segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O Sr Zé

Hoje cruzei-me, por coincidência, com uma pessoa que não via há um ano e que foi meu vizinho durante algum tempo. Corrijo: foi praticamente parte da família durante algum tempo. O Sr Zé tinha, quando o conheci, 78 anos, mas em genica fazia ver a muitos adolescentes. O Sr Zé subia os lances de escadas a correr até ao seu andar, evitava elevadores e percorria quilómetros por dia, de carro e a pé. Acredito que a maioria dos quilómetros seriam percorridos a pé, porque o Sr Zé não tinha paciência para o trânsito e gostava de fazer ver a toda a gente a energia que tinha para dar a vender. No entanto, mais que a energia, ao Sr Zé interessava-lhe verdadeiramente era vender os seus suplementos alimentares de que era representante em Portugal e líder de inúmeras equipas de vendas. O Sr Zé acompanhou o percurso duma tal marca americana no nosso país a trabalhar em esquema de pirâmide, e encontrava-se, hoje em dia, bem lá no topo, conforme o seu carro - topo de gama, a ostentar orgulhoso autocolantes atrás - o bem demonstrava.

O Sr Zé repetia-me muitas vezes "nós somos o que comemos! Olhe para mim!". E mostrava-me sempre, nestas alturas, uma fotografia dele com alguns anos e muitos quilos em cima. "Vê? Eu era assim. Com estes produtos fiquei dez anos mais novo e com mais energia. Pergunte lá à minha mulher!" E a mulher (mais concretamente, segunda mulher e visivelmente mais nova) sorria e acenava que sim, com um sorriso maroto. O Sr Zé queria tanto que eu experimentasse os produtos que às vezes tocava-me à campainha logo pela manhã e entrava-me pela casa a sorrir e com dois batidos "para começar o dia com mais energia!!". Confesso que passado alguns meses comecei a cansar-me do Sr Zé. E a evitar falar tanto com ele, porque começou a tornar-se repetitivo.

A dada altura, no entanto, o brilho no olhar dele mudou: estava chateado com o neto. E, por isso, nenhum batido do mundo o iria pôr bem. Chegou ao ponto de usar o elevador, certo dia. E ainda tentar disfarçar quando o vi. Aí tentei reaproximar-me dele e ajudá-lo, mas o Sr Zé tinha recuperado quilos perdidos, desta vez em formato de tristeza, e nada o conseguia ajudar. Foi assim a última vez que o vi, antes de nos termos desencontrado até hoje.

Hoje, quando o revi, senti um frio no estômago: o Sr Zé! O olhar estava límpido de novo. O passo ágil. Chamei-o. Virou-de logo para mim. Um abraço sem pensar. Contou-me que estava outra vez bem. Estava novo.
- E os batidos, Sr Zé?
- Sempre! Nunca me esqueço dos meus produtos todos. Somos o que comemos!
- E lá em casa, tudo bem?
- Sim, finalmente. Sabe... Arrisco-me a dizer que, mais importante que todas estas tretas de que lhe falo (eu sei que a canso!) é mesmo a família. Preze sempre a sua!
- Eu prezo...
- Somos a família que temos.

O Sr Carvalho está um homem novo. E tinha saudades dele como nunca pensei. Raio do homem que era um chato, mas que me pôs a gostar tanto tanto dele...

5 comentários:

  1. Acho que todos conhecemos um "Sr. Zé". Aquela pessoa com quem não temos muita vontade de falar, muitas vezes por pressa ou inconveniência do momento, mas ao fim de uns minutos, uma despedida animada, nós de coração mais leve e eles com sensação de dever cumprido, pelos conselhos dados à "garotada". É uma bonita simbiose.

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  2. Adoro velhotes, são poços de sabedoria. Talvez por ter avós bem entrados nos 80.

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  3. loooooool
    Eu já vendi desses produtos e tomo o batido todos os dias agora :P

    Portanto, percebo-o :P

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  4. Moral da história: Somos o que nos rodeia. Gostei do Sr. Zé.

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  5. Que engraçado! A medida que ia lendo este texto, relacionava-o com um Sr. Zé Carvalho que eu conheço, que vendia Herbalife, tinha (e tem) uns problemas com o neto, "maçava-me" o dia todo com os seus batidos e era um homem cheio de vida. Será que não é o mesmo? O Sr. Zé Carvalho da Praça de Espanha?

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