quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Falamos todos a mesma língua?

A minha empregada disse-me ontem que a Constança só tinha comido bem a sopa, não tinha ligado ao conduto.
Con... quê?
- Conduto! Primeiro come-se a sopa e depois come-se o quê?
- .... não sei, depende....
- O conduto. Depois come-se o conduto.

Nunca tinha ouvido tal coisa e fiquei ali a pensar que "conduto" não me parecia coisa boa. Alguém consegue salivar por algo chamado "conduto"? Hmmm...

Hoje, comentou comigo que reparou que a Constança já tinha o queixal a espreitar lá atrás.
- Tinha o quê a espreitar?
Pensei num inseto assustador qualquer, a pairar atrás da cama dela.
- O queixal. Tem os dois em baixo a espreitar...
- ....
- Os dentes.
- Queixal?
- Sim... Ora veja no dicionário.
E eu, bem comportada, fui ver. E existe mesmo. Para algumas pessoas, é assim que se tratam os molares. Meti o rabinho entre as pernas e não se falou mais nisso.

É oficial: devo ser marroquina ou espanhola, porque o português assim parece-me chinês!


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Vamos lá discutir a questão dos funcionários públicos

Ok, eu estava a pedi-las. Mas a verdade é que ando outra vez tão envolvida no mundo da maternidade que até me soube bem sair desse registo e entrar em temas mais sensíveis da atualidade. Por isso, quando, no último post, falei da questão da greve dos funcionários públicos estava ciente que não estaria a agradar a todos. E dei a minha opinião quanto ao alegado "ritmo alucinante" dos mesmos sabendo que podia ferir algumas suscetibilidades. De qualquer dos modos, confesso que não estava à espera de ter tanto feedback, tantos comentários negativos, tantas críticas e de gerar tanta polémica. Alguns comentários foram entretanto removidos pelos autores (eu não removo nada a não ser que seja mal educado), mas podiam ter deixado, caros comentadores, porque é das críticas que também se faz o diálogo.

Vamos lá aprofundar o assunto, então. Antes de mais, a quem comentou dizendo que eu, basicamente, não conhecia a realidade e estava de barriga cheia a falar, deixem que vos diga que estão a fazer o mesmo de que me acusam. Não fazem ideia se conheço (ou não) a realidade e se estou (ou não) de barriga cheia.

Assim, indo por partes: primeiro, lamento desiludir, mas até conheço a realidade. Estive um ano a trabalhar em funções equiparadas e, sem querer entrar em muitos pormenores, até tenho muita gente próxima que é funcionário público.

Por outro lado, não estou (com muita pena minha!) de barriga cheia a falar (se afastarmos o sentido literal da expressão, claro). Trabalho há praticamente 10 anos e a evolução do meu salário tem sido muito, muito mais lenta do que gostaria. Trabalho cerca de 10 horas por dia. Com dias (muitos) em que estou fechada das 9h30 às 22h sem sair a não ser para almoçar. Recebo apenas 12 meses. Não tenho direito a subsídios. Como passo recibos verdes, de 3 em 3 meses tenho que entregar o malfadado IVA ao Estado. Se ficar doente, não tenho direito a ficar de "baixa". Perguntam-me muitas vezes se vou trabalhar até ao dia do parto ou se vou para casa antes. A resposta é simples: tal como aconteceu da outra vez, trabalharei até ao dia "D", pois não há sequer alternativa. Perguntam-me também se tenho direito a horário reduzido por dar de mamar. Não tenho. Se quero dar de mamar, tenho que conciliar o meu horário com os horários do bebé, tal como fiz da outra vez, e jogar com as viagens alucinantes de carro a casa, para ir e voltar em meia hora, e com a máquina de tirar leite. Perguntam-me também se consigo sair cedo para estar com a minha filha. Não consigo. Nunca estou em casa antes das 20h. E com sorte. Por isso, conciliar esta vida com infantários seria impensável, para já. O meu telefone profissional recebe emails e chamadas até ao fim-de-semana. Tenho que estar sempre contactável. E tenho ainda a pressão da rentabilidade e da eficiência a pairar constantemente. Tenho que ser lucrativa. Sempre. Lucro, lucro, lucro. Se não, torno-me dispensável, por melhor que seja tecnicamente.

Sei que o conceito de "ritmo alucinante" pode variar de pessoa para pessoa. Sei que, para alguns, esta vida que descrevo até pode ser uma vida calma. Para os médicos que fazem urgências, com certeza que sou privilegiada por não fazer diretas. Para os juizes e professores que andam continuamente com a casa atrás das costas conforme são colocados, também serei afortunada porque tenho estabilidade geográfica. Para os enfermeiros que não são colocados, o facto de eu ter um trabalho já será algo a invejar. Cada um terá as suas adversidades e a vida do próximo pode parecer sempre mais calma que a nossa, porque a vemos... ao longe, não é a nossa.

Se acredito, ainda assim, que a minha vida seja mais alucinante que a vida da maioria dos funcionários públicos? Acredito. Desculpem, mas acredito. Na experiência que tive, descobri o doce sabor de ter um "patrão" desconhecido. Tinha uma pessoa acima de mim, naturalmente, mas não havia o tal "patrão" por perto. O "patrão" era uma entidade abstrata, quase desconhecida, que vivia no topo da hierarquia, a anos-luz de nós. Descobri também o sabor de não ter telemóvel profissional, com emails a caírem e com telefonemas a toda a hora. Descobri o sabor de ter um edifício que fechava às 20h e de ter um segurança que me ia chamar às 19h45, porque estava a fechar tudo. Percebi que, se quisesse ter um filho, teria direito a baixa se fosse preciso, a licença de maternidade e também a horário reduzido para amamentar. Percebi que não havia a mesma pressão dos objetivos e da faturação. Percebi que não havia tanta pressão na avaliação. Descobri o doce sabor de ter estabilidade na carreira e contrato sem termo, sem obrigação de passar recibos verdes. Descobri o bom que é viver sem medo de me tornar dispensável amanhã,

Mas a minha experiência também serviu para ouvir as queixas de quem me rodeava. E eram muitas: os cortes. A dificuldade na progressão de carreira. O congelamento de salários. As más condições. O aumento das 35 horas para as 40 horas sem aumento de salários foi a gota de água. Imagino que sim. No entanto, esta situação foi recentemente revertida, certo? Voltarão às 35 horas. Está garantido. Daí não entender tanta revolta agora. Não conseguiram o que queriam?... O meu comentário à entrevista que partilhei teve uma dupla intenção: primeiro, manifestar a minha estranheza perante uma greve de quem teve o que pediu. Mesmo que a medida demore 3 meses a ser implementada, está aí. Fez-se a vontade. E depois, quis também explicar que, de todos os argumentos que poderiam utilizar para justificar a greve, o argumento de uma vida com um ritmo alucinante parecia-me o mais difícil de convencer tendo em conta as horas atuais obrigatórias (40) e aquelas de que irão beneficiar em breve (35).

Não querendo alimentar a discórdia, acredito que acontece mais o oposto: quem é funcionário público não consegue imaginar o ritmo de quem vive a recibos verdes, a dar continuamente tudo por tudo e sempre com a vida em suspenso. Não imagina o que é fazer parte da "geração dos € 1000". Posso estar enganada, mas poucas vidas me parecem mais alucinantes que isso.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Ritmo alucinante

Estava a ler o título desta notícia - funcionários públicos não aguentam o ritmo alucinante de trabalho - e achei que fosse mais uma daquelas situações em que título deturpava totalmente o conteúdo da notícia em si.

Infelizmente, não foi o caso. E acho que são entrevistas destas que destroem totalmente a imagem dos funcionários públicos. "Ritmo alucinante?". Podem argumentar que têm faltas de condições, salários baixos (ainda que haja estudos no sentido de que, em média, o salário dum funcionário é maior que o salário do setor privado), progressividade lenta na carreira, o que quiserem... Mas ritmo alucinante? Já para não falar do facto de as horas semanais irem ser reduzidas para 35...

Sei que com certeza trabalharão mais que isso, mas não usem a palavra "alucinante", por favor. Convido-os a virem trabalhar comigo uma semana e voltamos a falar.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Irmã mais velha

Entretanto, esta minha bebé vai crescendo de dia para dia e está quase a ganhar o estatuto de "irmã mais velha". Espero que reaja bem à novidade, a outro bebé, à perda da atenção exclusiva... É que, mesmo a crescer, continua a ser tão pequenina...

Estarás pronta, Constança? Sempre vi a minha irmã como o melhor presente que os meus pais já me deram. Desejo do fundo do coração que sintas o mesmo. Quero tanto que sintas o mesmo...

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Ok, sem mais rodeios

A primeira novidade que tenho para vos contar - e relativamente à qual estou há meses a explodir (quase literalmente!) para vos contar - é, com certeza, fácil de adivinhar...

Estou grávida!

Sim, outra vez.

A dada altura sentimos que o ideal seria "arrumarmos" logo a fase das fraldas, biberons, cocós e noites mal dormidas de uma vez e embarcar novamente nesta loucura aventura. Tínhamos ido de férias e tínhamos conseguido descansar, apanhar sol, beber uns gins à tarde, namorar e passear - mesmo com uma bebé! - e sentimo-nos prontos para outra. Afinal, era possível fazer vida normal mesmo com filhos. "Vamos lá para o segundo e não se pensa mais nisso?". Pois...

O pior é que aqui o útero da vossa amiga ainda deve ser mais maluco que a dona, porque, mal pensámos... ele tratou logo de arrendar o espaço a um bebé. :) Foi um mês entre o pensar e o estar grávida. Como é que é possível? De maneira que é isto... Tenho tanto para contar... Vou ver se divido em vários posts por temas, para ser mais simples.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Escrever não é como andar de bicicleta

Pensei que escrever fosse como andar de bicicleta - depois de aprender e ganhar o jeito, nunca mais esqueceria. Mas começo a ter dúvidas que assim seja. De cada vez que fico alguns dias sem escrever, cada vez custa mais recomeçar. Abro a folha em branco e não sai nada. Os pensamentos fluem e as ideias são imensas, mas nada que se converta em palavras.

Não, escrever não é nada como andar de bicicleta. E retomar custa sempre.

Tudo isto para dizer que não venho cá há mais de um mês e que hoje está a custar mais que nunca. Bloqueio de escritor? Podia ser, se fosse escritora. Como não sou, chamemos-lhe apenas "bloqueio". Sinto que já não sei escrever, que o jeito falta. O ano novo, que seria altura de resoluções e força de vontade para escrever cada vez mais, veio afinal trazer este bloqueio maldito que teima em crescer. Hoje decidi que era tempo de escrever algo, nem que fosse um "estou aqui, estou bem, estou só bloqueada". Porque é tudo verdade. E, por outro lado, porque me sinto há mais de um mês em falta com quem me segue. Estou em falta com quem me lê. E estou em falta comigo mesma, porque tenho a cabeça num turbilhão, cheia de ideias, cheia de novidades (tantas novidades!!), cheia de planos, cheia de medos, cheia de dúvidas, cheia de sonhos, cheia de tudo... e, se não atualizo isto tudo, em breve expludo.

Escrever não é como andar de bicicleta. Hoje sinto que estou outra vez com as rodinhas pequeninas atrás, sem equilíbrio nenhum e com o corpo a cair, ora para a esquerda, ora para a direita, sem saber bem como se conduz isto. Pelo menos não caí. E cheguei ao fim do quarto parágrafo. Agora é pousar a bicicleta. E ver se o jeito volta.... naturalmente. Para vos contar tudo. Para recontar tudo também a mim também.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Ponto de situação

Falta uma semana para o Natal. Uma semana!

Ponto de situação?
- Presentes comprados: zero.
- Presentes pensados: zero.
- Presentes desejados/ sugeridos: zero.

A verdade é que ando com a cabeça a mil, a pensar já em 2016. E tenho novidades para vos contar.

Conseguem adivinhar? :)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O interior conta?

Digam lá da vossa justiça... Sou eu que estou a exagerar ou este baton da Christian Louboutin é mesmo "só" o baton mais bonito que anda por aí?

Ando a namorá-lo há meses. Porque é que não o comprei ainda? É que depois dou por mim a repetir o número: oitenta. Oitenta euros. É demais até para um baton com uma embalagem tão bonita, não? Tento convencer-me que sim, e que o interior é que conta. Digo a mim mesma "Arranjas outro com a mesma cor e textura, até melhor e a um quarto do preço!!". Sei que arranjo. Sei que o exterior não devia contar tanto. Sei que, com a "sorte" que a minha maquilhagem tem tido, até acaba é nas mãos da Constança - sim, o último baton bom que comprei acabou a pintar o coelho de peluche dela!! Mas... é mesmo bonito o raio do baton, não é?

Pai Natal, se me estiveres a ler e fores menos forreta que eu, já sabes como me poderás fazer feliz este ano!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O problema foi a solidão. E as noites longas.

Quem me lê há algum tempo, já sabe de cor a minha paixão por Game of Thrones. Talvez não saiba que, enquanto esperava pela nova temporada, fui até matando as saudades a ler todas as teorias sobre os próximos capítulos e a rever episódios e entrevistas, mas sabe que sou verdadeira fã da série.

Ora, enquanto fã, depois do final da última temporada, vivi o luto. Intensamente. Dramaticamente. E suspirei pela Primavera, muito, para voltar a ver a série. Mas os meses foram passando. E as noites foram ficando mais frias. E mais longas. E a solidão começou a pesar. Dizem que um amor só se cura com outro, não é? Eu não queria acreditar que fosse assim. Era fiel às minhas memórias e não quis trair Game of Thrones. Admito que estive perto de ter uns casos passageiros com outras séries, mas nunca se concretizou. O problema não eram elas, era eu. Eu estava ainda com a cabeça (e o coração!) noutro lado.

Até que... uma bela noite, algo aconteceu. Depois de ter visto o primeiro e o segundo episódio daquela série, quis ver o terceiro de rajada. Podia não ser um amor louco e assolapado, mas estava a encher-me as medidas e a entreter-me, ainda que de forma calma e tranquila. Falo de "Suits", que comecei a ver no Netflix. Pois... Tenho a revelar que já vou na segunda temporada e acho que esta relação está para durar. O Game of Thrones que me perdoe, mas não aguentava tanto tempo de espera. A paixão mantém-se, mas precisava de companhia para os serões. Retomamos a relação em Março ou Abril, ok? Não garanto é que a relação seja monogâmica. ;)

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O nosso amor morreu

Quando nos casámos, a nossa florista ofereceu-nos três vasos de orquídeas - um para nós e dois para os nossos pais. Os vasos dos nossos pais morreram rapidamente, talvez por não terem a melhor exposição solar. O nosso? Foi aguentando e crescendo, florido e saudável, ano após ano, após ano. Primeiro, era eu que tratava exclusivamente dele. Cheguei a ler sobre orquídeas para ter a certeza que estava a fazer tudo corretamente - a quantidade de água, a exposição solar adequada, a terra, etc. Depois, quando estava fora, era ele que ia regando. Eu dava-lhe instruções e pressionava-o "Olha as orquídeas!! São o símbolo do nosso amor, não podem morrer!!". E aquela pressão algum efeito deve ter tido nele, porque passou a ter um cuidado religioso com as plantas.

Com a mudança de casa, o vaso de orquídeas foi ficando para trás. Eu ia-me lembrando dele - "Está na casa antiga, temos que ir buscá-lo antes que morra! -, mas as palavras de preocupação não se traduziram em atos. E não mexi o rabo para ir lá buscá-lo. A casa antiga foi entretanto palco de obras. Ontem fomos lá buscar algumas coisas que ainda lá estavam. E lembrei-me do nosso símbolo do amor. Procurei, procurei, procurei. Não consegui encontrá-lo. E agora temo que os homens que lá andam a pintar e a arranjar a casa o tenham deitado ao lixo. Hoje vou lá outra vez. Ainda tenho esperança que o vaso tenha sobrevivido, no meio dos "escombros". Afinal, já sobreviveu mais de 3 anos, às vezes mais regado, às vezes um pouco negligenciado. Funcionava quase como uma metáfora... Sim, tenho esperança que esteja vivo!

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Estou tão pobre

Estou tão pobre que vi há pouco a promoção da Ryanair e concluí que, se quisesse aproveitar, teria que viajar sozinha. Ah, já disse que os voos estão a €5? É para verem o estado da coisa. Aiiiii... Detesto o mês de novembro. E todos os meses em que se entrega o IVA.

Pronto, era isto.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Mini me

A Constança tem crescido a olhos (e ouvidos) vistos. Às vezes, chega a ser assustador a forma como, no espaço de um dia para o outro, aprende mais palavras, interage mais e até a forma como aumenta a destreza física e mental.

Há dias, este crescimento tornou-se especialmente notório por toda a sucessão de momentos interativos que tivemos as duas. Estava eu na cozinha a aquecer-lhe a sopa para o jantar, cheguei à sala e estava ela sentada à mesa, à minha espera. Tinha, não só puxado a cadeira para trás, mas subido sozinha para uma cadeira das nossas, as "normais", e tinha já colocado um guardanapo à frente dela, como nós fazemos. Tentei não me desmanchar a rir, perante aquele cenário, e coloquei-a na cadeirinha dela. A seguir, pediu-me "ácnee" (que é a forma tosca que tem de dizer "água" - sim, ninguém quer borbulhas na cara, muito menos um bebé!!), a apontar para o meu copo, e bebeu como um adulto. Dei-lhe a sopa. A meio, vi-a limpar a boca ao guardanapo, nitidamente a imitar-nos. O meu telemóvel tocou - "avô?", perguntou-me - e atendi. Era mesmo. O avô e a avó. Disse-lhes que estava a dar o jantar e que já ligava de volta. Quando estava a dizer "até já", reparei que estava a ser imitada. "Téee jáaa!!", ouvi-a a dizer também, ao meu lado. Continuei a dar-lhe o jantar: posta de salmão grelhada com arroz. Parei um segundo, para me encostar melhor na cadeira e, quando voltei a procurar a colher, já ela estava a comer sozinha, muito direitinha e a encostar-se melhor também, como eu tinha feito. No fim, fomos para o tapete brincar com uns Legos. A dada altura, o meu telemóvel recebeu uma mensagem qualquer e foi vê-la a correr buscá-lo. "Ohh!! Tiiiim", disse-me, enquanto mo dava. "Papá?", perguntou-me. Era mesmo. Mensagem do pai. Raio da miúda.

A seguir, fui à casa-de-banho, mas sempre seguida por ela. "Xixi?", perguntou-me, muito atenta. Acertou outra vez. Entretanto, vi-a a tentar pegar na escova dos dentes dela. "Queres lavar os dentes?".  Respondeu-me por mímica, com os dedos a massajarem os próprios dentes. Pareceu-me que era uma resposta afirmativa. Lá lhe lavei a dúzia de dentes que tem, enquanto me apontava a pasta dos dentes, para por mais. Deve ser docinha. Malandra... Quando acabámos, pegou na escova do cabelo e começou a tentar pentear-se. A seguir, trouxe-me o creme da cara dela. Estava a começar a assustar-me aquele novo modo adulto.
- Bebé, não queres ir dormir?
- Numqué!!
- Tens que dormir... Então queres o quê?
- Leitim!!
- Queres leitinho?
- Leitim!! Leitim!! E coelhim!
Nisto, olhei, e estava ela já em frente à cama dela, com o coelhinho na mão. "Leitim?"

Obedeci prontamente. Deitei-a. Fui buscar o biberão com leite. E dei-lhe."óiáda!!, que é uma espécie de "obrigada". Apaguei a luz e saí do quarto. Uma mini me. Já não tenho uma bebé, tenho uma mini me.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Os gordos estão em vias de extinção

Antes, fazia-se dieta de vez em quando, essencialmente antes do verão. Agora, abraça-se uma vida saudável ou adotam-se novos hábitos. A longo prazo.
Antes, as mulheres andavam numa modalidade de dança qualquer e os homens jogavam futebol com os amigos. Mal falavam disso entre si. Agora, corre-se e comparam-se tempos e gadgets entre todos.
Antes, comia-se pão de mistura e já nos atribuíam o rótulo de saudáveis. Agora é preciso investir em super alimentos e levar tupperwares cheios de sementes e frutos secos para o trabalho. Quanto mais estranhas forem as sementes e os super alimentos melhor.
Antes, havia gordos. E gordinhos. E cheios. E cheiinhos. Agora comparam-se IMC e o objetivo é ser magro e tonificado. Não há gordos. Estão praticamente em vias de extinção.

Ontem, liguei a televisão e vi um ex-gordinho, meu conhecido, a dar uma entrevista sobre vida saudável, corridas e alimentação. Aliás, esqueçam o diminutivo: era mesmo gordo, sem eufemismos. Gordo e bastante amigo de um bom prato e de muita comida. Gordo e bastante amigo de jantaradas e de copadas. Agora estava magro. Magríssimo. E se dizem que a televisão engorda sempre uns quilos, nem quero imaginar ao vivo! Irreconhecível. Estava muito convicto do que respondia, enquanto defendia os benefícios das corridas, e relatava o tipo de vida que levava e os hábitos que adotou. Muito mais magro e saudável que eu. Digam-me: onde é que se anda a vender a vida saudável ao preço da chuva? Sinto que só eu é que ainda não comprei!

Ainda a Malti

Estou há que tempos para contar o resto da história da Malti. Só que, de cada vez que retomo o texto, custa tanto que me forço a parar. Ontem recomecei e foi um bocadinho diferente. Tive saudades, mas consegui lembrar-me com um carinho tal que o carinho conseguiu superar o nó na garganta. Talvez esteja finalmente a entrar no ponto certo das saudades, não sei. Comecei a lembrar-me daquela companhia que me acompanhava há cinco anos, numa espécie de best of. Quando estava grávida e sozinha, longe de casa, era ela, monte de pelos e de energia, que me fazia sentir menos sozinha. Era era que me tirava de casa, todos os dias, chovesse ou fizesse sol, e me fazia andar pelo menos 20 minutos, em passo rápido. Era nela que eu confiava, quando ouvia algum barulho mais suspeito, fora de casa - "há-de ladrar, se for algum ladrão!". Era ela que me fazia esquecer o medo do escuro e das profundezas do escuro que vivem nas casas solitárias - sei que adultos não têm medo do escuro, mas quem nunca teve medo das profundezas do escuro, quando à noite, sozinho, apagou todas as luzes de casa, que atire a primeira pedra. Era com ela que falava, estando sozinha em casa, e me sentia menos louca por saber que existia um ouvinte, ainda que com quatro patas. Era ela que me esperava quando chegava a casa e me fazia sentir importante, com a sua cauda a dançar descontrolada. Dizem que os cães precisam de um dono, para os fazer feliz. Mas também há o contrário - não há sempre em todas as histórias? - e há donos que precisam de um cão para serem mais feliz. Eu precisei da Malti para ser mais feliz. E fui. Quando estava sozinha, deixava de me sentir sozinha. Quando estava cansada, deixava de me sentir cansada e ia passear com ela. A Malti fez-me tão bem que ainda não consegui acabar de contar a história dela.

Ontem, depois de ter recomeçado o texto que deixei inacabado, não consegui acabar e contar o fim. Mas não pensei mais nisso. Li parte do livro que ando a ler, o "Purity". Apaguei a luz. Adormeci. E, algures durante a noite, sonhei que a veterinária me ligou a dizer "Acordou do coma!". Saímos de casa a correr, a meio da noite, para a ir buscar. Abanou a cauda, quando nos viu, como se nada se tivesse passado. Saltou-nos para cima. Pediu festinhas e demos. Voltámos para casa, os quatro. Como nos velhos tempos. Como se um coma de 3 meses fosse assim, normal e totalmente reversível. Como se o tempo e os finais tristes não existissem. Fiz-lhe festas e senti-lhe o pelo, rebelde e real. Senti-lhe o cheirinho tão característico. Voltei a testemunhar a energia sem fim dela. Senti-a feliz por estar connosco. Hoje, tive um sonho muito bom. Acreditei por minutos que a minha fiel companheira de 5 anos ainda me acompanhava. Custou acordar, mas consegui resolver algo dentro de mim. Talvez alguma necessidade de me despedir uma última vez.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Um ano e meio

Há um ano e meio, por esta hora, as dores antes apaziguadas pela bendita epidural voltavam, devagarinho. E davam vontade de gritar.
Há um ano e meio, por esta hora, sentia a minha barriga a mexer-se de forma abrupta e algo dentro de mim a cair de forma irreversível.
Há um ano e meio, por esta hora, comentava com a enfermeira que algo tinha acontecido dentro de mim.
Há um ano e meio, por esta hora, a enfermeira corria e chamava a médica e resto da equipa.
Há um ano e meio, por esta hora, a sala enchia e as pessoas rodeavam-me, como que a explicar-me que tinha chegado a hora.
Há um ano e meio, por esta hora, não sentia medo, mas muita adrenalina. Medo senti apenas uns minutos depois, quando uns segundos de espera sem choro me pareceram eternos.
Há um ano e meio, por esta hora, algo dentro de mim estava prestes a sair, mas no seu lugar não ficou nenhum vazio. Bem pelo contrário.
Há um ano e meio, por esta hora, o meu corpo estava prestes a ficar quilos mais leve e centímetros mais pequeno.
Mas desde esse dia, há um ano e meio atrás, por esta hora, que me sinto mais preenchida e maior que nunca.
Não gosto de usar a palavra "incondicional", porque este amor tem obviamente uma condição, um "se" implícito: este amor existe porque me tornei mãe.
Há um ano e meio, por esta hora, estava prestes a conhecer a minha filha.
E não fazia ideia como um amor destes nos podia preencher tanto, tanto, tanto ao ponto de me deixar com um nó na garganta de cada vez que digo esta simples palavra: "filha".
Há um ano e meio, por esta hora, tudo mudava.
E que bom que foi. Que bom que tem sido.
Há um ano e meio, por esta hora, tive o momento com que sempre sonhei.
Mas o melhor de tudo... sim, o melhor de tudo foi ter descoberto que o melhor ainda estava para vir...