sexta-feira, 25 de Julho de 2014

Quem é o Rui?

A Constança mudou. Ganhou bochechas, a barriga está mais redondinha e até as coxas estão mais cheiinhas. Já não é um bebé esguio como quando nasceu (apesar de ter nascido com o respeitável peso de 3,450kgs) e este crescimento galopante obriga-me a renovar o guarda-roupa quase a um ritmo semanal. Mas o mais giro é que cada dia palra mais. E mais e mais. Primeiro eram uns "ohhh", depois uns "gaaaah", uns "guuuh", depois aprendeu a dar uns guinchos histéricos ("ihhh!!"). Até que ontem... Ontem saiu-lhe um "Rrr-uuuuuuui!!"
Não quis acreditar. Chamei-o.
- Ouviste? Ela disse "Rui".
- Oh. Estás a sonhar.
- Disse. Juro. Fala com ela, para ver se repete.
E ele começou, incrédulo, a tentar comunicar com ela, meio contrariado, e a imitar uns "guuh" e uns "ohhh". Até que.... "Rrrrr-uiiiii!!"
- Ouviste???
- Ouvi.
- Disse, não disse??
- Disse... Claro que está só a palrar, mas parece mesmo "Rui". (silêncio) QUEM É O RUI?

segunda-feira, 21 de Julho de 2014

Estranhas ligações

Parti o meu iPhone. Mas não foi partir um bocadinho, foi deixar cair e ficar com o visor todo estilhaçado, como uma teia gigante de vidro. Doeu. Muito. Ainda dói.

Com a fúria, voltei a correr. Canalizei a raiva para o desporto. Funcionou. Voltei a correr com os tempos e distâncias de há um ano.

Parti o iPhone e agora leio as mensagens aos bocados e vejo as imagens divididas em mil pedaços. Custa tanto saber que vou ter que pagar o arranjo e ficar sem o telemóvel uns bons dias (e talvez perder tudo o que lá tenho, milhares da Cookie incluídas) que perdi o apetite.

Ah, lembram-se da cinta? O "S" serviu. Oh yeah.

Não sei se há ligação entre as frases de cima. Talvez haja. Menos mal...

quarta-feira, 16 de Julho de 2014

Cenas do Além

Há um ano, alguém* me disse que, de acordo com os astros, neste verão nasceria um novo "Eu". E disse-me também que ia mudar radicalmente de vida. Pediu-me para escrever aquelas palavras, não fosse esquecê-las. E eu assim fiz. "Escreva. Escreva o que estou a dizer. Acredite em mim: no próximo verão, a pessoa que é agora vai desaparecer. Vai nascer uma nova versão sua, totalmente renovada, uma pessoa muito mais segura de si, sem dúvidas, sem hesitações. E a sua vida a nível profissional vai mudar totalmente."

Já é verão. Estou à espera. Astros...? Então?

*E não, não foi a Maria Helena. Juro.

segunda-feira, 14 de Julho de 2014

O segundo método de emagrecimento mais infalível do mundo

Antes de mais, espero que não estejam a ler o texto ao engano: apesar do título do post poder soar a publicidade manhosa a um suplemento ou a um comprimido qualquer, não é disso que se trata. Trata-se, isso sim, do segundo método mais velho e infalível da história da Humanidade para fazer emagrecer uma mulher (a seguir ao primeiro método, que é um novo e louco amor), e que consiste simplesmente em chamar-lhe gorda, ou insinuar que está "cheiinha" ou com algum peso a mais. Esqueçam os livros de auto-ajuda, hipnotismo, consultas de nutrição, massagens, lipoaspirações ou comprimidos mil. Chamem gorda a uma mulher, ainda que sub-repticiamente, e a boca dela fechar-se-á a quaisquer doces e salgados enquanto se lembrar daquelas amargas palavras.

No meu caso, aconteceu ontem: eu tinha decidido comprar uma determinada cinta pós-parto, após falar com algumas recém-mães que me garantiram que era milagrosa e que trazia a cinturinha de vespa de volta num instante. Fui então a uma farmácia.
- Boa tarde, queria comprar aquela cinta, por favor.
- Para si deve ser o tamanho "M", certo?
- Hmm... Costumo usar o "S". É melhor ser o "S", não acha?
- Não me parece. A menina é.... (hesitação)... grande. Parece-me que o "M" será mais adequado para si.
- Pois, mas isso é agora, porque fui mãe recentemente e ainda estou mais cheiinha. Eu antes usava o "S"...
- Pois, mas sabe que o corpo não volta ao que era. Olhe para mim... (A senhora tinha umas senhoras ancas) Quando era nova, também usava o "S". Agora mesmo o "M" só entra com muito muito esforço. Sabe que a idade vai pesando e o corpo muda. Vamos engordando e não há volta a dar...
- Acredito... Mas eu preferia, mesmo assim, experimentar o "S", para confirmar se serve ou não, ok?
- Ok, menina. Vou encomendar o "S", porque não temos aqui na farmácia. Pode vir buscar na Quarta-feira? Mas olhe que não lhe vai servir, vai ver... (riso condescendente)
- Às tantas não serve mesmo, mas assim não fico a pensar nisso, ok? Experimento por via das dúvidas.
- Muito bem. Então fica encomendado. Até Quarta.

Por isso, raismepartam se até Quarta não fecho a boca a todas as porcarias. Nem que passe fome, mas aquele "S" há-de servir-me, nem que fique sem respirar a vesti-lo. E hei-de desfilar na farmácia com aquele "S" enfiado, nem que esteja roxa de suster o ar e encolher a barriga. Ou então não, e fico mal. Torçam por mim. ;)

sábado, 12 de Julho de 2014

Os pés da Cinderella

Acontece-me muitas vezes: ou chego a casa dos meus pais e reparo que a minha mãe está a usar uma peça de roupa igual a alguma que comprei, ou comentamos em simultâneo que passámos na loja X e reparámos na mesma peça de roupa. Não me acontece com mais ninguém, mas acontece-me constantemente com a minha mãe. Temos gostos muito muito semelhantes, apesar de fisicamente sermos bastante diferentes e de as roupas nem nos assentarem da mesma forma. De qualquer dos modos, há determinadas marcas que só namoro e não compro, e que a minha mãe pode comprar. Por isso, por vezes, quando tenho casamentos ou festas mais formais, dou por mim a ir espreitar o armário de vestidos e os acessórios da minha mãe e sair de lá com algum vestido emprestado. É como ir às compras dentro de casa, adoro. E apesar de termos formatos de corpo muito diferentes, costumo gostar muito de me ver com os vestidos da minha mãe. O problema são os pés. A minha mãe calça micro sapatinhos. Tem pés mínimos. E é tudo muito bonito, mas eu, que tenho duas barbatanas (calço 39, mas não sou muito alta), não consigo calçá-los e fico só a babar-me para cima deles. Não sei se é por não poder calçá-los e serem todos inacessíveis para mim, mas juro que nunca vi coleção de sapatos mais bonita. Adoro todos. Tão perfeitos, tão lindos, tão tão... mínimos.

Hoje estava a olhar para os pés da Constança e constatei que certamente sairá a mim. Se continuar a evoluir assim, nada de pezinhos pequenos e delicados, a calçar um 35 gracioso e feminino. Nada de pezinhos de Cinderella, os mais pequeninos dos arredores, a contrastar com os pezões das malfadadas filhas da madrasta. Tem uns senhores pés, que com apenas 2 mesinhos já enchem com orgulho sandálias de 3 a 6 meses. Acho que vou mas é inscrevê-la já na natação. Se sair à mãe-Big-Foot, pelo menos há-de conseguir nadar rápido...

sexta-feira, 11 de Julho de 2014

A rua ficou mais triste

A rua da casa dos meus pais ficou hoje mais triste. A rua ficou mais triste nem tanto por mim - que o via apenas casualmente, quando visitava os meus pais -, mas sim por todos os vizinhos, adultos ou crianças, com que ele se cruzava diariamente, cheio de energia e de sorriso contagiante. A rua ficou mais triste, a cidade perdeu um sorriso e o mundo daquela família ficou com certeza para sempre mais vazio.

Costuma-se dizer que a morte nos apanha sempre de surpresa. Só que, neste caso, nem apanhou. Neste caso, a morte escreveu-lhe uma carta com aviso de receção e deu-lhe tempo para se preparar, se é que é possível alguém preparar-se para a morte. Assim, por aquilo que me contaram, após ter sido detetada uma doença terminal, este homem de garra logo tratou de traçar alguns objetivos que queria ver cumpridos no tempo que lhe restava: queria ver a filha casada, o filho licenciado e queria ainda festejar o 50.º aniversário, dali a muitos meses. Os médicos diziam, em surdina, que dificilmente teria tantos meses de vida. De qualquer maneira, determinado a enfrentar aquele bicho terrível que lhe devorava o corpo e lhe retirava avidamente tempo de vida, a um ritmo feroz, quando foi comprar o fato com que pretendia ir ao casamento da filha, comentou na loja: "Este fato hei-de usar no casamento da minha filha e no meu funeral". A frase parecia vinda de alguém terrivelmente ciente do seu destino e conformado com o mesmo. Imagino que na loja terão feito um sorriso amarelo, ao ouvir tal frase, e minimizado a mesma. Imagino que terão respondido algo do estilo "oh com certeza que usará mais vezes, parece estar ótimo". E estava ótimo. O espírito mantinha-se desperto e fortalecido. Só que o corpo definhava face àquele bicho implacável. De qualquer maneira, os meses foram passando. E deu o braço à filha, no dia do casamento, até ao altar. O filho licenciou-se. E o dia do 50.º aniversário chegou. Nenhum médico tinha previsto tanto tempo de vida, nem no cenário mais otimista. Festejou o dia junto dos que lhe eram mais próximos. Abraçou quem quis. Beijou quem mais gostava. Não deixou palavras por dizer. No dia seguinte, voltou a vestir o fato que usou no casamento da filha. Tal como tinha previsto. E todas as senhoras que trabalhavam na loja se foram despedir dele, de coração apertado.

A rua da casa dos meus pais ficou mais triste. E eu fiquei com a certeza que há pessoas mesmo inspiradoras, a quem nem a morte assusta, e que têm um sorriso tão forte que conseguem sorrir até ao último dia. Sei que a morte vence sempre, no final. Mas gosto quando lhe dão luta e se riem perante a mesma. Porque inspiram-nos a viver. E a aproveitar cada dia ao máximo com mais afinco.

quarta-feira, 9 de Julho de 2014

Estou tão em forma

Hoje decidi que ia voltar a mexer este rabinho. Andava a adiar o regresso ao desporto, a adiar, a adiar, mas quase dois meses depois parecia-me que estava mais que na hora de voltar às lides desportivas. A verdade é que, não sendo uma Carolina Patrocínio nem estando sequer lá perto, até me fui exercitando durante a gravidez e continuei a ir ao ginásio e a nadar até praticamente a bebé me saltar cá para fora. Juntando a isto o facto de andar a dar passeios quase diários desde que saí da maternidade (quanto mais não seja para passear a Malti, que continua a exigir atenção e eu dou, pois claro), acreditei, muito ingenuamente, que até estaria com a resistência para a corrida no ponto em que a deixei. Pois então, depois de um dia de descanso bem sucedido, que incluiu finalmente piscina, vesti-me a preceito e aproveitei a histeria do jogo Brasil-Alemanha para me fazer à estrada sem testemunhas oculares.

Resultado? Cheguei a casa a sentir-me o Brasil depois de levar sete golos da Alemanha. Cheguei de rastos, completamente transpirada, ofegante e vermelha. O pior foi que tive até que fazer a bomba da asma, porque ouvia-me a chiar. Não foi como esperava, não. Mas depois sentei-me e contei os meses que estive sem correr. Contei os quilos que engordei e perdi nos últimos meses. Lembrei-me das alterações que o meu corpo sofreu. E concluí que há-de ser normal custar o regresso à rotina... O que decidi é que não hei-de desistir e vou continuar a insistir até recuperar a minha resistência. Como asmática sempre tive consciência (até de ouvir o alergologista a repetir) que tenho uns pulmões mais sensíveis que outra pessoa, mas que com muito exercício vou lá na mesma. E hei-de ir. Nem que vá vermelha e ofegante. Ou de bomba na mão. Gostava que um dia a minha filha tivesse orgulho em ter uma mãe que corre mais de dez metros sem ficar ofegante. Aiii, estou tão em forma...

segunda-feira, 7 de Julho de 2014

Qual é o teu talento?

Ando com uma angústia que não me sai da cabeça, depois de ter visto um daqueles típicos filmes de domingo à tarde rapaz-conhece-rapariga-que-namora-mas-no-final-de-sessenta-minutos-de-filme-descobrem-que-foram-feitos-um-para-o-outro-e-ficam-juntos-para-sempre. E a angústia nada nem a ver propriamente com o filme, cuja história ou protagonistas já nem sequer me lembro, mas apenas com uma única e concreta cena do mesmo. A dada altura, quase toda a família se encontra reunida em casa da protagonista e partilham um jogo com um rapaz: cada um costuma apresentar um talento aos restantes membros da família, numa espécie de teatro caseiro. E então há quem toque guitarra, há quem cante, há quem represente uma cena de um filme e há quem faça magia. Até aqui nada de especial. Correto...? Errado.

Foi exatamente aqui que comecei a matutar e a ficar angustiada. Se, de repente, fosse a uma casa em que tivessem este hábito e me chamassem para "atuar" sem ter qualquer instrumento à mão, qual seria o meu talento? Canto medianamente, por isso, não faria disso um talento. Danço também mediamente, por isso, idem, pouparia os demais convivas a três minutos de dança ou cantoria improvisada e atrapalhada. Depois de muito pensar, reuni dois tristes e vergonhos talentos, algo que acredito que nem toda a gente fará e que pudesse, por isso, ser minimamente surpreendente:
1. Poderia fazer uma ocarina com as mãos e imitar o som de pássaros (isto). Seria um momento deprimente, mas pelo menos parece-me ter o tal fator surpresa;
2. Poderia, em alternativa, escrever um texto ao inverso, da direita para a esquerda, e pedir depois a alguém que lesse tudo em frente a um espelho. Seria outro momento entediante, mas mais uma vez fator surpresa, certo?

A verdade é que continuo a pensar em "talentos" que estejam à altura do nome, mas... não me ocorreu mais nada. Tantos anos de vida, tanto tempo livre e parece-me que não desenvolvi nenhum especial talento. Não faço magia, não imito vozes, não faço formas com balões, não faço música com copos... Ai, maldito filme.

E vocês, quais são os vossos talentos?

quarta-feira, 2 de Julho de 2014

Procuram-se ideias

Ando com uma crise criativa. De escrita?, perguntam vocês. Não. Essa, felizmente, nunca atravessei, e mesmo que escreva menos é apenas por falta de tempo, não por falta de ideias. Ando com uma crise criativa de outro tipo. Uma crise de ideias para comemorar o nascimento da Cookie. Queria fazer/ comprar/ mandar fazer algo que marcasse a data do nascimento dela, algo bonito e original, mas não sei o quê. Já pensei em plantar uma árvore para assinalar o nascimento, em revelar fotografias dos três e fazer uma montagem bonita, já pensei em comprar um colar com as nossas iniciais do nome, mas... O que eu queria mesmo mesmo, bem lá no fundo, era ser uma aprendiz de Beethoven para ser capaz de compor uma obra com a força de uma "Für Elise", ser uma amostra do Da Vinci para conseguir pintar algo semelhante a uma "Mona Lisa", ou um Shah Jahan à escala local para mandar fazer um Taj Mahal assim mais pequenino e humilde. Quando era nova sentia-me capaz de desenhar qualquer coisa, adorava pintar, mas parece que essa capacidade desapareceu com a idade e falta de treino. Também me sentia uma pianista razoável, mas hoje em dia toco os Parabéns sem pauta e pouco mais. Falta de criatividade ou falta de jeito? Não sei o que é, acho que é tudo junto, mas parece que nada está à altura do que queria. Como é que se assinala o nascimento de um filho, quando não somos artistas e não podemos por mãos à obra, mas apenas comprar o trabalho de outras mentes criativas? Gostava mesmo que um dia a minha filha crescesse e lhe pudesse mostrar algo que assinala o ano em que nasceu, para que pudesse sentir-se tão especial como a vejo. Ideias procuram-se.

terça-feira, 1 de Julho de 2014

O dia D #4

(Primeira parte: aqui; segunda parte: aqui; terceira parte: aqui)

Depois de um dia a ouvir dizer que tinha grande resistência à dor, comecei a acreditar um pouco naquilo, de tanto o ouvir. As horas iam passando e, se a dilatação e as contrações aumentavam, a dor não, por isso, se me perguntassem, a dada altura, como era afinal o trabalho de parto, a minha resposta seria um sorridente "Facílimo!! Não custa nada!!". Talvez por isso quando, de repente, a primeira contração a sério apareceu, nem queria acreditar. Contorci-me toda de dores, em posição fetal. Aquilo era a pior dor menstrual de sempre multiplicada por dez. Parou.
- Estás bem?
- Sim. Acho que começaram. E digo-te: se é assim, é horrível. Mas vou tentar concentrar-me na respiração na próxima vez, a ver se ajuda.
Toda a vida tinha ouvido falar na respiração como essencial no trabalho de parto. É nos filmes, é nas séries, é nas aulas de preparação para o parto: "concentrem-se na respiração". E parece facílimo, não parece? Respirar. Concentrar na respiração. Fazemos isso tantas vezes, qual poderá ser a dificuldade? Pois... Só que não é. De todo! Fácil é fazê-lo sem dores. Quando a próxima contração chegou, eu só queria arrancar as fitas e tubos do soro, e sair da maca. Não sei porquê, mas o meu instinto em cada contração era sair da maca e andar a pé. Não podia, obviamente. Tive que continuar a contorcer-me ali deitada, presa por fitas e fios, e a gemerNenhuma respiração parecia conseguir ajudar. Pusemos o episódio em pausa e carreguei no tal botão. Quando a enfermeira veio, tentei, no entanto, ser contida e educada no pedido:
- Olá!! Já tenho algumas dores. Penso que já podemos pensar na epidural.
- Muito bem. Vou chamar a anestesista. Um segundo.

Nesse preciso momento, a dor pareceu abrandar automaticamente, por antecipação da epidural mágica. Em dois ou três minutos, a anestesista já lá estava. Eu tinha suportado dores fortes durante dez minutos, no máximo. Nada de especial, pensando agora à distância.
- Ora então já está com dores...?
- Sim, Sra. Dra. Já tive algumas dores...
- Pois, mas até parece muito bem, deixe-me que lhe diga. Ora vamos então à epidural. Explicaram-lhe o que é a epidural nas aulas de preparação para o parto?
- Sim.
- Muito bem. Então vou pedir-lhe que se encoste para trás, o máximo possível. Isso... Recue até à ponta da cama, com as costas direitas. Vou pedir que não se mexa, que fique o mais imóvel possível. A seguir, vou anestesiar primeiro localmente e...
De repente, fomos interrompidas por uma enfermeira, que entrou no quarto, em sobressalto:
- Dra.! Preciso de si agora. É uma urgência.
- Que se passa?
- A senhora do quarto X...? Vai ter que ser cesariana. Precisamos de si.
- Não dá tempo de dar esta epidural?
- Não, desculpe. Tem que ser agora.

E ali fiquei, encostada para trás, o máximo possível. Com as costas direitas, num ângulo de noventa graus. Imóvel. Como um drogado a ressacar a quem prometeram mais uma dose e fica a salivar. Eu estava cheia de dores e já só sonhava com a epidural. Só que a epidural foi-me negada. Voltei a deitar-me, resignada e irritada. A aguentar as contrações, cada vez piores e piores. E já sofria também nos intervalos das contrações por antecipação da próxima. Qual respiração, qual quê? Naqueles momentos só sabia gritar "Aii meu Deus", "epiduraaal!!" ou ainda "a anestesista? Preciso da anestesista!!". Naqueles momentos fiquei fã para todo o sempre de todas as mulheres por todo o mundo que passaram por todo este processo sem epidural. É dose. Estive assim cerca de quarenta e cinco minutos e percebi que sou muito mais frágil do que pensava. O corpo é frágil. E as contrações abalam-no. E de que maneira! Ele ia-me fazendo festinhas nos ombros, e perguntando pela anestesista às enfermeiras, nos intervalos. Sim, porque, a dada altura, eu já só dizia:
- Chama a anestesista, por favor. Por favor. Preciso mesmo. Isto é horrível.
Senti-me um ratinho pequenino, eu, antes tão dona e segura de mim. Eu, que antes imaginava que sabia perfeitamente o que eram "as" contrações. Sabia nada. Não sabia nada... Era a triste conclusão a que começava a chegar.

Até que:
- Olá. Posso entrar?, Perguntou uma voz masculina desconhecida.
- Sim...
- O meu nome é X. Chamaram-me para lhe dar a epidural. A minha colega vai demorar um pouco na cesariana, por isso, vim eu.
Olhei para ele. Juro que parecia um anjo. A bata de um branco imaculado. O cabelo, se não tinha caracóis, pelo menos é assim que o imagino, angelical. A voz sábia e tranquilizante. Juro que aquela voz, só por si, me fez deixar de ter dores. Ouvi quase que uma música celestial a seguir à palavra "epidural". O meu corpo fez tudo automaticamente, a partir daí. Encostou-se. Recebeu a anestesia local. E a epidural, logo a seguir. Apenas senti uma ligeira picada. Mínima. E nuvens a entrarem dentro de mim. Nuvens, nuvens, nuvens. Comecei a levitar, cheia de nuvens.
- Ahhh... Bendita epidural.
As contrações transformaram-se em ligeiras cócegas, que sentia, do alto das nuvens, mas sem causar qualquer dor ou desconforto.
- Dei-lhe uma dose. Quando voltar a ter dores, repetimos e/ou aumentamos a dose, ok?
Não sei se respondi, sequer. Estava completamente zen e a rir-me já por tudo e por nada.
- Bendita epidural.

Passado algum tempo, novo toque.
- Está quase, quase!
Acabámos o episódio da Guerra dos Tronos. Já era noite, praticamente. Até que senti uma dor imensa e uma impressão dentro de mim, como se algo tivesse caído abruptamente. Toquei novamente no botão das dores. Veio uma enfermeira.
- Estou com dores outra vez, penso que é melhor reforçarem a epidural.
Atrás, veio uma médica. Novo toque.
- Está pronta. Está pronta.
De repente, um rebuliço. Começou a entrar gente e mais gente. Parecia um filme em que aceleraram a imagem, via movimento atrás de movimento, tudo acelerado.
- Prepare-se para fazer força.
- Já? Vai ser agora?
- Sim, está pronta.
- Mas estou cheia de dores. Não podem só dar mais um bocadinho de epidural? (eu avisei que me tinha transformado num ratinho cobarde)
- Agora é rápido, prepare-se para fazer força.
Não fiz logo força onde era suposto fazer força. Primeiro, olhei para o lado, para ele. Emocionado, apertou-me a mão com mais força. Não dissemos nada, acho eu. O que havia para dizer?...

A seguir, não consigo bem explicar a sucessão de acontecimentos. Mas sei que o trabalho de parto em si foi praticamente como tinha imaginado. O "forçaaa, forçaaaa!!". O "está quaaaaseeeee!!". Tudo quase instintivo e natural. Tudo como se já tivesse lido o guião antes de entrar em cena. Só que nada nem ninguém me tinha conseguido explicar como ia ser depois, o momento mesmo antes do nascimento. Nada nem ninguém me tinha dito. Nada nem ninguém me explicou que, de repente, a imagem e o som paravam. Que, de repente, iria ser só eu e um silêncio absurdo e que, à minha volta, tudo começaria a aparecer em câmara lenta. Ninguém me disse que, de repente, o tempo pára. Que, de repente, somos só nós e um medo maior que nós. E dou por mim aterrorizada. Tenho medo de errar, de não saber fazer força, de não saber tirar aquele ser de dentro de mim, de não ser capaz. Um silêncio impossível de aguentar. Um silêncio envolto em medo, os ponteiros do relógio em suspenso, e só eu e aquela mão ali do meu lado agarrar a minha, aqueles olhos ali ao meu lado procurarem os meus. E a darem-me força. Força. A única palavra que interessa: força, tenho que fazer força. Força. Para interromper aquele silêncio, para vencer aquele medo. Força. Força. E eu faço. Faço toda a força que tenho. Uma e outra. E ainda outra vez.
...
E, de repente, algo quebra o silêncio. Algo vence o medo. Um choro. Um choro.

E mistura-se aquele choro primordial, virgem, a saudar pela primeira vez o mundo, com um choro gasto e velho - o meu. E choro por a ouvir chorar. E vejo-a sair de mim, frágil, assustada, de braços abertos, como sempre sonhei, como tantas tantas vezes sonhei. E vejo-a aproximar-se de mim, trazida por mãos invisíveis, vindas nem sei de onde, e agarro-a, agarro-a a tremer, deito-a no meu peito, e choro, e choro, e choro. E penso ou digo (não sei bem, porque tudo me pareceu um filme e o sonho e a realidade confundem-se): "amo-te, amo-te, amo-te". E acrescento, como se fosse necessário: "muito, muito, muito". Eu, que nem acredito que se ama muito, porque o amar é um sentimento total, absoluto, e se amamos tem que ser com todo o nosso ser, o amar é incalculável, é mais que muito, mas acrescento "muito", porque naquele momento amar não chega. E soluço. E beijo-a. Aquele ser que sai dentro de mim, ainda viscoso, sujo, roxo. E beijo aquele ser que, mesmo viscoso, sujo e roxo, é o ser mais bonito que já vi, porque é fruto de mim, fruto dos meus sonhos, é a minha filha, a minha filha esperada, e é a mais bonita do mundo. Beijo-a, ali, naquele momento que é só nosso, porque o tempo continua suspenso, a andar em câmara lenta. Beijo-a durante todo o tempo que me apetece. O tempo é nosso e só nosso. Beijo-a. E amo-a com toda a minha força. E tanta força que tenho! Amo-a. Amo-o. Amo-nos aos três. E, de repente, o tempo continua o seu curso, naturalmente. Tiram-ma das mãos, de cima de mim. Levam-na para lavar, para medir, pesar, vestir.
- Está tudo bem?
- Está ótima. 50 centímetros e 3,450kgs. É perfeita.

É perfeita. Tudo o que se quer ouvir. Perfeita. Como se a história terminasse aqui e tivéssemos o final feliz com que sempre tínhamos sonhado. Só que a história não termina aqui. A história começa agora. E o calendário marca zero. A história está só a começar. Bem-vinda, meu amor.

(Conclusão no próximo post...)

Sê tu mesmo

Hoje, em conversa com uma pessoa amiga que me dizia que ia ter uma entrevista importante, lembrei-me de algumas frases com que embirro e que são geralmente ditas e repetidas nestes dias:
- Sê tu mesmo.
A questão é: será que alguém decide, em plena entrevista, encarnar outra pessoa?... Este conselho sempre me pareceu tão vão...
- Parte uma perna.
A última vez que me disseram esta frase parti literalmente a perna, por isso, fiquei com particular aversão a esta.
- Vou ficar a torcer por ti.
Aqui talvez seja o meu lado infantil a falar, mas sempre que dizem isto imagino-os em modo contorcionista chinês de seis anos, todos torcidos sobre si mesmos, com as pernas enroladas à volta da cabeça.

Assim sendo, geralmente opto por dizer apenas, nestes dias decisivos: "espero que corra bem". E fico honestamente à espera que corra bem, de telemóvel na mão, a acreditar que, se a sorte protege os audazes, o sucesso protegerá quem tem mérito, garra e dedicação. Mesmo sem conselhos sábios e gastos.

segunda-feira, 30 de Junho de 2014

Este não é um texto sobre moda*

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Não se deixem enganar pela fotografia, tirada no casamento que tive no último fim-de-semana: este não vai ser um texto sobre moda. O vestido da imagem tem cinco anos e comprei no El Corte Inglès, na Studio Classics, que é uma marca que só conheço de ver lá. As sandálias têm também dois ou três anos e são da Schutz, marca que adoro, mas onde só me atrevo a comprar de vez em quando. O cabelo foi esticado em casa e a pulseira com o infinito e pendente com o "mum" foi presente de Natal, é da Tiffany, e já a mostrei melhor aqui. Nada de novo e a gritar "novidade-2014!!", portanto. Lamento...

Não se deixem enganar pela fotografia, repito: este pretende ser apenas uma prova de que, após mês e meio de se ter um bebé, é possível metermo-nos nas roupas do "antes". Há um longo caminho a percorrer, e custa ver que, de repente, todo o mundo se concentrou na imagem, no ginásio, nas corridas, nas sementes, nas zumbas, nos sumos, nos grãos, nos abdominais, enquanto nos concentramos nas fraldas, nas vitaminas, nas vacinas, nos carrinhos, nas roupinhas, nos toalhetes, e nos cremes para bebés. Há um looooongo caminho a percorrer, mas hei-de percorrê-lo com calma. Coube num vestido de 2009 e isso já foi um grande passo para mim.

* E, no entanto, como me perguntavam várias vezes as marcas das roupas que mostrava aqui, foi a primeira vez que optei por mencioná-las logo desde o início. Não falei sobre moda, mas, pensando bem, também nunca estive tão perto.

quarta-feira, 25 de Junho de 2014

O pai e a mãe do recém-nascido - descubra as diferenças

Cenário 1
Mãe está com o filho recém-nascido ao colo e este chora.
Consequência:
Surgem logo mil fiscais-da-mama, trezentos fiscais-do-frio, cento e quarenta fiscais-do-calor, sessenta fiscais-da-fralda e vinte e nove fiscais-da-chupeta, a correr de todos os cantos, em sobressalto, como que a responder a um chamamento qualquer e à obrigação de educar a mãe novata, perguntando, sábia e rispidamente:
- Será fome? Há quanto tempo deste de mamar? O teu leite será suficiente? Estás a dar suplemento?
- Terá frio? Não devias aquecer esses pezinhos? Não terá o peito descoberto? Não será melhor por um cobertor? Não será melhor vestir um casaquinho?
- Terá calor? Não está transpirado? Não será melhor tirar as meias? Não queres tirar o casaquinho?
- Terá feito cocó? Já mudaste a fralda? Serão cólicas? Fizeste massagens?
- Não queres experimentar por-lhe a chupeta? Não queres insistir para se habituar?

Cenário 2
Pai está com o filho recém-nascido ao colo e este chora.
Consequência:
Surgem logo mil quinhentas e vinte e nove mães, a correr de todos os cantos, como que responder a um chamamento qualquer:
- Ohhhhh!!
- Que querido!
- Que jeitinho...
- Ohhh...
- Está a chorar? Coitadinho!
- Ohhh... Queres ajuda?

É verdade, ser mãe pela primeira vez no meio de mães mais experientes é lixado. Os fiscais andam sempre em cima. Ser pai é tãaaao mais fácil, não me venham com tretas. A mãe tem todos os seus passos serem analisados: é a mama que tem que dar leite a toda a hora (e do bom!), é a temperatura que está sempre em mudança e deve ser refletida na roupa, é a fralda que tem que ser mudada, é a forma como se pega ao colo no bebé, é tudo... Ser pai é tão, mas tão mais fácil. E não, não estou ressabiada com nada nem com ninguém, mas é uma constatação que tenho feito desde os dias em que estive na maternidade e da análise de outras famílias também. De certa forma, a sociedade exige perfeição das mães no contacto com os filhos. Dos pais? Exige apenas a sua presença. Sim, a sua sociedade é machista. Mas o que é mais triste é que, muitas vezes, este machismo começa nas próprias mulheres. Por que será? Por que nos sairá um "ohhhh" automaticamente se vemos um pai pegar num filho e, se vemos uma mulher, já desligamos o botão do "oh" e buscamos apenas mais e mais perfeição? Por que será que somos tão mais críticas com as outras mães e totalmente condescendentes com os pais? Não deveríamos, em pleno século vinte e um, ter evoluído para a total igualdade de sexos também nestes cenários? Se isto fosse o outro programa de rádio, terminaria dizendo "vale a pena pensar nisso"... Como não é, resta-me ir embora e pensar nisto mais um bocadinho. Juntem-se a mim se quiserem. ;)

segunda-feira, 23 de Junho de 2014

Ainda és desse tempo?

Hoje acordei a sentir-me cheia de energia (benditas seis horas de sono!!) e determinada, entre outras mil coisas, a por em dia a leitura dos meus blogs preferidos. E uma das vantagens de ler é que, estava a "nostalgiar-me" com este post da Loira (que não conheço pessoalmente, mas que me parece uma mulher cheia de graça) e lembrei-me dum episódio recente. Sim, porque às vezes ler e conhecer os outros, é conhecermo-nos também a nós mesmos e revivar a nossa própria memória.

Pois então aqui há meia dúzia de meses encontrei, num aniversário dum tio, uma cara familiar. Ela teria cerca de quarenta anos, era uma mulher bem parecida e com um sorriso simpático. Olhou para mim e eu olhei para ela. Desviámos o olhar. Eu conhecia-a, mas de onde? Voltei a olhar. Ela, talvez sentindo o olhar, olhou também. Sorriu timidamente. Eu respondi ao sorriso fazendo um sorriso "meio-termo", daqueles que servem para cumprimentar quem não temos a certeza se conhecemos bem ou não. Continuei a falar com as minhas primas e esqueci aquilo, talvez fosse apenas alguma amiga dos meus tios e já nos tivéssemos cruzado neste tipo de jantares. É, talvez fosse isso. Mas passado uns minutos, oiço um "Oláaa!! Já sei de onde a conheço! Bem me parecia!!". Olhei para trás.
- Foi minha aluna no secundário!
- Ahhh...!!
- Introdução às Técnicas de Informática.
- Sim!! Tem razão!
- Bem me parecia. Comentei com a sua tia que a conhecia e pelo seu nome cheguei lá.
- Oh professora, desculpe! Como estávamos noutro contexto não a associei ao secundário. Tem toda a razão, fui sua aluna.
E acrescentei, com toda a sinceridade, que a professora estava exatamente igual desde há dezasseis ou dezassete anos atrás. Conversámos um pouco, perguntou-me pelo meu percurso profissional, falámos da minha vida pessoal, da gravidez, etc, até que, a dada altura, comentei com ela:
- Professora, estava agora a pensar e julgo que a última vez que trabalhei com disquetes foi nas suas aulas.
- Disquetes...?
- Sim, e a última vez que trabalhei com o MS-DOS.
- Oh... ainda é desse tempo?
- Sim...
- Ai que agora fez-me sentir tão velha.
- Oh professora, não diga isso, se não, também me sinto velha...!

O que é certo é que, de repente, no meio de uma multidão de adultos e até crianças com iPhones e iPads com internet e wifi, fomos transportadas para esses longínquos anos 90, em que, se queríamos ligar-nos à internet, tínhamos que esperar, pois o modem demorava minutos a ligar e fazia imenso barulho - piiiii piiiii piiiiiiiiii. Fomos transportadas para esse tempo em que uma disquete servia apenas para guardar documentos em Word, PowerPoint ou Paint, em que uma música demorava dias a "sacar", em que as conversas se tinham no mIRC e em que cada página da internet demorava segundos a carregar. Esse tempo do MS-DOS, do C-dois-pontos-parágrafo.

Sim, sou desse tempo. E dei por mim a lembrá-lo cheia de nostalgia, como se lembrarão os nossos pais e avós do momento em que viram a primeira televisão a cores, o primeiro computador ou o primeiro telemóvel. Nostalgia, não tristeza ou saudades, porque felizmente sou do tempo em que tenho a certeza que sou mais feliz agora que aquilo que era nesse tempo que passou.

domingo, 22 de Junho de 2014

O sorriso que me deste

Sábado de manhã. Acordar com as temperaturas a fazerem (finalmente!) lembrar o verão. Olhar lá para fora e ver o céu completamente azul a perder de vista. Decidir passar o dia junto ao rio, perdidos no meio dos recortes verdes das montanhas. Sorrir perante a possibilidade de andar de barco. Nadar. Bronzear. Dar uns mergulhos e umas braçadas no rio ou na piscina. Preparar as toalhas, o protetor, as havaianas, o saco da bebé. Andar uma hora e meia de carro. Sim, a promessa do dia paradisíaco fazia valer a pena a viagem. Chegar ao destino. Pegar em tudo, por a bebé na alcofa à sombra, a dormir. Despir. Ficar em bikini. Inspirar. Meter a barriga para dentro. E depois decidir assumir sem complexos o corpo imperfeito de um-mês-pós-parto. O dia estava bom demais para dramas desse tipo. Fechar os olhos. Sentir o sol a tocar a pele, finalmente. Abrir os olhos. Olhar para a piscina e para o rio, lá em baixo. Saborear os momentos de tranquilidade antes de mergulhar. Aiii, rico dia, finalmente!! Até ouvir um choro. Tímido, primeiro. Seguro, depois. E cada vez mais alto. Pegar na bebé. Pegar na bebé, que pelos vistos detestou o calor e queria atenção. Pegar nela e não conseguir voltar a deitá-la o resto do dia, sem que desatasse novamente a chorar de forma desalmada. Piscina? Rio? Sol? Esquecer tudo. Azar... Sol há sempre. E aquele sítio também. Pegar na bebé e ficar à sombra o resto do dia, a ver a paisagem paradisíaca à distância de um choro.

Sábado à noite. Jantar, cada um a pegar na bebé à vez. Despedir-nos do destino. Entrar no carro. Ligar a música. Fechar os olhos. Desfrutar do silêncio, finalmente. Até ouvir um choro. Tímido, primeiro. Seguro, depois. Será fome? Fome será certamente. Olhar para o relógio. Constatar que faltam 45 minutos para chegar ao destino. Decidir saltar para o banco de trás, tirar a bebé do ovo e dar-lhe de mamar. Nisto, reparar que o carro parou. Olhar para fora. Ver, com estupefação, dezenas de caras desconhecidas a olhar para dentro do carro no exato momento em que eu tinha posto a mama de fora para lhe dar de mamar. Pelos vistos tínhamos passado no meio duma festa popular qualquer que tinha ocupado parte da estrada onde passávamos. Oiço-o só comentar virado para trás, meio engasgado: "Pior timing era impossível, não era?". Sim, pior timing era completamente impossível. Escondo-me como consigo. Dou por mim a maldizer com todas as forças aquele sábado, 14, que é pior que mil sextas, 13.

Chegar a casa, cansada e rabugenta. Pegar na bebé. Prepará-la para por a dormir, a sentir-me em modo zombie, a dizer mal do meu dia. De repente, ei-lo. Ali, no meio da escuridão, apenas iluminado pelo candeeiro ao longe da mesinha de cabeceira. Primeiro, duvidei. Seria mesmo? Olhei para outro lado. Voltei a olhar. Seria? Seria? Mas ali estava mesmo. Confirmava-se! O primeiro sorriso da minha bebé querida. O primeiro sorriso rasgado, a desafiar todo o meu cansaço e rabugice. O primeiro sorriso... E repetiu-se. E eu a sorrir também, de modo pateta e descontrolado, sem conseguir parar de sorrir, e depois a rir, e a rir, sem conseguir parar de rir até doerem os músculos da cara. De repente, aquele sábado era um dia radiante e maravilhoso. O cliché do sorriso duma criança. Tornei-me uma pessoa que diz clichés como "nada bate o sorriso duma criança". Mas como não dizer? Não é uma criança qualquer. É a minha filha, que há um mês estava ainda dentro de mim. E riu-se. Riu-se para mim. Que dizer? Fez o meu dia. Sábado, catorze? Fica para sempre assinalado, sim. Mas pelos melhores motivos.