sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Dos práticos não reza a história

Ela era tão prática que usava sempre o cabelo curto para não ter trabalho de o pentear ou secar. Ela era tão prática que lavava a cara todas as manhãs só com água para não perder tempo com mais nada. Ela era tão prática que não usava saltos altos – dizia que magoavam os pés e que não davam jeito para andar rápido, sim, porque ela andava sempre com pressa. Ela era tão prática que nunca arranjava as unhas, era uma perda de tempo. Ela era tão prática que dispensava acessórios – para quê estar a combinar brincos um dia ou pulseiras noutro? Tinha mais que fazer. Ela era tão prática que já usava mochilas pequenas mesmo antes das grandes marcas terem aderido ao revivalismo e não perdia tempo a acompanhar a tendência das malas. Ela era tão prática que ria-se do desperdício de tempo que as mulheres maquilhadas, de cabelos compridos, saltos altos e acessórios com certeza acumulavam todos os dias. Até que um dia alguém lhe perguntou o que tinha feito com toda essa imensidão de horas que tinha poupado, já que nunca tinha perdido tempo com nada disso. E ela, tão prática, ficou ali a pensar, a pensar… não tinha escrito um livro. Não tinha feito mais desporto. Não tinha trabalhado mais. Não tinha ido a mais concertos. Não tinha visto mais filmes. Não se tinha apaixonado mais vezes. E pensou, pensou em que é que tinha, afinal, investido todo esse tempo… até que gastou todas as poupanças de segundos acumuladas ao longo daqueles anos.

5 comentários:

  1. Uso o cabelo curto, lavo a cara (quase) todas as manhãs, não uso saltos altos, não arranjo as unhas, dispenso acessórios. E agora pus-me a pensar em que gastei o tempo que poupei. Foi a olhar para jeitosas de cabelo comprido, maquilhadas, com saltos altos e com acessórios a condizer.

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    1. Anónimo23:21

      Ahahahah tão bom!!

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  2. Ora nem mais, boa metáfora.
    Efectivamente não podemos abdicar de tudo para ter tempo... Porque depois, o que faremos com esse tempo?

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  3. O bom mesmo é perdermos tempo com coisas que gostamos (seja pintar as unhas, seja ir fazer uma massagem, seja comprar saltos altos). esse não é tempo mal gasto, é o nosso tempo, e o nosso tempo é sempre mto bem gasto.

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  4. Isso é a mesma história das pessoas gastam tanto dinheiro em tabaco que dava para comprar um Ferrari e de um não fumador que ainda não tem o Ferrari.

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