segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O dia em que conquistei a minha sogra

Reza a história que, ainda antes de começarmos a namorar, o terei magoado algures no tempo. Como foi, não interessa para o caso. Posso apenas dizer, em minha defesa, que ele já me confessou que a dor que lhe impingi foi merecida e penso que isso dirá tudo ou quase tudo.
Ora, como dizia, magoei-o, com ou sem razão. Magoei-o e tornei-me, perante os seus pais, persona non grata. Ou persona muito non grata, se tal designação existisse. Fiz o lindo menino dos seus pais sofrer e isso não se faz. Não se faz. Miserável da mulher. Julga que é quem? Acha-se melhor que os outros? Obviamente, não sei se as coisas se terão passado assim, os pensamentos são lugares inacessíveis e nunca poderei perceber com exactidão o que terão aqueles dois pensado de mim. O que sei é que, uns tempos depois, já de namoro a sério, de mãos entrelaçadas e praticamente coladas, fui jantar lá a casa deles, muito feliz e contente. Já os conhecia, mas agora ia ser o primeiro jantar como namorada.
Ia eu, portanto, muito feliz e contente, mas lá dei de caras com uns sorrisos fechados, uns olhares que se desviavam e umas piadas minhas que iam caindo em saco roto, sem despertar riso. Pois acontece que eu sei ser muito persistente e, se tinha decidido que iam gostar de mim, não podia desistir enquanto não conseguisse.
Não foi fácil. Senti-me muitas vezes uma one-woman show. Eu falava de política. Eu falava de futebol. Dos jogos olímpicos. De viagens. De filmes. De pintura. Contava piadas. Mais ou menos elaboradas. Relatava actos de caridade. Tratava bem todos os membros da família, até os de quatro patas. Ajudava a levantar a mesa. Levava sobremesas. Flores. Relembrava as minhas notas e percurso profissional, como se estivesse numa entrevista de emprego. Nada parecia resultar. Os mesmos sorrisos fechados e uns olhares que se desviavam. Só me faltava dançar e cantar para tentar entreter e agradar àquele público tão difícil.
Um dia, o telefone tocou. Era o futuro sogrinho.
- Estou??
- Olá! Olha, então saíste da empresa X?
- Sim, vou para a Y.
- Ah...
("Está preocupado comigo, que querido!!!", pensei).
- Olha, então vais ter mais tempo livre, não é?
- Pois...
- Assim sendo, será que me podes fazer um favor e... blá blá blá.
Fiquei para morrer. Pensei em desistir de os conquistar. "Eles é que perdem!", dizia para mim mesma, em negação.
Um dia, estava lá em casa deles, sem lanças-charme, sem nada. Estava fula com um professor do mestrado, que me tinha pedido para lhe enviar um trabalho meu de outra cadeira (ele ia escrever para um jornal um artigo sobre esse tema), mas não me tinha enviado uns apontamentos que tinha prometido. Eu estava fula e, sem me aperceber, comecei a falar sozinha e a resmungar com aquilo. "Então tenho exame Sábado, o homem promete enviar apontamentos e nada? Só escreve para cravar um trabalho meu, porque sabe que tive boa nota e quer plagiar-me para o artigo do jornal? Já vai ver o que é bom para a tosse. Aqui vai a minha resposta!".
No dia seguinte, comentei com ele: "ontem passei-me um bocado ao pé da tua mãe. Não sei se ela reparou. Foi um bocado mau. Até me esqueci que estava em tua casa, fiquei fula com o professor."
Ele: "Oh a sério? É que a minha mãe hoje comentou comigo que tu eras mesmo muito inteligente e que tinhas sempre resposta na ponta da língua. Disse que eras tramada."
Fiquei a pensar naquilo. "Tramada? Não me parece muito bom."
O que é certo é que a partir desse dia, senti que me começaram a tratar de forma diferente. A pedir opiniões. A ouvir-me com atenção. A rir comigo. A rir do que dizia. E percebi o que devia ter percebido desde o início: devia ter-me preocupado mais em descontrair-me do que em tentar agradar-lhes. O engraçado é que assim que deixei de o fazer, parece que consegui. No momento em que deixei de tentar ser alguém perfeito, passaram a gostar da pessoa que era, com mais ou menos imperfeições.

10 comentários:

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    1. Eu acho que se ela lesse isto, ia ser querida e dizer que sempre gostou, mas é daquelas coisas que se sentem... ;) E agora eu sei que gosta mesmo!

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  2. Normalmente é assim! Mas ainda bem que os conquistaste :)

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  3. Nada como sermos nos mesmas. Se e para gostar tudo bem se e para nao gostar paciência.Nao se pode agradar a toda a gente e depois mais tarde ou mais cedo se fizermos de uma pessoa que nao somos a mascara vai cair e aí e bem pior.

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    1. Eu antes era eu mesma, só que mais tensa e a tentar fazer tudo, como levar sempre sobremesas, ajudar a cozinhar, etc... Agora sou mais relaxada e faço menos cerimónia. ;)

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  4. É engraçado como às vezes conquistamos as pessoas exactamente quando paramos de tentar! E tu não tens qualquer razão para te esforçares ;)

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    1. Espero que tenhas razão. ;)

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  5. Agora fiquei curiosa: o professor pôs o rabinho entre as pernas?...

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    1. O professor queria que lhe enviasse o tal trabalho, mas não mandava os apontamentos que tinha prometido a todos os alunos. Eu estava chateada, porque tinha o exame dentro de dias e ele só mandava emails a cravar coisas em vez de mandar aquilo! ;) Acabou por enviar os apontamentos dois dias antes do exame, se não me engano... E aí, sim, enviei-lhe o trabalho.

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