Aquele “sim” que é dito, perante Deus, o futuro marido, a família e os amigos, é um sim com milhares de letras lá dentro. É um “sim” que vem das entranhas, que é sentido, é um “sim” que nos sai do corpo e que passa a ser do mundo e de toda a gente que o ouve. É um “sim” que é apenas um “sim”, mas é também certezas, projetos, muito amor e sonhos.
Mas depois há um dia em que aquele toque deixa de nos confortar. Aquela
voz deixa de nos acalmar - às vezes até enerva a forma como diz aquilo ou contraria tanto ideias simples. Há um dia e outro dia em que se percebe que não há uma equipa a
lutar pelo mesmo objetivo, mas dois jogadores a jogar jogos diferentes e com
regras diferentes. E tudo muda.
Não senti falta de amor. Senti que aquilo que
tinha idealizado era apenas uma ideia, e que essa ideia não a pessoa a quem tinha
dito o meu “sim”. Sem mentiras, sem falsas promessas. Estava tudo igual. Eu
sentia amor e sentia-me escolhida. Só não da forma que o sonho tinha existido.
Nunca devemos casar com um sonho, devemos casar com a realidade. A realidade
nunca engana. Os sonhos sim. O erro foi meu e o meu idealismo ou a crença de
mudar a pessoa a quem disse, com toda a força, “sim”.
O sonho acabou. E o casamento também.
Não sei ainda bem quem sou eu após esse sonho. Sei que comecei a fazer listas. Listas objetivas do que queria para mim e para o meu futuro. Listas
intermináveis e inegociáveis de todas as características da pessoa que quero na
minha vida. Comecei por ficar demasiado fria e racional e procurar apenas paz e projetos.
Comecei a viver de listas.
Tentei abandonar idealismos e agarrar-me a critérios
palpáveis.
Mas depois também percebi que sorria a listar critérios, porque um
idealista nunca morre e procura magia mesmo que vestida de planos. Um idealista penas se transforma. Neste caso, em pessoa de listas.
Olá, pessoas desse lado. Quantas serão? 2, 3? Olá. Esta sou eu. Esta mesmo pessoa que acordou de sonhos que não
resultaram e podia ter ficado mais amarga. Estranhamente, sinto que não. Continuo
a cantar músicas no carro, como se estivesse a dar um concerto, a rir sozinha
com piadas minhas, a dançar com os meus filhos, a querer viajar pelo mundo. A
diferença é que agora faço as tais listas. Faço mais contas. Uso bem mais o
excel.
Olá. Esta sou eu, a vossa Pippa em 2026. Se vos apetecer
ler, continuo por cá. Apenas com histórias diferentes para contar. E listas. Já vos disse que faço listas?