sábado, 2 de maio de 2015

(Não se) ama alguém que não ouve a mesma canção

Tenho uma teoria: tal como as estações de rádio, também as pessoas emitem em frequências diferentes, têm comprimentos de onda maior ou menor. Sim, as pessoas. Como tal, quando acontece conseguirmos estar, ao mesmo tempo, na mesma frequência que outra pessoa, acontece finalmente conseguirmos ouvir-nos mutuamente e compreender tudo, desde os sons até aos mais rápidos silêncios. Daí a expressão "sintonia" - as pessoas estão finalmente sintonizadas na mesma frequência. Não sou nenhum Einstein nem percebo nada de Física, por isso, desculpem-me se esta teoria tiver falhas graves. Admito que sim. Mas tenho-a aplicado na minha vida e, até ao momento, tem-se revelado bastante útil.

Mas esta teoria não nasceu ontem - começou a ser pensada há muitos e muitos anos. Corria o ano de 2006 ou 2007, já não sei precisar, quando conheci um rapaz que me despertou a atenção. Na altura pensei, de mim para mim, pelas características que ali detetei, que teria potencial para vir a gostar dele. Saímos umas vezes, conversámos imenso e achei que estava perante o início de algo. Até que... fizemos a primeira viagem de carro juntos. E a segunda. E a terceira. "Isto afinal não tem pernas para andar!", constatei rapidamente. Porquê? Simples: não nos entendíamos com as músicas. Ele estava numa de bossanova, apenas, e naquele carro só davam cds naquele registo. Eu estava numa de emoção e adrenalina, e a bossanova constrangia-me completamente e aniquilava de forma abrupta esse sentimento que queria sentir. Ficava nervosa ao fim de três minutos a ouvir só aquilo, como se alguém pegasse no meu coração e tentava abrandar o seu ritmo à força toda. Eu não queria estar num momento bossanova, muito calmo, lento e introspectivo - queria estar num momento de rock alternativo, queria rir-me, falar com intensidade e sentir o coração acelerado. Com ele, a letra da música do Rui Veloso fazia todo o sentido e percebi que nunca poderia amar alguém que não ouvia as minhas canções e - pior ainda - me obrigava a ouvir as dele. Surgiu então a teoria da canção e vaticinei: um futuro namorado teria que ter os meus gostos musicais. Até que uma amiga me mostrou as falhas do meu raciocínio: não era uma questão da música em concreto, mas de sintonia.
- Vocês não estavam sintonizados. Ponto, disse-me ela.
- Pois... como as rádios? Realmente, acho que ele estava mais numa de Antena 1 e eu numa de Antena 3.
E assim nasceu a teoria da frequência.

Retomando esta história, não era portanto uma questão de canções. Eu e ele nunca nós iríamos entender, nunca nos iríamos compreender, porque cada um vivia numa frequência diferente. Eu era mais acelerada (apesar da minha aparente calma), e sedenta de emoções e intensidade. Ele emitia numa frequência mais lenta (apesar de parecer mais acelerado), agia e vivia mais devagar. E nem que ouvíssemos a mesma canção mil vezes seguidas aquilo teria ido ao sítio, porque mesmo a canção igual iria ser sentida de forma diferente pelos dois. Com a minha teoria, percebi que podemos amar alguém alguém que não ouve a mesma canção, mas que dança ao mesmo ritmo que nós, por exemplo. Podemos dar-nos bem com alguém que não gosta dos mesmos filmes, mas que quer ouvir as nossas teorias sobre o desenrolar da Guerra dos Tronos. Podemos querer alguém que até é totalmente oposto de nós, mas depois também vibra com um golo do Benfica. Frequências. Tudo uma questão de frequência. Por isso, Rui Veloso, podes levar a tua teoria da canção para longe (deixa só o anel de rubi, que eu prometo tomar bem conta dele). Pode amar-se alguém que não ouve a mesma canção. Desde que emita na mesma frequência. Porque na mesma frequência, tudo o que dissermos, mesmo que não haja acordo em tudo (ou quase nada), mesmo que se diga praticamente em silêncio, é ouvido e (o mais importante de tudo) compreendido. Porque se está sintonizado. E é tudo muito, muito mais fácil. E intenso.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

E agora algo inédito, para agitar um pouco este blog

Passado quase um ano, achei que era altura de vos atualizar: uma fotografia.
De quem? Da responsável por que o próximo domingo seja diferente de todos os outros Dias da Mãe que já vivi.
Uma fotografia daquela que me deu, para além de todas as outras novidades, um nome novo também.
Mãe.
Sou mãe.
E, passado quase um ano, ainda me soa estranho, como um nome que não me pertence, uma roupa que não me serve.
Mãe.
"Vai ser o teu primeiro Dia da Mãe como mãe, não vai?", alguém me perguntou.
Vai, sim.
Por enquanto, continuo a viver o dia mais como filha e concentrada a tentar celebrar a Mãe extraordinária que sei que tenho.
Espero apenas que, um dia, alguém sinta algo próximo daquilo que sinto: um orgulho imenso de ser filha de quem sou. E um amor imenso como este que me preenche e que me preencheu sempre.
"Apenas" isso.
E, então, serei mãe com "M" grande. E, então, este dia poderá ser realmente meu também.

terça-feira, 28 de abril de 2015

De volta à realidade

Estou de volta. Estivemos uma semana fora. O destino escolhido foi a ilha do Sal, em Cabo Verde. Já lá tinha estado há sete anos e decidimos que era o destino ideal para uma viagem de descanso a três: não está muito longe (três horas e meia de viagem de avião), tem sol todo o ano, praia e, como a ilha é pequena, vê-se tudo em pouco tempo e descansa-se nos outros dias. À exceção de um grave acidente no terceiro dia (que hei-de contar a seu tempo, porque acho que é meu dever alertar para o perigo que podem também correr naquela zona), correu tudo bem e a Constança andava radiante. Cresceu imenso numa semana: aprendeu palavras novas, começou a dar mais passos sozinha, esteve sempre sorridente, comunicativa e divertida, era um prazer olhar para ela.

Agora o que custa é retomar os horários e recuperar o tempo de trabalho perdido. Eu podia ser feliz a viver de havaianas nos pés, a dar um mergulho no mar e a sentir aquele sol no rosto todos os dias. Podia mesmo...

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Selfies no ginásio

Há uma velha frase em latim que diz o seguinte: "Quod non est in actis, non est in mundo". Significa isto qualquer coisa como "aquilo que não está escrito, não existe", no sentido em que, não estando algo documentado, é como se, na prática, nunca tivesse realmente existido, porque não há registos para o mundo. Ora, na atualidade, temos a versão desta frase adaptada às "selfies": aquilo que não foi fotografado e registado nas redes sociais, não existe para o mundo.

Estava eu ontem na passadeira a tentar correr a minha meia hora à hora de almoço, quando vejo, atrás de mim, duas miúdas giras e magras a chegarem, a estenderem o colchão no chão e a sentarem-se junto ao espelho. A minha atenção teria ficado por ali caso não tivesse sido, a partir daí, bombardeada pelo flash dos telemóveis de ambas. Os restantes vinte minutos da minha corrida foram passados assim: eu a transpirar e a ruborizar-me de minuto para minuto, com o cabelo cada vez mais desalinhado, e elas sempre lindas e impecáveis, maquilhadas e com o cabelo sempre no sítio, a tirarem selfies sucessivas.

No meio disto tudo, o que me deixa mais confusa nem é a obsessão pela partilha nas redes sociais, sinceramente. O que me deixa mais confusa é mesmo perceber como é que eram tão magras sem fazer desporto... Será que as selfies fazem emagrecer? Sinto-me tentada a experimentar. É que correr até cansa...

terça-feira, 14 de abril de 2015

Nem o padre me quer aturar

Sábado fomos conversar com o padre que vai batizar a Constança. Eu sabia que a reunião estava marcada essencialmente para podermos levar os nossos documentos e prestar informações quanto aos dados de todos, incluindo padrinhos, mas aproveitei e fiz também alguma pesquisa sobre o batismo. Já que ia estar com o padre que ia batizar a minha filha, e já que não o conhecia muito bem (o do nosso casamento não pode) queria estar preparada para qualquer "entrevista" que nos pudesse fazer. Começou mal. O padre abriu a porta, eu atirei-me para lhe dar um beijinho e um abraço (tal como faço sempre que vejo o padre que nos casou) e percebi que tinha sido demasiado efusiva: o padre manteve o corpo rígido e quase sem respirar, e nem respondeu ao beijo - ou pelo menos nem me apercebi do movimento com os lábios de volta. Arrependi-me logo de me ter atirado assim, mas no ponto em que estava, já lançada nos braços (rígidos) dele, não dava para recuar. Deixei apenas uma nota mental a mim mesma: não dar beijo na despedida!

O padre foi muito simpático, mesmo muito simpático, não quero ser injusta. Tratou muito bem a Constança, sorriu-lhe muito e teve toda a paciência e tempo do mundo para nos explicar os detalhes da cerimónia. No entanto, quando resolvi trocar algumas impressões sobre o batismo, o pecado original, o limbo, os sacramentos e quanto ao bom trabalho do Papa Francisco, ouvi alguns suspiros do outro lado. A sério que sim. Ao ponto de perceber que me estava a alongar demasiado nas minhas considerações. Comecei a levar pontapés debaixo da mesa. Acabámos então por nos despedir (desta vez com aperto de mão) e, cá fora, comecei logo a levar na cabeça:
- Percebeste que deste uma valente seca ao padre, não percebeste?
- Dei nada... Falei de religião. É aquilo sobre que é suposto um padre falar...!
- Por isso mesmo. Obrigaste-o a discutir, num dia de descanso, aquilo de que é obrigado a falar nos outros dias.
- Mas eu pensei que ele queria que estivéssemos preparados.
- Estar preparado é uma coisa. Massacrá-lo é outra. Tu massacraste-o com as tuas dúvidas.

De maneira que já não percebo nada. Então não era suposto discutirmos tudo isto antes de batizarmos os nossos filhos? Ou o batismo é agora só uma festa bonita sem nenhum significado por trás? Às tantas sou eu que sou demasiado idealista... Ele diz-me que sim, que tenho que ser menos romântica na visão do mundo e mais prática. Até com os padres...!

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Ideias de roupa para batizados e casamentos

A minha bebé vai ser batizada já no próximo mês. No meio de toda a correria (tratar da lista de convidados, escolher o catering, quinta, falar com o padre, ver decoração, escolher fotógrafo,...), algo começou logo a preocupar-me: e a mãe? Como é que é suposto a mãe ir vestida? A Constança já tem a roupa dela há algum tempo e vai levar uma peça de família. Quanto à roupa, não sei bem porquê, sempre associei o batizado a vestidos com tons claros, por isso, a minha primeira pesquisa foi nesse sentido. Por esta ser uma época de tantos casamentos e batizados, aproveito e partilho com vocês alguns dos vestidos que, para já, gostei. São todos da Asos. Tentei não pesquisar em marcas que me custassem os olhos da cara, porque palpita-me que já vou ter que vender os olhos para pagar a festa... Gostam de algum?





quarta-feira, 8 de abril de 2015

A minha vida dava uma comédia. Das fraquinhas.*

Há dias em que acredito que, se a minha vida virasse filme, virava uma comédia. Mas não uma comédia romântica - uma comédia só, e daquelas até fraquinhas e básicas, sem qualquer romantismo associado. Ontem foi um desses dias.

Acordei, tomei banho, preparei o pequeno-almoço e tentei vestir-me melhor, porque tinha uma reunião importante. A noite tinha sido parcialmente em claro, a preparar a reunião, mas tentei disfarçar as olheiras matinais e a falta de sono com algum corretor de olheiras e blush. Dei um jeito ao cabelo, vesti um vestido mais formal e calcei uns stilettos mais pontiagudos e de salto fino, que raramente saem da prateleira, mas que me pareceram adequados. Queria vestir-me para matar. Só não sabia que ia quase matar-me era a mim. De vergonha.

A reunião correu bem. No final, fomos almoçar. Eu tinha alguma pressa, porque queria ir ainda a casa ver a Constança (já disse que sou um bocado viciada nela?) antes de retomar o trabalho. Almocei mais rápido. Tentei justificar-me educadamente e sair com rapidez e elegância. Sabem quando queremos mostrar que somos despachadas e decididas? Fiquei-me pela intenção. Pus-me a pé e, talvez com o sentimento de culpa por estar a sair a meio ou talvez com o cansaço da noite mal dormida, virei, não para a saída, mas para a cozinha... Entrei por ali adentro, sem mais. "Desculpem!". Voltei para trás, pensando que ainda seria possível remediar o mal. Voltei a passar pela mesa de onde tinha saído. "Enganei-me na saída!". Sorrisos, acenos. Tentei andar de forma decidida para a saída correta - "Com sorte nem repararam!", disse a mim mesma. Só que... a merda dos saltos prenderam-se no tapete da porta. Fiquei ali uns segundos a tentar puxar o salto. A tentar sorrir e manter a elegância. Uma senhora ainda se aproximou para me ajudar, mas balbuciei-lhe um "obrigada" e lá me livrei do salto preso no tapete. Endireitei as costas. E puxei finalmente a maçaneta para empurrar a porta, ansiosa por sair dali. Só que.... fiquei com a maçaneta da porta na mão. A maçaneta!! Empurrei na mesma a porta e encaixei a maçaneta podre no sítio. Saí dali com vontade de morrer de vergonha e a pedir por tudo que ninguém tivesse assistido àquele momento de comédia.

A sério: qual é a probabilidade de isto tudo acontecer seguido? Qual? Tenho para mim que seria mais provável ganhar o Euromilhões, à quantidade de vezes que oiço dizer que o primeiro prémio saiu a alguém. Tenho para mim que tornar-me milionária seria mais provável que passar por aquela vergonha toda seguida. Foi a tríade: porta errada + salto preso + maçaneta na mão. Porquê eu, meu Deus? Porquê eu? Por ainda não ter batizado a minha filha? Vai ser já em maio. Dia 16. Só preciso de chegar viva e com a minha confiança intacta (já agora) até lá. Pode ser?

* Tipo aquelas em que entra a Jennifer Aniston.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Mentir ou não mentir, eis a questão

Hoje acordei bem-disposta e a pensar pregar algumas partidas. Não sei se já disse isto, mas adoro o Dia das Mentiras! Pensei em escrever o clássico "Vou deixar de escrever no blog" e tentar assustar um pouco os leitores fieis que ainda restam (restará algum?). Amanhã viria desmentir, o que serviria para os tais leitores respirarem de alívio, sorrirem e proporcionar-se um momento de boa-disposição. Só que depois abri o blog e reparei que não escrevia há eternidades (devo ter batido records de ausência)... E pensei para mim "Bem, neste momento, como estão as coisas, acho que a mentira iria pegar sem qualquer dificuldade, mais vale nem tentar, que ainda pode é correr mal para mim!!".

De maneiras que é assim... Hoje não há mentiras para ninguém! Mas há um post, o que, bem vistas as coisas, já quase parece mentira, não é? No meio dos últimos acontecimentos (queda da Constança e susto para a vida, ama que se vai embora, porque arranjou outro emprego mais bem remunerado, procura de creche e fins-de-semana fora), este cantinho tem passado para segundo plano. Os próximos dias servirão para atualizar isto devidamente.

Boas mentiras!! (mas só durante o dia de hoje, não se estiquem)

quinta-feira, 19 de março de 2015

Afinal este é o dia de quem?

Habituei-me a crescer vendo este dia como o "meu dia". O 19 de março era meu e de mais ninguém. Depois explicaram-me que era também o dia em que se celebrava o nosso o nosso pai. Ok, não há problema, pensei. E dava também um beijinho ao meu pai, algures a meio do dia, enquanto abria os presentes e comia mais uns bolos. A verdade é que ainda não havia a pressão comercial que há hoje - a de darmos mundos e fundos, e ainda de descrevermos em todas as redes sociais o quão bom é o nosso pai. Um beijinho chegava e estava muito bem. Continuávamos os festejos do "meu dia" como se nada se passasse. Até que a pressão comercial chegou em força. Primeiro, uns anúncios a perfumes. Depois, anúncios a roupa. Até que vieram os anúncios a gadgets caríssimos, relógios e outros acessórios que custam os olhos da cara. No meio disto tudo, cada vez mais o meu beijinho passou a parecer algo demasiado humilde. E começou a ir acompanhado de algo mais. O meu pai fazia sempre cara de surpreso e lá recebia o miminho. E íamos convivendo bem com os dois festejos em simultâneo e a partilhar o protagonismo do dia. Só que a partir deste ano... A partir deste ano, tornou-se tudo uma confusão do caraças, porque tenho mais um pai para "parabenizar" - o homem que escolhi para ser o pai da minha bebé. E hoje acordei a pensar que tinha que por ordem nisto. Não há espaço para tanta gente num só dia! Além do mais, na verdadeira essência das coisas, a Constança ainda não sabe sequer se tem um bom pai ou não (por acaso até tem um dos melhores pais do mundo, segundo um estudo feito por mim, mas adiante), por isso, como é que pode agradecer ao pai? Não pode, certo? Teria que ser eu a agradecer em nome dela. Em nome dela, repito, que ainda não sabe se tem um bom pai ou não. Por isso, a dar algo, seria eu a dar em meu nome, certo? Acompanharam-me até aqui? Muito bem. Assim sendo, até a Constança falar e ter algum discernimento ou opinião sobre a paternidade, considero a inscrição para "parabenizações" deste dia congelada. Para já, este dia é meu e do meu pai. Sim, a dupla que se tem entendido faz hoje 33 anos. E se eu espero estar de parabéns enquanto filha, o meu pai está, sem dúvida, mais uma vez de parabéns, enquanto pai (e enquanto pai a dobrar). Parabéns, papá. Cada ano que passa mais percebo o pai fenomenal, dedicado, incomparável e incansável que foste.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Tinha que partilhar isto

Descobri isto há dias e ainda não consegui parar de ouvir. Com tanta música mais ou menos complexa, mais ou menos mexida, que oiço, quer seja na rádio, quer seja na minha lista do Spotify, quando começou a dar esta música com uma melodia tão simples e despojada de acordes ou arranjos complicados, senti que ficou tudo em suspenso. Parou tudo. "O que é isto? Quem é este?". Não sei se é por adorar piano, não sei se é por ser uma fã do estilo "Imagine", do Lennon, mas ando em modo "repeat" sem conseguir parar de ouvir este jovem canadiano de seu nome Tobias Jesso Jr. Decorem que, ou muito me engano, ou vai longe. Ouçam, se vos apetecer. Se não, ouçam na mesma ;)

PS: Entretanto, descobri que atuou há dois dias no Conan. Podem ver aqui. É a mesma música, mas com outros instrumentos. Adorei.

terça-feira, 17 de março de 2015

Dos amores sem pontos finais

Nascemos com cada função ou sentimento bem doseado, bem definido. Temos, algures dentro de nós, um saco com o número de lágrimas exactas que vamos precisar ao longo da vida. Temos outro saco, algures na imensidão do nosso ser, com o total de gargalhadas que podemos vir a dar. Noutro saco temos as horas de sono, por exemplo. Assim que um dos sacos fique vazio, não há possibilidade de o encher outra vez. Por isso, se o saco das lágrimas secar, nunca mais conseguimos chorar. Se o saco das gargalhadas se esvaziar, nunca mais da nossa boca sairá uma gargalhada igual.

Cresci a acreditar nisto, depois de a minha mãe me ter explicado que a razão de nunca a ter visto chorar foi por ter chorado tudo em pequenina. Cresci a acreditar nisto, porque a minha mãe também me explicou que, hoje em dia, eu nunca tenho sono porque dormi tudo em pequena. Temos uma dose certa para tudo na vida. Foi esta a lição que aprendi e que trago sempre comigo desde então. Temos, algures dentro de nós, um saco com as lágrimas que vamos precisar. Um saco com as gargalhadas que vamos dar. Um saco com o amor. Com o amor? Sim, nasci a acreditar que também o amor que temos dentro de nós tem limites e pode esgotar-se. Só que agora ando, desde há uns dez meses, a tentar doseá-lo com cuidado, porque sinto que ando descontrolada. De dia para dia sinto que estou a usar cada mais maiores doses. Porque olho para os teus olhos e percebo que cada vez gosto mais de ti. Porque este amor parece crescer dentro de mim e eu não o controlo. Porque - pior de tudo, blasfémia! - quero continuar a gostar assim de ti toda a vida, com esta intensidade. Por isso, só me resta esperar que alguns destes sacos com que nascemos não tenham fundo. Só me resta esperar que algumas doses sejam tão generosas que posso continuar a consumir amor assim, sempre que me apetecer. Porque quero continuar a gostar assim de ti, minha filha, de forma intensa Sem pontos finais Para sempre

As mães também têm vida

A semana passada marquei um jogo de padel com uma amiga no final do dia. Já não marcava algo do estilo há tanto tempo que andava excitada como uma adolescente. Mas o melhor foi mesmo a forma como marcámos o jogo: encontrámo-nos para um café e, a meio dum desabafo meu:
- Sabes, ando com vontade de me inscrever nas aulas de padel. É parecido com ténis, por isso, matava as saudades do desporto. Ainda por cima tenho uma escola praticamente ao lado de casa e têm aulas à noite...
- Padel?!
- Sim...
- Oh...! Eu ando a chatear toda a gente para vir jogar comigo, mas ainda não consegui convencer ninguém!!
- Não me tinhas chateado a mim.
- Pois, porque tu...
- Eu...?
- Tu és mãe. Sei lá, eu acho sempre que as mães têm coisas mais importantes para fazer.
- Temos mais coisas para fazer, mas queremos fazer programas giros na mesma.
- Tens razão. Devia ter-te perguntado.

Sim, as mãe também têm vida. Pelo menos, eu tenho, e morria se deixasse de ter alguma vida social. E, aqui entre nós, quem levanta dez quilos às escuras, às seis da manhã, faz, quase sem se cansar, qualquer outro desporto com uma perna às costas. Neste caso, com a raquete na mão.

segunda-feira, 9 de março de 2015

A rapariga sem cor

Terminei ontem "A peregrinação do rapaz sem cor", do Haruki Murakami. Dizia a sinopse que a personagem principal, o tal rapaz sem cor, de nome Tsukuru, "leva uma existência pacífica, que talvez peque por ser demasiado solitária, para não dizer insípida, a condizer com a ausência de cor que caracteriza o seu nome". Todo o livro gira à volta da procura da resposta para um "porquê?" muito específico: os quatro melhores amigos deixaram de lhe falar há um par de anos. Cortaram relações com ele, de forma abrupta, ao fim de anos e anos de uma amizade que funcionava em perfeita harmonia. Porquê? Os anos foram passando e Tsukuru nunca encontrou resposta. Até ao presente, em que decide fazer tudo o que estiver ao seu alcance para esclarecer esta dúvida que marcou parte da sua existência. No entanto, a dúvida deixou marcas e Tsukuru passou os últimos anos da sua vida a sentir-se um recipiente vazio, em que pessoas deixavam parte da sua existência ao passar, mas sem levar nada em troca. Tsukuru sente-se uma pessoa desprovida de cor, alegria, emoções ou qualquer tipo de interesse que possa levar alguém a querer aproximar-se dele, e atribui a esse motivo o afastamento dos amigos.

Terminei ontem o livro, mas esta imagem ficou marcada na minha memória e deixou-me a pensar: um recipiente vazio, alguém sem nada para dar a quem por nós passa. Quantos de nós não somos engolidos pelo quotidiano, pelo casa-trabalho-casa e esvaziamos o nosso recipiente de interesse e alegria? Temos mais para dar aos outros que o nosso contributo no trabalho? E pensei muito nisto talvez por causa dos acontecimentos mais recentes da minha vida. A minha avó esteve mal no Sábado. Mesmo mal. E não consegui deixar de desejar ardentemente, a dada altura, que toda a alegria e a cor que me transmitem apenas a imagem dela, o simples pensar nela, possa eu um dia transmitir a alguém. A minha avó foi, é, e sei que vai continuar a ser por muitos e muitos anos um recipiente cheio de vida, uma pessoa cheia de cor. A minha avó é a total antítese do livro, parece conter em si todas as cores do mundo.

Terminei ontem "A peregrinação do rapaz sem cor". Mas não consigo deixar de sentir que continuo eu, no meu dia-a-dia com tantos momentos insípidos, a história enquanto rapariga sem cor. E mesmo que, no livro, as explicações se revelassem afinal bem mais simples e menos dramáticas do que o que era esperado pelo Tsukuro, e mesmo que a minha avó tenha ficado bem, não consegui deixar de ficar a pensar nisto das pessoas e dos recipientes vazios e sem cor para dar aos outros. Espero que parte disto da alegria de viver e do calor que se transmite aos outros seja hereditário. E que herde eu também um pouco (sim, basta-me um pouco) da cor e da alegria da minha querida avó.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Diálogos com uma bebé

A Constança já repete umas palavras. Não "mamã", porque parece que não está para aí virada. Não "papá", porque pelos vistos o papá não é a prioridade. Repete, isso sim, "áltaa!", "áacáa" e ainda "aqui!!". E repete todas estas palavras à Malti, de braços no ar, com uns ares de italiana nervosa. Nunca fui à Sicília, mas é assim que imagino as sicilianas: a bracejar e a repetir as palavras alto, de forma ritmada e preocupada. A Malti passa e é vê-la a bracejar e a tentar chamar-lhe a atenção (muitas vezes, com comida na mão, para a aliciar, que a miúda não é burra de todo): "[M]áaalta, [m]áaalta!! aquiii!! áa[nda] cáa". Ora, depois de ter passado uns dias a pensar que a minha missão como mãe andava a fracassar, pois não conseguia vencer a uma cadela na luta pelo coração da minha própria filha, decidi dar a volta à situação. Ensinei-a a responder com as palavras que aprendeu às seguintes perguntas:

- Quando fores grande, queres ser baixa ou alta?
- Aaaltaaa!! Aaaaaltaaaa!! (de braços no ar)

- Onde é que nasceu Portugal?
- Aquiiii!!! Aquiiii! (o que lhe dá uns ares de mini Hermano Saraiva que confesso que adoro!)

- Qual é a capital do Gana??
- Ácaaa!! Ácaaa!! (é bebé, desculpa-se não dizer o "r", certo?)

De maneiras que já ninguém há-de reparar que a minha excelsa filha não quer saber dos pais para nada.

Pais 1. Malti 0.

quarta-feira, 4 de março de 2015

A palavra "sexo" deixou de ser dita baixinho

Nesta euforia em torno das "50 sombras de grey", acho que há algo de muito positivo a retirar. Pode não se retirar nada de positivo em termos de História do Cinema. Pode não se retirar nada de positivo em termos de Literatura (sim, tudo com letras maiúsculas). No entanto, parece-me que se terá obrigatoriamente que dar um grande mérito à história: colocou-nos a todos a pensardespudoradamente em sexo e, mais que isso, a admitir que o fazíamos e a falar sobre isso nem que seja com a desculpa "estou a ver, porque quero confirmar que é péssimo! (...) Sim, e agora estou a ver a segunda vez, para confirmar melhor ainda!!" ou "só estou a perceber o histerismo em torno disto, eu não gosto deste tipo de histórias, até acho isto nojento, imundo... agora com licença, que tenho que acabar o 28.º capítulo". O sexo é tabu. E finalmente pessoas de todas as idades (já discuti a história com pessoas de mais de 70 anos!) discutem o tema.

Quanto a mim, não posso ainda falar do livro (não li), nem do filme. Tentei ver o filme em casa, mas... percebi que estava a ver uma versão CENSURADA. Dá para acreditar? Eu bem estava a achar estranho as legendas em carateres desconhecidos que apareciam debaixo das legendas em português. Eu bem que estava a achar estranho as cenas mais tórridas serem tão resumidas e não acontecer nada de especial: ela trincava o lábio, ele atirava-se para cima dela, ela gemia, e três segundos depois já se estavam a vestir. Era literalmente assim. Sem pele, sequer: apenas os rostos de ambos a denotar algum prazer, o pescoço e.. pimbas, imagem cortada. Só a mim! Pelo que continuo curiosa. E muito. E vocês, já viram o filme versão não censurada (preferencialmente não censurada, pois eu devo ter sido a única pessoa no mundo não residente na Coreia do Norte a ver aquela versão)? Aprende-se alguma coisa? Vá, não se acanhem e contem-me tudo...