quarta-feira, 20 de abril de 2016

Quando a mãe enlouquece

Há dias em que é extremamente fácil. Todos os passos são tão simples como respirar e não custa nada. Acordar. Dar de mamar. Tomar banho. Vestir-me. Tomar o pequeno-almoço. Às vezes saltar o banho e ir de pijama para a cozinha. Ver um bocado de televisão. Espreitar o Facebook e o Instagram. Ler alguns artigos. Dar o leite à Constança. Dar-lhe banho. Por-lhe creme. Vesti-la. Secar-lhe o cabelo. Arrumar os quartos. Preparar a casa-de-banho e a banheira para o banho do bebé. Dar-lhe banho. Tentar salvá-lo das investidas da Constança, que quer brincar com ele e enfiar-se na banheira. Ou atirar-lhe os patos de borracha para a água. Secá-lo. Por-lhe creme. Vesti-lo. Arrumar a casa-de-banho. Quando a empregada está, posso voltar a concentrar-me nos bebés. Ligar a alguém. Ou sair de casa. Posso almoçar. As tarefas domésticas estão asseguradas e posso ser mãe, apenas. Há dias em que a licença de maternidade é uma dádiva. E ter alguém que me ajuda em casa é essencial nesta equação.

Mas há dias em que tudo é um caos. Fiquei uma semana sem empregada e terminei a sentir admiração por todas as mães a tempo inteiro, sem ajuda. Sobrevivi à experiência, mas não sei como! A dada altura, era eu a trocar uma fralda ao bebé e ele a esguichar xixi por todo o lado, a Constança a brincar com as pastilhas da máquina de lavar a loiça, a sopa ao lume a ferver e a saltar tacho fora, o bebé a chorar porque estava molhado, a Constança com uma faca na mão e demasiado perto do fogão ligado, o bebé a chorar ainda mais alto, o telefone do trabalho a tocar... Geri o caos dia após dia, sempre a tentar manter a sanidade mental, a arrumação da casa, a minha higiene e cuidados de beleza mínimos em dia, e ainda a educação da minha filha - vamos desenhar? queres ler este livro? olha este puzzle! vamos contar até 10? Mas estive perto da loucura, muito muito perto!

Em teoria é possível fazer tudo. Ficar em casa com uma filha de quase 2 anos e um recém-nascido? Canja! Cansativo é ir trabalhar! Que sorte ficar em casa, a ler, a ver televisão... Só que não!! Houve um momento em particular em que senti que estava mesmo a atingir o meu limite. Chorava o bebé. Chorava a Constança. E comecei a chorar eu também, não sei se de cansaço, se de frustração. À minha volta, roupa por passar a ferro. Loiça por lavar. O chão por aspirar. Não! Percebi que, ao lado disto, qualquer trabalho é para meninos! Sem ajuda, não conseguiria estar à altura do desafio e manter-me mentalmente sã por muito mais tempo. Adoro os meus bebés, mas o meu trabalho não é nada quando comparado com o trabalho que uma casa com duas crianças dá! Foi, por isso, uma mãe pálida, com o cabelo oleoso, olheiras até ao chão, unhas descascadas e a soluçar que chegou ao final da semana. É duro. A minha vénia a todas as mães corajosas que decidiram ser mães a tempo inteiro e conseguem desempenhar este papel de forma graciosa e tranquila. Sem enlouquecer.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Vou ter dois filhos traumatizados

Ele esforça-se. Acredito mesmo que sim. Quer ser um bom marido. Quer ser um bom pai também. E ambas as tarefas têm sido sempre bem sucedidas, verdade se diga. No entanto, no que toca a ser um pai-artista, o caso já muda de figura. Eu sabia que ele tinha um traço muito seguro e uma letra muito perfeitinha. Nos tempos em que trocávamos cartas (foram mais postais e post-its, mas "carta" é um nome mais bonito) apercebi-me que tinha uma caligrafia bonita e cuidada, sem sair da linha. E sempre gostei de o ver escrever, nem que fosse apenas a assinar o nome, com a sua caneta de estimação e ar compenetrado. Mas desconhecia até recentemente os seus (ausentes - ups!) dotes para o desenho. Pensei que cumprisse os critérios mínimos e soubesse desenhar uns meninos, um sol, cães, gatos, casas e árvores, algo simples simples e fofinho para entreter os nossos filhos e fazê-las sonhar. Sonhar com outros meninos, sonhar com um dia de sol lá fora, sonhar com cachorrinhos, sonhar com gatos, sonhar com casas brancas com chaminés e jardins cheios de árvores e flores. É para isso que servem os desenhos, não é? É por isso que desenhamos para as crianças, não é?

Só que... O quadro mágico que a Constança recebeu no natal veio mudar de forma irreversível esta imagem que tinha criado do pai a fazer desenhos fofinhos para os filhos. O quadro mágico veio mostrar-me que, se a caneta cair nas mãos erradas, podemos estar apenas a dar pesadelos às crianças. Exagero? Vou mostrar-vos exemplos que fui registando nos últimos dias. E mostro-vos essencialmente, porque quando o confrontei com a falta de jeito para o desenho e com a possibilidade de dar pesadelos aos nossos filhos, ficou indignado. Preciso mesmo das vossas opiniões para lhe mostrar que não estou sozinha, ok?

A pergunta é: Estes são ou não os desenhos para crianças mais assustadores que já viram?

"Queres um gato? Eu faço. Olha... Gostas?", ouvi-o perguntar. Só que o gato final pareceu apenas um
monstro demoníaco e sádico. Não sei se são os olhos trocados, não sei se é aquele sorriso maquiavélico,
mas isto não me digam que isto é um gato, porque não é em nenhuma parte do mundo!
"Uma menina? Vamos lá então fazer uma menina." Este diálogo deveria ter resultado numa menina querida e sorridente, mas deu neste amante de heavy metal assustador, barbudo, com ar louco e braços no ar.
Aposto que adora o satânico e faz bruxarias ao luar.
Ok, este acho que já foi para me provocar! Eu disse que a menina parecia uma hippie, com rastas e um lenço na cabeça e ele então decidiu por-lhe uma espécie de charro para me chatear ainda mais.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Compras embaraçosas #2

Vou à Bertrand. Ando curiosa a pensar em como é que aquele livro, emprestado por uma amiga há um ano, continuará. Decidi comprar a sequela. Sempre é uma maneira de ocupar o tempo que tenho passado em casa. Foi dos livros mais mal escritos que já li, uma escrita muito básica, mas...  é como a "Casa dos Segredos" ou a "Quinta" - a dada altura aquilo é tão mau que até vicia! A Bibi fala mal, o Tiago quer ver a xaroca de outra, mas damos por nós colados e a querer saber se o Kévim vai salvar a relação e se o amor vai vencer (adoro esta frase)!

Pois então estou na Bertrand. Perdi o amor ao dinheiro. Passo pela parte da Literatura Lusófona. História. Filosofia. Procuro aquela capa cinzenta. Onde estará? Literatura Estrangeira? Chamar-se-á àquilo "Literatura, aliás?... Continuo a procurar. Cruzam-se comigo dois homens de meia idade, cada um com o jornal debaixo do braço. Param em frente a uns livros de fotografia a preto e branco. Parece-me Sebastião Salgado. Têm ar culto e falam com tom de voz grave e calmo. Continuo à procura, um pouco envergonhada. Não está aqui... Será que não têm...? O funcionário vem ter comigo e interrompe a minha vergonha:
- Precisa de ajuda?
- Não, obrigada!
Prefiro procurar sozinha, a vergonha é menor. Lá o encontro. A capa está em mau estado, com ar sujo, mas não vou protestar. Não está ninguém na caixa. Encolho-me e decido fazer um sprint. Chego à caixa, atiro o livro virado para baixo e o cartão multibanco, tudo ao mesmo tempo.
- Queria pagar, por favor.
- Boa noite! É só este livro?
- Sim...
- Já conhece o nosso livro do mês?
(Começa a descrever uma história inspiradora que ainda me envergonha mais, por comparação com o que vou comprar. Ao mesmo tempo, começa a limpar o meu livro, com cuidado. Decide que tem mesmo mau aspeto e vai buscar outro livro igual, mas com a capa em melhor estado. Que azar! Havia de me sair o empregado mais simpático e competente de sempre!)
- É para oferecer?
- É, sim!, minto com todos os dentes. Ou não, porque vou oferecer a mim mesma, certo?
- Quer talão de troca?
- Obrigada!
E fico a ver o candidato a empregado do mês a limpar o livro com todo o cuidado e a embrulhá-lo, o mesmo livro que daqui a dez minutos vai estar a ser rasgado por mim em casa... Sou má pessoa, sou má pessoa... Mas que querem? A vergonha é maior que eu! E vou, assim, para casa, com a sequela do "Cinquenta Sombras de Grey", na mão, embrulhado como se fosse para oferecer a alguém.

Sou a única? Já alguém teve vergonha de comprar um livro?

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Uma questão de peso #2

Como tenho uma balança de diagnóstico corporal consigo ver (mas neste caso, preferia não conseguir!) os valores da minha desgraça. Estou à espera da avaliação física com a minha professora para medições e análise mais detalhada, mas partilho para já os números da desgraça à data:
- peso - 66 kgs
- gordura corporal - 28,4 (tenho, aproximadamente, 22 kgs de gordura, o que é nojento pensar. Mas merecido, porque andei a comer porcarias como se não houvesse amanhã. Mas há. E é um amanhã gordo.)
- água - 43,9
- índice muscular - 29,2
- massa óssea - 9,0

Vamos lá ver se consigo tornar estes números mais apresentáveis, porque isto, para já, está uma vergonha :(

Batizado - o que vestir?

Com a Constança, optámos por fazer o batizado e a festa de primeiro aniversário no mesmo dia. Como correu bem, decidimos repetir a fórmula e, em maio, batizar já o bebé e fazer também a festa de dois anos da irmã. A igreja será a mesma, o sítio será o mesmo, os convidados serão os mesmos e o catering será também, em princípio, o mesmo (estamos só a ultimar pormenores). Dizem que em equipa que ganha não se mexe, certo? Por isso, vamos levar a máxima à letra.

Enquanto vagueio pelo Pinterest a tentar inspirar-me com decoração de batizados e de festas de aniversário, mantém-se, no entanto, o problema da praxe - e o meu vestido? Comecei a pesquisar na Asos, meu site de eleição para festas (preços acessíveis e muuuuuuita variedade) e selecionei já alguns modelos. Aprovam? Qual o vosso preferido?
Com o bege nunca me comprometo. Já sei que dizem isso do preto, mas para mim não há nada
como um vestido bege - nunca cansa!
Um azul em renda, muito simples à frente, mas com um pormenor atrás engraçado.
Também gostei deste amarelo, apesar de ter vontade de arrancar aquela pequena tiara e soltar o cabelo à modelo - acho que o vestido ia ganhar logo.
Este padrão florido conquistou-me e acho que, se não o comprar para o batizado, arranjo outro pretexto para o ter. 
Este é, para já, o meu preferido. A minha dúvida é se será demasiado "noiva"! Estou a tentar agarrar-me ao facto de não ser branco, mas B.E.G.E. Assim já pode ser, não?
Este ocupa, para já, o segundo lugar no pódio. Ex aequo com o outro florido. Acho que estou numa de flores, basicamente.

sábado, 9 de abril de 2016

Compras embaraçosas

Tive a consulta pós-parto com a minha ginecologista. Basicamente, era preciso fazer o "check-up" para confirmar que estava tudo em ordem com o meu pipi e com as minhas entranhas, após mais um filho a sair dali. Cheguei a casa e comentei com o ele:

- Está tudo ótimo. Tenho é que comprar a pílula da amamentação e, entretanto, se não queremos ir para o terceiro filho (!), é obrigatório usar preservativo. Compras tu?, perguntei baixinho.
- Compro, claro. Mas não sei porque é que tens vergonha.
- Ohh... é como se tivesse uma seta neon a piscar em direção a mim e a dizer "olha o que é que eu vou fazer hoje à noite!!".
- E então? Diz lá que é um mau programa...
- Cala-te. Ninguém tem que saber.
- Não vejo mal nisso, mas eu compro, deixa estar.

E lá foi ele. Descomplexado. Desinibido. Descontraído. Confiante. Lá foi ele comprar preservativos à farmácia, sem problemas nenhuns, enquanto eu me encolhia, vermelha de vergonha, no carro, como se estivéssemos a fazer alguma coisa ilícita.

A caminho de casa, lembrei-me da lista de compras que a empregada me tinha dado.

- Espera! Para também no Pingo Doce dois minutos. Temos que comprar algumas coisas para casa.
- É urgente? Tem que ser tudo hoje?
- Pelo menos o papel higiénico tem! Está a acabar...
- Ohh então vai tu comprar.
- Qual é o mal?
- Que vergonha! Ir ao supermercado comprar só papel higiénico. Vão olhar para mim a pensar o quê? Compra tu.

E foi isto. O meu descomplexado, desinibido, descontraído, confiante homem? Deve ter ficado na farmácia...

E vocês, têm problemas a comprar alguma coisa?

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Sai uma polémica fresquinha

Depois da Pépa e da história da mala da Chanel, as redes sociais, sempre sedentas de novas polémicas, encontraram estes dias mais uma vítima.

Desta vez, o alvo de todas as críticas é a Joana Vasconcelos, a artista plástica conhecida, entre outras criações sempre originais, por ter criado um candelabro com tampões higiénicos (!). Num vídeo (ver aqui) que está a ser partilhado em massa no Facebook (por mim incluída), ouve-se a artista a responder, quando lhe perguntam, no âmbito duma campanha de sensibilização para os refugiados, o que levaria numa mochila se tivesse que deixar tudo e partir para longe da guerra, que levaria "(...) o meu iPad (...), os meus óculos de sol, todas as minhas jóias (...), as lãs e a agulha para qualquer eventualidade e o meu iPhone, para comunicar com o mundo". (Nota: não há referência a tampões, mas deve tê-los usado todos no candelabro.)

Claro que está a cair-lhe tudo em cima por responder com artigos apelidados de fúteis, luxuosos e afastados da realidade. Os argumentos utilizados pelos críticos são mais que muitos. Porque é uma snob. Porque é uma ridícula que deve querer o iPhone para tirar fotos às bombas e à miséria por onde passa. Porque isto não é o centro de desemprego para se ir fazer crochê. Porque devia era ser dada como alimento aos refugiados. Porque deve achar que vai encontrar tomadas para carregar o iPad e o iPhone. Porque isto não são férias para ir de jóias e óculos de sol. Porque, porque. Ora bem....

Quando ouvi o vídeo a primeira vez confesso que também fiquei um bocadinho chocada. É simples: pensamos em refugiados e depois ouvimos falar em jóias, soa mal! Disse também para mim - "Olha que mulher fútil! Jóias e telemóvel?" Só que depois comecei a ler os comentários e, aos poucos, caí em mim. "Espera aí... estou aqui armada em boazinha e sentimental, mas se fosse eu levava o quê?". E o que é certo é que, quanto mais pensava na pergunta, mais me apercebia do difícil que era dar uma resposta. Primeiro, pensei em bens essenciais como alimentos, roupa básica e bens sentimentais, como fotografias. Mas depois...

Depois concluí, envergonhada, que quase todas as fotografias mais importantes da minha vida estão... no meu iPhone! Tal como os meus contactos pessoais e profissionais, vídeos, e-mails, as minhas notas pessoais... A minha vida está toda no meu telemóvel! E vamos ser francos: quem é que conseguiria deixar o telemóvel em casa com todo esse conteúdo quando tivesse que procurar nova casa e nova vida? Mesmo que fosse desligado, sem bateria e sem wifi ou roaming até ao destino, o que é certo é que iríamos querer levá-lo connosco! O mesmo se passa com o iPad,

Quanto às jóias... quem é que conseguia deixar para trás a aliança, o anel do pedido de casamento, a medalha com o nome do filho, o colar preferido, aquela pulseira... sei lá, é assim tão estranho querermos levar os nossos artigos mais estimados? Para além do mais, íamos deixar artigos de valor para trás porquê? Para virem outros e ficarem com eles?

E as agulhas e as malhas... Se a Joana faz disso profissão e adora o que faz, acho normalíssimo querer levar. Eu preferia levar livros ou cadernos para ir escrevendo, mas isso sou eu, que não sei fazer candelabros e outras cenas esquisitas com agulhas e malhas.

A verdade é que é fácil atacar, é fácil ir na corrente, é fácil chamar fútil ou superficial. Mas acredito que, se, em vez de criticarmos, pensarmos primeiro na nossa resposta mais sincera à mesma pergunta, acabamos a meter a viola ao saco. A conclusão a que chego é que talvez esta ação de sensibilização simplesmente não faça muito sentido...

Entretanto, por falar em polémicas, vamos lá continuar a debater as bofetadas do nosso ministro da Cultura? Qual deles?, perguntam vocês sempre pertinentes. O atual. Mas realmente parece que os ministros da Cultura do PS andam muito dados às bofetadas... #piadafacil

quarta-feira, 30 de março de 2016

Estas coisas só me acontecem a mim?

Às vezes sinto que atraio estas histórias... Juro! Aqueles momentos bizarros que vemos nas comédias de domingo à tarde e que pensamos que só acontecem nos filmes? Pois podem começar a enumerá-los e perceberão que todos esses filmes foram (infelizmente!) baseados na minha vida.

Hoje tive mais um desses momentos bizarros. Ia levar o bebé a uma consulta e, por isso, saí a correr de casa carregada com a mala dele, a minha, o ovo e ele lá dentro, as chaves de casa e as chaves do carro. Cheguei ao carro, atirei a minha mala para o banco da frente, atirei a mala dele para o banco de trás e comecei a encaixar o ovo atrás. Como estava com as chaves todas a chocalhar de forma irritante no bolso do casaco, peguei nelas e atirei-as para o banco do condutor, sem pensar. Continuei a encaixar o ovo no carro enquanto o bebé choramingava (choraminga sempre nos primeiros momentos em que fica preso no ovo) e, quando terminei a operação, fechei rapidamente a porta e dirigi-me para o lugar do condutor. Tentei abrir a porta.... só que... só que...

OH NÃO!! O carro tinha acabado de se fechar por dentro. O MEU PIOR PESADELO TINHA ACONTECIDO. Fiquei em pânico. Aquela treta de manter a calma e o sangue frio, respirar fundo e tal? Para esquecer. Olhei para dentro e vê-lo a chorar destruiu por completo qualquer tentativa de me manter tranquila. Comecei a olhar à volta à procura de um paralelo solto no chão ou algo duro capaz de partir um vidro. Nada. Onde estão os objetos cortantes quando precisamos deles? Passou um senhor. Fui a correr, sem pensar direito, a pedir-lhe ajuda para partir um vidro do carro (pensando agora à distância, talvez não tenha sido a melhor abordagem ao tema). Disse-me que tinha que ir "fazer ali uma coisa" e que já voltava (que estranho, não é?). Voltei para o carro, com os olhos cheios de lágrimas, a tremer por ver o bebé a chorar, preso dentro do carro e sem poder fazer nada. Lembrei-me que estava no carro da minha mãe e que, por isso, talvez fosse mais sensato avisá-la que ia partir o vidro da porta do carro dela. Por isso, antes de partir para a violência, liguei-lhe a contar a história, a soluçar, e fui direta ao assunto:
- Vou partir o vidro, ok? Depois pago!
- ...
- Ok?
- ... Porque é que não abres a porta com a chaves suplente? O teu pai vai agora levar-tas aí. Aguenta uns minutos...

De modo que, minutos depois, estava o carro a ser aberto com as outras chaves, sem vidros partidos, o bebé (que entretanto tinha adormecido e estava com ar tranquilo e sereno) a sair, o meu pai a piscar-me o olho, como quem diz que os pais sabem sempre resolver tudo, e eu a recompor-me do susto. Realmente concluo com tristeza que todo o sangue frio que julgava ter é coisa do passado - transformei-me naquelas pessoas que, ao mínimo susto, entram logo em colapso e deixam de raciocinar direito. E concluo que realmente os pais são sempre insuperáveis.

Ah... o outro homem a quem pedi ajuda? O mais incrível que, enquanto estava eu, chorosa, a agradecer pela enésima vez ao meu pai, passou pelo carro e abordou-nos:
- Então, menina, resolveu? Olhe que eu até despachei os meus recados para a vir ajudar!
Há esperança no mundo para todos aqueles que precisam de ajuda para partir vidros dos carros. Pelo menos isso! ;)

terça-feira, 29 de março de 2016

A minha galeria de imagens do telemóvel

Há uns anos, se alguém pegasse no meu telemóvel e começasse a ver as minhas fotografias, começava logo a ficar com os calores e a fazer de tudo para interromper o mais rápido possível aquele momento de invasão de privacidade. Eram selfies (que na altura ainda não se chamavam selfies, mas já o eram). Eram fotografias mais provocadoras a aproveitar um dia em que a auto-estima até estava mais em cima. Eram fotografias na noite. Fotografias de festas. Fotografias de momentos mais alcoolizados. Em bikini. Em lugares paradisíacos. Com amigos. Ultra-românticas. Havia de tudo, com um elemento comum: o telefone era meu, a figura central das fotografias era eu, em mim e uma poses diferentes, o que me deixava reticente a olhares estranhos.

Agora? Agora, tenho dado por mim a dar o meu telemóvel desbloqueado a qualquer pessoa com um desprendimento tal que até me assusto. A verdade é que só tenho praticamente fotografias dos bebés, de cenários familiares e/ou das minhas duas gravidezes. A maior nudez que se pode ver é a dos meus filhos. A minha maior exposição são as fotografias tiradas pela minha PT para mostrar a evolução da minha barriga flácida e da diástase abdominal. As selfies são agora da Constança, quando me apanha o telemóvel. Fotos atrevidas? Uma grávida de bikini a exibir a barriguinha também não deve contar.

Sim, neste momento iria proporcionar zero momentos de entretenimento a qualquer ladrãozeco que resolvesse roubar-me as fotografias. Neste momento, não tenho dúvidas que até os sites da Santa Casa da Misericórdia ou da StandVirtual têm conteúdos mais atrevidos e provocantes que o meu telefone.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Uma questão de peso

Apesar de ter feito exercício durante toda a gravidez (fui e estou a ser acompanhada por uma professora especializada em acompanhamento a grávidas e a recém-mamãs), a verdade é que não sou nenhuma Carolina Patrocínio e ganhei quase 14 kgs nesta gravidez. Consigo ser disciplinada no desporto, mas não sou consigo ter a mesma disciplina no que como, por isso, neste momento tenho 8 kgs (!!) que me separam do peso com que mais gosto de me ver: 58. É muito quilo para abater e muita banha da barriga para fazer desaparecer. Mas agora que a minha professora já me analisou os músculos da barriga e já adaptou os treinos abdominais à diástase de um dedo que me foi detetada, não me restam grandes desculpas para não fazer abdominais (adaptados) e queimar as gordinhas todas.

De qualquer maneira, mesmo com desporto, não sei se vou conseguir voltar a atingir aquele número. Fiquei mais pessimista depois de, há dias, estar a falar com uma amiga que também está grávida do segundo filho e que me dizia, depois de comparar muitas mães:

- Depois do segundo filho? Não tenhas ilusões! Recuperar a antiga cintura só é possível com lipoaspiração ou abdominoplastia! Podes ser disciplinada e passar fome, mas acredita que a cintura antiga não se recupera nem assim - só mesmo com cirurgia.

Fiquei com um misto de sensações: por um lado, parte de mim, a parte que devora doces todos os dias, sentiu-se derrotada - "vou ser um paralelepípedo para sempre! adeus, corpo de pera!". Se não me controlo a comer, como é que posso esperar milagres? Por outro lado, a outra parte de mim, a que adora desafios e que me fez estar a mexer o rabo menos de um mês após o parto, ficou com vontade de provar que não é bem assim - é possível recuperar-se a antiga silhueta depois do segundo filho só com exercício e boa alimentação!

Eu sei que o peso é muito relativo e que não devia estar apenas focada nos 58 kgs. Sei que o importante é sermos saudáveis e olhar mais para os índices de massa gorda e magra, por exemplo. Mas neste momento é esse objetivo que tenho em mente: 58. Porque é mais fácil focar-me num número. Sim, quero muito recuperar os 58 kgs que já tive (parece que foi noutra vida), de preferência com a cintura que tinha antes. Espero conseguir chegar lá com os exercícios que tenho feito, mas vou tentar também controlar aquilo que como. Tenho a teoria das consultas de nutrição que tenho, falta-me a força de vontade. Vou partilhando com vocês esta jornada. Sei que assumir publicamente os objetivos ajuda-nos a manter o foco, por isso, decidi hoje escrever este post, com a antecipada promessa de ir atualizando, quer consiga quer não. A vergonha na cara de não conseguir deverá dar algum incentivo extra!

Que a Força (de vontade) esteja comigo! ;)

quarta-feira, 23 de março de 2016

34!

Sábado festejei mais um aniversário. Desta vez, o estar fechada em casa há algum tempo (ou seria a ocitocina ainda a fazer efeito?) deve ter mexido com o meu cérebro, porque... pela primeira vez em muuuuitos anos, tive vontade de festejar o aniversário em casa, sem restaurantes envolvidos e sem saídas. Pior: tive vontade de me armar em doceira e experimentar receitas de bolos. Eu, que nunca fui muito de cozinha, comecei assim o meu dia de anos a abrir e a fechar o forno, a bater claras em castelo e a decorar bolos, qual Nigella Lawson (sim, em versão cheiinha, pois ainda tenho muitos kgs que ganhei na gravidez para abater - falarei sobre isso noutro post). Os meus pais ainda insistiram em trazer eles a sobremesa (compreendo-os!), mas não quis saber. Já tinha as formas, as receitas, os ingredientes preparados e até boleiras e decorações compradas... nada me iria impedir. No pior dos cenários, terminaria o meu dia a comer tudo sozinha. Terminaria o dia com mais 10 kgs, mas com a gula saciada por uns tempos.

Eram 6h da manhã quando finalmente terminei tudo e me fui deitar. No frigorífico havia gelatinas e mousse de chocolate. Nas boleiras a estrear, um bolo de côco e um de frutos vermelhos recheado. Tinham bom ar. Estariam bons? Controlei-me para não provar nada. Estava cansada, mas com a sensação de dever cumprido. A casa estava calma e silenciosa - tudo a dormir a dormir em simultâneo é cenário raro, nos últimos tempos. Lá fora, o horizonte começava a ficar mais claro. Inspirei e senti no ar algo que não sentia há muito. Seria o silêncio? A calma? Demorei um pouco, mas lá percebi o que era. Era algo ainda mais antigo... Cheirava à minha infância. Infância. Até aos meus 12, 13 anos, o dia de aniversário começava sempre com cheiro a bolos a saírem do forno, com gelatinas, mousse e mil doces espalhados pela sala. Convidava-se sempre toda a família e festejava-se em casa. Com a chegada da fase da estupidez adolescência, comecei a preferir comemorar os anos bem longe dos pais, perto dos amigos. O cheirinho a bolos fez, por isso, com que viajasse no tempo até essa altura.

Os aniversários da minha infância tinham este cheirinho a bolo a sair do forno. Tinham os avós. Bisavós. Tios. Primos. Barulho. E casa cheia. Aos 34 anos, não voltei a ter casa cheia. Mas voltei a ter por perto algumas das pessoas mais importantes da minha vida. Aos 34 anos não tive uma festa de arromba. Não jantei no melhor restaurante da cidade. Festejei com olheiras. E com uns kgs a mais, pois ainda não recuperei a forma. Festejei cansada, das noites mal dormidas, a acordar de 3 em 3 horas. Mas festejei com cheirinho à minha infância. Aos 34 anos, senti-me um bocadinho a ser criança outra vez. A criança que fui. E as crianças que estão a crescer junto a mim. Estou mais velha, mas ironicamente senti-me mais jovem outra vez. Venham mais anos assim (ok, sem a parte do cansaço e dos kgs)!!

Ahh... quanto aos doces, acho que fiquei aprovada. Pelo menos ninguém se queixou nem houve relatos de indisposições.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Olá, filho mais querido #2

(Podem ler a primeira parte da história aqui)

Foi, por isso, com um andar desastrado de pinguim (o andar que a emoção, juntamente com as calças ensopadas e os pés e sapatos molhados, permitiu) e os olhos a lacrimejar que entrei finalmente no serviço de obstetrícia. Como desta vez não foi nada planeado, não tinha a minha médica à minha espera e as caras com que me ia cruzando eram todas novas. Não conhecia ninguém! Toda a equipa que me acompanhou no parto da Constança não estava de serviço às terças, pelo que tive que me entregar nas mãos de enfermeiros e médicos desconhecidos. Naquele momento, no entanto, nada disso me estava a preocupar. Tinha decidido que, desta vez, não iria provocar o parto e iria ter o bebé da forma mais natural possível, respeitando os "timings" do bebé e do corpo, por isso, estava apenas a ter o resultado da minha decisão. Apareceu uma médica que me levou para um gabinete. Fez-me as perguntas da praxe - quantas semanas tem? sintomas? foi acompanhada aqui no hospital durante a gravidez e com quem? etc - e pediu-me para me despir. Ia começar a parte de que tinha menos saudades - o chamado "toque". Era preciso ver se já tinha alguma dilatação e se o colo já tinha sido eliminado. Deitei-me na marquesa, contraída e já a antecipar o desconforto do exame.
- Relaxe, por favor. Ainda por cima já passou por isto, não já?
(Eu só pensava - já passei, sim! Por isso é que não consigo relaxar! Dispenso ter uma desconhecida a meter-me os dedos no pipi, ok?! - mas não disse nada e esforcei-me por parecer descontraída a relaxadíssima, como se estivesse num picnic.)

- Ok, já está com 4 dedos de dilatação. E parte do colo eliminado. Parece-me bem encaminhado. E teve rutura parcial da bolsa, certo?
- Sim, tive agora mesmo, antes de entrar. Mas qquilo tudo foi só parte da bolsa?
- Foi... Não foi rutura total. Foi só um bocadinho.
(Fiquei a tentar imaginar como seria se tivesse rompido tudo)
- Entretanto, vamos ver o bebé?
- Vamos!
(Tentei disfarçar a emoção, que era um misto de alívio por o "toque" ter terminado com a alegria por ir ver o meu bebé.)
- Ora bem... Já lhe disseram que o bebé é muito grande, certo?
- Grande? Por acaso disseram o contrário... Estava no percentual 30... Só a semana passada é que disseram que, afinal, podia ter mais de 3,500kgs.
- Pois, mas olhe que tem mesmo. É um bebé muito grande.

Nesta altura, eu não tinha percebido que o facto de ser realmente grande poderia dificultar o parto. Estava convencida que era um erro e que, afinal, não seria assim tão grande. A minha mãe entretanto ligou-me e comentei isto com ela - "acho que o bebé é muito grande. A médica disse que tinha mais de 3,500kgs." Resposta querida da minha mãe - "Mas tu comeste assim tanto?!". Obrigada, mamã!

Fui fazer o CTG (máquina para medir as contrações) no gabinete em frente. Descalça, para não estar a pegar nos saltos, que naquele momento me pareceram totalmente despropositados e nada práticos. Fui logo apanhada.
- De quem são estes sapatos?, ouvi perguntarem alto e bom som no corredor.
- São meus...., respondi, muito baixinho.
A enfermeira veio ao gabinete em que eu estava, com os sapatos na mão.
- Estes. Estes não são seus, pois não?
- ... São...
- Tão altos?
- ... Sim...
- Consegue andar com eles no fim da gravidez?
- ... Consigo...
Entretanto, tinha mais caras à volta (outras grávidas, enfermeiras e duas médicas), qual comissão de avaliação do calçado das grávidas, a olhar para os sapatos e para mim em silêncio. Ninguém disse nada. Mas senti que tinha sido reprovada a minha avaliação.
- São confortáveis, tentei alegar em minha defesa.
- Hmmm...

(Conselho a todas as grávidas em final do tempo: ter sempre um par de sapatos confortáveis por perto, não vá entrarem em trabalho de parto a qualquer momento!)

As contrações eram fortes e constantes, por isso, não havia mesmo dúvidas... Nesse momento, eu ainda estava convencida que o segundo parto era sempre muito mais fácil que o primeiro, por isso, não havia grávida mais otimista e relaxada que eu. Olhei para o relógio - 5 da tarde? Lá para as 7h já devemos ter criança.

Não tínhamos. Cada trabalho de parto é diferente e único, sempre me disse a minha médica. É impossível prever como cada parto se irá desenrolar. E confirmou-se. Tive uma experiência completamente diferente da primeira. E o bebé não iria sequer nascer nesse dia ainda... Mas já lá vamos... Uma parte da história de cada vez.

... Continua...






terça-feira, 15 de março de 2016

Os primeiros dias a quatro

Entretanto, os primeiros dias a quatro têm sido muito mais calmos do que imaginava. Arrisco-me até a dizer que têm sido muito mais simples que quando a Constança nasceu. Não sei se é a capacidade de relativizar, que agora existe e antes era simplesmente inexistente - antes, tudo servia para stressar, desde o choro à falta de choro, desde o cordão umbilical ou a queda do cordão, desde o mamar muito ou o não querer mamar, etc, etc. Não sei se é o facto de agora termos também que nos focar num bebé maior, que precisa de tanta ou mais atenção que o recém-nascido. Não sei se é o facto de agora termos decidido vir logo para casa, só os quatro, e podermos fazer os nossos horários à vontade - da outra vez fomos para casa dos meus pais e, apesar de termos muita ajuda, também tínhamos sempre mais gente em casa. O que é certo é que estamos os dois muito mais tranquilos desta vez. Claro que também ajuda o bebé ser um amor e literalmente só comer e dormir, parando apenas para nos olhar uns minutos, com ar muito atento.

Conseguimos já sair os quatro de casa para passearmos e a prova foi superada. Naturalmente demora mais a por e a tirar tudo do carro, mas a Constança já nos acompanha a pé, por isso, a "maquinaria" de passeio continua a mesma, com a diferença que o carro deu lugar à alcofa. Conseguimos sentar-nos para tomar um café e apanhar um bocado de sol, por isso, senti-me logo, ao fim de uns dias, "eu" outra vez (lembro-me que, há quase dois anos, essa sensação demorou a chegar... durante muito tempo, não me sentia ainda "eu", mas alguém estranho que estava a viver a minha vida no meu lugar).

Conseguimos já ver filmes do princípio ao fim, almoçar e jantar fora, já voltei à manicura para arranjar as unhas, consegui dar uma volta na Zara e, no meio disto tudo, já tenho também vontade de retomar os exercícios que deixei apenas 3 dias antes do bebé nascer. As coisas voltaram rapidamente à normalidade, desta vez, e acho que tudo se resume ao facto de ser o segundo. Sim, já passámos por isto (e há pouco tempo) e isso permite-nos - palavra chave! - relativizar tudo e relaxar muito mais.

Há quase dois anos, lembro-me que me sentia exausta, com as horas trocadas, e sentia que os primeiros dias se resumiam a trocar fraldas e a dar de mamar. Lembro-me da crise de choro que tive, uns dias após o parto, do cansaço, de tudo. Lembro-me da crise existencial que tive - "sou mãe! a minha filha vai depender para sempre só de mim! e agora?". Desta vez? Não sei se é por ter a Constança a dar-me uma dose de realidade a toda a hora, com toda atenção que exige, mas... a verdade é que sinto-me mais "viva" e com mais força para tudo.

O segredo? Não sei... talvez o facto de saber que tudo é possível, porque já passei por isso. Talvez o facto de já saber que o corpo volta ao sítio, que a barriga há-de encolher e a pele esticar (pode demorar, mais há-de acontecer!), que as noites vão normalizar e a que tudo se vai encaixar... talvez seja isso que me dá mais força desta vez. Ou então, simplesmente as hormonas tenham sido mais meiguinhas comigo desta vez. Às tantas é simplesmente isso! ;)

segunda-feira, 14 de março de 2016

Olá, filho mais querido

-Andas muito caladinha... O que se passa?

Eu sei que devem andar a pensar o que é feito de mim. Passo a explicar: andava eu a trabalhar com o mesmo ritmo de sempre, a treinar duas vezes por semana com a minha querida professora especialista em grávidas e recém-mamãs (até tinha corrido dois dias antes!) e a fazer a minha vidinha normalmente, quando, nesse dia, ao almoço, senti algo estranho... Umas contrações com dores bastante chatas. Como, quando estava grávida da Constança, tive um falso alarme antes do verdadeiro trabalho de parto, desta vez não liguei muito. Apenas comentei com ele, enquanto almoçávamos:
- Estou com algumas dores...
- Queres ir ao hospital?
- Acho que não vale a pena... Vou só se isto continuar.
- Ok. Mas vou trabalhar na mesma agora de tarde ou queres que fique contigo?
- Não, vai, vai trabalhar! Eu também vou. Assim nem me lembro das dores. Se depois piorar ligo-te e dou um saltinho ao hospital.
- Pronto, mas vê lá... Liga-me logo logo!

Voltei para o trabalho. Pelo sim, pelo não, tirei umas fotografias ao restaurante ("nunca se sabe se é mesmo hoje", pensei), ao rio, que estava com uma luz bonita, à cidade... e tirei ainda umas selfies pirosas ("nunca se sabe se é hoje, se for, depois mostro ao meu filho como estava no dia em que nasceu"). No fundo, tinha naturalmente esperança que o trabalho de parto estivesse a começar, mas o meu lado mais realista mandava-me acalmar e prosseguir com a vida normal.

Uns minutos mais tarde, sentada na minha secretária a ler emails e a estudar assuntos pendentes, o meu corpo, no entanto, ia-me pedindo para abrandar. As dores iam e vinham e eram tão fortes como dores menstruais - digamos que de intensidade 3 ou 4, numa escala de 0 a 10 -, mas já não me conseguia concentrar bem no que estava a fazer. Mandei mensagem à minha médica a dizer que estava com algumas dores e a perguntar o que devia fazer.
- Sente o bebé? Se as contrações começarem a tornar-se constantes, deverá ir ao hospital.

Estava perdido o meu dia - já não ia conseguir concentrar-me mais. Se sentia o bebé? Não fazia ideia! No meio das contrações, já não sabia o que sentia mais. O bebé estaria bem? Será que estava em sofrimento e que eu estava a ser egoísta ao armar-me em forte? Comecei a matutar naquilo. Liguei ao meu chefe.
- Já viste aquele email que te mandei? Podes estar presente na reunião?
- Posso, posso. Mas estava a ligar-lhe também por outro motivo.
- Então?
- Estou com algumas dores. Vou ao hospital ver se está tudo bem, ok? Levo o computador. Se estiver tudo bem, depois termino o trabalho em casa.
- Claro!! Vai lá. Depois diz alguma coisa.

Avisei alguns colegas que ia sair, mas que "não devia ser nada". A verdade é que tinha sempre um lado pessimista a dizer-me "não faças grandes filmes, porque quando estavas grávida da Constança também foste uma vez ao hospital e não era nada!". Fui para o carro. Olhei para baixo, para os meus saltos altos, e desejei ter levado outro calçado nesse dia, algo mais prático e "maternal". Viria a confirmar mais tarde que tinha escolhido o pior calçado possível! A viagem para o hospital ainda demorou uns 15 minutos, pelo que deu para ligar ao meu marido, aos meus pais, à minha irmã e ainda  para mandar mensagem às amigas, enquanto ouvia a música que dava na rádio. A meio da viagem, no meio das dores, ainda apanhei um susto no trânsito e dei por mim a pensar que, se morresse num acidente, a capa do JN já me estava destinada - "mãe a dar à luz morre em acidente". Abanei a cabeça - "que estupidez!" - e mudei a estação de rádio para ouvir uma música mais animada. Cheguei ao hospital. Estacionei nas urgências. Por sorte, tinha um lugar para grávidas vazio mesmo à porta. Escondi a mala com o computador no chão do carro. Saí do carro, entrei nas urgências e foi com alguma (muita!!) vergonha que, do alto dos meus saltos de 10 cms e mala ao ombro, informei as meninas da receção que pensava estar em trabalho de parto.

Deram-me uma pulseira com os meus dados, encaminharam-me para a obstetrícia e lá fui eu, ansiosa. Quando cheguei à parte da obstetrícia, decidi ir à casa de banho antes de entrar. Sentia-me a transpirar e precisava de dois segundos de calma antes dos exames todos, precisava de me refrescar e olhar ao espelho. Saí da casa de banho a sentir-me melhor. Só que.... "páaaaaas"!!! De repente, as pernas ficaram molhadas e quentes, e as calças ensopadas.

"As águas!! Rebentaram-me as águas!!".

Só que não foi só a bolsa de água que rompeu. Os meus olhos encheram-se de lágrimas e desatei num pranto tal que tive que me encostar à primeira parede que encontrei. Peguei no telefone. Liguei-lhe, mas nem conseguia falar de tão emocionada que estava.
- Estou a chegar, estou a chegar! Espera por mim!, dizia-me ele.

Um médico passou por mim. A ver-me a chorar assim, deve ter achado que algo de mal se passava:
- Está tudo bem?
- Está!! Desculpe! (sniiiiif) É que estou tão feliz. Estou mesmo feliz. (sniiiif) Rebentaram as águas. E eu nunca tinha sentido isto. E tinha sonhado tanto com isto... (sniiif) Estou mesmo feliz.

O médico desapareceu. Talvez tenha pensado em encaminhar-me para a psiquiatria. Mas cocktail de ocitocina com a emoção de entrar em trabalho de parto espontâneo deu naquilo... Eu estava tão emocionada e feliz que nem me conseguia articular direito.

O que acontecia dali a umas horas?
Esta imagem.
Dali a umas horas, tinha no colo o bebé mais querido, perfeito, adorável, sorridente (chamem-lhe espasmos musculares involuntários, não quero saber, para mim eram sorrisos!) que podia desejar, e com duas covinhas irresistíveis.
Dali a umas horas, descobria que, ao contrário dos meus piores pesadelos, era possível amar o segundo filho com a mesma força, intensidade e sentimento de novidade com que se amou o primeiro filho.
Dali a umas horas, deitava-me, agoniada em dores, com soro a entrar-me no braço, com todos os músculos do corpo doridos (principalmente dos braços), a testa ainda a latejar e um cansaço tal que me sentia atropelada por um camião. Mas deitava-me tão feliz, tão feliz, tão feliz. Tinha acabado de me despedir da filha, que estava radiante, e tinha ido para casa com os avós. E tinha acabado de conhecer o meu.... filho. :)
Conto todos os demais pormenores da história nos posts seguintes, porque lembro-me que gostaram muito da história do parto da Constança e não quero que falte nada. :)

Até já!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O sexo do bebé

Cresci no meio de mulheres, por isso, para mim seria natural repetir o ciclo e ter apenas meninas. Sou mulher, sei como as mulheres pensam, compreendo-as, sinto-me confortável entre mulheres. Talvez por isto, em todos os sonhos que fui tendo ao longo da vida, via-me a ter uma filha. Sempre me imaginei com uma menina nos braços, talvez por ser esse o meio em que me movi. Quando, grávida da Constança, soube que ia ter uma menina, foi quase como uma confirmação do que seria natural. Ia poder educá-la, compreendê-la, aconselhá-la, ouvi-la, acompanhá-la em tudo e não fiquei, nem por um segundo, preocupada com os valores ou princípios que irei tentar passar.

Desta vez, tudo mudou.

- É um menino!
- Um menino? Tem a certeza?!
- Certeza absoluta! Olhe para isto. Não há dúvidas nenhumas. Está a ver, pai? Com este tamanho, não há dúvidas nenhumas. Muitos parabéns!!

Começou logo aí. A referência ao tamanho, à virilidade do novo ser, como se tudo se resumisse a isso. Eu, que já tinha algumas reticências quanto a ter um menino, fiquei meia "abananada". Um menino? Saberia eu educar um futuro homem? Saberia eu fazer do mais simples - como escolher roupa gira para um menino ou mudar-lhe bem a fralda (digamos que há mais área para limpar!) - até ao mais complicado - ensiná-lo a ser um cavalheiro, a respeitar as mulheres, etc? Comecei logo com mil dúvidas.

Cresci no meio de mulheres, por isso, habituei-me a ver os rapazes como seres estranhos que se juntavam à volta duma bola de futebol e eram capazes de passar horas a gritar e a correr. Cresci no meio de mulheres, vi os rapazes alterarem a voz, o rosto, vi os pelos e as borbulhas a aparecerem-lhes na cara, vi-os a juntarem-se atrás da escola para fumar, vi-os com mil segredos, vi-os bêbedos, vi-os aproximarem-se de nós, mulheres... E só comecei a conviver com rapazes por volta dos 15 anos. Até essa idade não tive propriamente amigos ou referências próximas da minha idade (a não ser um primo da minha idade) do sexo oposto. Tive sempre o meu pai, mas era um adulto formado, eu não percebia muito bem era o modo de funcionamento dos rapazes e dos adolescentes.

Cresci no meio de mulheres. Não vou negar que seria feliz se continuasse a viver num mundo feminino. Mas... é "um menino!". E já me tenho vindo a habituar à ideia. Há tempos, alguém me disse "é da maneira que a Constança continua a ser a princesinha da casa". E isso, de certa forma, tranquilizou-me. Vai deixar de ser filha única, mas vai crescer a ser a única menina. E eu começo a ficar cada vez mais curiosa com este admirável mundo novo no masculino que vou descobrir em breve. Dizem-me que os meninos até são mais fáceis de educar e juram-me a pés justos que têm uma relação especial com a mãe. Estarei cá para tentar confirmar todos os mitos.