quarta-feira, 17 de abril de 2013

A paixão sem prazo de validade

Lia ontem no Público (aqui) uma crónica a criticar duramente o típico final feliz de tantas e tantas histórias que crescemos a ouvir: o "viveram felizes para sempre".  E essas histórias são-nos contadas, e acordo com o autor, pelos poetas, escritores, argumentistas, realizadores, pelos contos de fadas, pelas escolas e até pela televisão. "A cultura ocidental está cravejada de uma mitologia romântica que nunca passou o teste da realidade. Esta é uma ideia, uma mentira ensinada às criancinhas (e também aos adultos), que se torna como que um mantra que, de tanto se repetir, acabaria por se concretizar." Mais: "a criação de falsas expectativas nas pessoas é um factor destrutivo de felicidade", afirma-se a dada altura.

E estas duas últimas frases deixaram-me a pensar que, de facto, crescemos a acreditar que, depois do primeiro beijo, depois do momento em que ambos confessam a paixão avassaladora que os une, surge o momento de felicidade a dois eterna. Como se o ser feliz a dois fosse tão simples como respirar. Como se os problemas apenas acontecessem na vida real, no nosso quotidiano cinzento e enfadonho em contraste com o cenário que vemos nos filmes. Como se o mal estivesse em nós, que não conseguimos ser perfeitos, glamourosos, apaixonados todos os dias. Como se o mal estivesse em nós, que por vezes acordamos mal-dispostos, respondemos torto, temos dores de cabeça ou simplesmente queremos ficar um dia por casa, mal vestidos e sem qualquer glamour, sem beijos apaixonados de cinco em cinco minutos ou passeios ao pôr-do-sol, com juras de amor. No dia a dia, fala-se de compras para casa, das contas do gás e da luz, fala-se do trabalho, fala-se do que se vai fazer para o jantar, discute-se, responde-se torto... não há lugar ao estado constante de felicidade avassaladora que crescemos a acreditar que existe.

"A paixão é um mecanismo biológico que (...) visou criar laços temporários entre um homem e uma mulher para que a procriação e os cuidados pós-natais fossem possíveis. (...) Os neurologistas que estudam a paixão já demonstraram como a paixão se exaure ao fim de dois anos, até porque o corpo não mais aguentaria".
 Pelo que os psicólogos aconselham, alegadamente, a não casarmos com alguém por quem estamos apaixonados, porque esse estado de espírito tolda-nos a clareza de pensamentos ou decisões. O ideal será, portanto, deixar decorrer esse período de dois anos para podermos olhar para a pessoa que está do nosso lado com objectividade e, dessa forma, avaliarmos melhor as suas qualidades e defeitos.

Não sou nenhuma perita em relacionamentos, mas quer-me parecer que esta é uma visão demasiado pessimista das relações reais, longe dos filmes. É uma visão que parte demasiado do ponto de vista científico e a menos do ponto de vista empírico: nas relações reais, a paixão é, por norma, algo que se pode ir alimentando, se as partes estiverem dispostas a isso. Concordo que o dia a dia pode ser complicado e que em nada se compara com o simples "viveram felizes para sempre" que nos ensinaram. No entanto, prefiro acreditar que o estado de paixão se encontra dependente de ambas as partes, e que pode surgir quer seja no primeiro mês, quer seja no vigésimo quinto. E se, no início, é mais natural que se perca o sono, a fome, e se viva só para aquela pessoa, a calma que se vive depois da novidade também pode ser benéfica: há tempo para namorar sem ansiedade ou sem arritmias cardíacas, há tempo para viver o amor de forma mais "tântrica". Prefiro acreditar que a paixão vai aparecendo em qualquer relação, independentemente de todos os restantes sentimento envolvidos - amizade, partilha, companheirismo, admiração - desde que o casal a alimente (e deve alimentar sempre). Prefiro acreditar que a paixão existe sem um prazo de validade, que existe num jantar fora, num vestido mais justo, numa pele mais bronzeada, num beijo especial, num abraço ou num olhar. Prefiro acreditar que a paixão existe quando o casal quiser. E que, mesmo que o nosso quotidiano não seja igual ao dos filmes, e possa parecer cinzento e enfadonho, cabe-nos a nós lutar pelo nosso "final feliz" constante.

12 comentários:

  1. Não discordo completamente. Acho que é já por ser mais velha e casada há alguns anos. A paixão pode ser mantida e acalentada. Se não houver esforço ela naturalmente arrefece. Não digo ao fim de 2 anos ou nem sei se há um número certo. Sei que há alturas mais apaixonadas que outras. Mas mais importante que a paixão,é o amor. O respeito. Porque isso é que contribui para um ralacionamente apaixonado. Se não existir,a paixão vai acabar por desaparecer.

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  2. Acho que acima de tudo os casais devem ter estima pela sua companhia, pela sua vida em conjunto e acho que numa relação longa haverá efectivamente momentos de maior paixão, com picos de intensidade. O importante será mantê-los e incentivá-los. Se a uma pessoa de 24 anos isso parece difícil? Sim, a mim parece-me e cada vez mais!!

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  3. E se substituirmos o irrealista "viveram felizes para sempre" por um quase-tão-bom (ou melhor, por ser possível): "viveram momentos de felicidade para sempre"?

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    1. Anónimo15:11

      "viveram momentos de felicidade para sempre" não podia concordar mais!

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  4. Concordo contigo! Acho que os "viveram felizes para sempre" não existem até porque depende de muitos factores que nem sempre controlamos, quanto ao facto de a paixão durar apenas dois anos não acho que seja assim, tal como tu dizes devemos ir alimentando essa paixão para que dure mais!

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  5. Eu estou casada quase há 19 anos e há dias bons e dias maus...oomo em tudo, mas quando as pessoas gostam muito uma da outra vão ultrapassando e sabendo viver com o outro, com amor, paixão, respeito e sentido de humor ! Não trocava esta minha "paixão de mais de 20 anos" por nada..Não sei se vamos ter "um final feliz"..mas vamos sendo felizes e isso é o mais importante e agora com duas filhas adolescentes estamos muito mais vezes sozinhos e a termos mais tempo para nós o que é excelente ! beijos e obrigado pelas suas publicações sempre tão boas !

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  6. É preciso lutar todos os dias por esse "final feliz".


    Em resposta ao teu comentário deixa que te diga que sou tua seguidora já há algum tempo, comentei poucas vezes mas a surpresa positiva que tive quando cá vim a primeira vez foi fantástica. Passei a ler praticamente tudo o que escreves. Só te estou a dizer isso porque achei uma coincidência engraçada.

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  7. Dani*16:12

    Concordo completamente com o que escreveste, mas também tenho as minhas duvidas relativamente a se conseguimos perpetuar essas paixão.. O futuro o dirá!*

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  8. Ora pois que despertaste em mim sentimentos ambíguos: concordo e discordo. Ainda assim, e depois de uma (re)leitura atenta, não considero que a paixão possa ter acalentada, trabalhada. Acredito, sim, que haja momentos apaixonantes mas nunca a paixão inicial regressa, as tais arritmias cardíacas de que falas. E não é grave, são fases, mas há que chamar as coisas pelos nomes.

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  9. Acho que esse estudo se refere à paixão inicial, ao friozinho e borboletas no estômago, à vontade incontrolada de estar com a nossa cara metade. Depois disso, continua a existir paixão, mas de uma formal mais "controlada", de uma forma mais madura, e essa sim, deve ser trabalhada.

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  10. Sim, a fase "ai que morro se não te vir 2382 vezes por dia" dura pouco. Se regressa? Às vezes, quando tenho um ataque de ciúmes, sinto que morro de paixão pelo meu marido mas lá está, é motivado por um factor externo, o ciúme. Não vivo sempre feliz mas vivo muitos momentos felizes. Em suma, vivo feliz :D

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  11. Concordo com a Belles le Jour :) Acho que o estudo se refere àquela paixão desenfreada inicial, onde mal te podes conter, não comes, tens friozinhos na barriga sempre que vês o outro, etc etc. Sinceramente acho que isso depois passa um bocado. Claro que podes depois ter (e deves) fomentar mais momentos "entusiasmantes", e acho que é assim que a felicidade se vai construindo. Não acredito muito no "e viveram felizes para sempre". Acho que é mais "e conseguiram viver bem, e divertir-se, e aturar-se um ao outro, com alguns percalços - às vezes bem chatos - pelo meio, para sempre" (isto se chegarem lá...) :P
    O final não sei bem se interessa, o que interessa é aproveitar o percurso até lá. Se depois acaba ou não, é uma questão que ninguém pode prever. Mas pelo menos viveste a vida e esse amor, essa relação.
    Acrescento também que fomentar a paixão com crianças pequenas à mistura é uma tarefa árdua :P Responsabilidades quotidianas meio militares e noites mal dormidas não ajudam nada lollll Mas faz-se o que se pode :)

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