que vimos depois (o "Rush - Duelo de Rivais" outra vez... estou surpreendida comigo mesma por ter adorado tanto um filme sobre corredores de Fórmula 1... talvez porque é muito mais que um filme sobre corridas, é um filme inspirador sobre força de vontade). Podia falar das eleições europeias. Podia falar do bom tempo que se fez e que permitiu passear finalmente a quatro (Malti sempre incluída, qual irmã mais velha sempre atenta). Podia tentar contar-vos porque é que este está a ser um Domingo tão especial e tentar ser exaustiva com a explicação.

Mas a verdade é que nada disso seria "a" resposta. Nas últimas duas semanas o segredo da minha felicidade tem-se reduzido a quase nada. Nestes últimos dias tenho sido feliz com pouco, muito pouco. Basta um abraço. Um colo bom. Um beijinho repenicado na minha bochecha (dado sem querer, talvez à procura da chupeta). Basta aquele cheirinho de bebé que não me canso de snifar. Sou feliz com pouco. Porque, para mim, é ser feliz com tudo. Isto é tudo o que sempre quis.
Sou feliz a ver televisão no sofá, por exemplo, olhar para o lado e ter esta visão. Não preciso de mais nada. Só mais um beijinho, pronto. E um abraço. E uma snifadela, pode ser...?

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O dia D #2

(primeira parte: aqui)

Tinha marcado no hospital às 8h30. Uma parte de mim estava pessimista e preferia não se entusiasmar por antecipação, pois nada estava ainda determinado e o desfecho da consulta era uma incógnita. No entanto, sabendo que existia a possibilidade de o dia terminar comigo com uma criança nos braços, o meu outro lado mais otimista/prudente obrigou-me a terminar, na véspera, as malas para levar para o hospital com as minhas coisas todas e da bebé. Assim, o lado pessimista permitiu-me estar absolutamente calma no dia anterior, alinhar em ir jantar fora ao nosso restaurante preferido (o nosso restaurante das ocasiões especiais) completamente relaxada, ir para a cama  dormir como uma pedra, sem nenhum tipo de inquietações, e ainda acordar no dia da consulta ao som de música animada, como se nada fosse. Já o lado cauteloso quis, por precaução, arrumar toda a casa na véspera, levar a Malti à tosquia (e 'obrigar' o pai a fazer o mesmo), lavar o carro, e fazer o registo fotográfico de tudo o que ia acontecendo como quem não quer a coisa. Seria o fim da minha vida como a conhecia? Não sabia. Pelo sim, pelo não, ia tentando saborear cada momento com toda a minha força, com e sem objetiva. Assim, no dia, como quem não quer a coisa (mas querendo muuuuito) tirei fotografias ao chegarmos de carro ao hospital, tirei fotografias ao sairmos do carro, tirei fotografias a entrarmos no hospital, fotografias no hall enquanto esperávamos que nos chamassem,... Fiquei com o registo todo da (última) viagem da barriga assim gigante como estava, sem saber que, para aquela barriga colossal, se tratava de uma viagem só de ida. Eu estava num misto de calma e super excitada por novidades. Lembrei-me ainda de criar um pequeno grupo para mandarmos mensagens de telemóvel entre a família mais próxima (nós os dois, pais e irmã) e ia atualizando, qual reportagem em tempo real, para depois comentarem:
- Agora eu a entrar no hospital.
- A minha barriga a preparar-se para contar as contrações.
- À espera da consulta.

Entretanto, ouvi finalmente o meu nome a ser entoado na sala de espera. Entrei para a consulta.
- Olá! Vamos medir as contrações?
O meu lado calmo já não existia. Tinha dado lugar ao lado excitado.
- Siiiiim!! Vamos!
Fui a todo o gás enrolar-me nas fitas para medir as contrações. No fundo estava a rezar para estar já a ter contrações fortíssimas e ser daqueles casos raros de grávidas que estão já prestes a ter um bebé a cair-lhe pernas abaixo e nem se apercebem. Sim, bem lá no fundo eu acreditava que ia ser questão de minutos - nos meus sonhos ter um filho era sempre rapidíssimo, demorava apenas o tempo de abrir as pernas, e eu esperava que fossem sonhos premonitórios. E conseguia até já antecipar a cena e o diálogo entre mim e a enfermeira, após a medição:
- Oh meu Deus!! Já tem contrações fortíssimas e regulares!! Está em trabalho de parto! Não sente nada?
- Não... Realmente não sinto nada...
- É inacreditável o seu poder de resistir à dor. A criança está praticamente a nascer. Deixe-me chamar os médicos!! É uma questão de segundos até estar cá fora. Oh meu Deus! Está já a sair! Continua sem dores?
- Sim, de facto não me dói nada. Desculpe. Não tenho culpa de ser assim...
No meu íntimo, eu desejava ser uma força da natureza, um ser altamente evoluído e concebido para reproduzir. A realidade, no entanto, era outra. Após trinta minutos de "CTG" (o tal exame das contrações), o que ouvi foi:
- Hmm... Tem uma contração ou outra... Mas ainda não é relevante. Vamos fazer o "toque"?
Frustrada, e irritada por não ser afinal um ser evoluído e superiormente desenhado para reproduzir sem dor em segundos, lá fui eu levar o meu pipi para ser analisado. (Muito se analisa o pipi no final da gravidez... Preparem-se para isso, grávidas e futuras grávidas!! Não é que se sinta dor, mas vão sentir que levam entre as pernas "Os Maias" em vésperas de exame nacional de Português).

Mais uma vez, eu tinha esperança que me dissessem que já estava prestes a entrar em trabalho de parto, apesar de não o sentir. Esperava que, após o toque, o médico dissesse algo como "Ohh já está prestes a sair a bebé!! Isto é inédito!! Sem dores e contrações, mas já está em trabalho de parto!! A cabeça já se vê!! Enfermeiras, rápido, ajudem-me!!"
Mais uma vez, a verdade era outra - e muito mais frustrante. Estava tudo em suspenso, num "quase" permanente como tinham sido, aliás, as minhas últimas duas semanas.
- Esta quase. Está quase.
- Mas quase... como? 'Quase' de dias, 'quase' de horas, ou 'quase' de minutos?
- Não sabemos. Cada mulher devia vir com um manual próprio. Não há mulheres iguais. Cada mulher começa o trabalho de parto de forma diferente. É impossível prever. Impossível... Lamento... Só posso dizer que a bebé está ótima e que está tudo às mil maravilhas. O que quer fazer agora?
- Hmmm... Não sei... Já estou quase com quarenta semanas. Continuo a ir trabalhar, como até aqui?
- Podemos sempre dar-lhe ocitocina...
- Ocitocina?
- Sim... É uma hormona que acelera o trabalho de parto.
- Hmm... Eu sempre quis tudo da forma mais natural possível.
- Tem duas opções: ir trabalhar na mesma, mas pode começar com contrações a qualquer momento (e deve estar muito para breve), e posso depois não estar cá no hospital. Ou então pomos ocitocina no soro e vemos o que acontece. Até pode ter a bebé só amanhã... Mas pelo menos eu vou estar cá sempre... Sabe com o que contar. A decisão é sua.

A decisão era minha. Ok. E o que é que queria? A magia do trabalho de parto espontâneo ou a segurança de poder pegar nas rédeas do meu corpo? A magia ou a segurança...? A magia ou a segurança?... Oh para quê disfarçar? A decisão já estava tomada. A decisão já estava tão tomada...

(Continua...)

terça-feira, 20 de maio de 2014

O dia D #1

Hoje vou escrever um pouco sobre o início do dia "D", o dia em que a Constança (ou "cookie", como a tratávamos carinhosamente durante a gravidez) nasceu. Tenho recebido comentários de outras grávidas e espero, com o meu relato, ajudá-las a elas, a futuras grávidas ou simplesmente a quem o assunto puder interessar. A verdade é que se fala muito da gravidez e do mundo dos bebés, escreve-se muito sobre o "antes" e o "depois", mas encontrei muito pouco escrito sobre o processo do parto em si. Eu tinha a cabeça cheia de mitos - achava, por exemplo, que as águas rebentavam quase sempre, e que era uma questão de minutos até o bebé nascer -, por isso, espero conseguir ajudar a desmistificar alguns. Não esperem que este blog se torne focado na maternidade, porque não vai acontecer. No entanto, se a maternidade passou a ser uma das facetas da minha vida, é natural que aborde o tema juntamente com outros. A quem não interessar este tema, aconselho a parar por favor na próxima linha e a voltar amanhã, sob pena de sair daqui totalmente entediado. Será muito bem-vindo na mesma. A quem interessar o tema, peço então que me acompanhe nas próximas linhas, em que vou explicar o início de tudo. Nos próximos dias continuo o relato, para não ficar hoje um post demasiado comprido. Vamos então a isto?

Como tinha dito uns dias antes aqui no blog, já estava a ficar desesperada por, mesmo a fazer tudo o que supostamente iria acelerar o nascimento - continuei a ir até ao ginásio nadar duas vezes por semana, andei quilómetros a pé sempre que tive oportunidade, percorri a A1 quase todos os fins-de-semana, mantive o ritmo no trabalho, fiz imensas arrumações em casa que exigiram esforço físico -, às trinta e nove semanas e meia de gestação parecia não haver meios de a bebé nascer ou dar sinais de ter pressa. O médico lá me elogiava o colo do útero, a bacia e todas as minhas entranhas reprodutivas, ao som de violinos imaginários na minha cabeça, a bebé continuava "ótima!! Os sinais vitais e os movimentos estão como se quer!", supostamente estava sempre no tamanho e peso certos, era a ode à gravidez, mas... o que é certo é que nunca (!!) mais acontecia o "tal" momento. Desesperada, a partir das trinta e oito semanas dei por mim a sair do trabalho e a andar quase quatro quilómetros a pé até casa. Fazia tudo o que vinha nos manuais e nas lições das nossas avós para acelerar o processo natural (pelos comentários que me tem deixado aqui no blog vocês sabem bem quais são esses truques, seus marotos). Durante a última semana e meia de gravidez deitava-me à noite quase a rezar para acordar toda coberta em água, ou cheia de dores de contrações. Cada dia que acordava igual era quase uma desilusão, nos últimos dias. Não tenho vergonha de o admitir: a partir das trinta e oito semanas estava mortinha por ser finalmente mãe.

Não me interpretem mal: eu adorei estar grávida. E não digo por dizer ou porque me parece soar bem. Não: adorei realmente estar grávida. Nunca tive enjoos, apenas uma ou duas tonturas ao fim de muito tempo parada de pé, nunca fiquei sensível a cheiros ou a sabores, nunca tive dores de qualquer espécie (a não ser um mau estar nas costas, na última semana), não apanhei sustos, não fiquei sonolenta ou cansada. Nada. E agradeço a todos os santinhos por isso. Agradeço mesmo, e do fundo do coração. Não sei se foi o trabalho que me salvou, mas acredito que foi em parte responsável. Como estava a trabalhar há pouco tempo, quis mostrar sempre que era tão capaz como outra pessoa não-grávida e acredito que essa determinação foi fulcral. O que tem que ser tem muita força e sinto que consegui que o meu corpo me ouvisse e estivesse sempre à altura do que lhe "pedi". Como dizia, adorei então estar grávida. Adorei todas as novidades: a barriga crescente, os primeiros pontapés, a curiosidade por saber quem ali estaria, o meu corpo mais feminino que nunca, com novas curvas, a minha pele mais brilhante... Adorei tudo. Até que... a dada altura, as grávidas que me rodeavam começaram a ser mães. E da minha barriga continuava a não sair nada. Sei que a gravidez dura supostamente nove meses/ quarenta semanas, mas a verdade é que poucas grávidas chegam mesmo ao fim do prazo e, a partir de certo ponto, quem continua grávida começa a ser alvo de pressão por parte de quem nos rodeia. E muitas vezes até por desconhecidos, ao sermos atendidas num café ou num supermercado.
- Ainda não nasceu?
(Nestes casos, apetecia-me responder: "Nasceu, sim. Mas portou-se mal e pu-la de castigo lá dentro outra vez!!")
- Então, está quase, não está?
(Muitas vezes respondia, só para me deliciar com a cara de pânico de quem perguntava: "Sim, pode ser a qualquer momento. Mesmo...")
- Ei lá, isso está por dias..!
(Aqui respondia algo parecido, para ver a cara de pânico: "Não diria 'dias'. Parece-me que está por horas.")
Sim, a pressão começa a ser muita. Como se o nosso corpo fosse anormal por aguentar a gravidez até às quarenta semanas. Foi isso que comecei a interiorizar no fim, confesso.

Por isso, quando, ao telefone, foi sugerido consulta "para ver se está tudo bem e se dá para 'acelerar o processo do parto', se for essa a vontade, já que já está no tempo", eu respondi que "sim!!!!" aos saltos e fui a correr preparar tudo. Pelos quatro avós o dia ideal era o dia treze. Lembraram-se todos que eram muito católicos, não sei. Eu não queria saber do dia, podia ser doze ou treze. Só queria conhecer esta bonequinha que levei dentro de mim nos últimos nove meses. Segunda-feira lá estava eu na consulta, ao amanhecer. Deu-me para a pirosice e fui com uns brincos especiais, coloquei máscara nos olhos, BB cream para dar cor à cara, blush... Ok, ok, se ficasse no hospital e se o parto fosse mesmo naquele dia, nada daquilo faria sentido, mas eu queria sentir-me bonita no dia em que podia vir conhecer a minha filha e, sim, queria ficar bem nas primeiras fotos guardadas para a posteridade enquanto mãe. Mãe, essa palavra que antes tinha apenas três letras e que agora me parece grandiosa demais para conseguir dizer sem me comover. Mãe... Seria eu mãe no final desse dia...?

(Continua)

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Olá, mundo

E depois de quase quarenta semanas a cookie decidiu conhecer o mundo. Prometo contar tudo com mais detalhes. Para já, posso adiantar três coisas: que admiro todas as mulheres que tiveram partos normais sem epidural. São as minhas heroínas! Depois, que hei-de repetir muitos clichés sobre amar um filho nos próximos dias. Preparem-se para a maior lamechice possível. E depois, quero dizer que estou nas nuvens e que espero nunca mais aterrar :)

sábado, 10 de maio de 2014

Estou a ponderar fazer uma tatuagem

Começo a ponderar fazer uma tatuagem só a dizer "saída" e com uma seta, para ver se a Cookie percebe a indireta. Será que funcionará? É que já passaram trinta e nove semanas e meia e ainda aqui continua de pedra e cal, sem dar sinais de querer sair.

Minha menina, o médico realmente disse que tinha um bom útero, mas há limites.
Sim, estou a falar contigo aí dentro... Isto é para ti. É que também tenho uns bons braços para te abraçar. Uns bons lábios para te encher de beijos. Uns bons olhos para olhar para ti horas e horas seguidas. E já não consigo aguentar mais este compasso de espera. Quero tanto abraçar-te, cheirar-te, sentir o teu calor.
Quero tanto ver-te, sentir-te minha, tornar tudo isto finalmente real... Vamos... Está na hora... Estou pronta. Estamos prontos para te receber.
(Entretanto, a roupa começa a chegar ao limite)

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Pudesse eu escrever sem palavras

Primeiro fui eu a festejar o meu aniversário em simultâneo com o dia do pai. A celebração de todos os pais do mundo, ali encaixadinhos no mesmo dia, enquanto eu celebrava só o meu, ou tentava celebrá-lo, ali paredes-meias com a celebração do meu próprio dia. A seguir, foi a vez da minha irmã. Depois a minha mãe. Depois foi também o dia das mães. O dia de todas as mães do mundo, tantas, tantas mães a serem celebradas, enquanto eu fazia por festejar a minha, só a minha. Depois foi ainda o aniversário do meu pai. Todos os anos é assim - despachamos os aniversários todos em três tempos, mal começa a chegar a Primavera. "Parabéns, parabéns, parabéns, parabéns". Em dois meses, é um corrupio de parabéns. E de "feliz dia, feliz dia". O problema é que chega um ponto em que parece que as palavras ficam gastas. E isto voltou a acontecer este ano, em que todas as datas pareciam mais especiais que nunca. Logo este ano, em que os números estavam todos tão redondos e tão imponentes como a minha barriga. Chegou um ponto e as palavras tornaram-se repetitivas e sem significado. Alguém chegou lá, à fonte das palavras, abriu as palavras e esvaziou-as todas, tirou-lhes todo o conteúdo. E queria dizê-las - "parabéns, maninha, parabéns, mamã, parabéns, papá, sabes que significas isto para mim.... sabes o quanto gosto de ti... sabes que..." -, mas as palavras já não eram nada, eram só palavras. Tornaram-se ocas. Decorativas. Tornaram-se iguais às palavras que se veem em todas as esquinas, em todos os cantos. E assim se foram mantendo.

Palavras, tantas palavras e eu sem nada bonito para dizer a cada uma das pessoas mais importantes da minha vida. As palavras subitamente deixaram de der especiais, de ser únicas. Então não as disse. Não as digo. Não as dou. Queria pegar em todas as palavras bonitas, juntá-las, por umas vírgulas e uns pontos finais catitas, mas foi ficando apenas a intenção. Queria pegar em todas as palavras bonitas e fazer magia, conseguir dizer o que vai cá dentro, queria, quero conseguir explicar que sempre que penso no real significado que a minha irmã, e que a minha mãe, e que o meu pai têm para mim, sinto um calor que me preenche e me deixa os olhos húmidos. Quero pegar em todas as palavras bonitas e dar-lhes este calor aconchegante, esta emoção, estes sentimentos que vão cá dentro.

Mas todas as fotografias de filhos com pais e mães, todas as legendas “amo-te muito”, “és o melhor pai/ és a melhor mãe” bloquearam-me. Fiquei bloqueada. Afinal o amor está em todo o lado. O amor é omnipresente. O amor é banal. E todos os pais e mães são os melhores. Mas como é que é possível se “melhor” é adjetivo comparativo de superioridade de “bom”, como aprendi na escola? Não é suposto haver só um melhor? Afinal são todos comparativamente superiores? As fotografias e o amor bloqueiam-me. O amor é comum. O meu amor não é maior que nenhum. Dias do pai. Dias da mãe. Melhores irmãos do mundo. E as minhas palavras não valem nada. Nada. Nada… Sou só mais uma neste mar de amor, e fotografias felizes, e “és o melhor pai do mundo”, e “és a melhor mãe do mundo”,e “és a melhor irmã do mundo”, e “amo-te muito", “amo-te muito”, “amo-te tanto”,“amo-vos tanto”.

De repente reparo que eu, que até gostava de conjugar verbos na escola, e tinha português, e inglês, e francês, e alemão, e latim, nunca conjugo com vocês o verbo amar. Desculpem-me. “Tanto estudo de línguas e sais assim, minha filha, sem conjugar o que seria mais importante”. Nunca me disseram isto, mas podiam dizer. Têm razão. Mas faço-o apenas porque sinto, e sempre senti, que este verbo não é bem meu, não é especial. Está em todos os poemas, e livros, e até nos telefonemas - “Amo-te muito, até amanhã”. Eu não vos amo muito, até amanhã. O que sinto tem um ponto final a seguir. É absoluto. É total. E tira-me o ar. Deixa-me sem falar. O que sinto é esta vontade de vos abraçar, a cada um de vocês, apertar-vos com força, em silêncio, e guardar-vos para sempre. O que sinto é esta certeza que não há adjetivos comparativos de superioridade que vos cheguem aos calcanhares, porque nada se vos compara. Não há conjugações para vocês, porque vocês nem sequer são verbo.

E mais uma vez escrevi, escrevi, escrevi para nada. Não admira que as palavras já não valham nada, agora têm todos a mania que escrevem, olhem para este texto, por exemplo. Mas o que dizer a quem é incomparável e não conjugável? Nada, certo? Então calemo-nos. Tenho esperança que tenham alguma noção de tudo o que vai cá dentro. E percebam tudo aquilo que as palavras não conseguem dizer. Parabéns a cada um de vocês. Por cada data redonda que celebraram. E por tudo o resto (especialmente por tudo o resto) que as palavras – banais, gastas, usadas –, e os verbos –conjugados até à exaustão –, e os adjetivos – comparativos, quando vocês não têm comparação – não conseguem dizer. Parabéns, maninha. Parabéns, mamã. Parabéns, papá.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A esteticista guardiã da Moral volta a atacar

Lembram-se da Esteticista guardiã da Moral? Tinham saudades? Eu confesso que já tinha... Aliás, eu, não, a minha amiga (sim, porque estas coisas acontecem sempre à amiga e não a nós)... Pois então a minha amiga voltou lá, ao fim de algum tempo. Andou a fazer depilação a laser durante um ano, mas agora, com alguns pelos marotos de regresso, decidiu re-visitar a sua antiga esteticista e exterminá-los à moda antiga, com o poder da cera.
- Olá! É o costume. Queria fazer depilação a tudo.
- Tudo o quê?
- Perna inteira, virilha, axilas...
- Ok. Vamos lá começar, então.
A minha amiga encostou-se para trás e fechou os olhos. Já não sentia aquela dor da cera há muito tempo, mas estava a custar menos do que se lembrava. Talvez fosse por ter muitos menos pelos, agora. Quando chegou a parte das virilhas, reparou que o episódio passado se repetia e o "tudo" não estava a ser propriamente "tudo"....
- Hmm... Pode tirar mais aí em baixo, por favor?
- Mais?
- Sim... Costumo tirar tudo. Se quiser tiro as cuecas para ser mais fácil.
- NÃO! É melhor assim. Deixe estar, deixe estar.
A minha amiga não conseguiu deixar de se sentir um taradão a tentar convencer uma mulher pudica a momentos de loucura. E sentiu-se um bocado envergonhada... Enquanto isso, a Esteticista dava o seu trabalho por terminado.
- Desculpe... Hmmm... e atrás também tirou?
- Sim.
- Atrás mesmo...?
- Ahhhh... aí tão atrás não. Ok, vou tirar...
A minha amiga sentiu-se novamente a corar de vergonha.
No fim, foram para a receção, onde as contas seriam feitas. Só que, desta vez, com medo de ouvir novamente "aquela" palavra aos gritos, perante tanta gente à espera, atirou-lhe logo meia dúzia de notas.
- Chega?
E, enquanto via a Esteticista fazer contas às suas partes íntimas, deu por si a pensar que se tratava nitidamente de um erro de casting. Sim, porque uma esteticista adepta de pipis bem peludinhos teria tanto jeito para o negócio como um cirurgião plástico defensor da beleza natural, não?...