domingo, 10 de março de 2013

Mandas tu ou mando eu?

A disputa do poder entre os casais é, muitas vezes, um jogo das cadeiras, em que cada um dos dois jogadores espera conseguir ganhar. Aqui em casa, somos os dois um pouco competitivos e, talvez por isso, damos por nós discretamente a olhar para a cadeira e a disputar o seu único lugar.
Por norma, ninguém se zanga, vamo-nos sentando alternadamente e cedemos até o lugar de forma educada.
Por norma é assim. Mas há excepções.
E a maior excepção que me vem muitas e muitas vezes à memória teve lugar numa viagem que era suposto ter sido a viagem mais romântica das nossas vidas.
Ora, viajámos para Buenos Aires, eu cheia de imagens românticas na cabeça dos dois a dançarmos apaixonadamente o tango, ele a sonhar com o Maradona e com a Bombonera. Quando lá chegámos, tudo o que eu tinha imaginado da cidade correspondia à realidade. Uma cidade feita de cor e magia, urbana, dinâmica, onde se respirava cultura, cheia de gente bonita, boa comida e boa música. Com a minha prima que lá vivia e outra amiga nossa, viajámos e aproveitámos para conhecer todos os bairros, desde o S. Telmo, a Palermo, à Boca... Tentámos viver como argentinos, comer nos sítios deles, sair nos sítios deles e ser mais locais que estrangeiros, muito graças à minha prima, que nos ia dando as melhores dicas.
No último dia, a minha prima tinha uma surpresa preparada: íamos dançar o tango com ela, que estava há um ano a ter aulas numa escola. Lá fomos então nós, eu com coraçõezinhos desenhados nos olhos, toda pirosa e lamechas, a agarrar-lhe a mão com força, da emoção. Quando chegámos, o professor tratou logo de gritar: "hoje quem lidera é o homem!". Ri-me e não levei a sério. Dancei muitos anos e estava preparada para ser um pouco "bossy" nessa matéria. Até que a música começou. Começámos a imitar os passos dos professores e eu sempre a comandar. Ele ia-me puxando, mas eu achava que era mais qualificada e então fazia ainda mais força nos passos.
De repente, ele larga-me "não ouviste?? o homem manda!!!".
Olhei para ele e vi um homem das cavernas. Só faltava a saia de pele de leopardo e uma moca na mão para ser mais primitivo.
- Ouviste??!! Eu mando!!!
Os corações fictícios dos meus olhos foram despedaçados.
- Estás a falar a sério?
- Sim. Hoje mando eu.
Deixei-o mandar. O melhor de tudo? A dança saiu na perfeição, sem erros, sem pés calcados. Ainda hoje me rio a lembrar-me disto. Realmente, às vezes custa ceder o poder, mas é preciso fazê-lo. E a dinâmica do casal funciona mil vezes melhor assim. Claro que ele me atirou dez mil vezes à cara o bem que dança e o bem que fiz em tê-lo deixado comandar. Mas ter alguém é mandar umas vezes e ceder noutras, certo? E a verdade é que acho que qualquer mulher gosta de ser mandada, por vezes.
E aí em casa, quem manda? ;)

8 comentários:

  1. Pelo pouco que sei do Tango, é sempre o homem a comandar não é? (a não ser que a diferença de técnica seja mesmo muito grande)

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    1. É, no tango é sempre o homem. Na vida é que não. :p

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  2. As mulheres fazem-nos crer que nós mandamos, mas quem manda mesmo são elas.

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    1. Vês como resumiste tudo numa frase? ;)

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  3. Aqui em casa, somos os dois, umas vezes ele, outras eu.. vamos alternado os mandatos... é a melhor maneira para nao haver uma quebra na coligação :D

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    1. Aqui em casa também vai sendo assim. Gostei da última frase. ;)

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  4. O meio termo é sempre o ideal :P

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  5. Deixo o meu namorado acreditar piamente que quem manda é ele, mas ele acaba sempre a dizer 'tu é que dás a última palavra, sim?'

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