Está na altura de dar o devido valor ao teu dia. O valor que, infelizmente, nunca dei. E ambos sabemos porquê... Tiveste algum azar com o que aconteceu no teu dia, porque, depois disso, ficaste sempre em segundo plano, não foi? Desculpa. Hoje quero rectificar isso.
Bem, ainda não falei contigo hoje, mas imagino que o teu dia terá começado contigo a acordar cedíssimo, sem sono, e cheio de energia, como é usual. Nunca vi ninguém com um ritmo tão acelerado logo antes das 8h. Aposto que foste já comprar o jornal, o pão quentinho à pastelaria, começaste já a pensar no que farás no fim do dia - se vais jogar ténis ou andar de bicicleta - e preparaste depois o pequeno-almoço. Se a mamã teve sorte, foi brindada com um sumo de laranja natural - ai que saudades que eu tenho de acordar ao som da máquina de fazer sumo, era sinal dum acordar perfeito e fazia-me sonhar com um homem que um dia fosse capaz de me mimar como tu.
Depois, terás ido trabalhar, e lançar o teu charme, e imagino que, no final do dia, vás buscar o bolo que encomendaste para comemorar tudo o que o dia de hoje significa. Vamos jantar juntos e vais contagiar-nos com a tua energia e com a tua necessidade de planear tudo. Quando dermos por ela, durante o jantar, já vamos estar a falar das férias de Verão, tenho a certeza. E vais perguntar, pelo menos dez vezes, se o jantar está bom e se aprovamos o bolo que escolheste. És um bocado monopolizador nas conversas, mas sei que não é por mal, até porque te preocupas connosco.
A verdade é que até te preocupas demasiado connosco e eu cresci a achar que isso era o normal. Passaste tardes sentado ao meu lado a ensinar-me a pintar. "Não saias do risco. Cuidado. Issooo... Agora pinta sempre na mesma direcção. Muito bem!! Cuidado. Isso, olha que beem." Fizeste de mim a pessoa perfeccionista que sou hoje. Sentavas-te comigo a desenhar, a ensinar-me a perspectiva, a ensinar-me a usar os lápis certos, a corrigir cada pequeno detalhe. E contigo ganhei o gosto pelo lápis e pelo desenho. Não segui arquitectura por um triz. Levavas-me contigo para todo o lado. Conversavas comigo como se fosse adulta. E, se estava doente (fui uma criança muito doentinha, não fui? com as malditas crises de bronquite e asma), ficavas toda a noite sentado a olhar para mim. Eu achava aquilo normal. E acreditava que todos os teus pais seriam como tu. Cresci a acreditar que todos os pais conseguiam construir uma cama em madeira para a nossa boneca preferida. Que todos os pais conseguiam pegar num papel e desenhar o que quisessem. Ou construir um pássaro. Ou um avião - sim, fazias magia com uma folha de papel. E cresci contigo a dar-me um beijinho na "covinha do nariz" para dormir, depois de a mamã me ter lido religiosamente alguma história. E eu dormia. "Boa noite", respondia com a minha voz anasalada e cheia de mimo - sim, há gravações da minha voz.
Cresci a chamar-te Pai Herói. A mamã diz que era por causa duma telenovela - até podia ser - mas eu sentia-o como sendo o "teu" nome. Eras o meu Herói. Eras capaz de tudo. De construir aviões. De curar todas as minhas crises de asma. De me fazer sentir invencível. De responder a todas as minhas dúvidas. E ainda hoje confesso que sinto o mesmo - que não há problema que não consigas resolver. Porque, apesar de muitos anos terem passado, algo se mantém: a tua perseverança, capacidade de persuasão e argumentação. Consegues sempre tudo o que queres, e adorava que um dia me dissessem que nisso saí a ti.
E a verdade é que até dizem muitas vezes que saio a ti. Sabias? Dizem que sou perfeccionista como tu. Que sou impossível quando bato numa tecla, porque só desisto quando ganho a discussão. E fisicamente, claro, também comentam. Mas com a nossa cor de pele e cor de olhos era impossível não comparar, certo? Além de que até a "borboleta", aquela marca de nascença, temos iguais. Querias mais semelhança?
Papá. Herói. Meu Pai Herói. Ao longo dos anos, nunca dei o devido valor ao teu dia. Sei disso. Desculpa. Desculpas? Mas sabes que não escolhi nascer neste dia. E não escolhi tirar-te o protagonismo. Sei que dirás que o meu nascimento foi o maior presente que te podia ter dado neste dia, mas essa parte não dependeu de mim. Esta carta e dizer-te o quanto significas para mim dependem. Obrigada por tudo. Tem um óptimo dia!
beijinhos,
a tua filha.








