terça-feira, 1 de julho de 2014

O dia D #4

(Primeira parte: aqui; segunda parte: aqui; terceira parte: aqui)

Depois de um dia a ouvir dizer que tinha grande resistência à dor, comecei a acreditar um pouco naquilo, de tanto o ouvir. As horas iam passando e, se a dilatação e as contrações aumentavam, a dor não, por isso, se me perguntassem, a dada altura, como era afinal o trabalho de parto, a minha resposta seria um sorridente "Facílimo!! Não custa nada!!". Talvez por isso quando, de repente, a primeira contração a sério apareceu, nem queria acreditar. Contorci-me toda de dores, em posição fetal. Aquilo era a pior dor menstrual de sempre multiplicada por dez. Parou.
- Estás bem?
- Sim. Acho que começaram. E digo-te: se é assim, é horrível. Mas vou tentar concentrar-me na respiração na próxima vez, a ver se ajuda.
Toda a vida tinha ouvido falar na respiração como essencial no trabalho de parto. É nos filmes, é nas séries, é nas aulas de preparação para o parto: "concentrem-se na respiração". E parece facílimo, não parece? Respirar. Concentrar na respiração. Fazemos isso tantas vezes, qual poderá ser a dificuldade? Pois... Só que não é. De todo! Fácil é fazê-lo sem dores. Quando a próxima contração chegou, eu só queria arrancar as fitas e tubos do soro, e sair da maca. Não sei porquê, mas o meu instinto em cada contração era sair da maca e andar a pé. Não podia, obviamente. Tive que continuar a contorcer-me ali deitada, presa por fitas e fios, e a gemerNenhuma respiração parecia conseguir ajudar. Pusemos o episódio em pausa e carreguei no tal botão. Quando a enfermeira veio, tentei, no entanto, ser contida e educada no pedido:
- Olá!! Já tenho algumas dores. Penso que já podemos pensar na epidural.
- Muito bem. Vou chamar a anestesista. Um segundo.

Nesse preciso momento, a dor pareceu abrandar automaticamente, por antecipação da epidural mágica. Em dois ou três minutos, a anestesista já lá estava. Eu tinha suportado dores fortes durante dez minutos, no máximo. Nada de especial, pensando agora à distância.
- Ora então já está com dores...?
- Sim, Sra. Dra. Já tive algumas dores...
- Pois, mas até parece muito bem, deixe-me que lhe diga. Ora vamos então à epidural. Explicaram-lhe o que é a epidural nas aulas de preparação para o parto?
- Sim.
- Muito bem. Então vou pedir-lhe que se encoste para trás, o máximo possível. Isso... Recue até à ponta da cama, com as costas direitas. Vou pedir que não se mexa, que fique o mais imóvel possível. A seguir, vou anestesiar primeiro localmente e...
De repente, fomos interrompidas por uma enfermeira, que entrou no quarto, em sobressalto:
- Dra.! Preciso de si agora. É uma urgência.
- Que se passa?
- A senhora do quarto X...? Vai ter que ser cesariana. Precisamos de si.
- Não dá tempo de dar esta epidural?
- Não, desculpe. Tem que ser agora.

E ali fiquei, encostada para trás, o máximo possível. Com as costas direitas, num ângulo de noventa graus. Imóvel. Como um drogado a ressacar a quem prometeram mais uma dose e fica a salivar. Eu estava cheia de dores e já só sonhava com a epidural. Só que a epidural foi-me negada. Voltei a deitar-me, resignada e irritada. A aguentar as contrações, cada vez piores e piores. E já sofria também nos intervalos das contrações por antecipação da próxima. Qual respiração, qual quê? Naqueles momentos só sabia gritar "Aii meu Deus", "epiduraaal!!" ou ainda "a anestesista? Preciso da anestesista!!". Naqueles momentos fiquei fã para todo o sempre de todas as mulheres por todo o mundo que passaram por todo este processo sem epidural. É dose. Estive assim cerca de quarenta e cinco minutos e percebi que sou muito mais frágil do que pensava. O corpo é frágil. E as contrações abalam-no. E de que maneira! Ele ia-me fazendo festinhas nos ombros, e perguntando pela anestesista às enfermeiras, nos intervalos. Sim, porque, a dada altura, eu já só dizia:
- Chama a anestesista, por favor. Por favor. Preciso mesmo. Isto é horrível.
Senti-me um ratinho pequenino, eu, antes tão dona e segura de mim. Eu, que antes imaginava que sabia perfeitamente o que eram "as" contrações. Sabia nada. Não sabia nada... Era a triste conclusão a que começava a chegar.

Até que:
- Olá. Posso entrar?, Perguntou uma voz masculina desconhecida.
- Sim...
- O meu nome é X. Chamaram-me para lhe dar a epidural. A minha colega vai demorar um pouco na cesariana, por isso, vim eu.
Olhei para ele. Juro que parecia um anjo. A bata de um branco imaculado. O cabelo, se não tinha caracóis, pelo menos é assim que o imagino, angelical. A voz sábia e tranquilizante. Juro que aquela voz, só por si, me fez deixar de ter dores. Ouvi quase que uma música celestial a seguir à palavra "epidural". O meu corpo fez tudo automaticamente, a partir daí. Encostou-se. Recebeu a anestesia local. E a epidural, logo a seguir. Apenas senti uma ligeira picada. Mínima. E nuvens a entrarem dentro de mim. Nuvens, nuvens, nuvens. Comecei a levitar, cheia de nuvens.
- Ahhh... Bendita epidural.
As contrações transformaram-se em ligeiras cócegas, que sentia, do alto das nuvens, mas sem causar qualquer dor ou desconforto.
- Dei-lhe uma dose. Quando voltar a ter dores, repetimos e/ou aumentamos a dose, ok?
Não sei se respondi, sequer. Estava completamente zen e a rir-me já por tudo e por nada.
- Bendita epidural.

Passado algum tempo, novo toque.
- Está quase, quase!
Acabámos o episódio da Guerra dos Tronos. Já era noite, praticamente. Até que senti uma dor imensa e uma impressão dentro de mim, como se algo tivesse caído abruptamente. Toquei novamente no botão das dores. Veio uma enfermeira.
- Estou com dores outra vez, penso que é melhor reforçarem a epidural.
Atrás, veio uma médica. Novo toque.
- Está pronta. Está pronta.
De repente, um rebuliço. Começou a entrar gente e mais gente. Parecia um filme em que aceleraram a imagem, via movimento atrás de movimento, tudo acelerado.
- Prepare-se para fazer força.
- Já? Vai ser agora?
- Sim, está pronta.
- Mas estou cheia de dores. Não podem só dar mais um bocadinho de epidural? (eu avisei que me tinha transformado num ratinho cobarde)
- Agora é rápido, prepare-se para fazer força.
Não fiz logo força onde era suposto fazer força. Primeiro, olhei para o lado, para ele. Emocionado, apertou-me a mão com mais força. Não dissemos nada, acho eu. O que havia para dizer?...

A seguir, não consigo bem explicar a sucessão de acontecimentos. Mas sei que o trabalho de parto em si foi praticamente como tinha imaginado. O "forçaaa, forçaaaa!!". O "está quaaaaseeeee!!". Tudo quase instintivo e natural. Tudo como se já tivesse lido o guião antes de entrar em cena. Só que nada nem ninguém me tinha conseguido explicar como ia ser depois, o momento mesmo antes do nascimento. Nada nem ninguém me tinha dito. Nada nem ninguém me explicou que, de repente, a imagem e o som paravam. Que, de repente, iria ser só eu e um silêncio absurdo e que, à minha volta, tudo começaria a aparecer em câmara lenta. Ninguém me disse que, de repente, o tempo pára. Que, de repente, somos só nós e um medo maior que nós. E dou por mim aterrorizada. Tenho medo de errar, de não saber fazer força, de não saber tirar aquele ser de dentro de mim, de não ser capaz. Um silêncio impossível de aguentar. Um silêncio envolto em medo, os ponteiros do relógio em suspenso, e só eu e aquela mão ali do meu lado agarrar a minha, aqueles olhos ali ao meu lado procurarem os meus. E a darem-me força. Força. A única palavra que interessa: força, tenho que fazer força. Força. Para interromper aquele silêncio, para vencer aquele medo. Força. Força. E eu faço. Faço toda a força que tenho. Uma e outra. E ainda outra vez.
...
E, de repente, algo quebra o silêncio. Algo vence o medo. Um choro. Um choro.

E mistura-se aquele choro primordial, virgem, a saudar pela primeira vez o mundo, com um choro gasto e velho - o meu. E choro por a ouvir chorar. E vejo-a sair de mim, frágil, assustada, de braços abertos, como sempre sonhei, como tantas tantas vezes sonhei. E vejo-a aproximar-se de mim, trazida por mãos invisíveis, vindas nem sei de onde, e agarro-a, agarro-a a tremer, deito-a no meu peito, e choro, e choro, e choro. E penso ou digo (não sei bem, porque tudo me pareceu um filme e o sonho e a realidade confundem-se): "amo-te, amo-te, amo-te". E acrescento, como se fosse necessário: "muito, muito, muito". Eu, que nem acredito que se ama muito, porque o amar é um sentimento total, absoluto, e se amamos tem que ser com todo o nosso ser, o amar é incalculável, é mais que muito, mas acrescento "muito", porque naquele momento amar não chega. E soluço. E beijo-a. Aquele ser que sai dentro de mim, ainda viscoso, sujo, roxo. E beijo aquele ser que, mesmo viscoso, sujo e roxo, é o ser mais bonito que já vi, porque é fruto de mim, fruto dos meus sonhos, é a minha filha, a minha filha esperada, e é a mais bonita do mundo. Beijo-a, ali, naquele momento que é só nosso, porque o tempo continua suspenso, a andar em câmara lenta. Beijo-a durante todo o tempo que me apetece. O tempo é nosso e só nosso. Beijo-a. E amo-a com toda a minha força. E tanta força que tenho! Amo-a. Amo-o. Amo-nos aos três. E, de repente, o tempo continua o seu curso, naturalmente. Tiram-ma das mãos, de cima de mim. Levam-na para lavar, para medir, pesar, vestir.
- Está tudo bem?
- Está ótima. 50 centímetros e 3,450kgs. É perfeita.

É perfeita. Tudo o que se quer ouvir. Perfeita. Como se a história terminasse aqui e tivéssemos o final feliz com que sempre tínhamos sonhado. Só que a história não termina aqui. A história começa agora. E o calendário marca zero. A história está só a começar. Bem-vinda, meu amor.

(Conclusão no próximo post...)

15 comentários:

  1. Fiquei emocionada só de ler! Mais uma vez Parabéns! :)

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  2. É mesmo o momento mais feliz da vida. Por instantes relembrei o nascimento do meu menino,faz precisamente hoje 8 meses. Muitos parabéns e que tudo esteja a correr bem. Beijinhos

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  3. Gostei tanto de ler! Este texto ainda há de parar a um livro.

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  4. Anónimo07:55

    Obrigada por este texto fantástico e emocionante. Obrigada obrigada obrigada

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  5. Que lindo!!!
    ... emocionei-me ao ler e revivi o nascimento da minha filha, que faz amanhã um mês!!!
    Felicidades!!!

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  6. Anónimo16:26

    Ri e chorei com esta descrição tão intensa! Ainda não sou mãe, mas foi uma pré-preparação interessante!
    Muitas Felicidades!

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  7. Anónimo19:55

    Que lindo texto e descrição! Muitas muitas felicidades, vocês os 3 merecem :)

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  8. Anónimo20:24

    Até chorei a ler o teu texto. Eu tive um parto horrível e este texto fez-me lembrar que aquele momento tão traumático ainda está bem presente na minha memória. Tive 14 horas em trabalho de parto e a epidural foi por 3 vezes mal aplicada e não resultou comigo. Foi um sofrimento tão grande que não desejo a ninguém. O meu filhote, agora com 14 meses, acabou por nascer de cesariana. O mais importante é que é saudável e perfeito.
    Desejo-te muitas felicidades.

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  9. Anónimo21:54

    Adorei Pippa. Adoro o blog :)

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  10. A minha experiência está bastante recente na minha memória e acho que o parto é daqueles momentos que nunca iremos esquecer na vida, por mais anos que se passem. Eu tinha o parto programado para o dia 25, mas na noite do dia 23 as águas rebentaram e precipitaram tudo. Não tive contrações, visto que tive uma rutura alta de membranas e portanto nesse aspeto, eu posso considerar-me uma sortuda! A primeira vez que vi a minha Pimentinha é daqueles momentos mágicos, que não dá mesmo para esquecer!

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  11. Anónimo16:45

    Oh! Foi tão bem escrito que até parecia que estava na sala de partos. Fiquei feliz por ter corrido bem. Quero agradecer por seres minha fã (tenho 2 filhas nascidas sem epidural, uma com 12 horas de parto e outra com 5 horas de parto). Sendo a ultima ainda recente parecia que estava mesmo a reviver o seu nascimento. Felicidades

    Sandra / Funchal

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  12. Ai que me fizeste lacrimejar toda Pippa! Primeiro ri e dp chorei com o teu post, esta fantastico. Deve ser uma emoçao unica mesmo....para lá caminho!!! :D
    As palavras mágicas "é perfeita", é mmo o que queremos ouvir.... Já agr, o pai foi fundamental para te apoiar, certo? O meu marido está aterrorizado...eheheh
    Beijinho enorme e mts parabéns e feliciddes

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  13. Anónimo15:16

    Adorei!!! Estou grávida de 4 meses e fiquei super emocionada ao ler este relato. Obrigada por partilhares com todas nós este momento tão "vosso".

    Cristiana

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  14. Ola pipa.
    Adorei como escreveu a sua expriencia fartei de rir, pois conseguiu entre tanta dor (eu sei bem o quanto doi), escrever com graca.
    Vivo em Maputo tenho 3 filhos e nunca tive uma ipidural, por opcao pois apesar de extintir ainda nao ha ninguem muito especializado.
    E foram dores para morrer tambem me apetecia fugir da marquesa lol.

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  15. Olá! Quando vem a conclusão? :) Adorei este tópico! Um Beijinho!

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