terça-feira, 30 de abril de 2013

A minha tia L.

Desde sempre que fui muito ligada à família. E, quem sabe se por ser a primeira neta a nascer, sempre me senti ligada às três gerações: avós, tios e primos. Entre eles, encontra-se esta minha tia, a tia L.

A tia L. é, na verdade, tia do meu pai. Em nova, juntamente com o marido, criou uma empresa, partindo duma ideia muito simples, que sempre foi um sucesso. Têm clientes dos quatro cantos do mundo e tiveram a felicidade de ver o seu trabalho e empreendedorismo sempre recompensados ao longo dos anos. Fazendo usa da expressão tão voga (obrigada, Miguel Gonçalves), poderei até acrescentar que realmente neste caso o "bater punho" compensou.

Quanto a mim, desde sempre a adorei, porque me tratou sempre duma forma muito carinhosa, falava comigo como se eu fosse também adulta e era uma pessoa muito à frente para o seu tempo. Lembro-me que tinham uma discoteca em casa, com bola de cristal e uma mesa de mistura de DJ. Sempre que íamos até lá, eu sentava-me na mesa de mistura, inventava uns ritmos, punha música, ligava as luzes da pista e imaginava que estava numa discoteca real. Por vezes, o filho dela aparecia com uns amigos e deixavam-me ficar a fazer de DJ: punham um disco e pediam-me apenas para não mexer muito. Para mim, aquilo era ser adulta! Outros dias, ia com os meus pais e tios até à fábrica e deixavam-me conduzir os carrinhos e mudar caixas de sítio. Mais uma vez, sentia-me adulta. Lembro-me até de me sentar na secretária do meu tio e assinar folhas. Imaginava que aquilo era o meu império e que estava a terminar negócios de milhões. Os meus tios aproximavam-se e explicavam-me resumidamente o que faziam ali. E sentia-me importante a ouvir aquelas explicações. Era sempre um prazer ir até casa deles.

Um dia, o meu tio morreu. Uns dias antes, tinha feito um jantar de aniversário mais intimista, convidou-nos, tirámos imensas fotos, conversámos, rimos e brindámos. Parecia que sabia que aquela ia ser a última vez em que íamos estar todos juntos, por isso fez dessa noite uma noite memorável. A partir daí, a minha tia ficou viúva e muito só. No entanto, pouco tardou até surgirem os novos "amigos" - pessoas que se vão aproximando, como se subitamente toda a sua vida dependesse desta amizade. Faz-me confusão. Tanta! E pedem dinheiro, pedem favores, pedem isto, e aquilo. A minha tia está sozinha, está carente e estas pessoas foram-se apercebendo e tirando partido disso.

Hoje convidou-me para almoçar. No fim do almoço, lá me queria dar umas notas "para o gasóleo". Umas notas...! Senti-me triste, sinceramente. Não por mim, mas por ela. Que teve que se habituar à triste realidade de, nos últimos tempos, ter que pagar às pessoas que a rodeiam em troca da tal pseudo amizade. Mas a amizade e o carinho não se pagam. Não se compram. Não estão à venda. Muito menos o meu. Dei-lhe um beijinho. Dei-lhe um abraço. E hei-de dar-lhe sempre o meu amor. E todo o meu carinho. Totalmente de graça. Como ela sempre me deu a mim.

4 comentários:

  1. Oh. Quase chorei.
    Acho tão tristes estas histórias.

    E é mesmo bonito da tua parte considerares o assunto.

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  2. Pippa tu és uma boa menina. Gostava de te conhecer pessoalmente. E parte disso,tenho quase a certeza que se deve às pessoas que te rodeiam. Não deixem muito tempo a vossa tia só. Pessoas assim não estão habituadas e caiem rapidamente em depressão. Outros oportunistas virão e quando derem conta,ela já não será a mesma. Tomem conta dela antes que seja tarde de mais. Beijinho

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  3. Oh que história bonita, não deixes de tratar essa tua tia com esse carinho!

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  4. Anónimo15:33

    Um amigo meu casou-se, criticou o tio pq lhe deu um presente aquém das suas expectativas. Esse tio, é o meu patrão!Esta semana, estava a comentar connosco que tem imensos casamentos, festas de aniversários entre outras cerimónias. Comentava que estava farto de acharem que ele não dava presentes muitos caros mas as pessoas esqueciam-se que ele tinha imensas festas e que tinha que oferecer pelo menos dois presentes por mês e que gastava muito dinheiro.

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