quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Como despachar um visitante não desejado?

Eu sabia que um dia eles acabariam por aparecer. Era uma questão de tempo. Acontece o mesmo com as Testemunhas de Jeová que querem partilhar connosco a sua fé, com as ciganas que leem a sina, com os escuteiros que vendem rifas, com os homens da Cais que insistem para que compremos "só uma revistinha", com os arrumadores que encontraram o melhor lugar de sempre a troco de "uma moedinha, chefe", com os indianos que querem dar-nos o panfleto para o novo restaurante que abriu na esquina, e com os senhores da Abraço (sem desprimor para o seu trabalho!) – sabemos que eles andam aí e que, um dia, vão acabar por nos abordar.

Eu sabia, portanto, que, mais cedo menos dia, teria que contar com eles. Mas sabia também que estes seriam piores que testemunhas de Jeová, piores que ciganas, piores que escuteiros, piores que os homens da Cais, piores que arrumadores, piores que indianos e piores que mil senhores da Abraço. Todos juntos. Sabia que, assim que eles chegassem, nunca mais me iriam largar.

Os anos iam passando. Aos vinte e cinco pareceu-me ver dois, ainda tímidos. Consegui enganá-los bem. Aos vinte e oito, reparei que tinham ido buscar reforços e já eram meia dúzia. Não me assustaram: consegui enganá-los novamente. Até que, estes dias, comecei a reparar no pior. A verdade é que nunca os enganei. Eu é que saí enganada. Eles continuaram aqui, os malandros, unindo forças, em silêncio, quais ratos do esgoto, indesejadamente a viver na penumbra, muito caladinhos e prontos a atacar. E apareceram agora em força, mais fortes que nunca. Não matei o primeiro, porque sou supersticiosa e dizem que aparecem três a seguir. Mas odeio-os de morte. Malditos cabelos brancos, que já devem ser uma dezena, a espreitarem debaixo do cabelo. O que vale é que ainda não atacaram a zona da risca, por isso, passam bem despercebidos. É que só faço madeixas uma ou duas vezes no ano, no máximo. E não queria começar a ficar dependente de tintas para disfarçar os desgraçados. Aiii maldita idade!

3 comentários:

  1. Anónimo23:28

    Os vinte e dois foram depois dos vinte e cinco? Não quero saber dos cabelos brancos; quero é saber onde arranjaste a máquina do tempo.

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    1. Oito. Vinte e oito. ;) Era bom, era!

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  2. Anónimo14:05

    eu tenho 20 e tenho uma madeixa de cabelos brancos a crescer crescer desde o 17 :/ vê o que sofro

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