quarta-feira, 27 de março de 2013

O sexo dos anjos

Vi ontem na internet, por indicação duma leitora, a reportagem da Tvi designada "O sexo dos anjos" e que se debruça sobre o despertar da sexualidade (em sentido lato) na adolescência. Entrevistam-se alguns jovens, uma psicóloga, um cirurgião plástico, pais e professores e aborda-se uma adolescência muito diferente da minha, pois, apesar de toda a informação já disponível, fui uma adolescente mais concentrada na escola e nas amigas que propriamente nos rapazes. Adorava sair com as minhas amigas e falávamos de rapazes, mas por curiosidade; debatíamos paixões, mas essencialmente platónicas; contávamos as nossas experiências, mas sempre com o namorado, pois nunca fomos de "curtir".

A reportagem revelou, por isso, uma adolescência nova para mim, apesar de não terem passado assim tantos anos desde que vivi a minha. Começa com um grupo de cinco amigas a arranjar-se numa Sexta à noite (até aí, igual). Vamos acompanhamos o início da sua saída: arranjam-se em frente ao espelho, com baton, lápis preto, pó, blush, unhas pintadas. No corpo, têm vestidos justos e curtos, grandes decotes. Aí começa a diferença principal, pois vivi uma adolescência "envergonhada" em termos de indumentária - tapava-nos todas muito. Nos pés, grandes saltos. Dizem estar cientes das roupas provocantes que têm vestidas. Referem as redes sociais: há quem as aborde para tomar um café, há quem as aborde apenas porque quer algo mais ou aqueles as querem apenas levar para a cama. Vão para um bar. Depois para outro. Dançam como quem tem plena consciência do seu corpo, realçado pelas roupas justas que escolheram. Sorriem. "Há animais que dançam para começar o acasalamento", diz a mais extrovertida do grupo, acrescentando, no entanto, que dançam apenas umas para as outras. Outra do grupo, até aí em silêncio, acrescenta ainda que um homem tem que saber dar prazer. Ora aí está uma frase em que o meu eu-adolescente jamais pensaria. Penso que estas adolescentes estão a anos-luz do que eu alguma vez fui na mesma idade.

De seguida, conhecemos Ana Carolina, 15 anos, Brasileira, vive em Portugal há um ano, em Palmela.
"Eu passo muita maquilhagem", conta-nos, justificando perante nós e perante si mesma o que a levou a ser gozada pelos colegas. Actualmente, faz publicidade a automóveis, por exemplo, mesmo não tendo idade para tirar a carta. Maquilhagem? 15 anos? Mil anos-luz da minha adolescência.

Pelo meio, discute-se a recente capa da Vogue com uma menina de 10 anos, completamente produzida e maquilhada. Não será nova demais?

Passamos para uma turma do 9.º ano, na Charneca da Caparica, onde os alunos aprendem mais sobre é um dos métodos contraceptivos masculinos, o preservativo. "As unhas podem rasgar os preservativos", explica a professora. De seguida, esclarece os mitos relacionados com o tema. Gosto da abordagem da professora, simples e descomplexada. Parece-me que se adequa perfeitamente à nova realidade destes jovens adolescentes.

Posto isto, uma breve análise sobre as redes sociais: fotos e vídeos íntimos. De acordo com o projecto "Aventura Social", 15% dos jovens estiveram envolvidos em provocações com recurso a novas tecnologias, um número assustador, no mínimo.

A imagem altera-se e conhecemos ainda a Patrícia Ribeiro, uma jovem que vai submeter-se a uma mamoplastia de aumento. "Gosto de sair e de... agradar". Concorda que vai ficar mais atraente, pois "ter um peito bonito é algo que agrada aos homens". O Dr. Ibérico Nogueira explica o fenómeno e diz que, em última análise, é a procura pela felicidade que as faz submeter-se à cirurgia. Fico a pensar que cada vez mais vemos jovens de 18 anos já com silicone e confesso que me faz alguma confusão, nessa idade, já pensarem tanto em agradar, não a si mesmas, mas aos homens.

Por fim, numa escola, os alunos de 14 e 15 anos falam da aparência, das músicas que ouvem, da beleza e da sexualidade. Fala-se também numa falsa igualdade entre os sexos: os rapazes podem ter muitas namoradas (são "chefes"), as raparigas não podem ter muitos namorados ("galdérias"). O contrário também acontece: eles são esquisitos, se têm poucas namoradas, mas elas vão ser vistas como "puras". Acho a análise engraçada, mas precoce, tendo em conta a idade que têm os ditos analistas.

No fim da reportagem, fiquei com a sensação de que estamos perante uma nova adolescência bastante mais consciente da sua sexualidade, uma adolescência mais precoce e "adultizada". Os tabus e as inibições parecem ter diminuído imenso desde o "meu tempo". No entanto, julgo que a esta reportagem faltará "o dia seguinte". Como ficarão todos estes jovens no dia a seguir a envolverem-se com alguém "só porque sim"? Ficará o sentimento de culpa? A solidão? Ser jovem sempre foi difícil. Mas temo que, com esta nova sexualidade tão precoce, as emoções e os sentimentos não acompanhem o corpo. Temo que, no dia seguinte, as emoções e as inseguranças típicas dos adolescentes venham ao de cima e que estes adolescentes se transformem crianças a precisar, afinal, de carinho. Ser jovem é difícil. Assim parece-me que será ainda mais...

16 comentários:

  1. Anónimo15:56

    É assustador. Mais assustador quando se tem um filho quase a entrar nesta fase. MEDO ( eu tenho)
    Carla

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  2. Generalizações desnecessárias.

    (para a mãe amedrontada aí de cima: são os pais quem deixa os filhos comprar aquelas roupas, são os pais quem os deixa sair até às horas que querem... são os pais.)

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    1. Joana01:37

      Também tinha essa ideia. Mas ainda há pouco vi raparigas de 14/15 anos, que provavelmente teriam dito aos pais que iam ao cinema com os amigos, entrarem no mcdonalds e mudar de roupa na casa de banho - e que roupas! De seguida maquilharam-se com mais coisas do que eu tenho para dias de festas e cerimónias. Em relação às roupas não será tão difícil comprá-las sem os pais saberem, ou através da semanada/mesada, ou muitas poupando dinheiro de lanches e almoços para isso (ou até pegando na roupa de uma irmã mais velha ou de amiga).
      Infelizmente, os pais não conseguem ter tanto controlo como seria desejável...

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    2. Sim.

      Eu sou adolescente. Eu sei as manhas todas. Eu sei como aceder a todos os submundos que por aí andam. Eu podia muito bem comprar droga com o dinheiro do almoço que os meus pais não desconfiavam. Eu podia fazer isso tudo que aquele grupo de jovens escolhido a dedo para representar todos os adolescentes do nosso país. Em vez disso tenho um blogue falhado. São escolhas.

      Terão os meus pais alguma coisa a ver com isto? Tudo.

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    3. Joana15:40

      Então quando cresceres perceberás que as coisas não são assim tão lineares.

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  3. Gostava muito de ver essa reportagem.
    Será que me podes dizer onde a posso encontrar?

    Já agora, a partir do que li neste post posso-te dizer que, tal como tu, a minha adolescência não é nada parecida como aquela, e note-se que eu tenho 17 anos. Tudo bem que eu saio à noite, divirto-me com os meus amigos, mas tenho sempre o discernimento de ir vestida com roupas para a minha idade (um vestido, saltos, maquilhagem q.b.).Até porque os meus pais só me deixam sair sob essa condição.

    Beijos,
    acoisa-maisfofa.blogspot.pt

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  4. Anónimo16:40

    Gostei do post! :)
    Mas concordo com o Rafael. Há mesmo aqui uma generalização desnecessária. Não é só agora que há raparigas que se envolvem com alguém "só porque sim", nem é só agora que há meninas de 15 anos a usar muita maquilhagem.
    Acho que os adolescentes não são assim tão diferentes do que eram há uns tempos. Simplesmente esses tempos passam e as pessoas esquecem-se do que pensaram nessa altura.
    E sim, tudo isto vem da educação que há dentro de casa. Não são todos os pais que deixam as filhas sair à noite produzidas daquela forma :) E acredito que se houver desde sempre uma educação correcta a nível de valores, vão ser as próprias meninas que não querem sair à noite assim, só para chamar à atenção. Falo por mim, eu nunca quis sair à noite muito produzida mesmo porque não me sentia bem a chamar à atenção.
    :)

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    1. Anónimo16:43

      Ah, esqueci-me de te dizer que adoro o teu blog! Passo aqui todos os dias :)
      Beijinho

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  5. Anónimo16:44

    Ótimo post!!!

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  6. Anabela16:49

    Falta mais colo em pequeninos e falar mais de amor e menos de contraceptivos.
    A maioria dos adolescentes sabe bem o que deve usar e quando. A questão é com quem.. qual é o fundo emocional que os leva à acção..
    No meu trabalho (com adolescentes e crianças) à dias falávamos sobre "o que fazem os namorados" e a primeira frase foi qualquer coisa como "vão para a cama e dão bejos na boca", só depois é que apareceu o "passeiam juntos de mãos dadas, dão miminhos".. etc.
    Lembro-me da minha mãe dizer que o perigoso era quando os pais se preocupavam muito com a questão dos contraceptivos.. Porque na verdade, embora não tenha de ser tabu, já há muita informação e essas acções deveriam ser guardadas na intimidade de cada um.
    Penso que talvez, será preciso falar sobre o conquistar, sobre as competências amorosas, competências sociais...
    Porque nem todos aprenderam e viveram o que é o amor. E esse, esse sim é que poderá ser o problema ...
    Bejinhos

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  7. Acho que tem muito a ver com o sobre-desenvolvimento do lado esquerdo do cérebro e o sob-desenvolvimento do lado direito, que agora faz com que seja mais dificil o pessoal relacionar-se profundamente com outras pessoas, mas facilita o aspeto pratico e a rapidez de aprendizagem e adaptabilidade a novas coisas.

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  8. Também eu fui uma adolescente recatada, que tive, em toda a minha vida 4 namorados e só dois deles a sério - e destes, estou com o mesmo há 10 anos. E nem por isso deixei de viver o que tinha que viver na altura certa. Só me iniciei na maquilhagem para lá dos 20 anos e porque a minha mãe insistia comigo. Saltos altos e roupas provocantes, nem pensar - ainda hoje sou assim, mais apologista da elegância, do que da provocação. Mas já no meu tempo havia as meninas mais "assanhadas", as que se vestiam de forma mais provocante, as que nós sabíamos que se enrolavam com rapazes diferentes a cada dia, as que experimentavam tudo e que viviam quase na corda bamba. Conheço alguns adolescentes desta geração e tenho inclusivamente uma irmã de 17 anos, quase 18 e olhando para ela, vejo tanto de mim. Acho que somos sempre mais críticos quando olhamos para os mais novos, mas não devemos generalizar. A reportagem foi buscar os maus exemplos. Acredito (quero acreditar) que se quisessem, também encontravam bons exemplos!

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  9. Anónimo10:56

    Olá, eu tenho 18 anos e achei esta reportagem muito mal feita. Se existem adolescentes assim? Existe, infelizmente. Mas não somos todos assim.. a reportagem apenas quis polémica, por isso procurou os grupos mais desinibidos e que vivem em festas, etc. Mas não somos todos assim! Estou no meu 1º ano de faculdade e as minhas amigas não são nada assim, vamos a algumas festas, divertimo-nos e rimo-nos muito mas nunca nenhuma de nós vai para o engate. Estudamos que se farta, que a vida não é só festa, há jovens de muito mais valor. Não se baseiem numa pequena amostra. Preocuparam-se mais em mostrar aquelas miúdas cheias de mania e todas pipis em vez de procurar jovens de vários tipos..
    É claro que a ver uma reportagem daquelas eu também iria fazer os mesmos comentários, mas felizmente ainda há jovens que conseguem divertir-se sem se despir.

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  10. Anónimo23:01

    foi só mais uma generalização completamente desnecessaria por parte da TVI , que insiste em denegrir tudo o que de bom existe, e mostrar unicamente o lado podre das coisas..porque isso é o que vende mais.
    escolheram uma mostra de jovens e adolescentes sem valores e principios que lhes deram aquilo que eles pretendiam por na reportagem...é triste

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  11. Tudo o que acho, é que pais podem ser influencia, so precisam de ter uma mão firme.
    Por acaso nao tive pais rigorosos, podiam dar me liberdade toda que eu quiser. Eu que escolhi ser a "boazinha".
    Mas no entanto acho essencial que pais tenham uma comunicação aberta com filhos. Falar de varios assuntos. Nao digo proibiçoes e assim. Mas dar certa liberdade para escolhas. Mas que so podem inteferir caso forem más escolhas. Foi assim que fui criada. E assim vou tentar transmitir para meus filhos.
    Mas concordo com a reportagem, tenho visto muito mais jovens quase sem noção. Eu costumo comparar os tempos e nada a ver! Nós jovens dos 90s somos sortudos.

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  12. Eu nem sequer vi essa reportagem, mas pelos comentários que vejo pela internet e pelo "anúncio" da reportagem que passou pela TVI, só tenho uma coisa a dizer... Esta reportagem apenas generaliza os jovens, pegando apenas numa pequena amostra com comportamentos duvidosos.. Eu tenho 17 e conheço imensa gente adolescente, como não poderia deixar de ser, e pouquissimos têm esses comportamentos que retrataram na reportagem. Claro que há quem com apenas 13 anos já tenha relaçoes sexuais, cmu há quem use roupas(?) minúsculas e tenham comportamentos vulgares, mas querer dizer que TODOS os adolesecentes são assim já é demais..
    E tal cmu hj em dia há adolescentes assim, atigamente tb existiam.
    E sim, se as crianças tiverem uma boa educaçao desde pequenas elas na adolescencia não irão ter estes comportamentos!

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