quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Cuidado com as bruxas

Crescemos a ouvir falar do Halloween nos filmes e séries que vamos consumindo. “Doce ou travessura?”, perguntam as crianças, mascaradas de algo fantasmagórico, batendo de porta em porta. O objetivo é angariar-se a maior quantidade possível de doces e guloseimas, sendo que o anfitrião corre o risco de, caso não tenha nada para oferecer aos “convidados”, ser brindado com partidas indesejadas. No final da noite, vemos as crianças contabilizarem os sacos arrecadados, com um sorriso rasgado. Na casa ao lado, vemos, no entanto, adolescentes e adultos, elas vestidas com roupas provocantes, justas e geralmente reveladoras, eles vestidos de vampiros, padres ou mortos-vivos. Aí, as teias de aranha e as abóboras espalhadas pela casa são apenas a decoração obrigatória numa festa que se assemelha, se esquecermos as roupas mais improváveis dos convivas, a qualquer outra. Os ingredientes habituais estão lá: música, álcool, dança e muita vontade de divertir. O Halloween é só um pretexto.

Por cá, a moda atravessou o Atlântico e parece que, à semelhança do Dia dos Namorados, veio também para ficar. No entanto, se antes tínhamos o feriado no dia a seguir e que vinha facilitar a adoção do costume americano, agora a festa tem que passar sempre para o fim-de-semana a seguir, sob pena de ir tudo trabalhar no dia seguinte ainda vestido de Drácula, bruxa, fantasma ou vampiro. Quanto a mim, já fui a algumas festas com esse tema e confesso que me diverti a cortar abóboras e desenhar-lhes caretas, a espalhar aranhas pela mesa, teias de aranha fictícias pelos candeeiros, e a vestir-me do mais assustador que me lembrava. A tradição não é nossa? Ok, mas quando o pretexto é festa, quem é que quer saber do porquê? Não tenho o patriotismo de tal forma desenvolvido que me impeça de festejar dias que não tenham sido criados por Afonso Henriques ou pelos seus descendentes. Por isso, se virem uma bruxa a passear Sábado à noite não se assustem. Posso muito bem ser eu. Sim, porque as bruxas não existem… mas que “las hay, las hay!”*.

*E assim me despeço, que hoje é dia de aula de Espanhol. ;)

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A arte de não educar

O filho teria uns 3 anos e passeava no supermercado ao colo do pai. “Burro! Burro!”, gritava-lhe. A mãe não gostou – “pede lá desculpa ao pai!!” – ouviu-se, em tom ríspido. “Burro! Burro!”, insistia o rapaz, cada vez com mais força. O pai ria-se e dava-lhe beijinhos “váaa, pede-me lá desculpa!!”. “Buuuurrro!! Buuuurrro!!”. E o riso continuava – “vá, estou à espera do pedido de desculpa!” – e mais um beijo. A mãe, chateada talvez, abanou a cabeça, como quem dá o caso por perdido, e foi escolher fruta.
Atrás deles, eu fazia por não ouvir a conversa alheia, mas era impossível evitar. E, sinceramente, apetecia-me agarrar o miúdo e dar-lhe dois berros. Então qual é a piada de chamar nomes ao pai em frente a toda a gente? Mas pior que isso estava a ser, para mim, o comportamento passivo do pai, que passava uma mensagem com as palavras e outra com os gestos. Pedia desculpas enquanto se ria e dava beijos. Que puto não ficaria confuso? Acho que esse é o problema de muitos pais: têm coragem com as palavras, mas temem afastar-se dos filhos, por isso vão dando mimos enquanto passam os raspanetes. Não foi a primeira vez que vi e com certeza não será a última. E faz-me tanta confusão…
Os meus pais nunca me bateram – até porque fui uma criança muito calma, sei disso – mas lembro-me bem dos olhares que me faziam quando me portava pior, principalmente depois da adolescência. Lembro-me das palavras duras que ouvi e das expressões faciais que as acompanhavam. Digam o que disserem, para mim, esses olhares ou tom de voz doíam tanto como dois estalos. Magoavam também, à sua maneira. Sei que a história que contei envolve uma criança e não um adolescente ou jovem adulto, mas não dizem que é de pequenino…? Que criança vai respeitar o pai se sabe que, mesmo a portar-se mal e a fazer asneiras, é brindado com mimos e beijos?... O cérebro vai é responder aos estímulos positivos dos gestos, ignorando as palavras, certo? Deviam inventar um Cesar Millan para crianças, até eu reservava já "consulta" para daqui a uns anos.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Parabéns. Trinta e uma vezes parabéns.

Hoje faz anos a minha amiga mais antiga. E por antiga não se entenda “idosa”. É a minha amiga mais antiga, porque é aquela que conheci há mais anos, nos tempos em que saltávamos das salas do colégio para os jardins no intervalo, esfolávamos os joelhos, sujávamos as batas, passávamos horas a falar não faço ideia do quê, dávamos as mãos e posávamos para mil fotografias sempre juntas - desconfio que, nalgumas fotos, a roupa era até combinada. Era a minha melhor amiga e isso era o que se fazia à melhor amiga: não se largava nem um segundo. À conta disso, acho que as restantes caras daquela turma me parecem ainda hoje um pouco nebuladas: só existia a minha melhor amiga e o resto não interessava. Tínhamos grandes planos de vida as duas, grandes teorias e explicações para tudo. Até que a minha mudança de cidade nos deu a volta aos nossos projetos todos. Chorámos, não queríamos acreditar, vimos o mundo a acabar. Eu ia mudar de cidade e de escola, mas prometemos que íamos ser amigas para sempre e que íamos escrever todas as cartas que conseguíssemos. Assim foi. Só voltámos a ser da mesma turma muitos muitos anos depois, mas esses anos não passaram pela amizade. Foi sempre o meu porto de abrigo, a amiga com que desabafava ao telefone, horas sem fim, a amiga com que estava aos fins-de-semana e relatava toda a minha vida. Mesmo quando o grupo de amigos foi alargando, mesmo quando começaram a aparecer os namorados, ela foi sempre uma constante. Íamos de férias juntas, continuávamos com os planos de vida, as mil teorias, as histórias intermináveis que não nos deixavam adormecer, mesmo quando a luz do candeeiro se apagava, mais cansada que nós. Havia sempre muito para contar, tanto… As mãos já não se davam, éramos adultas, mas a voz, essa, nunca se cansou. E nem a faculdade, o Erasmus, os namorados, as mudanças de cidade, nada separou o que aquela promessa no jardim juntou: íamos ser amigas para sempre.

Podemos não estar juntas todos os dias nem falar tanto como gostaria, mas quero que saibas que sou o que sou, hoje em dia, em grande parte graças a ti, às nossas conversas, às nossas teorias, à tua paciência para me ouvir sempre, ao teu carinho e também à tua perseverança, porque sei que foi também graças a ti que nos mantivemos sempre amigas. Naquele colégio, com dezenas de crianças saltitantes e gritantes, de bata e joelhos esfolados, podia ter escolhido qualquer amigo, mas tive sorte de principiante e escolhi a melhor pessoa que podia ter escolhido. Escolhi-te a ti. E cada vez tenho mais certeza da boa amiga que és e que me inspiras a ser também. Parabéns. E venham lá os trinta e um.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Não percebo a Liliane Marise

Eu sei que talvez fosse preciso acompanhar a telenovela em que ela entrou. Eu sei que talvez fosse preciso ir seguindo a evolução da personagem e vê-la contextualizada na história. Eu sei que talvez fosse necessário assistir primeiro a alguns vídeos no youtube. Eu sei que talvez fosse até preferível ir ao concerto para perceber. Talvez. Mas como não consigo ver os vídeos todos – vi só dois –, como não segui a personagem nem fui ao concerto, digo apenas, do alto da minha total ignorância (assumo): não percebo a Liliane Marise. Primeiro, porque as músicas me parecem básicas e sem qualquer especial requinte ou até marotice. Depois, porque não consigo ver a personagem sem me lembrar da pessoa por detrás daquele papel. Acho também que uma cantora pimba que se preze tem que ser curvas e ser mais “cheiinha” que a Maria João Bastos. Pode parecer redutor, mas geralmente são caraterísticas associadas, se pensarem bem numa Ruth Marlene, numa Ágata, se pensarem numa Micaela ou numa Romana. Depois, porque associo uma cantora pimba a uma voz de bebé, muito suave. Associo cantoras pimba a uma sensualidade de menina, mesmo quando já podem votar e tirar a carta há mais de uma década. A Maria João, feliz (para ela) ou infelizmente (para a personagem) não reúne estas características. Sei que se pretendia algo novo, mas a mim a personagem nunca convenceria. Precisava de um ar mais roliço, uma voz mais de menina e um ar mais rústico que a Maria João nunca terá. Talvez me tenha passado ao lado alguma coisa, mas não percebo a personagem, não percebo. Só que, a acreditar nas notícias de ontem, sou a minoria. 7.500 pessoas, a acreditar no que li nos jornais, quiseram vê-la na Meo Arena. Não houve uma casa cheia, tal como a ênfase dada pelos jornalistas da Tvi de cinco em cinco minutos parecia fazer crer. No entanto, mesmo que o concerto tenha, afinal, enchido em pouco mais de um terço da capacidade total (de 20.000), continua a ser um fenómeno inexplicável, para mim. Se alguém me quiser explicar, sou toda ouvidos.

As vantagens de ser imprevisível

Eles queriam dar a boa nova ao jantar. Antes disso, ficaram parados no carro a discutir a melhor forma de a dar, a distribuir as deixas por cada um para parecer mais natural, e a tentar antecipar a reacção que a noticia iria desencadear em cada um dos "surpreendidos".
- Ele? Vai chorar, não tenho dúvidas.
- E ela? Acho que vai rir-se e dar os parabéns de forma muito mais controlada.
- Sim, sim, sem dúvida! Vai rir-se muito e dizer "eu já desconfiava".
- Pois, vai dizer isso!!
- Mas só ele é que vai chorar, não achas?
- Sim, ele mostra muito mais as emoções.
- Escreve aí tudo para depois não nos esquecermos de comparar com as nossas previsões e vermos se acertámos.
- Já está. Mas já sabemos que acertámos em tudo. Conhecemo-los tão bem...
No dia a seguir, reviram as suas notas e riram. Por muito que pensassem que conheciam cada uma daquelas pessoas como a si próprios, nunca se consegue antever a reação de ninguém. E, naquele dia, tal não foi exceção: nenhuma das pessoas a quem contaram a notícia reagiu como esperavam. Cada pessoa os surpreendeu exatamente pela forma como... se surpreendeu. E foi nisso que pensaram no fim do dia: conhecer alguém a 100%? Tretas. Somos todos mil caras e reações. Somos todos mil pessoas numa só. Experimentem fazer este jogo com alguém que acham que conhecem mesmo bem: contem algo e escrevam antes a reação que antecipam. Muito dificilmente acertarão, se correr como na história. Mas depois contem-me lá o resultado... ;)

sábado, 26 de outubro de 2013

A minha avó no Facebook

A minha avó materna é uma mulher moderna. Mesmo com o problema de saúde que teve há um ano, mantém sempre o seu ar jovem e despachado. E mantém também a sua página no Facebook. A minha avó escolheu as suas fotografias preferidas, tiradas aquando da publicação do seu livro, há uns anos, e definiu uma delas para fotografia de perfil. A minha avó às vezes escreve no seu estado "bons dias, meus amigos". Quando uma vez a apanhei com o chat ligado e perguntei por onda andava, a minha avó respondeu-me "no facebook, querida" e desarmou-me completamente. A minha avó adicionou amigos de infância e falam sobre as suas famílias. Para ela, o Facebook é uma forma de matar saudades da sua infância. E uma forma de ser criança também.

O meu antigo colega de trabalho era também avô. Quando nós despedimos, trocámos emails pessoais e prometemos que iríamos escrever a dar notícias. Um certo dia escreveu-me um email que dizia só assim "olá, querida amiga. Estás online?". E eu achei genuinamente enternecedor alguém perguntar aquilo por email.

A minha antiga "chefe" também me pediu o email pessoal. Quando ainda hoje escreve emails, escreve "lol" a cada passo, para minha completa surpresa, e põe bonecos. Escreve como se fosse uma jovem de quinze anos, quando afinal podia era bem ser minha mãe.

Estes são três exemplos de pessoas que começaram a usar a internet numa idade mais avançada e que, talvez por isso, não atingiram ainda a maturidade a esse nível, são como crianças em frente a um computador. No entanto, em vez de me rir, fico mesmo contente por estes exemplos de pessoas que insistem em acompanhar as novas tecnologias e que não viraram as costas ao "comboio" da evolução. Espero um dia conseguir fazer o mesmo. Se for o preço a pagar para acompanhar filhos e netos, assim será. Pelo menos assim espero...

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Alguém me arranja um buraquinho para me esconder?

O email era importante. Muito importante. Mas nunca mais teve resposta. Eu achava aquilo estranho. Ele costumava ser tão rápido a responder. Costumava ser tão profissional... Os dias iam passando e eu ia matutando naquilo. Por que não terá respondido ainda...?

Hoje finalmente percebi. A minha caixa de entrada indicava que tinha um email por abrir. Fui espreitar. Era o "tal". Uma resposta simples e cordial. O tom profissional era o mesmo de sempre. Desculpava-se pela demora com trabalho. Respondia à minha questão. Tudo normal. Até que vi o que tinha acontecido. E não sabia se devia rir ou chorar. Eu tinha-lhe enviado o email normal, com os cumprimentos de sempre, e a desenvolver o tema, mas tinha escrito um "subject" que não tinha nada a ver com aquele tema, e que dizia respeito a um email mais "romântico" que estava a escrever em simultâneo. Agora imaginem o que terá sido receber um email profissional com o título "saudades. muitas". Fiquei para morrer. Aliás, acho que ainda estou corada. Alguém me arranja um buraquinho para me esconder? Nunca mais me digam que nós, mulheres, conseguimos fazer mil coisas em simultâneo. Podemos conseguir, mas tenho para mim que em metade dos casos acontece algo assim...

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Vou passar para o Modo-Casa-dos-Segredos

Hoje retomei as aulas de Espanhol, que tinha deixado pendentes há algum tempo. É irónico, não é? Uma pessoa queixa-se de falta de tempo, mas aproveita todos os minutos livres para quê? Para os preencher. São aulas, é desporto, é um cinema aqui, um jantar ali. Como se tivéssemos medo do tédio e no não fazer nada… Adiante. Retomei as aulas de Espanhol e, depois dos "holas!" iniciais, cheios de vida, cada um teve que se apresentar. Resultado? Quando chegou a minha vez, senti-me subitamente tãaaao desinteressante. “Olá, tenho 31 anos, faço isto, tirei este curso,…”. Acabei de falar e vi as caras de tédio nos restantes. Ainda pensei pedir para repetir e dizer “estava a brincar! Sou astronauta. Cheguei agora duma missão no Espaço e, nos tempos livres, faço escalada, treino Russo e toco violino.” Ou então, podia ter-me apresentado em modo-Casa-dos-Segredos: “Olá, sou a Pippa C. Sou frontal, amiga do amigo, gosto de me manter morena todo o ano, não me separo dos meus vernizes e sou viciada em desporto. Estou solteira e ando à procura do amor!”.

Tenho que treinar a minha apresentação. Seja em Espanhol, seja em Português, seja em Mandarim.

Ok, talvez em Mandarim não vá treinar muuuuuuito…

Tenho uma nova leitora muito especial

A minha mãe saiu-se ontem com uma frase que me intimidou um pouco “tenho-te lido”. “Tens o quê?”. “Tenho lido o teu blog. Ando a ler os teus textos”. Naquele momento, ia sozinha na rua, mas acho que corei e acelerei o batimento cardíaco. Quando criei o blog contei aos meus pais que tinha um novo “hobby”, mas nunca pensei que começassem a ler, porque não são muito frequentadores da internet. Quando escrevi textos dedicados a eles, nos anos deles, imprimi os textos e dei-lhes, pois sabia que, de outra forma, nunca os iriam ler. E sempre que escrevi aqui, escrevi a sentir-me 100% livre, sempre que falei neles, falei porque me apetecia muito, não porque pensei que iriam estar a ler. Ontem, no entanto, fiquei envergonhada. E porquê? Porque, em última análise, é aos pais que queremos agradar. E não sei muito bem o que hão-de pensar ao ver-me divagar sobre futilidades ou disparates, como muitas vezes acontece. Senti-me como sentia quando entregava uma composição ao Professor de Português – adorava o meu Professor de Português, era o meu ídolo e uma inspiração, mesmo sendo tão exigente e perfeccionista – e ficava ali a vê-lo ler, a franzir os olhos, durante minutos que, naquela espera, me pareciam intermináveis. Naquele momento, tal como acontece agora sempre que entrego qualquer trabalho, sentia que tinha feito a maior porcaria do mundo, questionava tudo, sentia-me mínima perante a grandeza do meu “revisor”. Ontem aconteceu o mesmo, enquanto a minha mãe me revelava a sua nova fonte de leitora – senti-me pequenina e ridícula.
- Mas sabes uma coisa? Gostei muito. São textos muito bem escritos, mas ao mesmo tempo com uma linguagem muito descontraída. O blog és mesmo tu. Escreves como és.

Não me comparou a Camões (como há tempos um colega meu dos tempos do secundário disse que foi comparado). Não disse nada que me coloque na linha de candidatos ao Nobel. Não disse nada que deva ser bordado numa tela e colocado à entrada de minha casa. Mas, para mim, deu-me o maior elogio do mundo: gostou. E isso foi o melhor que podia ter dito. Ainda bem que gostaste. Sabes perfeitamente que foste tu que me incutiste o gosto pela leitura, ao ler-me primeiro, todas as noites, noite após noite, sem te cansares. Ao incentivar-me depois a ler os autores clássicos portugueses – “foi com eles que cresci”, disseste-me –, fosse Eça de Queirós, fosse o Camilo Castelo Branco, fosse o Almeida Garrett, fosse o Júlio Dinis. Ao comprar-me livros, tantas vezes. Ao levar-me contigo para o trabalho, quando estava de férias, e deixar-me usar a máquina de escrever, naquele gabinete só meu, toda a tarde. “Escreve o que quiseres, podes usar essas folhas todas”. Foste tu que discutiste Gramática comigo e me puxaste a pesquisar porque é que se devia ler “m(e)nistro” e não “ministro”. “Anciões” ou “anciães”? Para ti, o português sempre foi um desafio e não um dado adquirido. E foi também por tudo isso que este elogio me soube tãaaaao bem.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Ele era um homem com "H" grande. No cinto.

Hoje cruzei-me no elevador com um homem daqueles a que nenhuma mulher consegue ficar indiferente. Pele bronzeada, com ar de bem cuidada, rosto barbeado, fato azul escuro impecavelmente ajustado – quase diria feito à medida – aos seus ombros largos e cerca de 1,85m, sorriso Pepsodent e diria que com 40 anos. Só que, no tempo que demorávamos a subir, comecei a reparar nalguns detalhes em que não reparei à primeira vista: usava cinto Hermès (aquele “H” é inconfundível) e, tinha também um lenço que, pelos ares de seda que tinha, podia muito bem ser da mesma marca. Cheguei ao meu andar, despedi-me e vim a pensar nisto: o homem tinha ares de modelo, quase. Mas será que as mulheres não se sentem intimidadas à sua volta? Será que as mulheres gostam de competir com um homem nas marcas e acessórios? Imagino que será algo de adorar ou odiar, sem meio termo. Ou a mulher adora falar de roupa, cuidados a ter, moda, marcas e produtos de beleza – e encontrou, assim, a cara-metade -, ou a mulher vai sentir o seu território invadido e vai cansar-se de ter outra pessoa a partilhar os mesmos temas e preocupações. As dúvidas matinais passarão a ser em duplicado:
- O que hei-de vestir?
- Tu? E eu? O que hei-de eu vestir? Tenho o armário cheio de fatos e não gosto de nenhum. Tenho que ir às compras.

Por outro lado, acredito que as respostas serão também mais rápidas:
- Fica-me bem?
- Sim, mas eu imagino esse vestido antes com aquele colar e aquele cinto. Experimenta.

E isso é capaz de não ser mau de todo. De qualquer maneira, digam-me lá de vossa justiça, a mim, que nunca tive nenhum namorado muito vaidoso ou preocupado com roupa: ter alguém assim é um bálsamo ou é de fugir?

Terapia de compras

Em tempos de muito trabalho, chuva, vento e pouco tempo para descanso e almoços ao ar livre, há um pequeno gesto muito muito simples que resolve tudo. Podia estar a falar dum beijo. Podia estar a falar de castanhas assadas compradas a caminho de casa. Podia estar a falar duma música especial que passa na rádio e que começa no momento exato em que carregamos no "play". Podia estar a falar dum banho quente com espuma e sais. Podia estar a falar dumas massagens. Qualquer uma dessas hipóteses seria uma solução e até encaixaria no conceito de felicidade, tal como falei de manhã. Mas, para o efeito, estava a pensar apenas num tipo de terapia: compras. Digam o que disserem, conheço poucas formas de uma mulher esquecer todo o stress em menos dum minuto e voltar a sorrir. Compras... Tão simples! Ainda dizem que somos um bicho complicado... ;)

Quanto a mim, não faço compras há algum tempo (não pensem que virei bem-comportada e poupada, é apenas excesso de trabalho), mas quando me dá a febre das compras faço terapia à distância, pesquisando sites de marcas. E, de entre todo os sites de marcas que gosto, aquele que me faz perder mais tempo é o da Zara, porque anda sempre em cima do acontecimento e atualiza-se a um ritmo alucinante, com preços mais acessíveis que outras marcas que gosto. Por isso, já ando a piscar o olho a meia dúzia de peças que ficariam bem no meu dia-a-dia. Sei que já tenho para aí dez saias em modelo clássico, mas nunca consigo resistir. Ficam bem com tudo! Quanto ao resto... Enfim, quem resiste à Zara? Deixo aqui alguns preferidos, sem nenhuma ordem e sem necessidade de serem conjugados entre si:
Adoro as duas peças. E imagino a saia com t-u-d-o.
Igual. Adoro tudo.
Sim, são clássicos. Mas não tenho nada parecido e imagino a ficarem bem com as saias de cima.
Já vi este modelo em algum lado, mas custava mais de 3 dígitos...
Gosto da saia e da camisola. Mas, se fossem minhas, não conjugava com as botas.
Uma saia colorida em plena chuva e conjugada com neutros é capaz de resultar... Não conjugava com as botas.
Mais uma vez, esta mala parece-me familiar, mas prefiro de longe este preço.
Este casaco não é muito clássico, mas imagino a ficar lindamente com roupa mais formal e camisas por baixo.
Gosto deste peplum tímido.
Outra saia. Este é o ano das saias. Gosto da zona dos cotovelos.
O burgundy/ cor-de-cereja já não é surpresa, mas continuo a adorar a cor.
Este é daqueles casacos que adoro ver noutras mulheres se forem loiras ou muito morenas. Eu estou
no meio termo, por isso infelizmente acho que não vou gostar em mim. Vou parecer doente.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

22 passos para a felicidade

Felicidade. Todos os dias, ao chegar ao trabalho, cruzo-me com uma pequena frase, “grafitada” por alguém inspirado, que me ordena “sê feliz”. Alguns interpretarão como um conselho. Outros poderão ler como uma sugestão. Eu vejo como uma ordem, e gosto que seja assim – “hey, tu aí!! Sê feliz. Já!”. E, sinceramente, gosto mesmo destas duas palavrinhas que alguém desconhecido me resolveu deixar, a mim e a todos os que por ali passam. “Sê feliz”. E eu aceno, compenetrada, e faço por isso. De qualquer maneira, nem de propósito, ontem uma amiga minha dizia-me que tinha lido um texto com 22 passos para a felicidade e que tinha concluído que não cumpria todos. “Então quais são esses passos?”, quis saber. Resumiu-me os que se lembrava, como termos sempre os mesmos horários, vermos os problemas como desafios, termos a capacidade de sonhar em grande, praticar frequentemente exercício e estarmos rodeados de bons amigos. “Parece-me fácil”, respondi-lhe.
- Fácil? Eu ando com os horários trocados. Não tenho feito desporto nenhum. Qualquer problema é, para mim, uma tempestade. Não podia estar mais longe da felicidade. Para ti é mais fácil, porque és uma otimista.
De qualquer maneira, comecei a pensar naqueles “passos” e pareceram-me demasiado abrangentes e pouco concretos. Para mim, tratam-se, isso sim, de requisitos mínimos para uma vida saudável. Os pilares duma vida mais ou menos normal. A felicidade, para mim, passa por detalhes mais específicos, como ouvir boa música, ler bons livros, ver bons filmes e séries, chegar a casa e ser brindada por saltos e lambidelas pela minha cadela, namorar, viajar, escrever, jantar com os amigos, dançar, ir à praia, uma boa refeição, fazer desporto acompanhada, estar com a família… “Não guardar rancor”, “tratar todos com bondade”, “ver problemas como desafios”, “expressar gratidão pelo que já tenho”, “não procurar culpados”, “viver o presente”…. Digam-me: não fazem parte, isso sim, do mínimo indispensável para uma vida razoável? Ser feliz é, para mim, mais que isso. É cultivar a alma. É cultivar o coração. É desenhar sorrisos. E a vocês, o que vos faz realmente felizes?

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Profissões de sonho

Há dias conheci uma rapariga que tinha duas profissões: uma na área da saúde, que era aquela para que tinha estudado, e outra na área da representação e publicidade. Dizia ela que, se algum dia conseguisse ocupar todo o seu tempo com a segunda profissão, abdicaria da primeira sem pensar duas vezes. Contava-me ela que a representação era o seu sonho de criança e que nem acreditava que esse sonho se tinha finalmente concretizado, ainda que apenas de forma esporádica. Acrescentava, no entanto, que, infelizmente, essa profissão era incerta e que, por isso, tinha tido sempre um plano B e tinha tirado um curso para garantir o futuro. Depois, perguntou-me qual era a minha profissão de sonho quando era criança. Resumi-lhe a história e disse que sonhava ser bailarina. Ela sorriu-me de volta, talvez perante a surpresa. A verdade é que sonhava ter várias carreiras em simultâneo: queria ser escritora, pintora, música e bailarina. Sim, podem rir-se. As crianças são férteis em sonhos e eu não era exceção. Hoje em dia, no entanto, tenho pena quando penso que a minha profissão não poderia estar mais longe de qualquer um desses sonhos. Apesar de escrever muito, sou obrigada a adotar uma escrita muito formal e pouco criativa. Por isso, à parte o que acontece neste blog, em que tento escrever tudo o que me apetece e ser um pouco "escritora", todos os outros sonhos foram ficando para trás...

Por que será que os nossos "eu"s crianças se afastam quase sempre tanto do nosso "eu" adulto? Será que perdemos os nossos sonhos algures na viagem até à vida adulta? Será que nos esquecemos do que já fomos e de tudo o que queríamos realmente ser? Ou será que, simplesmente, aprendemos a ser práticos e realistas?

domingo, 20 de outubro de 2013

Afinal o que é ser sexy?

Hoje fui ao ginásio dar a corridinha da praxe. Por norma gosto de ficar em tapetes colocados em frente a televisões em que esteja a dar um canal de séries, mas hoje estavam todos ocupados, por isso, fui obrigada a ver a Mcm (canal de música) durante quarenta minutos. Foi uma corrida engraçada: ouvia a minha música nos phones enquanto via videoclips sem som. Esta experiência permitiu-me ver videoclips que nunca tinha visto, sem música, e permitiu-me analisar com todo o tempo do mundo artistas como a Lady Gaga, Miley Cyrus, Fergie e até a Britney Spears que, pelos vistos, tem nova música. E concluí, nesses produtivos quarenta minutos de suor e análise, que apenas as últimas são realmente mulheres sexy. Sei que estamos perante conceitos muito subjetivos, mas uma miúda sem curvas, corpo de rapazinho, e cabelo curto, por muito despida que esteja, por muito ar provocante que faça e língua de fora que ponha (no caso da Miley) nunca integraria o conceito de "sexy", para mim. Falta-lhe feminilidade, falta-lhe saber deixar à imaginação, acho-a demasiado esforçada e evidente. Quanto à Lady Gaga, mesmo com as suas curvas mais definidas, parece-me um pouco andrógina, mais preocupada com as suas roupas de artistas mil que com a sua sensualidade. Entra no conceito de verdadeira artista, mas não na ideia de sexy. E aqui entram a Fergie e a Britney Spears. Digam o que disserem das duas, se sabem ou não cantar, se têm ou não músicas de qualidade, o que é certo é que eu própria estava a correr e a babar-me em cada videoclip.

Para mim, sexy não é uma mulher despir-se completamente, dançar nua agarrada a uma bola de discoteca, não é lamber martelos com ar libidinoso. Ser sexy é um equilíbrio entre o que se vê e o que se quer ver. Ser sexy é um equilíbrio entre o que o olhar parece dizer e o que queremos que o olhar diga. Ser sexy é um equilíbrio entre o ser ousada e deixar à imaginação. Mas isto acho eu, que sou mulher...

sábado, 19 de outubro de 2013

Já conhecem a Summer?

O filme deve ser conhecido de muitos. Eu própria já o tinha visto há uns anos, voltei a ver o ano passado e hoje apanhei-o a dar na TVI, durante a tarde. As reações que tive em cada uma das vezes foi diferente, talvez por também estar diferente o meu estado de espírito. Já adorei pelo ator (o Joseph Gordon-Levitt é tãaaaao bom ator), pela banda sonora e referências culturais (um filme que fala dos The Smiths, dos Beatles, do Graduate, de arquitetura, que tem a Sweet Disposition, Pixies e Carla Bruni como banda sonora tem que ser especial), pela surpresa da história de amor invulgar... Mas já odiei também exatamente por este último motivo, pela invulgaridade da história de amor.

Para aqueles que nunca viram, estou a falar do "500 days of Summer". A Summer é uma rapariga especial: veste-se com um estilo muito original, um pouco anos 60, tem um gosto apuradíssimo para música e cultura pop, e é, acima de tudo, alguém descrente do amor e independente. O Tom não demora nem dois segundos a apaixonar-se por ela. Só que a Summer diz desde o início que não quer nada sério, até porque, para ela, o amor não existe, é uma fantasia. O Tom diz que não se importa e que pode viver com isso. Mas a Summer dá-lhe a mão no Ikea. A Summer beija-o em pleno local de trabalho, junto às impressoras. A Summer dorme em casa dele. A Summer convida-o a dormir em casa dela. A Summer conta-lhe coisas que - sublinha - nunca contou a mais ninguém. A Summer ri-se do que ele lhe conta. A Summer fá-lo rir como ninguém. A Summer beija-o e faz-lhe festinhas com ternura. A Summer quer ir ao cinema com ele. A Summer quer ir jantar. E os dias passam. Mas a Summer também repete que não quer namorar, porque está bem assim. Se acabam juntos? Não posso revelar, não quero estragar a surpresa. 

Mas fico sempre a pensar nas Summer que há por aí. A Summer está por todo o lado, em cada mulher que a dada altura gostava de alguém, mas não o suficiente para namorar. A Summer está em cada mulher que, sem querer, magoou alguém que até tinha esperanças que ela mudasse. A Summer não é homem nem mulher. A Summer é toda a gente que já esteve com alguém sem certezas ou sem estar apaixonadíssima. A Summer irrita-me um pouco. Talvez porque eu própria já fui a Summer algures na minha vida. E sei que já magoei alguém mesmo quando achava que estava a agir bem. Ai as Summer... De qualquer maneira, já sabem: quando vos vierem com a conversa do "ai estamos bem assim, para quê complicar e namorar? Para quê dar nomes?" ou "amor? Não acredito em nada disso".... Fujam! Quem vos diz isso só quer passar um bom bocado e vai trocar-vos quando realmente se apaixonar. Fujam desse discurso. A menos que realmente queiram só um amor... de Verão.