quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Voltar à forma no pós-parto

Nove meses após ter sido mãe - e tendo passado já tanto tempo não-grávida como o tempo em que estive grávida - julgo que é o momento ideal para fazer um balanço sobre a possibilidade de se voltar à forma depois de passarmos pelo processo da gravidez. Sei que uma dúvida que muitas mulheres têm é quanto a saber se vão conseguir recuperar a forma física que tinham antes de serem mães, por isso, hoje quero dar o meu contributo para o tema, quero contar a minha experiência a todas as futuras mães que me leem.

Dúvidas como:"Conseguirei voltar a ter esta cintura? Ficarei com ancas de parideira largas para sempre? E as minhas mamas, descerão um andar ou continuarão firmes aqui no piso de cima? E a barriga? Não quero ter estrias, conseguirei evitá-las?" são frequentes. Sou mulher, agora sou mãe, e sei perfeitamente os medos que tinha. Conheço estes medos todos. Durante a gravidez, com medo de me tornar uma baleia humana, fui até seguida pela Dra. Mariana Abecasis. Achava que andava a comer de forma desalmada e que iria chegar facilmente aos 80 kgs, se não tivesse alguém a dar-me na cabeça. Na verdade, a Dra. Mariana serviu em parte como psicóloga e como amiga. Não sei se ela terá consciência disso, mas a dada altura eu precisava essencialmente de alguém que ouvisse os meus medos e me compreendesse, porque os princípios nutricionais e as diretivas para seguir eu já tinha interiorizado. Sim, muitas vezes queremos poder dizer apenas "tenho medo de ser gorda" e queremos que aceitem o nosso medo, simplesmente. Sem discursos moralistas. Sem "não te preocupes com isso" ou sem "estás ótima, esquece isso". Às vezes, estranhamente, queremos apenas poder preocupar-nos com isso. E queremos que nos digam que não estamos ótimas e que devemos ter cuidado. A Dra. Mariana permitiu-me desabafar sobre os meus medos. E, juntas (sim, porque parte do mérito de não ter engordado deveu-se a ela), permitiu-me "apenas" ganhar 10,5 kgs durante a gravidez. Nunca fiz dieta. Comia como um urso acabado de sair da hibernação. Todos os dias. E abusei da "fast food", mesmo sabendo que não devia. Mas introduzi a sopa na alimentação. Caminhei muito. Todos os dias caminhava pelo menos meia hora. Nadei. Continuei a ir ao ginásio. Comia chocolates, mas depois tentava equilibrar com legumes e alimentos mais saudáveis que eram sugeridos. E consegui não me tornar gigante, nem ganhar estrias.

E o depois? Depois, talvez por estar a amamentar, recuperei rapidamente o peso que tinha. Até baixei. Atualmente tenho menos 2 kgs que aquilo que tinha antes de engravidar. Sem dietas. Sem sacrifícios, comendo apenas como sempre comi. A barriga não está igual. Não vou mentir. Quando me sento, a barriga ganha umas ondas novas, e noto que a pele não está tão esticada como antes. Mas  a verdade é que também não fiz nada para que a barriga tonificasse! Desde que fui mãe, devo ter feito abdominais no máximo 5 vezes. E não fui assídua nas corridas e no ginásio. No entanto, no último mês, voltei a correr mais assiduamente. Comecei a fazer exercícios localizados. Abdominais incluídos (na última semana fiz duas vezes). E posso agora dizer que estou praticamente igual. Nunca tive um corpo perfeito, por isso, também não é agora que o tenho. Mas nada posso apontar a gravidez como culpada.

Por isso, futuras mamãs, parece-me que nada há a temer. Cheguei aqui, passei pela gravidez, e posso dizer que, pela minha experiência, aquilo que somos depois é basicamente o que éramos antes. A barriga pode ficar um pouco mais flácida, mas nada que um exercício não resolva. As mamas? Até ao momento também me parecem estar iguais. Aproveitem a gravidez. Ah, e posso até acrescentar que ontem bati o meu record pessoal na corrida: 5 kms em 29 minutos. Nada de espetacular para quem corre a sério, mas um dia especial para mim. E com muito menos horas de sono diárias (continuo a ter uma filha doida que adormece sempre tardíssimo, mas que adoro ;)) e com uma barriga menos tonificada.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O brilho dos Óscars

Quanto aos prémios, quem me segue no Facebook do blog, já sabe que estava a torcer pelo Whiplash em todas as categorias para que estava nomeado, pelo Birdman como melhor realizador e, quanto à melhor canção original, pelo Begin Again (que ainda não falei aqui, mas que foi um filme que vi há pouco e que também recomendo, deixa o coração cheio). Acrescento agora que, quanto à melhor banda sonora, torcia pelo Teoria de Tudo, que tem sido a minha companhia nos últimos dias. Temia que o Boringhood/ Boyhood ganhasse tudo, no entanto. Quando acordei, hoje de manhã, e comecei a ver as notícias, já ia com as piores expectativas. Por isso, foi uma lufada de ar fresco ver que a Academia ignorou o conceptualismo vazio deste último e valorizou a complexidade do Birdman. É que para "ver a vida como é", ficamos em casa, não é? Para quê ir ao cinema simplesmente para ver "o dia-a-dia duma família como outra qualquer"? Não percebo...

Entretanto, como de roupa já todos falaram e não teria nada a acrescentar, mostro-vos aquilo que, estranhamente, me deixou mais atenta: as joias. Não sei se terá alguma coisa a ver com a proximidade dos meus anos (bem posso esperar sentada, mas não custa sonhar), mas foi eram estas peças em particular que despertaram o meu interesse:

Eu sei que esta cara e este olhar da Margot Robbie ajudam, mas o colar da Van Cleef and Arpels é
simplesmente m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o, não é?

Marion Cotillard com uns brincos que, em miniatura, eram capazes de ser adotados pelas minhas orelhas.

Nunca escolheria este vestido com estes brincos, mas a Gwineth pode. E ficam-lhe perfeitos.
Se fossem em miniatura também podíamos ser felizes juntos.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Cinema em bom

Fui ver o Whiplash. Depois de outros filmes mais "conceptuais" (como o "Boyhood" e o "Birdman") e com reviravoltas completamente loucas na história (nada me preparou para a viagem no meio dos livros no "Interstellar"... nada!!) ou finais inesperados ("Birdman", mais uma vez), foi a vez de ver um filme em estado mais cru. O "Whiplash" conta a história dum jovem baterista, o Andrew, que está no Conservatório de música (o melhor Conservatório do país, na opinião dele) e quer ser grande. Ou Grande mesmo, com letra maiúscula. Quando surge a oportunidade de entrar para uma banda de jazz e ser orientado por um grande músico, o Fletcher, não desiste de encontrar o seu lugar na banda (é mais que um baterista a lutar pelo lugar) mesmo que isso implique ser praticamente humilhado pelo tal músico.

A história, dita assim, parece básica e pouco apelativa, não parece? E se eu disser que, de todos os filmes que vi desde janeiro de 2014 foi, a par com o Gone Girl - Em parte incerta, aquele que mais me prendeu? E se eu disser que foi o final que mais ansiei e que mais me deixou presa à cadeira, completamente tensa? A cena final do "Whiplash" é tão, mas tão boa que, no dia a seguir, tivemos que rever o filme. Sim, vimos o filme duas vezes em dois dias. Foi quanto adorei (adorámos, que ele estava como eu). O filme põe-nos a lamentar não termos começado a tocar bateria aos 6 anos. O filme põe-nos a vibrar com música jazz. E eu nunca tinha dado por mim a gostar do estilo! O filme é "só" o melhor filme que vi nos últimos tempos. E saber que são os próprios atores que tocam, sem recurso a duplos, torna-o ainda melhor. Tal como saber que os estalos do Fletcher ao jovem Andrew foram reais e não encenados. Tal como saber que o filme foi filmado apenas em 19 dias. É um filme em cru, como disse no início. Mas talvez por isso me tenha sabido tão bem, depois da loucura de outros filmes mais "trabalhados", digamos assim. Aconselho. Aconselho muito.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

E então esse Carnaval?

... A trabalhar, pois claro. Ontem ainda deu para matar saudades das amigas da faculdade, jantarmos e conversarmos um bocadinho, mas depois elas seguiram alegremente para a festa e eu... casa!! De qualquer maneira, ainda deu para desanuviar um bocado. De que nos vestimos? Bem... eu cheguei a casa já depois das 20h30, quando o jantar era às 21h, por isso, não tinha grande tempo para inventar. Acabámos por trocar: eu fui vestida dele e eu foi vestido de mim. De rir (ele, porque eu parecia só uma lésbica desmazelada)! Acho que a Cookie estava confusa a olhar para os dois, sem perceber o que se passava. Ah, quanto a ela teve direito a duas roupas: sábado vestiu-se de japonesa (cortesia dos tios que foram ao Japão e lhe trouxeram uma roupinha tradicional) e ontem de joaninha. Sei que não percebeu nada do que se passava (passou o tempo a tentar arrancar os corninhos que tinha na cabeça e as asas das costas), mas mais tarde há-de gostar de ver as fotografias do seu primeiro Carnaval. Ou isso ou matar-me por a ter vestido tão novinha. Vou torcer pela primeira!...

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Não daria uma Anastasia Steele competente

Ontem dei uma cabeçada com toda a força na janela do meu escritório. E com colegas a ver. As lágrimas começaram a ameaçar chegar com tanta força que tive medo de não as conseguir aguentar. Lá consegui com esforço. Vi estrelas. Cometas e tudo o mais. Mas não me apetecia gritar nem atirar uns palavrões: só chorar, mesmo. Hoje dei por mim a pensar na minha reação à dor e nisto tudo das Cinquenta Sombras de Grey, e cheguei à conclusão que seria a pior Anastasia Steele de sempre. Bastaria uma ameaça de pancada, por muito leve que fosse, e desataria logo a chorar. Tão sensual, hãa? Toda a gente sabe que não há nada mais sensual que uma mulher a chorar baba e ranho. (noooot)

Uma sátira em brasileiro que encontrei a propósito do livro, e que me arrancou uma valente gargalhada,

Parar para respirar

As últimas semanas foram tão cansativas que não sei como consegui sobreviver (de forma sã!) para contar. O trabalho talvez nem seja mais, talvez seja o mesmo de sempre, não sei, mas conciliar os horários pesados e prazos sempre apertados com uma bebé e um marido que precisam de nós (e nós deles, claro), nem sempre é tarefa fácil. Não vou mentir: há dias em que me apetece gritar. Não tenho posto os pés no ginásio (nem na rua, na verdade). Não tenho falado com amigos ou com a família. Não tenho tido um momento para mim. E desde ontem, finalmente, estou a conseguir parar para respirar.

No outro fim-de-semana dei por mim a desesperar: queria fugir para algum lugar paradisíaco, ele estava numa onda mais "caseira", desentendemo-nos, portei-me como uma adolescente a fazer birra. Chateámo-nos, eu estava com zero paciência para ser contrariada e acabei a explodir. Explodi. Há dias assim, não há? E podia não escrever isto aqui e falar, por exemplo, do "Interstellar" (que entretanto já vi), mas o blog é meu e gosto de sentir que aqui sou transparente. Há dias de amor. Mas há dias de explosão também. E se isto é sobre o meu dia-a-dia, tenho que ser honesta comigo mesma. Há dias de explosão, sim. Felizmente, são muito muito raros. E verdade seja dita que sou sempre eu a explosiva. Explodi. Foi um fim-de-semana mau. Mas que depois veio seguido de uma semana melhor e mais pacífica. E de um fim-de-semana de completo descanso longe de tudo. Às vezes é preciso demolir para começar de novo a construir. E construímos um fim-de-semana só para nós. Fomos até Vidago. Namorámos. Sentimos a calma do lugar. O silêncio. Respirámos o ar puro. Fizemos uma pausa. Fomos só nós, sem a pressa do dia-a-dia, o relógio a correr, o trânsito, os prazos, os telefones a tocar. Só nós. Em pausa. Até que o tempo (maldito tempo, que nunca aguenta muito tempo quieto) recomeçou. Mas mais calmo. O tempo tem passado mais devagar desde domingo. E espero conseguir manter este ritmo nos próximos dias. De qualquer das formas, teremos sempre Vidago.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A Teoria de Tudo

Ontem foi a vez de vermos "A Teoria de Tudo". O filme começa bem. Temos a típica cena "rapariga-conhece-rapaz" e sabemos logo que, mesmo tão diferentes, aqueles dois vão ter, inevitavelmente, que acabar nos braços um do outro. A "Teoria de Tudo" começa de forma doce, muito doce. No entanto, por ser o retrato de alguém cuja condição física conhecemos tão bem - o Stephen Hawking - é impossível saborear na plenitude aquele início de doçura. Passei os primeiros trinta minutos do filme com um nó na garganta por antecipação do pior, que sabia que estava para vir a qualquer momento. Foi em vão: mesmo o pior do filme nunca chega a ser tão amargo como imaginava. Porque Stephen parece estar sempre noutra dimensão, acima de tudo, numa dimensão em que as limitações humanas não são obstáculo para nada. E porque a mulher, Jane, parece sempre ter uma determinação, força e caráter tais que nada nem ninguém a poderá deter. Só mesmo Stephen, mas isso é outra história. E mesmo quando Stephen toma "a" decisão, já quase no final do filme (é ver para perceber), Jane reage com dignidade.

Jane é a mulher que qualquer homem podia desejar (ou não fosse o filme inspirado no livro autobiográfico da mesma). Stephen é a mente que todos admiram. É caótico, desorganizado, mas brilhante, e isso atrai todos para junto de si. O filme é uma história de amor. Mas uma história de amor de Jane por ele. Uma história de amor sobre a forma como Jane abdicou de tudo para o ajudar a dedicar-se a desenvolver uma teoria sobre aquilo que ele menos tinha: Tempo. Mas o Tempo é assim, imprevisível, e os dois anos iniciais prometidos de vida a dois tornaram-se mais de vinte. O Tempo é imprevisível e os dois multiplicaram os dois anos e multiplicaram-se a si também. Até já não serem dois, mas quatro. E depois cinco. O filme é uma história de amor. E mesmo quando deixa de o ser, o amor está sempre lá. Mesmo quando mais alguém entra na equação, o amor continua. Esperava que o filme fosse essencialmente sobre o Stephen e a sua obra, sobre as suas teorias, sobre as suas ideias. É essencialmente sobre a sua vida a dois. Mas pela forma brilhante como o Stephen é retratado (o ator é simplesmente genial), e pela possibilidade de conhecermos melhor o seu percurso, já vale a pena. É a minha teoria. Não é sobre tudo, mas é sobre o filme.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Começou a maratona dos Óscares

Depois do "Boyhood", foi a vez de vermos o "Birdman". Dois filmes totalmente diferentes, mas dois filmes igualmente originais na forma de narrar a história. Um filme sobre a família e os dramas familiares, o outro filme mais centrado numa única personagem e nos seus fantasmas. Um filme que dura doze anos reais. O outro filme que dura mais que 90 minutos, mas em que o cenário nunca se move. Ambos os filmes a partirem de ideias brilhantes. Ambos a conseguirem despertar em mim uma vontade enorme de regressar ao cinema. No entanto, se, quanto ao primeiro, achei que houve uma ótima ideia totalmente desperdiçada (e eu adorava o Linklater, por isso, ainda mais desiludida fiquei!) que resultou num filme pretensioso e sem história ou profundidade, no segundo caso, a concretização conseguiu encher-me as medidas. Fui a única dos dois: ele adormeceu a meio, devo dizer. Mas eu senti que estava realmente a viver um momento único de cinema. Adorei a prestação do Michael Keaton, num registo completamente louco e com uma entrega total ao papel. Adorei o papel do Edward Norton também num registo mais decadente (se bem que aqueles abdominais não estavam nada decadentes, não...). Achei sobrevalorizada a nomeação da Emma Stone. Adorei o pormenor do baterista, sempre a tocar, até se confundir com o próprio filme, a dada altura. O efeito visual impactante das asas. O cenário, sempre em rotação. A parte do Riggan, personagem interpretada pelo Michael Keaton, a passear no meio da multidão. E o fim. Já não via um fim tão original há muito. Que belo fim! Lembrei-me dos tempos do Magnólia, em que se faziam filmes loucos que nos marcavam. Este marcou certamente. Se é um filme de que toda a gente vai gostar? Não sei. Pela minha amostra, diria que a probabilidade de gostarem é apenas de 50%. Mas serão uns 50% que irão sair do cinema intrigados, a pensar no filme e com vontade de falar nele. Como eu. Serão uns 50% felizes.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

No meu chuveiro

Não acontece com toda a gente?
O chuveiro tem a melhor acústica: faz-nos parecer afinados (mesmo que a música nem pareça a mesma cantada por nós), com a melhor dicção (mesmo que para os outros o nosso inglês soe a mandarim), e capazes de colocar um Coliseu em delírio.
O chuveiro é ainda terapêutico: para mim, pelo menos, serve para organizar o dia, lembrar-me de assuntos pendentes e tomar decisões. Também é local de inspiração e ideias.
No entanto, ultimamente, o chuveiro tem sido mais que isso: tem sido o meu spa caseiro. Ontem, depois de uma passagem muito rápida pelo ginásio, para cansar o corpo após um fim-de-semana tão cansativo e exigente em frente ao computador, meti-me no chuveiro e senti-me nas nuvens. Ali, ninguém nos chama. Ninguém nos faz perguntas. Ninguém nos pergunta por prazos. Ninguém nos pede para mudar fraldas ou fazer sopas para a bebé. No chuveiro, somos só nós, as nossas músicas, a água a cair e a inspiração a chegar.

Sim, quem não tem cão (neste caso, tempo para spas, massagens ou simplesmente DORMIR), caça com gato! Depois só tenho é que ter coragem de olhar para a conta da água...

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Coisa estranha, isto de ser filha

O meu pai é uma pessoa muito intensa.

Pensei muito antes de escolher a palavra que o descrevesse melhor, mas acho que esta assenta como uma luva: "intenso". O meu pai é intenso. Com tudo o que tem de bom. Muito bom. E com tudo o que tem de... menos bom.

O meu pai é tão intenso que dizer as coisas uma vez não chega. Gosta de as dizer outra vez. E outra vez, não vá eu não ter ouvido da primeira. Da segunda. Ou da terceira vez.
- Não te esqueças de levar o carro à revisão!
- É verdade: tens que levar o carro à revisão, vê se te lembras.
- Já levaste o carro à revisão?
- .....
- Chega! Já sei...
(E protesto)

O meu pai é tão intenso que gosta de repetir o meu nome, quando fala comigo. Repete muito e eu sinto que o meu nome se gasta quando é tão repetido. E agora repete também o nome da minha filha.
- Constança?
- Constança!
- Constaaança.
- ....
- Ela não te vai responder. Não sei se reparaste, mas ainda não fala.
(E protesto)

O meu pai é tão intenso que quer organizar os meus fins-de-semana. Assim, preferencialmente, os meus fins-de-semana incluirão sempre uma noite em casa dos meus pais. Ou um jantar. Ou um almoço. Ou tudo. Sim, de preferência, tudo: jantar, dormir, almoçar, jantar, dormir outra vez.
- Têm planos para sábado? Podiam vir cá a casa jantar.
- O que fazem domingo? Não querem ir lá almoçar?
- No próximo fim-de-semana venham até cá...
- ...
(E protesto)

O meu pai é intenso. E muito presente. Gesticula. Toca-me nos braços enquanto fala. E toca-me outra vez, quando acha que estou distraída. (E eu protesto) Se estamos a andar e a conversar, para nos momentos mais altos da conversa. (E eu protesto) Quer saber de tudo sobre mim. Falamos todos os dias desde sempre. Mesmo depois de, aos 18 anos, eu ter saído de casa para ir para a faculdade, e ter ido viver sozinha. Falamos todos os dias, com a intensidade do meu pai e com os meus protestos.

Há dias, no entanto, em casa, estávamos os três no chão a brincar, olhei para o lado e vi tudo repetido. Vi-o a pegar em mim ao colo. Vi-o a rir-se com ar derretido, a olhar para mim como sempre olhava, quando era mais nova. A rir-se com ar derretido e sem sequer disfarçar. Vi aquele olhar de amor, de amor tão puro, sem "mas", sem "se"s. Vi aquele sentimento de proteção. Vi aquela intensidade que só um pai sente por um filho. Olhei para ali e vi-me, na minha filha. Olhei para ali e, nele, vi o meu pai. Vi-nos a nós. E fiquei esmagada pelo sentimento de culpa.

E pedi-lhe desculpa por todas as vezes que protestei. E pedi-lhe desculpa por, no meio de tantas palavras a mais, eu dizer sempre tantas palavras a menos. Pedi-lhe tanta desculpa. Mas, como sempre, não pedi desculpa ao telefone. Nem ao vivo. Pedi desculpa dentro de mim, onde vivem este 32 anos de memórias, de pai e filha. E agora, como a escrever ninguém olha para nós e nos vê o sentimento de culpa a encher-nos os olhos, peço desculpa por palavras. Escrevo o que não digo. E onde sei que não vai ler. Coisa estranha, isto de ser filha. Tanto para gostar e tão pouco para dizer.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Marido fora...

... Loucura na casa? Festas com muitos copos e música? Noitadas? Compras non-stop? Cabeleireiro? Ginásio? Manicura? Massagens? Jantarada com as amigas?

... Qual quê! Estamos as duas (e a Malti a assistir) a encaixar cubos numa caixa. A por um pinguim a tocar de cada vez que lhe batemos nas orelhas. A ver bonecos psicadélicos na televisão. A espreitar o nosso reflexo no espelho de dez em dez minutos. E a rir-nos de cada vez que o fazemos. Marido fora, loucura na casa! (só que não)

(Aviso à navegação: Se entraste hoje neste blog pela primeira vez e estás a ler isto, tem lá calma. Não enveredei pelas drogas. Estou a descrever as brincadeiras que tenho com a minha filha de oito meses. ;))

Basta-me ser a Média Mulher

Ser boa amante. Saber apimentar a relação. Usar lingerie bonita e a condizer. Ter a depilação em dia. Manter o corpo magro e tonificado. Fazer surpresas porque sim. Dizer "amo-te". Marcar fins-de-semanas românticos. Sorrir. Contar o dia de forma animada. Rir atirando a cabeça para trás e mostrando a dentição Pepsodent, enquanto o cabelo com as madeixas em dia, brilhante, hidratado e bem cortado salta em câmara lenta. Vestir bem. Conhecer as músicas que passam na rádio. Agarrar a cara-metade para dançar, porque sim. Beijar de forma apaixonada. Partilhar segredos e sonhos.

Ser boa dona de casa. Saber fazer cozinhados ainda melhor que a mãezinha dele. Preparar o pequeno-almoço e colocar-lhe ainda algo no bolso do casaco algo para trincar a meio da manhã. Ter a casa sempre impecável. Perceber de decoração. Escolher almofadas para o sofá a condizer com as cortinas. Comprar loiça na Vista Alegre. Ter sempre talheres de prata e copos para cada tipo de bebida. Colocar sempre a mesa como se a seguir a Caras nos fosse fotografar. Saber receber visitas e saber fazer entradas, e entradinhas, e sobremesas divinais. Ter sempre velas aromáticas espalhadas pela casa. Ser organizada e ter sempre uma ementa organizada para a semana, as compras em dia e as faturas guardadas num dossiê. Saber gerir o orçamento familiar como um contabilista.

Ser boa mãe. Ler os livros de todos os pediatras e ter sempre uma opinião fundamentada sobre cada tema, seja ele hora de dormir, vantagens de usar chupeta ou ainda a "ansiedade da separação" que começa a despontar nas crianças por volta dos seis meses. Saber todas as músicas infantis de cor. Não ter dores nas costas e estimular constantemente os primeiros passos da criança. Contar histórias à noite. Sorrir muito e conversar. Colocar sempre ao bebé roupa bonita e a condizer. Golas, muitas golas, laços e folhinhos. Tirar fotografias. Muitas e com a máquina fotográfica. Organizar álbuns por datas, muitos álbuns e marcar sessões fotográficas. Muitas sessões, em que todos ficamos bem. Andar na natação para bebés, nas massagens para bebés e ir aos concertos para bebés.

Ser boa amiga. Estar sempre por perto. E com um sorriso nos lábios. Ter tempo. Ter disponibilidade. Telefonar constantemente. Marcar almoços nos sítios da moda. E jantares. Comprar presentes porque sim. Porque "isto tinha a tua cara!". Acompanhar ao ginásio. E à aula de pilates. E ao curso de costura. Ir às compras, porque aquela loja tem saldos ótimos.

Este fim-de-semana agarrei-me ao computador e coloquei todas estas facetas de ser mulher em standby. Trabalhei praticamente o fim-de-semana todo. Fui só a mulher trabalhadora e cinzenta, sem piada nenhuma. Fui só a mulher sem valor acrescentado para o marido, filha, amigas e família. E o peso na consciência que ficou no fim? E a sensação que ficou de ter falhado em todos os outros pontos? E a sensação de que falhei enquanto Mulher? É que já nem quero ser a Super Mulher. Não vale a pena, desisti dessa luta. Fica o título para quem merecer e quiser lutar por ele. Eu já só participo na Liga das Mulheres Médias. Não quero ser Super Mulher. Basta-me ser uma Média Mulher. É que é tão difícil ser tudo, e ser tudo bem... Desculpem o desabafo. Mas o blog às vezes também serve de "caixa dos desabafos".

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O jajão

Há dias liguei a televisão e estavam a discutir, na Casa dos Segredos (ou Desafio Final, ou lá como se chama agora aquilo), algo que para mim era chinês: "jajão". "Ai, porque eu não é só jajão, fiquei triste", "pois, eu também não alinho no jajão", "....jajão", "...jajão...". E se, primeiro, percebi que estavam a falar do João, depois lá percebi que estavam a falar de... mentiras! Sim, pelos vistos, "jajão" significa "mentira". Lá pesquisei, por esse maravilhoso mundo da internet fora, e percebi que se trata de um termo com origens angolanas. Mas o pior veio depois. Apercebi-me que tooooooodos lá dentro conheciam o termo. Apercebi-me também, com quem conversei depois sobre isto, que todos conheciam o termo por causa desta música. E apercebi-me, com muita pena minha, que ando completamente a leste desta nova onda de músicas deste estilo. Completamente a leste!

Agora digam-me, por favor, pessoas lindas e maravilhosas que me leem: onde é que passa este tipo de música? É que oiço rádio o dia todo e nunca ouvi. Como é que isto me passou ao lado este tempo todo? Um dia destes ainda vou dar por mim numa festa, com toda a gente a dançar e conhecedora das músicas, e eu completamente perdida, como quem aterrou no ano errado. Vou dar por mim como os nossos pais se dariam nas nossas festas, portanto. E não quero ser já uma dos "pais", "esses velhos a leste de tudo". Não estou ainda preparada. Não estou.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Dos fins-de-semana bons

O fim-de-semana passado teve, a dada altura, todos os ingredientes para correr mal, muito mal: por imprevistos de última hora, uns amigos nossos que se iam juntar a nós, viram-se impossibilitados de o fazer e demos por nós, de repente, em plena A1, a mais de 100 kms de casa e sem planos nenhuns, nem ideias quanto a destinos. Como íamos ficar em casa desses amigos, ficámos sem nada programado dum momento para o outro. Continuamos? Voltamos para trás e regressamos a casa? Foi então que me lembrei - "e as aldeias do xisto? Podíamos dar um saltinho a essa zona!". A verdade é que sempre tive curiosidade de conhecer as famosas aldeias. E pensava, na minha inocência, que eram duas ou três aldeias, muito alinhadas lado-a-lado e a ocupar uma reduzida área. Quando percebi, a pesquisar na internet, que afinal eram VINTE E SETE, espalhadas entre Coimbra e Castelo Branco, engoli em seco. Mas nem isso me demoveu. A escolha acabou por ser fácil: escolhemos uma das primeiras que apareceu no Google e que, por acaso, era também a mais próxima de nós e tinha estadia e refeição com desconto num desses sites próprios de descontos coletivos (€55 com dormida, jantar e pequeno-almoço para dois. Nada mau, pois não?).

Assim, lá rumámos para a bela da aldeia de Gondramaz. E que bela descoberta! A casa ("Pátio do Xisto") era acolhedora, enorme, com três quartos, cozinha equipada, jantar com salamandra, pátio, e ficámos lá só os três. À noite, no restaurante, fomos recebidos pela D. Lúcia que nos serviu uma chanfana, o prato local. Nunca tinha comido e fiquei fã (ok, fiquei menos fã quando soube que era feita de cabra velha, mas aí já estava de barriga cheia e satisfeita da vida). Depois, provámos ainda um bolo de dióspiro (também nunca tinha comido) e ficámos à conversa umas boas horas com a D. Lúcia e com outros casais ali presentes hospedados noutras casas. Não é incrível como parece que, nos lugares mais calmos, o tempo parece ser mais gentil e abrandar? No fim, a percorrer as ruas da aldeia, ainda procurámos a raposa que, pelos vistos, ali vive e foi praticamente adotada pelos locais. Infelizmente não a chegámos a ver. No dia a seguir, acordámos com as galinhas (ok, eram 9h30, mas ao domingo parece muuuuito cedo) e fomos tomar o pequeno-almoço a que tínhamos direito, virados para a encosta.

Foi ali que nos disseram que devíamos visitar o Parque Biológico da Serra da Lousã. Descreveram-nos aquilo basicamente como sendo "giro", por isso, como não tínhamos planos alternativos, lá fomos, mas sem grandes expectativas. Eu confesso que estava a contar com meia dúzia de bicharocos espalhados por pouco mais de 10m2. Mais uma vez enganei-me e muito: tem 33.000m2 (!!) com ursos pardos, lobos, raposas, gamos, veados, linces e muitos muitos mais. Andámos 2 horas e sempre a passo ligeiro, sem demasiadas contemplações (mais porque a Constança pesa muito, e ia pendurada no marsúpio). E gostei ainda especialmente deste projeto que li no panfleto que nos deram à entrada. No fim, queria muito andar a cavalo no picadeiro (dá para andar a €2), para matar as saudades, mas o instrutor já tinha ido embora quando lá fui comprar o bilhete. Por isso, acabámos a fazer o quê? A comer. Onde? No Museu da Chanfana. A cabra velha parecia perseguir-nos. O fim-de-semana acabou por ser bom. Muito muito bom. E deixo aqui praticamente todo o roteiro que fizemos, caso o programa interesse alguém. Quanto a mim, regressei a casa mais feliz. Com a sensação de ter estado três ou quatro dias fora em vez de dois. E a sensação boa de ter aproveitado realmente o fim-de-semana, coisa que raramente acontece...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Coisas que gostava de fazer antes de morrer

Fiz, há mais de um ano, uma lista aqui no blog com coisas que nunca fiz e que gostava de fazer antes de morrer. Faziam parte da lista coisas simples como andar de elétrico, patinar no gelo e jogar paintball (eu disse que era tudo simples). Este fim-de-semana lembrei-me de algo básico também e que nunca consegui fazer. Não sei se nunca consegui por algum tipo de deficiência de que padeço, mas nunca fui bem sucedida naquelas imagens todas desfocadas em que temos que olhar fixamente para um ponto e em que, de repente, começamos a ver a 3D. Sabem quais são, certo? Nunca consegui. Devo ter realmente um tipo de deficiência qualquer, porque já me esforcei mesmo muito (mais do que devia admitir, até) para ver o raio das imagens 3D e só consegui ver um borrão de tinta e muita, muita frustração. É que é horrível não conseguir ver nada mais que uma página estúpida, mesmo depois de trocar e destrocar os olhos, enquanto todos à minha volta descrevem imagens belas e celestiais que ali aparecem. Mais alguém padece deste problema?