quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O perigo de ter uma filha que começa a imitar tudo

A Constança começou ultimamente a imitar, além das palavras que consegue repetir, alguns gestos, posturas e movimentos nossos. Assim, se pusermos a dar música, já abana a anca com moderada destreza; se dissermos "shiu!", já leva o dedo em riste aos lábios; quando dizemos "não", abana com o dedo, etc. Só que, nos últimos dias, apanhou mais alguns gestos nossos que me apanharam completamente desprevenida.

Ontem, o meu pai estava a falar com ela e a dizer algo como "quando fores mais crescidinha, venho buscar-te e vais passar os fins-de-semana com os avós". Olho para ela, está ela a tapar os ouvidos, com ar de sofrimento. Ignorei, enquanto tentava conter o riso, e tirei-lhe as mãos das orelhas. O meu pai continuou o discurso. O mesmo gesto a tapar os ouvidos. Não conseguimos evitar as gargalhadas.

Mas ainda houve pior. Estava eu depois a comentar, na esplanada do restaurante, que alguém na mesa ao lado não parava de fumar, quando olho para baixo e está ela, aquele micro ser, com um ar muito indignado a fazer o mesmo que eu - a imitar o movimento de fumar! Fiquei com dores de barriga de rir.

De forma que agora, além de termos que ter cuidados redobrados com a linguagem, também temos que ter atenção aos gestos que fazemos. E esta miúda ainda só tem um ano e três meses. Imagino que isto vá sempre piorar. Estou tramada...

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Pequenas guerras na cama

Sempre tivemos uma pequena guerra cá em casa. Em discussão estava o ler ou não ler um livro na cama, antes de dormir. Eu sou totalmente a favor - habituei-me a ler na cama desde que me lembro de saber ler, relaxa-me, transporta-me para outro mundo e sempre foi um dos meus rituais preferidos do dia. Ele encontra-se do lado oposto da guerra - diz que a cama serve é para dormir (ok, e talvez para outras coisas, mas não envolvem livros!), não gosta de ter a luz do candeeiro acesa, faz-lhe confusão tanta luz antes de dormir e não é tão amigo da leitura como eu sou, ficando satisfeito por ler apenas em 2 minutos as notícias no iPad. Como é que temos resolvido esta guerra? A verdade em que nem sei bem responder. Não sei explicar ao certo como é que sobrevivemos, mas terá sido por força de cedências de parte a parte: hoje estás cansado, não leio; hoje estás a ver as notícias no iPad, vou ler mais um capítulo; e assim alternadamente. Quando ele ficava com sono e a luz começava a incomodá-lo, cheguei a ir para a sala acabar determinado livro, porque não conseguia parar de ler naquele momento. Sem discussões. Cedências, portanto. Mas esta guerra teve altos e baixos. Teve vitórias e derrotas. Vencidos e vencedores. Teve o dia em que recebi uma mini lanterna com uma mola para encaixar nos livros (presente duma amiga atenta aos meus dramas familiares) e achei, durante um período de tempo, que o mundo (dos livros na cama) era meu. Só que a abençoada lanterna acabou "comida" pela Malti. Agora que penso nisto a esta distância já não tenho a certeza se terá sido completamente acidental, mas foi assim que o período "lanterna" terminou. Teve ainda a altura em que o convenci a começar a ler também, todas as noites, e chegámos até a ler juntos, cada um o seu livro. Durou pouco. Teve a altura em que decidimos ambos ver filmes ou séries na cama em vez de lermos. Também terminou. E ultimamente eu fazia um esforço para ler mais durante o dia e não ler na cama. Cedências, cedências...
Até que hoje li esta notícia e sinto que a minha guerra ganhou um novo fôlego, com clara probabilidade para mim de a vencer. Só tenho que imprimir umas vinte cópias desta notícia em tamanho A3 e, de seguida, espalhá-las pela cama. Acho que vai acabar por ler quando for dormir. E quem sabe se o convenço a aderir à leitura noturna... Segundo este estudo, 6 minutos de leitura noturna reduzem o stress em 68%, além de esvaziarem a mente e prepararem o corpo para dormir. Além disso, quem lê bastante demonstra melhor memória, melhores habilidades mentais, entre outras inúmeras qualidades. É preciso mais argumentos? Parece-me que esta guerra está claramente ganha. ;)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O perigo de ter uma filha a começar a falar

A Constança tornou-se, nos últimos meses, além duma mini corredora de maratonas, uma palradora nata. Aos "papá", "papa" e"olá" constantes, foi acrescentando palavras como "mamã" (finalmente!!!), "sim", "não", "avô", "avó", "umqué" (com um acenar de cabeça, que deve significar "não quero"), "dá" e palavras um pouco irrelevantes para o dia-a-dia como "avião", "uva", "papel". Ao mesmo tempo, aprendeu palavras constrangedoras como "xixi" e "cocó" (que adora dizer bem alto quando alguém vai à casa-de-banho) e ainda "pipi" (que significa "passarinho", e costuma ser acompanhado de um apontar para o céu, a mostrar o pássaro em questão).

O problema é que, no meio disto tudo, começámos a puxar mais e mais por ela. E a dada altura talvez tenhamos puxado demais. Este fim-de-semana, a minha mãe começou a tentar ensinar-lhe, entre palavras como "mão", "pé", "um", "dois", "três", etc, a palavra "stop". Não me perguntem porquê. Estávamos todos à mesa.
- Quantos anos tens?
-...
- Um! Diz "ummm".
- Um!
- Quantos anos tens?
- Um!! (dedo ao alto)
- Muito bem! (risos)
- E stop? Consegues? Diz "stop"! Sssss-tooop!
- P#t@! (muito baixinho, a medo)
Silêncio.
- P$t@@!! (bem alto)
A minha mãe ficou paralisada e vermelha, a olhar para mim.
- Eu não lhe ensinei isto!

Sim, o problema de ter uma filha a começar a falar é que começam a sair estas pérolas quando menos esperamos. Escusado será dizer que ainda se ouviram mais umas destas ao longo do fim-de-semana. E a ironia é que esta palavra em concreto acabou por ser ensinada por uma pessoa que nunca disse um palavrão na vida.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O LOL morreu?

Já não era sem tempo. Juro que esperei anos e anos por este dia. E finalmente chegou: de acordo com as mais recentes pesquisas levados a cabo junto das redes sociais, o "lol" está em desuso, encontrando-se o "haha" a recuperar o terreno que foi (com muita pena minha) perdendo. Podem saber mais aqui.

E eu sei que já expliquei mais que uma vez aqui no blog a minha aversão à expressão e que posso estar a ser repetitiva, mas nunca me parece demais repetir os argumentos em assunto de tão elevada importância.

Apresento aqui os meus argumentos a favor do movimento "Anti-Lol". Junte-se a mim quem vier por bem:
1 - O "lol" soa mal. Sim, experimentem dizer "lol" em voz alta. Tem um som ridículo, parece que estamos a enrolar a língua duma forma errada, duma forma que não é suposto o músculo da língua ser usado.
2- O "lol" é, na maioria das vezes, mal aplicado. De facto, significa "rir às gargalhadas alto e bom som", o que nem sempre é aplicável, porque há piadas que não merecem uma gargalhada, mas somente um sorriso. E às vezes nem um sorriso, quanto mais um "estou a rebolar a rir"/"lol".
3- O "lol" é utilizado, na maioria das vezes, como uma bengala de linguagem, quase como uma vírgula ou um ponto final e já não com o sentido de "ri-me imenso com aquilo que acabaste de dizer".
4- O "lol" encontra-se atualmente desvirtuado, porque é também utilizado como ironia - "ele disse isso? lol", significando somente que a pessoa em causa discorda, duvida, acha ridículo ou estúpido.
5- O "lol" torna os discursos mais redutores e pouco variados, pois quem o utilizada acaba a repetir a expressão demasiadas vezes, em vez de comentar com palavras e sentido de humor momentos que considera engraçados.
6- O "lol"é estúpido. Ok, este argumento é fraco, vale o que vale, mas o que querem que diga? Lol.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O dia imaginado

Imaginei tanto, tanto o dia que, quando chegou, senti que já não precisava dele. Refiro-me a passar um dia sozinha. Refiro-me a ter um dia só para mim, para descansar e fazer o que me desse na real gana. Imaginei-me numa praia, a apanhar sol e a ler. Imaginei-me a nadar em águas calmas e mornas, imaginei-me numa esplanada a beber um gin. Imaginei-me no silêncio, sem horários, sem sopas ou papas para dar, sem fraldas para trocar e sem choros ou apelos de fundo. Imaginei-me assim, muitas vezes ao longo do último ano, sem crianças, num dia de descanso só meu.

O dia finalmente aconteceu ontem. Ou melhor, podia ter acontecido ontem. O pai estava para fora e a Constança tinha ficado um bocadinho com os avós. Vi-me estendida na areia. O sol a tocar-me na cara. O livro "Dentro do segredo" ali ao lado, a piscar-me o olho, à espera que acabasse de ler os relatos sobre a viagem à Coreia do Norte do José Luís Peixoto (recomendo vivamente!). O mar a chamar por mim. O relógio e o telemóvel guardados, na mala, sem intenção de pegar neles tão cedo. Estive assim cerca de uma hora, hora e meia. Acho que até fiquei com um ligeiro bronze desse tempo. Descansei. E gostei muito. Mas o que é que me aconteceu depois? Comecei a ligar aos meus pais. Eu, que tinha acabado de deixar a minha filha com os avós, para uma tarde só de avós e netinha. Quis saber se estava bem. Se já lhe tinham dado a sopa. Se ela tinha chorado muito sem mim. Se lhe tinham trocado a roupa. Se, se, se. Uma chata do pior. Desliguei. Voltei a tentar aproveitar o momento só para mim. Mais uma hora. Talvez nem tanto. Talvez esteja a ser otimista. Foi muito menos. Voltei aos telefonemas. E acabei a assumir o pior: queria ir ter com eles. Não queria mais estar sozinha. Ou com amigos. Queria estar com a minha bebé. Sou uma fraca. Sou uma fraca. Sou uma fraca. Imaginei tanto o dia e, quando ele finalmente chegou, vacilei. Hei-de melhorar numa futura oportunidade.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Hoje vi um antigo amor

Hoje vi alguém de quem já gostei muito, há cerca de mil anos atrás, mais coisa menos coisa. E alguém que, com o passar dos anos, deixou de ter importância tal ao ponto de, atualmente, ser praticamente igual vê-lo a ele ou a um funcionário das Finanças. Quase zero. Um carinho no máximo. Uma amizade, se formos muito abrangentes no conceito de amizade. É triste, não é? Senti-me uma pessoa fria, mas a verdade é esta: senti zero. (Às tantas tornei-me mesmo numa pessoa fria. Que bom, sempre quis ser uma pessoa fria.)

Para onde vai este amor todo que já sentimos e desapareceu? Vagueia, triste e órfão amor, até se transformar em nuvens e chorar sobre nós? Recicla-se dentro de nós e é depois reutilizado, gasto e usado amor, nas novas paixões? Prefiro a primeira hipótese. Não gosto de pensar que ando a usar amor reciclado. Gosto de pensar que aquilo que sinto, atualmente, a cada dia, é novo, é virgem e está a ser estreado. Gosto de sentir que aquilo que sinto está a ser sentido pela primeira vez. E gosto de pensar que serei capaz de me apaixonar assim continuamente, como se cada dia fosse um começo, cada conversa fosse surpreendente, e cada beijo soubesse a primeiro, mesmo que tenha 90 anos e continue a dedicar todos os dias o meu coração velhinho à mesma pessoa.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Bipolaridades

Garanto-vos que não sou bipolar. Mas a verdade é que, ultimamente, me ando a sentir um bocado aos altos e baixos. Tanto ando eufórica e otimista, como me deixo levar pelos episódios menos felizes. A morte da Malti também não contribuiu para a alegria constante, eu sei e repito-o para mim mesma, para me sentir mais "normal". E a tristeza também que ser vivida com a calma necessária, para não deixar marcas, repito igualmente para mim mesma. A verdade é que andei durante uma semana a tentar sorrir e aproveitar as férias, a tentar ver o lado positivo de tudo, e a seguir tinha um telefonema da veterinária com más notícias que me tirava praticamente o chão debaixo de mim. Chorei muito. Desesperei muito. Era só um cão, dirão alguns. Pois era, era só um cão, mas foi também a minha primeira, a minha única, a minha fiel cadelinha que adorava e levava para todo o lado. E custa sempre separarmo-nos daqueles (mesmo que tenham quatro patas) que gostamos. Depois desse dia, tenho tentado "auto-animar-me". Olhar outra vez para o lado bom de tudo. Costumo ser boa nesse jogo. Correção: costumo ser muito boa (posso deixar as modéstias para o lado, certo?). Mas costumava ser algo muito muito natural em mim, que fazia sem esforço. Este exercício de tentar estar eufórica e otimista é difícil. É mais difícil quando - lá está - até então era natural e fazíamos sem pensar.

Garanto-vos que não sou bipolar. Mas, enquanto escrevo este texto, passei dum nó na garganta gigante a um estado de calma e tranquilidade. Às vezes bastam pequenas coisas, como um telefonema, para trazer outra vez um sorriso. Às vezes bastam pequenas coisas para nos reiniciar no tal jogo de sermos otimistas de forma natural.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O bikini chegou

Falasse eu mais cedo e tenho para mim que o bikini também teria chegado antes! Não é que, minutos depois de publicar o post anterior, a campainha de casa tocou e o carteiro deixou (finalmente!) a encomenda desejada?
- Chegou uma encomenda para si, escreveu-me por SMS a minha empregada.
Pelo que, mal pude, fui a correr a casa. Fiquei impressionada: dentro do típico envelope acastanhado dos CTT, um elegante saco hermético personalizado com o logo da marca e, dentro, bem dobrado, o bikini. Experimentei em frente ao espelho e fiquei satisfeita: assenta praticamente como imaginava, não fosse ali na zona das mamas, que podia ter um decote mais decotado e bonitinho.
Tivessem sido mais rápidos (quase 2 semanas e sempre a adiar...?) e era menina para vos vir falar muito bem da marca.

Duas semanas à espera de um bikini...

Encomendei há duas semanas um bikini duma marca portuguesa que só vende através da sua página do Facebook e do Instagram. Escolhi o modelo, troquei email para confirmar que tinham o meu tamanho, a cor pretendida, pedi o NIB, transferi o dinheiro, enviei o comprovativo de pagamento e facultei os meus dados e morada. Disseram que demoravam 2 a 3 dias úteis. Isto há duas semanas! Fui para o Algarve de férias e bikini nem vê-lo. Como tive que interromper as férias com a doença e internamento da Malti nem pensei mais nisso do bikini. Mas irritou-me profundamente regressar a casa e ver que continuaram sem mandar nada, mesmo depois de ter enviado email a insistir. Na quinta-feira passada disseram que ia receber no dia seguinte, sexta-feira. Nada. Ontem também nada. Hoje ainda nada. Já enviei email a repetir que ainda não recebi. Começo a perder a paciência. Então vão-me enviar o bikini quando? No inverno? Estou aqui a conter-me para não dizer o nome da marca, mas se continuarem sem mandar, tenho que fazer algo...
(Inspira... Expira...)
Já alguém teve uma experiência semelhante?

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

(Pausa para respirar e falar de banalidades)

Este ano, decidi que iria trabalhar em agosto. Os preços dos hotéis sobem sempre nesta altura, há mais confusão, trânsito, mais gente em todo o lado e, para piorar, nem sempre o tempo está melhor nesta altura que em julho ou setembro.
Estava segura que tinha tomado a melhor decisão quando marquei uma semana em julho e duas em setembro.
O pior é que também acaba por ser estranho "remar contra a maré". Ligue para onde ligar, as pessoas responsáveis estão de férias e não consigo resolver nada.
Os corredores estão mais vazios.
O telefone mal toca.
Há um silêncio tão estranho que o trabalho nem parece o mesmo.
Faltam as conversas, faltam as pessoas a preencher os lugares para onde quer que olhe.
Para já, estou a estranhar esta calma toda e a perceber ainda se foi boa ideia ou não.
Deixarei que a produtividade desta semana decida por mim.

A minha fiel companheira morreu

Durante anos e anos sonhei ter um cão, mas os meus pais pesavam os prós e os contras e a resposta que me davam era sempre a mesma: "Não". E eu argumentava, e trazia mais prós à colação, e argumentava e argumentava. A resposta mantinha-se a mesma: "Não". E insistia: "Mas eu tomo conta dele! Eu passeio-o. Eu levo-o ao veterinário. Eu educo. Eu apanho os cocós". Era indiferente: "Não. Não. Não". Já não me lembro das explicações todas, mas lembro-me das principais: não, porque dava muito trabalho, não, porque gastava-se muito dinheiro com veterinários quando adoeciam e ainda não, porque doía muito quando morriam. Doía muito quando morriam. Nunca percebi bem esta. Não morre toda a gente? E é por isso que vamos ignorar laços e viver sozinhos? Não...

Quando me tornei independente e ganhei alguma estabilidade profissional (e emocional, porque acabaram por se alinhar ambas), percebi que estava na hora: eu ia ter um cão. A raça já estava mais ou menos definida: queria uma raça de tamanho médio, com personalidade, com energia, com independência e capacidade de se adaptar a uma família, a muita gente e a bebés. Sim, porque se tinha 28 anos e estava a pensar em ter um cão, tinha que pensar a longo prazo e na família que havia de vir um dia. Adorava os fox terrier de pelo de arame e, quanto mais lia sobre a raça e as características, mais percebia que se iria adaptar na perfeição à minha vida. Pesquisei criadores, fui à zona de Aveiro visitar aquele que, pelas pesquisas, me pareceu melhor, e apaixonei-me logo pelo casal de cães e pelos cachorrinhos recém-nascidos que o criador tinha. O criador era uma pessoa apaixonada pela raça, pela música e pela vida, por isso, facilmente me cativou. Fiquei horas a beber cada palavra e a convencer-me do que não precisava de "convencimento". Passado uma semana voltei para escolher o cachorrinho que iria levar, depois de levarem as vacinas e fazerem dois meses. Já só havia duas cadelinhas. Eu tinha pensado inicialmente num cão e não numa cadela (principalmente por causa do cio), mas mudei de ideias num segundo, quando as vi. Faltava escolher. Uma estava a olhar para mim, muito fixamente, e eu fui ter com ela e fazer-lhe uma festinha, enquanto ela abanava a cauda, de alegria. Até que o criador me deu uma dica:
- Deve ser a cadela a escolhê-la. Geralmente é assim que se faz... Não se mexa e veja qual a escolhe.
E eu fiquei ali quieta. Um pouco nervosa. A ver se alguma me escolhia. Nisto, enquanto uma delas descansava com ar tranquilo, a outra que cumprimentei inicialmente começou, com ar de traquina, a comer flores dum vaso. O criador deu um berro e tentou afastá-la do vaso. A malandra comeu na mesma as flores, de olhos fechados, enquanto ouvia o berro e, em dois segundos, fugiu. Foi a correr até um canto. Ficou ali quieta, a mastigar. Passados uns segundos, começou a tossir. E a vomitar as flores todas. E eu ria-me, com aquela rebeldia. E enquanto me ria, a outra acordou e veio, lentamente, ter comigo.
- Parece que já a escolheram.
Olhei para baixo. Vi aqueles olhos meigos a analisarem-me e a pedir mimo. E quase cedia.
- Desculpe, mas eu já escolhi aquela.
Eu não sou pessoa de decisão rápida, mas quando gosto, gosto mesmo. Ali não tive dúvidas.

Até hoje, sinto que, ao contrário do que seria suposto, fui, portanto, eu que a escolhi e não ela a mim. Mas nunca me importei. Sei que escolhi bem. Sempre soube.

Voltei para casa para tratar de toda a logística: ração, ossos, brinquedos, caminha, trela, coleira,... E, quando fui buscá-la, uns dias depois, sentia-me mais feliz que nunca. Era um sonho de criança a realizar-se. Naquele dia, não foi uma jovem mulher de 28 anos buscar um cão, mas uma criança de 6 anos que realizou o seu sonho. Na viagem de regresso, tinha o coração aos saltos. Não consegui resistir, peguei na cadelinha e trouxe-a ao colo. Vim a falar com ela a viagem toda, a falar sobre mim, a explicar que ia trata-la bem e que íamos ser muito felizes juntas. Era setembro. Estava calor. Respirava-se final de férias e ainda a calma e o otimismo dos reinícios. E eu sabia que o meu reinício de vida não podia ser melhor. E não me enganei.

(Continua...)

terça-feira, 28 de julho de 2015

A Malti

No dia em que a Malti fazia 5 anos, decidi que estava na altura de a mimar. A verdade é que, desde que a Constança nasceu, a cadelinha acabou por ficar, inevitavelmente, em segundo plano. Chego a casa, no final do dia, e é com a Constança que brinco. À hora de almoço, é também com a Constança que brinco. Quando está bom tempo e estou para aí virada, ainda me aventuro a passear ambas (filha e pequena de quatro patas) no jardim, durante uns trinta minutos. Mas os velhos passeios diários com a Malti? As velhas corridas junto ao rio ou junto ao mar? Há muito que deixaram de existir e é agora a ama que a passeia. Eu continuo a adorar a Malti, claro, mas a disponibilidade com uma criança pequena em casa mudou, e isso é coisa para me ter deixado com peso na consciência há já alguns meses. No fim-de-semana passado decidi mimar a aniversariante e fomos passar o fim-de-semana fora, numa casa de turismo rural, junto do Gerês.

O fim-de-semana prometia, mas acabou mal. De sábado para domingo, durante a noite, a Malti começou a uivar e a "chorar". Pareciam dores, muitas dores. E parecia "remar" no chão, como que a tentar aliviar a dor. Tentei pegar nela e acariciar a barriga, mas nada parecia resultar. Acabámos por adormecer outra vez. No domingo acordei eu com dores de barriga e achei que teria sido algo que todos tínhamos comido ou bebido (cadela incluída). As dores passaram, a Malti não se queixou mais, esquecemos o assunto e aproveitámos o resto do dia para descansar e apanhar sol. Domingo à noite, já em casa, a Malti começou a tremer, foi contra as portas, com dificuldades a andar, desorientada e com o rabo entre as pernas, e ficámos assustados. Combinámos levá-la à veterinária na segunda logo de manhã. Só que na segunda a ama disse-me que ela estava ótima e já não tinha nada. Andava sem dificuldades, abanava a cauda, parecia igual a sempre. Não levámos à veterinária. Até que, segunda à noite, repetiu-se o cenário. Não adiámos mais e levámos à veterinária no dia seguinte. Falou-se em "leishmaniose" como principal suspeita. A Malti ficou internada para observação, a soro. Os sinais estavam estáveis. Passámos a semana assim: no final do dia, eu ia buscá-la e trazia-a para casa. De manhã, ia levá-la outra vez. O teste da leishmaniose deu positivo, mas pediu-se uma contra-análise para confirmar, porque os exames renais não deram os valores que seriam esperados no panorama da doença.

Nós tínhamos marcado férias no Algarve a partir deste sábado e, com o aproximar do dia, sabíamos que tínhamos que tomar decisões. Como a cadelinha parecia estável, optámos por deixá-la com os meus pais, que se comprometeram a vigiá-la e a reportar à veterinária qualquer sinal anormal. Viemos embora para o Algarve otimistas, mas saudosos. O problema foi que domingo a Malti teve convulsões. Três convulsões seguidas. Os meus pais levaram-na a todo o gás para a veterinária novamente. Inchaço anormal no cérebro. Líquido em excesso. Tiveram que a anestesiar. Retirar líquido para análise. Colocá-la com baixa atividade cerebral para acalmar.
- Coma?, perguntei eu à veterinária por telefone, eu que não domino (de todo!) a linguagem médica.
- Coma induzido, sim.
E assim está a minha pequenina de quatro patas, enquanto eu estou longe.
Fizeram um TAC e afastaram a possibilidade de ser um tumor cerebral. Mas continuamos sem saber o que se passa. E continuamos com o coração nas mãos há dois dias. Não sabemos se terá sido mordida por algum mosquito na zona do Gerês. Em princípio será algo infeccioso, mas eu, leiga na matéria, só queria perceber se há possibilidade de tudo se resolver e voltar ao que era...

A Malti fez 5 anos e eu tinha imaginado que a minha filha cresceria com ela, e que seriam as melhores amigas nos próximos anos. Vou tentar manter-me otimista, mas, até lá, peço a quem perceber um pouco do assunto que partilhe opiniões ou testemunhos. Obrigada!

domingo, 26 de julho de 2015

Manual para ultrapassar as saudades

Há uns dias, recebi um e-mail duma leitora muito querida que me contou a sua história de amor e pedia-me conselhos, pois sabia que eu tinha também passado por algo muito semelhante. Dizia-me ela "sei que também teve durante algum tempo uma relação à distância (...) claro que queria muito viver com ele e ter uma família...Sinto-me sozinha, principalmente ao fim-de-semana... há dias que não consigo mesmo controlar as saudades e discuto com ele...Tens algum conselho a dar-me? (...)".

Relações à distância. Saudades... Como sobreviver? Como fazer com que resulte? Li o e-mail. E identifiquei-me logo, era impossível não identificar. A sensação de nos sentirmos sozinhas, mesmo sabendo que temos alguém era-me tão familiar... Comecei logo logo a responder. A explicar que me revia na história. A explicar que já tinha passado pelo mesmo. A explicar como tinha ultrapassado. A dar mil conselhos. E mais mil conselhos. Até que, perto do final do e-mail, suspirei... reli o que tinha escrito e apaguei tudo, sem olhar mais para trás. Quem queria eu enganar? Já passei pelo mesmo. Mas é mesmo verdade que ultrapassei? Estou viva para contar a história, mas só isso. Não tenho mérito nenhum. Não ultrapassei nada. Não me tornei perita no tema. Sou só uma sobrevivente, mas não um exemplo a seguir. O que aconteceu comigo foi a aplicação duma regra muito simples chamada "tempo". O "tempo" passou. E cheguei até aqui para contar a história. Dizem que o tempo cura tudo, mas não acredito. O tempo passa sempre, mais rápida ou lentamente, e torna tudo mais distante. Só isso. Se pensar nas saudades que senti, continuo a sentir hoje o mesmo aperto no coração. Esse aperto forte e detestável, essa dorzinha que não passa chamada saudades.

Mas há afinal um manual para relações à distância? Há um manual para lidar com as saudades? Não há. O amor pode viver-se nas palavras que se trocam, nas memórias e no carinho, mas o amor precisa de toque, alimenta-se da presença do outro. Gostar é precisar de tocar na outra pessoa. É precisar de a olhar. Horas a fio, se for preciso, até todos os traços ficarem guardados com exatidão na nossa memória. Gostar é precisar de treinar constantemente todos os sentidos. E felizes os que conseguem gostar à distância e sentir-se preenchidos na mesma. Mas eu não faço parte desse leque de felizardos. O tempo que passei com saudades foi um tempo de vazio constante. E por muito que tentasse preencher esse vazio com telefonemas, mensagens, e com planos para o futuro, nunca deixava de me sentir incompleta. Por muito que me ocupasse com tudo e mais alguma coisa (e muito me tentava ocupar!), fosse trabalho, fossem filmes, livros, música, desporto, por muito que estivesse com amigos, faltava sempre aquela pessoa. Não sei lidar com saudades. Se gosto da pessoa, não quero viver a vida privada da minha presença preferida.

Manual para lidar com saudades? Seria um manual de matança. Porque as saudades devem ser mortas. Uma a uma. Um casal pode viver afastado, mas tem que ter um plano que o ajude a suportar a distância e a controlar as saudades. Fins-de-semana a dois. Objetivos a curto e médio prazo. Saber que se controla o futuro, seja de que maneira for. No nosso caso, tínhamos delineado que, ao fim de "x" tempo, um de nós tinha que ceder e ir viver com o outro. Felizmente, o destino esteve do nosso lado e, a meio da minha licença de maternidade, sorriu-nos. Foi dos melhores telefonemas da minha vida. Porque nos juntou outra vez.

Não sei lidar com as saudades. A distância doí-me fisicamente. Não sei lidar com a necessidade de querer ver a pessoa e não poder. E não me peçam promessas. "Prometes que pensas em mim todos os dias?". Estas promessas são seguidas por mim demasiado bem. Não penso todos os dias. Se gosto mesmo, penso todas as horas. Não me dediquem músicas. Se gostar, quero dançar cada música a dois. A única coisa que gosto nas saudades é a contagem decrescente. A única coisa que gosto nas saudades é da sua matança. Nua e crua. A matar as saudades sou rainha. A vivê-las, sou a pior pessoa. Por isso, querida leitora, só posso dar esse conselho: viva da melhor forma possível a contagem decrescente. Ocupe-se da forma mais divertida que conseguir. Façam planos para o futuro que a tranquilize e faça sonhar com uma vida a dois, mais cedo ou mais tarde. E mate as saudades em grande, sempre que puder.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Sou só eu que já não consigo ler o nome "Sara Carbonero"?

Ai a Sara Carbonero não quer mudar-se para o Porto.
Ai a Sara Carbonero prefere Madrid.
Ai a Sara Carbonero disse isto.
Ai a Sara Carbonero disse aquilo.
Ai temos que mostrar à Sara Carbonero o valor do Porto.
Ai temos que mostrar à Sara Carbonero que o Porto é que é.

Mas quem é a Sara Carbonero neste mundo? Falo a sério. O que nos interessa a opinião dela? É alguém cujas opiniões sejam relevantes para os portuenses ou para o resto do país? Não me levem a mal: a jornalista até pode ser alguém com um Q.I. muito acima da média, viajada, inteligentíssima e culta, com gostos requintados e apurados, mas até hoje nunca a ouvi dizer nada que me parecesse relevante, por isso, é-me totalmente indiferente que goste ou não do Porto.

Além disso, todos sabemos que o Porto esteve, até muito recentemente, envolto em mitos vários, como por exemplo: é uma cidade cinzenta, velha, degradada, em que só se fala do FCPorto, está sempre mau tempo, as pessoas comem francesinhas todos os dias ao almoço, que intercalam com tripas ao jantar, falam à "Puarto", com palavrões, vivem todas na Ribeira e são comandadas pelo Pinto da Costa. Mas não. O Porto tem conseguido revelar, nos últimos tempos, que é muito, muito mais. E tenho a certeza que todos estes mitos têm vindo a ser desfeitos e a imagem que passa lá para fora está, lentamente, a mudar.

O Porto é luz, é rio e mar, o Porto é, como canta o Rui Veloso, "da Ribeira até à Foz", é gente nova e empreendedora que enche as ruas cheias de História com futuro e planos, o Porto são as fachadas que ganham vida nova de dia para dia, o Porto é a Universidade e os seus estudantes, não é a Sara Carbonero, porque para cada Sara, há mais de dois milhões de apaixonados pela cidade. E eu, não tendo nascido no Porto, faço parte deste número.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Isto de ser adulta

Há dias, alguém me dizia  "não falei logo contigo para jogar padel, porque imaginei que, agora com uma filha, não pudesses fazer programas à noite". E não me importei nem pensei mais nisso (até hoje), porque a pessoa em questão não tem filhos e podia estar a dramatizar um pouco o que é isto de ter uma filha.

No último casamento que tive, comentava uma amiga minha (solteira) comigo: "agora não vos convido para jantar, porque imagino que tenham mais que fazer". Dei-lhe um raspanete pelo comentário e expliquei que continuávamos sempre disponíveis (e cheios de vontade!) para jantares e programas giros. Não pensei também mais no comentário (até hoje), porque pensei que poderia apenas ser uma desculpa (esfarrapada) para a falta de iniciativa para convites.

Só que ontem foi a minha própria mãe a dar a "facada" fatal e a atirar a gota que fez transbordar o copo. Comentava eu que andava com menos tempo para ir ao ginásio, quando a minha mãe respondeu, sem hesitar: "mas tu achas que eu conseguia ir ao ginásio contigo e com a tua irmã em casa? é normal, agora não tens tempo. és adulta". E fiquei a matutar naquilo. E a matutar. E a matutar.

Mas desde quando é que ser mãe implica que temos que "ser adultos" e abdicar de tudo o que nos faz feliz: jantares, ginásios, jogos com os amigos...? Faz tudo parte do pack "ser adulto responsável e caseiro"? Não, não me posso identificar com este estilo de vida. Adoro ser mãe. Não consigo estar um dia sem ver a minha filha. Morro de saudades se não a vejo à hora de almoço, por exemplo (sim, continuo a ir quase sempre a casa almoçar, só para a ver!). Mas nunca me pareceu incompatível o ser mãe com o ir correr no final do dia. Ou ir jantar com os amigos (e levá-la quase sempre connosco, se o sítio propicia - por que não?). Serei menos adulta por isso?

A verdade é que me sinto quase sempre uma criança numa pele de adulta. E posso receber um salário no final do mês. Posso pagar as contas da água e da luz. Posso até pagar à empregada. Levar a filha ao pediatra. Verificar se as vacinas estão em dia. Entregar a Declaração de IRS. Fazer contas. Levar o carro a lavar. Discutir poupanças e reformas. Mas, quando dá aquela música que gosto, continuo a querer dançar e fingir que toco guitarra sem pensar em mais nada. Continuo a gostar de devorar pacotes de bolachas no sofá, enquanto vejo algo lamechas. Continuo a gostar de cantar no chuveiro. Continuo a sentir o apelo, quando toco com os pés na areia molhada, para fazer a roda ou pino. Continuo a sentir vontade de pedir algodão doce nas feiras populares. Continuo a querer ir a festivais de música. Continuo a acreditar que ainda vou voltar a ter aulas de piano. Continuo a ver um baloiço e a ter andar. Continuo a ver Legos e a não resistir a criar logo alguma figura. Continuo a gostar de desenhar. Às tantas, um dia destes, tudo isto se vai tornar ridículo e nem me vou aperceber. Vou tornar-me uma velha sem noção da idade, a fazer figuras tristes que embaraçam o resto da família. Talvez. Mas enquanto a pele de adulta me estiver demasiado larga para a vestir, vou continuar a ser mãe e ser mulher da forma que sei fazer melhor. E da forma que me faz feliz. É única forma que sei ser.